{"id":381014,"date":"2026-05-14T11:10:14","date_gmt":"2026-05-14T11:10:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/381014\/"},"modified":"2026-05-14T11:10:14","modified_gmt":"2026-05-14T11:10:14","slug":"quando-estudamos-os-moinhos-estamos-a-ler-uma-paisagem-historica-em-movimento-arquiteto-bruno-matos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/381014\/","title":{"rendered":"\u201cQuando estudamos os moinhos, estamos a ler uma paisagem hist\u00f3rica em movimento\u201d \u2013 Arquiteto Bruno Matos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Os moinhos tradicionais surgem no imagin\u00e1rio coletivo como ru\u00ednas pitorescas ou vest\u00edgios de um mundo desaparecido. O seu trabalho prop\u00f5e uma leitura muito mais complexa: a de estruturas integradas em sistemas ecol\u00f3gicos, sociais e produtivos. O que \u00e9 que estes engenhos ainda revelam sobre a forma como as comunidades aprenderam historicamente a habitar os rios e a negociar com o territ\u00f3rio?<br \/><\/strong><br \/>Os moinhos e as infraestruturas hidr\u00e1ulicas tradicionais associadas, como a\u00e7udes, levadas, canais, caldeiras, pesqueiras, passadeiras, portos ou pequenos dispositivos de regula\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, n\u00e3o devem ser entendidos apenas como \u201cru\u00ednas pitorescas\u201d ou \u201cvest\u00edgios do passado\u201d sem qualquer utilidade. Essa \u00e9 uma vis\u00e3o redutora sobre estruturas com s\u00e9culos de di\u00e1logo permanente com as din\u00e2micas hidrogr\u00e1ficas do rio. Acho que devem ser entendidos como um livro aberto para o conhecimento sobre como devemos gerir os recursos h\u00eddricos, habitar os rios e adaptarmo-nos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas de cada territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>No caso do Vale do Guadiana, este aspeto torna-se particularmente importante porque estamos perante um territ\u00f3rio marcado por longos per\u00edodos de escassez h\u00eddrica, estiagens severas, cursos de \u00e1gua intermitentes, influ\u00eancia das mar\u00e9s e epis\u00f3dios de cheias de grande intensidade, por vezes violentas e destrutivas. Construir, manter e operar moinhos neste contexto exigia um conhecimento profundo sobre o comportamento do rio, das margens, dos leitos, das correntes, dos ciclos sazonais, e sobretudo sobre a gest\u00e3o do recurso h\u00eddrico em diferentes dimens\u00f5es: social, industrial, energ\u00e9tica, agr\u00edcola, ecol\u00f3gica, n\u00e1utica, piscat\u00f3ria, entre outras.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 esse conhecimento, inscrito na arquitetura, na implanta\u00e7\u00e3o, nos dispositivos hidr\u00e1ulicos e na paisagem, que nos interessa estudar. N\u00e3o para repetir o passado de forma nost\u00e1lgica, mas para compreendermos como estas estruturas podem informar problemas atuais de gest\u00e3o hidrogr\u00e1fica, conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, valoriza\u00e7\u00e3o patrimonial e requalifica\u00e7\u00e3o das paisagens ribeirinhas.<\/p>\n<p><strong>Em M\u00e9rtola, a paisagem molinol\u00f3gica nasce da rela\u00e7\u00e3o com o Guadiana e com as ribeiras afluentes, num territ\u00f3rio marcado pela escassez h\u00eddrica e pela dureza clim\u00e1tica. O que distingue os sistemas de moagem do sul do pa\u00eds face a outras geografias portuguesas? Existe uma \u201ccultura da \u00e1gua\u201d especificamente alentejana inscrita nestes moinhos?<\/strong><\/p>\n<p>Os moinhos hidr\u00e1ulicos tradicionais, em Portugal como no resto da Europa, s\u00e3o o resultado de uma cont\u00ednua adapta\u00e7\u00e3o da atividade humana ao contexto hidrogr\u00e1fico, clim\u00e1tico, geol\u00f3gico e cultural de cada territ\u00f3rio. Os moinhos do Norte, do Centro, do Sul, do Litoral ou do Interior n\u00e3o s\u00e3o iguais porque os rios s\u00e3o organismos din\u00e2micos com caracter\u00edsticas particulares em cada regi\u00e3o. Cada moinho resulta de uma adapta\u00e7\u00e3o precisa a um determinado rio, a uma determinada paisagem e a uma determinada economia local.<\/p>\n<p>Importa tamb\u00e9m sublinhar que, embora associemos imediatamente os moinhos \u00e0 moagem de cereais, o universo molinol\u00f3gico \u00e9 muito mais amplo. As estruturas hidr\u00e1ulicas tradicionais estiveram ligadas a m\u00faltiplas atividades protoindustriais, como por exemplo a moagem de cereais, o t\u00eaxtil [l\u00e3, linho ou seda], a serra\u00e7\u00e3o de madeira, a produ\u00e7\u00e3o de azeite, o fabrico de papel, o descasque de arroz, a metalurgia, a serra\u00e7\u00e3o de pedra, entre muitas outras. Por isso, quando falamos de moinhos, n\u00e3o falamos apenas de pequenos edif\u00edcios rurais. Falamos de tecnologia produtiva, de arquitetura especializada e de sistemas territoriais de gest\u00e3o hidrogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1778757012_689_thumbs.web.sapo.io.webp\"  alt=\"Moinho submerg\u00edvel do Guadiana.\" loading=\"true\"\/><\/p>\n<p>      Moinho submerg\u00edvel do Guadiana.<br \/>\n      Cr\u00e9ditos: Bruno Matos<\/p>\n<p><strong>E no Vale do Guadiana, como se manifesta essa especificidade?<br \/><\/strong><br \/>No Vale do Guadiana, essa especificidade \u00e9 particularmente expressiva. Os moinhos implantados no grande rio do Sul e nas suas ribeiras afluentes respondem a condi\u00e7\u00f5es muito distintas das que encontramos, por exemplo, nos rios de caudal mais regular do Norte Atl\u00e2ntico. Aqui, a \u00e1gua \u00e9 simultaneamente escassa e excessiva. Durante uma parte significativa do ano pode faltar; noutros momentos, pode adquirir uma for\u00e7a torrencial. Esta altern\u00e2ncia obrigou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de dispositivos hidr\u00e1ulicos muito particulares: a\u00e7udes adaptados ao leito rochoso, canais de deriva\u00e7\u00e3o, albufeiras, caldeiras, levadas, golas, passadeiras, pesqueiras, portos e outros elementos que permitiam captar, reter, conduzir, dissipar ou atravessar a \u00e1gua.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Cada moinho resulta de uma adapta\u00e7\u00e3o precisa a um determinado rio, a uma determinada paisagem e a uma determinada economia local.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 neste sentido que podemos falar de uma verdadeira \u201ccultura da \u00e1gua\u201d no Baixo Guadiana. Uma cultura constru\u00edda ao longo de s\u00e9culos, com ra\u00edzes profundas no mundo romano, isl\u00e2mico, medieval e moderno, e que permaneceu ativa durante grande parte da hist\u00f3ria da monarquia portuguesa. Esta \u201ccultura\u201d n\u00e3o se expressa apenas nos edif\u00edcios, mas tamb\u00e9m nos modos de uso, nas t\u00e9cnicas de constru\u00e7\u00e3o, nos direitos da \u00e1gua, nos percursos, nas pr\u00e1ticas agr\u00edcolas, nas formas de circula\u00e7\u00e3o e na vida ribeirinha. Os moinhos s\u00e3o, por isso, muito mais do que estruturas produtivas: s\u00e3o marcas de uma intelig\u00eancia territorial que soube transformar a dificuldade clim\u00e1tica em resili\u00eancia, a escassez em gest\u00e3o e o rio em eixo de vida comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O Festival Terras sem Sombra agenda para s\u00e1bado, 16 de maio (15h00), a visita guiada \u201cEngenhos, Mem\u00f3rias, Paisagens: Os Moinhos de M\u00e9rtola\u201d, com ponto de encontro na Achada de S\u00e3o Sebasti\u00e3o (Parque de Estacionamento da Estrutura Residencial, Santa Casa da Miseric\u00f3rdia) e orienta\u00e7\u00e3o do arquiteto e investigador Bruno Matos.<\/p>\n<p>No concelho, destaca-se o moinho do Alferes, na Ribeira do Vasc\u00e3o, ativo at\u00e9 \u00e0 d\u00e9cada de 1960 e hoje reconvertido para fins de sensibiliza\u00e7\u00e3o ambiental, ilustrando a transi\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00e3o destes engenhos. J\u00e1 o moinho de S\u00e3o Miguel preserva a dimens\u00e3o viva deste patrim\u00f3nio, mantendo pr\u00e1ticas artesanais de moagem e produ\u00e7\u00e3o de p\u00e3o ainda enraizadas no quotidiano local.<\/p>\n<p><strong>Grande parte do discurso contempor\u00e2neo sobre sustentabilidade apresenta-se como descoberta recente, mas muitos destes sistemas tradicionais assentavam j\u00e1 numa l\u00f3gica de adapta\u00e7\u00e3o ao meio, gest\u00e3o de recursos e equil\u00edbrio ecol\u00f3gico. O que poder\u00e1 a contemporaneidade aprender com este patrim\u00f3nio sem cair numa vis\u00e3o romantizada do passado?<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das civiliza\u00e7\u00f5es \u00e9 marcada por processos de continuidade, transforma\u00e7\u00e3o e reinven\u00e7\u00e3o cultural. A sustentabilidade foi durante muitos s\u00e9culos uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia, equil\u00edbrio e adaptabilidade. Eu at\u00e9 hoje ainda n\u00e3o encontrei uma pessoa mais sustent\u00e1vel do que a minha av\u00f3 materna, que viveu at\u00e9 aos 90 anos e tinha uma horta, galinhas, coelhos e controlava de forma exemplar os ciclos de produ\u00e7\u00e3o, separava o lixo org\u00e2nico e reutilizava-o para alimento dos animais e compostagem, tinha um po\u00e7o sempre com \u00e1gua, carne, ovos, legumes, frutos.\u00a0Tinha um fog\u00e3o a lenha e apanhava o combust\u00edvel na floresta durante o ver\u00e3o. O dinheiro da sua reforma era basicamente para mercearia, medicamentos e manuten\u00e7\u00e3o da casa.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a li\u00e7\u00e3o que tiramos destes exemplos?<\/strong><\/p>\n<p>Considero isto um exemplo de sustentabilidade. A chave do problema \u00e9 saber tirar o melhor partido destes ensinamentos para os integrar nas exig\u00eancias da vida quotidiana, reduzindo assim os impactos e a nossa pegada no planeta. Gosto, neste contexto, de recordar a express\u00e3o do arquiteto Fernando T\u00e1vora: \u00e9 necess\u00e1rio \u201ccontinuar inovando\u201d. \u201cContinuar\u201d porque temos muito a aprender com o nosso passado em muitos aspetos da vida, mas em particular na gest\u00e3o sustent\u00e1vel dos recursos naturais.\u00a0<\/p>\n<p>\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1778757013_825_thumbs.web.sapo.io.webp\"  alt=\"Moinho de S\u00e3o Mar\u00e7al, em Famalic\u00e3o.\" loading=\"true\"\/><\/p>\n<p>      Moinho de S\u00e3o Mar\u00e7al, em Famalic\u00e3o.<br \/>\n      Cr\u00e9ditos: Bruno Matos<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 regressar ao passado. A li\u00e7\u00e3o \u00e9 recuperar conhecimentos que podem ser uteis para os problemas atuais de gest\u00e3o hidrogr\u00e1fica, ecol\u00f3gica e cultural dos nossos rios. A sustentabilidade contempor\u00e2nea n\u00e3o deve ser apenas tecnol\u00f3gica; deve ser tamb\u00e9m cultural. E estes moinhos recordam-nos que a inova\u00e7\u00e3o mais consistente \u00e9 muitas vezes aquela que sabe dialogar com a mem\u00f3ria longa dos lugares. \u00c9 precisamente esta leitura que temos vindo a desenvolver nos projetos de investiga\u00e7\u00e3o: compreender o patrim\u00f3nio hidr\u00e1ulico tradicional n\u00e3o apenas como objeto arquitet\u00f3nico ou arqueol\u00f3gico, mas como parte de um sistema territorial, ecol\u00f3gico e paisag\u00edstico. Em alguns contextos, estas estruturas podem funcionar como pequenas infraestruturas de reten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, como ref\u00fagios ecol\u00f3gicos em per\u00edodos de estiagem ou como elementos relevantes para a heterogeneidade dos habitats fluviais. Noutros casos, podem constituir obst\u00e1culos \u00e0 conectividade ecol\u00f3gica e exigir solu\u00e7\u00f5es de adapta\u00e7\u00e3o. O essencial \u00e9 que cada caso seja estudado de forma rigorosa, interdisciplinar e contextualizada.<\/p>\n<blockquote>\n<p>At\u00e9 hoje ainda n\u00e3o encontrei uma pessoa mais sustent\u00e1vel do que a minha av\u00f3 materna, que viveu at\u00e9 aos 90 anos e tinha uma horta, galinhas, coelhos e controlava de forma exemplar os ciclos de produ\u00e7\u00e3o, separava o lixo org\u00e2nico e reutilizava-o para alimento dos animais e compostagem.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Tem defendido que a reabilita\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica dos rios n\u00e3o pode ignorar a mem\u00f3ria humana das paisagens. Num tempo em que a conserva\u00e7\u00e3o tende, por vezes, a separar natureza e presen\u00e7a humana, como se evita transformar o patrim\u00f3nio molinol\u00f3gico em mera pe\u00e7a museol\u00f3gica ou, no extremo oposto, apagar completamente a sua exist\u00eancia?<br \/><\/strong><br \/>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o central. Durante muito tempo, a conserva\u00e7\u00e3o da natureza e a salvaguarda do patrim\u00f3nio cultural foram tratadas como campos separados, por vezes at\u00e9 em oposi\u00e7\u00e3o. De um lado, a ideia de restaurar os rios a um estado supostamente \u201cnatural\u201d; do outro, a preocupa\u00e7\u00e3o em preservar constru\u00e7\u00f5es, ru\u00ednas ou estruturas desativadas. Mas nas paisagens fluviais tradicionais, especialmente em territ\u00f3rios como o Vale do Guadiana, esta separa\u00e7\u00e3o pode trazer consequ\u00eancias irrepar\u00e1veis para ambas as partes.<\/p>\n<p>Os rios que hoje observamos s\u00e3o tamb\u00e9m paisagens culturais. Os moinhos, a\u00e7udes, levadas, pesqueiras, portos, passadeiras e espa\u00e7os termais fazem parte desse \u201ccaldo\u201d cultural. N\u00e3o s\u00e3o elementos desintegrados da paisagem, nem t\u00e3o pouco do recurso h\u00eddrico. Em muitos casos ainda participam na gest\u00e3o da \u00e1gua, embora aparentemente n\u00e3o pare\u00e7a. Fazem parte da forma\u00e7\u00e3o da paisagem, da mem\u00f3ria da regi\u00e3o e, em muitos casos, da pr\u00f3pria din\u00e2mica ecol\u00f3gica do rio.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos cair no extremo oposto: apagar estas estruturas em nome de uma ideia abstrata de \u201crenaturaliza\u00e7\u00e3o\u201d. A remo\u00e7\u00e3o de barreiras ou a reabilita\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica dos rios pode ser necess\u00e1ria em muitos contextos, sobretudo quando existem impactos severos sobre a conectividade fluvial ou sobre as esp\u00e9cies migradoras. No entanto, essa decis\u00e3o deve resultar de uma avalia\u00e7\u00e3o caso a caso, baseada numa an\u00e1lise t\u00e9cnica sobre a estrutura e as din\u00e2micas fluviais, e n\u00e3o devemos cair no erro de generalizar a solu\u00e7\u00e3o que, em muitos casos, significa t\u00e1bua rasa.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Os rios que hoje observamos s\u00e3o tamb\u00e9m paisagens culturais. Os moinhos, a\u00e7udes, levadas, pesqueiras, portos, passadeiras e espa\u00e7os termais fazem parte desse &#8216;caldo&#8217; cultural.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Nesse sentido, que abordagem defendem para que a interven\u00e7\u00e3o no patrim\u00f3nio molinol\u00f3gico esteja em linha com o que acaba de referir?<\/strong><\/p>\n<p>O que temos defendido \u00e9 uma abordagem interdisciplinar. Antes de intervir, \u00e9 necess\u00e1rio compreender o valor arquitet\u00f3nico, hist\u00f3rico, arqueol\u00f3gico, hidr\u00e1ulico, ecol\u00f3gico e paisag\u00edstico de cada estrutura. Algumas poder\u00e3o justificar conserva\u00e7\u00e3o integral; outras poder\u00e3o admitir adapta\u00e7\u00e3o; outras, eventualmente, poder\u00e3o ser objeto de remo\u00e7\u00e3o parcial ou de solu\u00e7\u00f5es h\u00edbridas que compatibilizem conectividade ecol\u00f3gica, mem\u00f3ria hist\u00f3rica e leitura da paisagem.<\/p>\n<p>A ideia principal \u00e9 reintegrar o patrim\u00f3nio em vez de o remover ou apagar. E nessa mat\u00e9ria a disciplina da arquitetura \u00e9 fundamental para imaginar novos programas de visita\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o, monitoriza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, educa\u00e7\u00e3o ambiental, envolvimento das comunidades locais, recupera\u00e7\u00e3o de percursos ribeirinhos ou projetos demonstrativos de adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>O objetivo n\u00e3o \u00e9 transformar cada moinho num museu fechado, mas integr\u00e1-lo numa narrativa viva sobre o rio, a \u00e1gua, a biodiversidade, a hist\u00f3ria e o futuro do territ\u00f3rio. E, no caso dos moinhos de M\u00e9rtola e do Baixo Guadiana, essas rela\u00e7\u00f5es cruzam natureza e cultura de uma forma t\u00e3o profunda que qualquer interven\u00e7\u00e3o que ignore uma destas dimens\u00f5es ficar\u00e1 sempre incompleta.<\/p>\n<p>\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1778757014_774_thumbs.web.sapo.io.webp\"  alt=\"Arquiteto Bruno Matos.\" loading=\"true\"\/><\/p>\n<p>      Arquiteto Bruno Matos.<br \/>\n      Cr\u00e9ditos: Joana Couto<\/p>\n<p><strong>M\u00e9rtola \u00e9 um territ\u00f3rio onde diferentes camadas hist\u00f3ricas \u2013 isl\u00e2micas, mediterr\u00e2nicas, rurais e mineiras \u2013 permanecem ainda muito vis\u00edveis. De que forma os moinhos ajudam tamb\u00e9m a compreender a longa dura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica deste lugar e a rela\u00e7\u00e3o entre circula\u00e7\u00e3o, subsist\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria ao longo dos s\u00e9culos?<\/strong><\/p>\n<p>M\u00e9rtola \u00e9 um territ\u00f3rio extraordin\u00e1rio precisamente porque conserva, de forma muito expressiva, a sua rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com o Guadiana. Os moinhos s\u00e3o o testemunho mais evidente dessa rela\u00e7\u00e3o. Ajudam-nos a compreender como a ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio acompanhou os diferentes per\u00edodos hist\u00f3ricos e, sobretudo, como a atividade socioecon\u00f3mica colocou sempre o rio no centro do desenvolvimento da regi\u00e3o. A protoind\u00fastria, em especial a moagem, ou a pesca eram atividades essenciais \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o das comunidades, articuladas com a produ\u00e7\u00e3o cereal\u00edfera, os ciclos agr\u00edcolas e a economia rural. Os moinhos localizavam-se em pontos estrat\u00e9gicos do rio e das ribeiras, muitas vezes associados a travessias, caminhos, portos fluviais e redes de contacto entre margens e povoa\u00e7\u00f5es. Este modelo remete para uma organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, porque a gest\u00e3o da \u00e1gua: nos ciclos sazonais, ou seja, \u00e1gua de ver\u00e3o, \u00e1gua de inverno e vento; na intercomunica\u00e7\u00e3o entre margens nas rela\u00e7\u00f5es transversais \u2013travessias em barca ou a vau \u2013; na interconetividade fluvial entre os a\u00e7udes, de jusante para montante, na reten\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua; implicou, ao longo dos s\u00e9culos, regras, direitos, conflitos, coopera\u00e7\u00e3o e formas de administra\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p>Por isso, quando estudamos os moinhos de M\u00e9rtola, n\u00e3o estamos apenas a estudar edif\u00edcios em ru\u00edna. Estamos a ler uma paisagem hist\u00f3rica em movimento, adaptada continuamente ao contexto local. E \u00e9 justamente essa leitura integrada que pode devolver atualidade a este patrim\u00f3nio porque permite compreender o passado, mas tamb\u00e9m imaginar novas formas de rela\u00e7\u00e3o entre a comunidade, o rio, os ecossistemas e o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Num tempo em que M\u00e9rtola se afirma pela valoriza\u00e7\u00e3o do seu patrim\u00f3nio arqueol\u00f3gico, cultural e natural, os moinhos acrescentam uma nova dimens\u00e3o: a simbiose entre o patrim\u00f3nio e natureza. Mostram que a hist\u00f3ria deste lugar n\u00e3o est\u00e1 apenas nos monumentos ou nos grandes acontecimentos, mas tamb\u00e9m nas infraestruturas discretas que sustentaram a vida quotidiana, a circula\u00e7\u00e3o, a alimenta\u00e7\u00e3o, a energia e a rela\u00e7\u00e3o profunda das comunidades com o Guadiana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Os moinhos tradicionais surgem no imagin\u00e1rio coletivo como ru\u00ednas pitorescas ou vest\u00edgios de um mundo desaparecido. 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