{"id":381030,"date":"2026-05-14T11:24:13","date_gmt":"2026-05-14T11:24:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/381030\/"},"modified":"2026-05-14T11:24:13","modified_gmt":"2026-05-14T11:24:13","slug":"les-demoiselles-davignon-a-obra-mais-polemica-de-pablo-picasso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/381030\/","title":{"rendered":"Les Demoiselles d\u2019Avignon: a obra mais pol\u00eamica de Pablo Picasso"},"content":{"rendered":"<p>Em 1907, <strong>Pablo Picasso<\/strong> reuniu um pequeno grupo de artistas e amigos em seu ateli\u00ea, em Paris, para mostrar uma nova pintura na qual trabalhava havia cerca de seis meses. A rea\u00e7\u00e3o foi, em grande parte, de espanto e rejei\u00e7\u00e3o. O pintor franc\u00eas <strong>Georges Braque<\/strong> teria comparado a experi\u00eancia a beber gasolina, enquanto <a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.com.br\/noticias\/historia-hoje\/museu-de-arte-moderna-de-paris-recebe-doacao-de-61-obras-de-henri-matisse.phtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Henri Matisse<\/a> chamou as figuras retratadas de \u201chorr\u00edveis\u201d. A obra, recebida com choque e repulsa, s\u00f3 seria exibida publicamente em 1916.<\/p>\n<p>Mais de um s\u00e9culo depois, essa mesma pintura se consolidou como uma das obras mais reconhecidas e controversas da arte moderna: \u201cLes Demoiselles d\u2019Avignon\u201d. Ao mesmo tempo em que se tornou s\u00edmbolo de ruptura est\u00e9tica e marco do nascimento do cubismo, ela tamb\u00e9m passou a ser revisitada sob novos olhares, especialmente em debates sobre influ\u00eancia africana, apropria\u00e7\u00e3o cultural e representa\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>A tela mostra cinco mulheres nuas em um bordel de Barcelona, posicionadas de forma a confrontar diretamente o espectador. Tr\u00eas delas encaram quem observa, enquanto duas possuem rostos que lembram m\u00e1scaras. Seus corpos aparecem irregulares, fragmentados e distorcidos, rompendo com a l\u00f3gica tradicional da representa\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica e da perspectiva cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>Segundo <strong>Joanne Snrech<\/strong>, curadora do Museu Nacional Picasso, a obra representou uma ruptura decisiva na trajet\u00f3ria de <strong>Picasso<\/strong>. \u201cPicasso afastou-se da pintura figurativa e emocional, passando a desconstruir as formas e a repensar a maneira como o espa\u00e7o e os corpos s\u00e3o representados\u201d, disse \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/culture\/article\/20260506-the-controversy-over-picassos-most-shocking-painting\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">BBC<\/a>. \u201cEssa mudan\u00e7a foi fundamental para o desenvolvimento do Cubismo e da arte moderna em geral.\u201d<\/p>\n<p>Inicialmente, a pintura se chamava \u201cLe Bordel d\u2019Avignon\u201d (\u201cO Bordel de Avignon\u201d), mas o t\u00edtulo foi alterado em 1916 para evitar maior controv\u00e9rsia. O novo nome, \u201cLes Demoiselles d\u2019Avignon\u201d (\u201cAs Mo\u00e7as de Avignon\u201d), suavizava a refer\u00eancia expl\u00edcita ao bordel, embora o car\u00e1ter provocativo da obra permanecesse intacto.<\/p>\n<p>A pintura \u00e9 considerada central para o surgimento do cubismo, movimento art\u00edstico do s\u00e9culo 20 que abandonou formas realistas em favor de estruturas geom\u00e9tricas e fragmentadas. Assim como em \u201cLes Demoiselles d\u2019Avignon\u201d, o cubismo passou a reunir m\u00faltiplos pontos de vista de uma pessoa ou objeto em uma \u00fanica imagem.<\/p>\n<p>\u201cMesmo para artistas que j\u00e1 estavam experimentando novos estilos, isso pareceu um passo longe demais\u201d, afirmou <strong>Joanne Snrech<\/strong>. \u201cParte do que tornou a rea\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte \u00e9 que <a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.com.br\/noticias\/historia-hoje\/pablo-picasso-o-artista-que-pintou-guernica.phtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Picasso<\/a> n\u00e3o mudou apenas uma coisa: ele mudou tudo de uma vez\u201d.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-235932 img-fluid lazy\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/picasso-5.jpg\"  \/>Picasso e uma de suas obras \/ Cr\u00e9dito: Getty Images  <\/p>\n<p>Apesar da apar\u00eancia radicalmente inovadora, muitos estudiosos apontam que parte dessa transforma\u00e7\u00e3o foi profundamente influenciada pela arte africana. Meses antes de pintar a obra, <strong>Picasso<\/strong> havia desenvolvido forte interesse por <a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.com.br\/noticias\/reportagem\/mascaras-africanas-que-inspiraram-picasso.phtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">m\u00e1scaras<\/a> e esculturas africanas, motivado por uma pequena estatueta origin\u00e1ria da atual Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, adquirida por Matisse em Paris, em 1906.<\/p>\n<p>A partir disso, o artista passou a frequentar regularmente a se\u00e7\u00e3o africana do Mus\u00e9e d\u2019Ethnographie du Trocad\u00e9ro, onde produziu centenas de esbo\u00e7os preparat\u00f3rios para sua nova pintura.<\/p>\n<p>\u201cO que o impressionou n\u00e3o foi apenas a apar\u00eancia, mas a forma como funcionavam: os rostos s\u00e3o simplificados, distorcidos, \u00e0s vezes bastante intensos ou at\u00e9 mesmo perturbadores\u201d, explica <strong>Snrech<\/strong>. \u201cEle foi claramente inspirado por essa abordagem diferente do rosto humano, que lhe permitiu se afastar do naturalismo e se aproximar de algo mais abstrato e confrontador.\u201d<\/p>\n<p>Ainda assim, <strong>Picasso<\/strong> ficou conhecido por minimizar essa influ\u00eancia. Em 1920, chegou a dizer a um cr\u00edtico que preparava uma s\u00e9rie sobre arte africana que \u201cnunca tinha ouvido falar disso\u201d. Essa recusa em reconhecer o impacto da arte africana em sua produ\u00e7\u00e3o alimentou cr\u00edticas posteriores sobre apropria\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>Os questionamentos se concentram no fato de que o artista se beneficiou diretamente de formas e refer\u00eancias visuais carregadas de significados culturais, religiosos e sociais, sem reconhecer sua origem ou contexto. A cr\u00edtica tamb\u00e9m se conecta \u00e0 vis\u00e3o predominante da \u00e9poca, que tratava a arte africana como algo \u201cprimitivo\u201d, desconsiderando sua complexidade e import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Cem anos depois, o artista americano <strong>Henry Taylor<\/strong> prop\u00f4s uma nova leitura dessa mesma obra. Em 2007, durante sua primeira exposi\u00e7\u00e3o individual na Europa, ele criou \u201cDo Congo ao Capit\u00f3lio, e negro novamente\u201d, uma releitura direta de \u201cLes Demoiselles d\u2019Avignon\u201d, atualmente em exibi\u00e7\u00e3o no Museu Nacional Picasso, em Paris, na mostra \u201cHenry Taylor: Onde os Pensamentos Provocam\u201d.<\/p>\n<p><strong>Taylor<\/strong> preserva a estrutura central da composi\u00e7\u00e3o original: cinco mulheres nuas e os dois rostos mascarados. No entanto, ele altera um aspecto fundamental: as figuras, originalmente brancas, agora s\u00e3o negras, tornando expl\u00edcita a rela\u00e7\u00e3o entre a obra de Picasso e a arte africana.<\/p>\n<p>Conhecido por explorar a vida negra nos Estados Unidos, <strong>Taylor<\/strong> reinterpreta a pintura a partir de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia e contexto social. \u201c<strong>Henry Taylor<\/strong> n\u00e3o est\u00e1 apenas fazendo refer\u00eancia a Picasso, ele o est\u00e1 questionando e reinterpretando\u201d, afirma <strong>Snrech<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cO trabalho de <strong>Taylor<\/strong> frequentemente se concentra em pessoas que historicamente foram sub-representadas, dando-lhes presen\u00e7a e individualidade\u201d, diz a curadora. \u201cQuando colocadas juntas, as obras destacam n\u00e3o apenas diferen\u00e7as art\u00edsticas, mas tamb\u00e9m quest\u00f5es mais amplas sobre poder, influ\u00eancia e de quem s\u00e3o as hist\u00f3rias que est\u00e3o sendo contadas.\u201d<\/p>\n<blockquote class=\"instagram-media\" style=\"background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);\" data-instgrm-captioned=\"\" data-instgrm-permalink=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DW4sqsRjJeS\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" data-instgrm-version=\"14\"><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m da quest\u00e3o racial, a releitura tamb\u00e9m levanta discuss\u00f5es sobre a representa\u00e7\u00e3o feminina. O hist\u00f3rico de Picasso com mulheres e seus relacionamentos turbulentos frequentemente influenciam a leitura cr\u00edtica de sua obra. O artista teria dito \u00e0 pintora <a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.com.br\/noticias\/historia-hoje\/francoise-gilot-pintora-que-afrontou-o-ex-marido-picasso-morre-aos-101-anos.phtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Fran\u00e7oise Gilot<\/a> que todas as mulheres s\u00e3o ou \u201cdeusas ou capachos\u201d e \u201cm\u00e1quinas de sofrimento\u201d.<\/p>\n<p>Para alguns cr\u00edticos, a fragmenta\u00e7\u00e3o violenta dos corpos femininos em \u201cLes Demoiselles d\u2019Avignon\u201d ultrapassa a experimenta\u00e7\u00e3o formal e revela uma dimens\u00e3o mais pessoal e agressiva. \u201cO tema j\u00e1 era provocativo, mas <strong>Picasso<\/strong> removeu qualquer tra\u00e7o de suavidade\u201d, diz <strong>Snrech<\/strong>.<\/p>\n<p>Na obra de <strong>Taylor<\/strong>, embora ainda abstratos, os corpos aparecem menos fragmentados. O resultado, segundo a curadora, \u00e9 mais impactante do que agressivo.<\/p>\n<p>A figura central de sua pintura apresenta um corte de cabelo curto e assim\u00e9trico que remete a <a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.com.br\/noticias\/reportagem\/de-grande-estrela-do-cinema-mudo-espia-que-enfrentou-nazistas-conheca-josephine-baker.phtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Josephine Baker<\/a>, a primeira mulher negra a alcan\u00e7ar fama mundial como superestrela. Essa refer\u00eancia amplia ainda mais as discuss\u00f5es sobre identidade, ra\u00e7a e representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio t\u00edtulo da obra tamb\u00e9m refor\u00e7a esse di\u00e1logo. \u201cDo Congo ao Capit\u00f3lio, e negro novamente\u201d remete tanto \u00e0 estatueta congolesa que despertou o interesse de <strong>Picasso<\/strong> quanto ao gesto de <strong>Taylor<\/strong> de devolver a presen\u00e7a negra \u00e0 composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, no canto esquerdo da pintura, um bra\u00e7o masculino branco, sem corpo, com um rel\u00f3gio de ouro, toca uma das personagens. O detalhe pode ser uma refer\u00eancia aos dois homens \u2014 um marinheiro e um estudante de medicina \u2014 que Picasso cogitou incluir na vers\u00e3o original.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, aquilo que provocou esc\u00e2ndalo acabou transformando \u201cLes Demoiselles d\u2019Avignon\u201d em um marco da hist\u00f3ria da arte. O pr\u00f3prio <strong>Braque<\/strong>, inicialmente horrorizado, passou a adotar uma linguagem mais angular em suas pinturas. Na d\u00e9cada de 1920, o escritor e poeta <strong>Andr\u00e9 Breton<\/strong> passou a defender a obra como revolucion\u00e1ria, convencendo o colecionador franc\u00eas <strong>Jacques Doucet<\/strong> a compr\u00e1-la.<\/p>\n<p>Em 1939, o Museu de Arte Moderna de Nova York adquiriu a pintura, consolidando-a como uma pe\u00e7a fundamental da arte moderna. Ela permanece l\u00e1 at\u00e9 hoje, repercute a BBC.<\/p>\n<p>Mais de cem anos depois, \u201cLes Demoiselles d\u2019Avignon\u201d continua despertando debates intensos. Amada e rejeitada ao mesmo tempo, a obra segue como exemplo de como uma \u00fanica pintura pode redefinir a hist\u00f3ria da arte e, ao mesmo tempo, permanecer aberta a novas interpreta\u00e7\u00f5es e confrontos.<\/p>\n<p>        <a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.com.br\/noticias\/author\/eric-moreira\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">&#13;<br \/>\n          <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\u00c9ric Moreira\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2021-09-24-at-18.30.11-150x150.jpeg\" class=\"avatar avatar-115 photo rounded-circle\" height=\"115\" width=\"115\"\/>        <\/a><\/p>\n<p>\u00c9ric Moreira \u00e9 jornalista, formado pelo Centro Universit\u00e1rio Belas Artes de S\u00e3o Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e s\u00e9ries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\t                                            <script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em 1907, Pablo Picasso reuniu um pequeno grupo de artistas e amigos em seu ateli\u00ea, em Paris, para&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":381031,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[207,205,206,203,201,202,3471,204,114,115,63863,5640,62,26685,32,33],"class_list":{"0":"post-381030","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-arte-e-design","8":"tag-arte","9":"tag-arte-e-design","10":"tag-artedesign","11":"tag-arts","12":"tag-arts-and-design","13":"tag-artsanddesign","14":"tag-curiosidades","15":"tag-design","16":"tag-entertainment","17":"tag-entretenimento","18":"tag-les-demoiselles-davignon","19":"tag-materias","20":"tag-mundo","21":"tag-pablo-picasso","22":"tag-portugal","23":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116572682105502452","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/381030","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=381030"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/381030\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/381031"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=381030"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=381030"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=381030"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}