{"id":382370,"date":"2026-05-15T11:41:11","date_gmt":"2026-05-15T11:41:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/382370\/"},"modified":"2026-05-15T11:41:11","modified_gmt":"2026-05-15T11:41:11","slug":"e-dificil-falar-da-radio-eldorado-no-passado-15-05-2026-becky-s-korich","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/382370\/","title":{"rendered":"\u00c9 dif\u00edcil falar da R\u00e1dio Eldorado no passado &#8211; 15\/05\/2026 &#8211; Becky S. Korich"},"content":{"rendered":"<p>Hoje a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2026\/04\/radio-eldorado-vai-encerrar-atividades-e-demitir-todos-os-seus-funcionarios.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">R\u00e1dio Eldorado fecha um ciclo<\/a>. Depois de 68 anos acompanhando <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/sao-paulo\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">S\u00e3o Paulo<\/a>, a frequ\u00eancia 107,3 FM se desliga. O que desaparece n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um canal de \u00e1udio, mas uma forma de escutar o mundo.<\/p>\n<p>Para quem ouviu a Eldorado por tanto tempo, como eu \u2014minha rela\u00e7\u00e3o com a r\u00e1dio come\u00e7ou na inf\u00e2ncia, desde os tempos da 92,9\u2014, a despedida soa como o fim for\u00e7ado de uma amizade antiga, \u00edntima. Como imaginar meus dias sem aquele som aveludado, sem aquelas vozes familiares ao fundo?<\/p>\n<p>A Eldorado leva consigo mais do que um espa\u00e7o no dial. Leva a sensa\u00e7\u00e3o de que a cidade, t\u00e3o polu\u00edda de sons, perdeu uma de suas vozes mais civilizadas. Uma voz com personalidade, que falava de arte e cultura com eleg\u00e2ncia, feita por gente curiosa, para gente curiosa. Por gente que gosta do que faz e entende que boa m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 a que toca mais, mas a que toca mais fundo.<\/p>\n<p>Muito al\u00e9m de uma r\u00e1dio musical, a Eldorado construiu uma identidade rara no r\u00e1dio brasileiro: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/jornalismo\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">jornalismo<\/a>, repert\u00f3rio, intelig\u00eancia, diversidade, autenticidade. Sua curadoria praticou o sentido mais profundo da palavra: cuidado, zelo. E, embora n\u00e3o haja nenhuma rela\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica, essa curadoria tamb\u00e9m nos curava \u2014de m\u00fasicas fabricadas, de gritos no autofalante, das &#8220;dez mais&#8221;, do mesmismo, da pressa, da banalidade.<\/p>\n<p>\u00c9ramos os &#8220;melhores ouvintes&#8221; por causa desse respeito que a Eldorado tinha com quem estava do outro lado. N\u00e3o \u00e9ramos consumidores, mas interlocutores de uma conversa silenciosa: a r\u00e1dio parecia nos conhecer sem que precis\u00e1ssemos usar uma palavra.<\/p>\n<p>Ser ouvinte da Eldorado \u00e9 como pertencer a um clube, feito de gente que n\u00e3o se rende \u00e0 l\u00f3gica do que &#8220;se ouve&#8221; por a\u00ed. Gente que ainda prefere a calma, a surpresa, a descoberta; que entende a m\u00fasica como quase sagrada, como um modo de vida.<\/p>\n<p>A Eldorado era o meu <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/spotify\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Spotify<\/a>, quando a ideia do streaming, algoritmo e podcast parecia fic\u00e7\u00e3o. Um &#8220;streaming artesanal&#8221;, com alma, feito por m\u00e3os sens\u00edveis de escavadores, por artes\u00e3os de cultura e arte que, sem pressa, iam nos entregando pequenos tesouros lapidados. Uma infinidade de sons, de hist\u00f3rias, de mundos que eu jamais teria descoberto sozinha.<\/p>\n<p>Hoje, liga-se o que se quer, pula-se o que se exige mais esfor\u00e7o, acelera-se o que parece &#8220;longo&#8221; e ouve-se pelo tempo exato que a ansiedade permite. Como se isso significasse dom\u00ednio sobre as escolhas. A Eldorado propunha o movimento contr\u00e1rio: a liberdade de aceitar o que chegava, de se deixar surpreender, de se entregar e confiar. Ouv\u00edamos o que n\u00e3o foi pedido, uma faixa inesperada, um coment\u00e1rio, uma entrevista, um sil\u00eancio entre as m\u00fasicas. H\u00e1 algo profundamente sofisticado nisso e at\u00e9 subversivo para estes tempos.<\/p>\n<p>    Colunas<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o de colunas da Folha<\/p>\n<p>Ao desligar o microfone, a Eldorado deixa no ar um sil\u00eancio que n\u00e3o se cala. Um vazio que ocupa um lugar enorme. Perdi a minha melhor companheira das solid\u00f5es escolhidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas o fim de uma r\u00e1dio; \u00e9 um abalo na esperan\u00e7a de que a cultura ainda possa ser constru\u00edda sem se curvar ao barulho do mundo, sem se dobrar \u00e0 l\u00f3gica dos algoritmos, sem abrir m\u00e3o da sensibilidade. \u00c9 tamb\u00e9m um alerta: em meio ao caos, n\u00e3o podemos desistir dos lugares onde a arte ainda respira.<\/p>\n<p>A despedida tem, al\u00e9m do inconformismo, um agradecimento. Por tudo que a Eldorado construiu dentro de cada um de n\u00f3s. O que tocou fundo e sintonizou na frequ\u00eancia certa, nunca sair\u00e1 do ar.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou dizer adeus, ainda prefiro acreditar no at\u00e9 j\u00e1.<\/p>\n<p class=\"c-context__content\">&#13;<br \/>\n    <strong>LINK PRESENTE:<\/strong> Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. 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