{"id":385013,"date":"2026-05-17T15:46:15","date_gmt":"2026-05-17T15:46:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/385013\/"},"modified":"2026-05-17T15:46:15","modified_gmt":"2026-05-17T15:46:15","slug":"o-cometa-interestelar-3i-atlas-veio-de-um-sistema-solar-muito-diferente-do-nosso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/385013\/","title":{"rendered":"O cometa interestelar 3I\/ATLAS veio de um sistema solar muito diferente do nosso"},"content":{"rendered":"<p>\t                Com recurso a observa\u00e7\u00f5es radiotelesc\u00f3pios para analisar em detalhe um cometa interestelar, astr\u00f3logos obtiveram novas informa\u00e7\u00f5es sobre quando e onde \u00e9 que este objeto celeste se formou<\/p>\n<p>O cometa, denominado 3I\/ATLAS, ganhou destaque mundial quando os investigadores o descobriram pela primeira vez a atravessar rapidamente o nosso sistema solar em julho do ano passado. \u00c9 apenas o terceiro objeto interestelar \u2014 ou corpo celeste origin\u00e1rio de fora do nosso sistema solar \u2014 a ser avistado a passar pela nossa parte do universo. O cometa iniciou a sua <a href=\"https:\/\/www.cnn.com\/2025\/12\/08\/science\/interstellar-comet-3i-atlas-earth-close-approach\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">sa\u00edda do nosso sistema solar<\/a> em dezembro.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o inicial sobre a composi\u00e7\u00e3o do cometa, publicada a 23 de abril na revista <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41550-026-02850-5\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Nature Astronomy<\/a>, revela que este teve origem num local muito diferente do nosso pr\u00f3prio sistema solar, de acordo com os autores do estudo.<\/p>\n<p>As observa\u00e7\u00f5es foram realizadas utilizando o Atacama Large Millimeter\/submillimeter Array, ou ALMA, no Chile, no in\u00edcio de novembro, poucos dias depois de o cometa ter <a href=\"https:\/\/www.cnn.com\/2025\/10\/30\/science\/interstellar-comet-3i-atlas-sun\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">passado mais perto do nosso sol<\/a>.<\/p>\n<p>O radiotelesc\u00f3pio ALMA permitiu aos investigadores medir o deut\u00e9rio no interior do cometa, marcando a primeira vez que este is\u00f3topo do hidrog\u00e9nio foi detetado num objeto interestelar.<\/p>\n<p>\u201cO deut\u00e9rio \u00e9 geralmente encontrado na \u00e1gua dos cometas do Sistema Solar e nos oceanos da Terra na forma de \u00e1gua deuterada, HDO, tamb\u00e9m chamada de \u00e1gua semi-pesada\u201d, explica por e-mail o autor principal do estudo, Luis Eduardo Salazar Manzano, doutorando no Departamento de Astronomia da Universidade de Michigan.<\/p>\n<p>\u201cAs nossas observa\u00e7\u00f5es com o ALMA indicam que a abund\u00e2ncia de deut\u00e9rio na \u00e1gua do 3I\/ATLAS \u00e9 mais de 40 vezes superior ao valor nos oceanos da Terra e mais de 30 vezes superior ao valor nos cometas do Sistema Solar\u201d, adianta.<\/p>\n<p>As descobertas podem permitir aos investigadores compreender melhor as condi\u00e7\u00f5es extremas do sistema planet\u00e1rio do cometa \u2014 e at\u00e9 discernir como era a Via L\u00e1ctea muito antes do aparecimento do nosso sistema solar.<\/p>\n<p>\u201cOs objetos interestelares s\u00e3o c\u00e1psulas do tempo que trazem material dos ambientes onde outros sistemas planet\u00e1rios se formaram, e as nossas medi\u00e7\u00f5es est\u00e3o finalmente a permitir-nos abrir essas c\u00e1psulas do tempo e espreitar as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas onde estes objetos tiveram origem\u201d, explica Salazar Manzano.<\/p>\n<p> <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1779032775_450_f_webp.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Um gr\u00e1fico compara o teor de \u00e1gua semi-pesada do 3I\/ATLAS (\u00e0 esquerda) e da Terra. foto NSF\/AUI\/NSF NRAO\/M.Weiss\/mweiss@nrao.edu\/NSF\/AUI\/NSF NRAO\/M.Weiss <\/p>\n<p>Um objeto antigo e invulgar <\/p>\n<p>A \u00e1gua, ou H\u2082O, cont\u00e9m normalmente dois \u00e1tomos de hidrog\u00e9nio e um \u00e1tomo de oxig\u00e9nio. Os \u00e1tomos de hidrog\u00e9nio incluem um \u00fanico prot\u00e3o, ou seja, uma part\u00edcula subat\u00f3mica com carga positiva. A \u00e1gua deuterada difere ligeiramente, na medida em que cada um dos \u00e1tomos de hidrog\u00e9nio cont\u00e9m tamb\u00e9m um \u00fanico neutr\u00e3o, ou seja, uma part\u00edcula subat\u00f3mica sem carga. A adi\u00e7\u00e3o do neutr\u00e3o significa que a \u00e1gua deuterada \u00e9 mais pesada do que o H\u2082O.<\/p>\n<p>O estudo da abund\u00e2ncia de \u00e1gua deuterada no 3I\/ATLAS pode revelar ind\u00edcios sobre o local onde o cometa se formou, afirmam os investigadores.<\/p>\n<p>\u201cO enriquecimento em deut\u00e9rio ocorre geralmente quando a \u00e1gua se forma em nuvens moleculares frias no espa\u00e7o interestelar, o que acontece, em geral, por volta da mesma altura em que se formam os sistemas solares em torno de outras estrelas\u201d, adianta Salazar Manzano.<\/p>\n<p>Os investigadores acreditam que o sistema planet\u00e1rio onde o cometa interestelar teve origem era incrivelmente frio, muito mais frio do que o nosso pr\u00f3prio sistema solar durante a sua forma\u00e7\u00e3o, acrescenta o especialista.<\/p>\n<p>\u201cA temperatura no ambiente de forma\u00e7\u00e3o do 3I\/ATLAS era inferior a 30 Kelvin, o que corresponde a -243,14 graus Celsius, ou -405,67 graus Fahrenheit.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/arxiv.org\/abs\/2603.06911\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Estudos anteriores<\/a> indicaram que o cometa interestelar poderia ter at\u00e9 11 mil milh\u00f5es de anos, muito mais antigo do que o nosso sistema solar ou o Sol, que se formou h\u00e1 4,5 mil milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>A \u00e1gua ainda retida no interior do cometa provavelmente formou-se muito antes da sua estrela hospedeira, mas o 3I\/ATLAS nasceu posteriormente a partir de um disco protoplanet\u00e1rio de g\u00e1s e poeira que rodopiava em torno da estrela \u2014 o mesmo disco onde se formam os planetas, indica Salazar Manzano.<\/p>\n<p>Dado que as temperaturas mais elevadas podem reduzir a quantidade de deut\u00e9rio devido a rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas, os investigadores acreditam que o 3I\/ATLAS se formou e passou a maior parte do tempo nas regi\u00f5es mais externas do disco protoplanet\u00e1rio, preservando a sua abund\u00e2ncia de \u00e1gua deuterada.<\/p>\n<p>As novas descobertas est\u00e3o de acordo com observa\u00e7\u00f5es anteriores que revelaram uma <a href=\"https:\/\/iopscience.iop.org\/article\/10.3847\/2041-8213\/ae0647\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">elevada abund\u00e2ncia de di\u00f3xido de carbono<\/a> no interior do cometa interestelar, o que tamb\u00e9m \u00e9 consistente com um objeto que se formou na parte externa de um disco protoplanet\u00e1rio.<\/p>\n<p> <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1779032775_95_f_webp.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Uma representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica mostra o 3I\/ATLAS a passar junto ao Sol, com o g\u00e1s metanol a azul e o cianeto de hidrog\u00e9nio a laranja. foto NSF\/AUI\/NSF NRAO\/M.Weiss <\/p>\n<p>Um olhar hist\u00f3rico sobre a Via L\u00e1ctea <\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o do ALMA para as observa\u00e7\u00f5es foi fundamental, uma vez que este radiotelesc\u00f3pio consegue apontar a um \u00e2ngulo mais pr\u00f3ximo do Sol do que os telesc\u00f3pios tradicionais. Os radiotelesc\u00f3pios detetam ondas de r\u00e1dio de baixa energia, em vez da luz vis\u00edvel de alta energia ou do calor que podem destruir os componentes \u00f3ticos de instrumentos de observa\u00e7\u00e3o como o Telesc\u00f3pio Espacial James Webb.<\/p>\n<p>A equipa utilizou o ALMA para estudar o cometa pouco depois de este se ter aproximado a 203 milh\u00f5es de quil\u00f3metros do Sol \u2014 suficientemente perto para que o gelo do cometa se sublimasse, transformando-se num g\u00e1s detet\u00e1vel devido ao calor do Sol.<\/p>\n<p>Os investigadores esperavam detetar H\u2082O, mas este n\u00e3o foi detetado no 3I\/ATLAS.<\/p>\n<p>\u201cIsto n\u00e3o significa que o 3I\/ATLAS n\u00e3o tivesse \u00e1gua comum; significa apenas que estava abaixo da sensibilidade das nossas observa\u00e7\u00f5es\u201d, diz Salazar Manzano. \u201cNo entanto, tivemos uma grande surpresa quando percebemos que t\u00ednhamos detetado \u00e1gua deuterada, apesar de n\u00e3o termos detetado \u00e1gua comum, o que nos indicou imediatamente que o 3I\/ATLAS era um objeto verdadeiramente invulgar.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 improv\u00e1vel que os astr\u00f3nomos consigam determinar de que sistema planet\u00e1rio 3I\/ATLAS prov\u00e9m, mas isso n\u00e3o significa que o corpo celeste n\u00e3o v\u00e1 fornecer informa\u00e7\u00f5es inestim\u00e1veis \u2013 os objetos interestelares podem revelar aspetos do nosso universo que, de outra forma, permaneceriam ocultos e desconhecidos.<\/p>\n<p> <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1779032775_418_f_webp.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   A Via L\u00e1ctea pode ser vista acima do conjunto de radiotelesc\u00f3pios ALMA, no Chile. foto NSF\/AUI\/NSF NRAO\/B.Foott <\/p>\n<p>O Observat\u00f3rio Vera C. Rubin, localizado no Chile, divulgou <a href=\"https:\/\/www.cnn.com\/2025\/06\/23\/science\/vera-rubin-observatory-first-images\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">as suas primeiras imagens<\/a> em junho e espera-se que detete objetos interestelares com maior frequ\u00eancia \u2014 o que poder\u00e1 permitir a Salazar Manzano e aos seus colegas determinar se o 3I\/ATLAS \u00e9 um caso isolado no que diz respeito \u00e0 sua abund\u00e2ncia de \u00e1gua deuterada, ou se outros cometas semelhantes apresentam um enriquecimento semelhante.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 evidente que estamos apenas a ver a ponta do icebergue no que diz respeito ao estudo destes cometas interestelares\u201d, refere o astr\u00f3nomo planet\u00e1rio Dr. Theodore Kareta, professor assistente de astrof\u00edsica e ci\u00eancias planet\u00e1rias na Universidade de Villanova, perto de Filad\u00e9lfia. \u201cO nosso pensamento enquanto comunidade est\u00e1 a evoluir rapidamente \u00e0 medida que aprendemos a fazer novas perguntas e a dar sentido a respostas confusas.\u201d<\/p>\n<p>Kareta estudou o 3I\/ATLAS, mas n\u00e3o esteve envolvido nesta investiga\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a de deut\u00e9rio no cometa \u00e9 an\u00e1loga a impress\u00f5es digitais, afirma, revelando aquilo com que o cometa essencialmente nasceu \u2014 bem como como era a nossa gal\u00e1xia h\u00e1 mais de 10 mil milh\u00f5es de anos, quando era menos rica em metais do que \u00e9 atualmente.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 medida que a nossa gal\u00e1xia envelheceu, os tipos de cometas que formou ao longo do tempo mudaram, e isso significa que os tipos de planetas que pode formar tamb\u00e9m mudaram\u201d, refere Kareta num e-mail. \u201c\u00c9 isto que torna estes cometas interestelares t\u00e3o interessantes \u2014 n\u00e3o \u00e9 necessariamente o que s\u00e3o ou como se parecem, mas sim a forma como nos permitem olhar para tr\u00e1s no tempo, para descobrir se os planetas \u2018l\u00e1 fora\u2019 se parecem com os que temos aqui em casa.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com recurso a observa\u00e7\u00f5es radiotelesc\u00f3pios para analisar em detalhe um cometa interestelar, astr\u00f3logos obtiveram novas informa\u00e7\u00f5es sobre quando&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":385014,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[84],"tags":[10496,609,836,611,27,109,107,108,607,608,333,10495,832,604,135,610,476,1008,301,830,1173,603,570,831,833,62,834,13,835,602,52,32,33,105,103,104,106,110,29,2077,4248],"class_list":{"0":"post-385013","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-ciencia-e-tecnologia","8":"tag-3i-atlas","9":"tag-alerta","10":"tag-analise","11":"tag-ao-minuto","12":"tag-breaking-news","13":"tag-ciencia","14":"tag-ciencia-e-tecnologia","15":"tag-cienciaetecnologia","16":"tag-cnn","17":"tag-cnn-portugal","18":"tag-comentadores","19":"tag-cometa","20":"tag-costa","21":"tag-crime","22":"tag-desporto","23":"tag-direto","24":"tag-economia","25":"tag-espaco","26":"tag-governo","27":"tag-guerra","28":"tag-investigacao","29":"tag-justica","30":"tag-live","31":"tag-mais-vistas","32":"tag-marcelo","33":"tag-mundo","34":"tag-negocios","35":"tag-noticias","36":"tag-opiniao","37":"tag-pais","38":"tag-politica","39":"tag-portugal","40":"tag-pt","41":"tag-science","42":"tag-science-and-technology","43":"tag-scienceandtechnology","44":"tag-technology","45":"tag-tecnologia","46":"tag-ultimas","47":"tag-universo","48":"tag-via-lactea"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/385013","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=385013"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/385013\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/385014"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=385013"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=385013"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=385013"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}