{"id":38800,"date":"2025-08-21T14:13:14","date_gmt":"2025-08-21T14:13:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/38800\/"},"modified":"2025-08-21T14:13:14","modified_gmt":"2025-08-21T14:13:14","slug":"precisamos-recordar-as-raizes-vermelhas-do-hip-hop","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/38800\/","title":{"rendered":"Precisamos recordar as ra\u00edzes vermelhas do Hip-Hop"},"content":{"rendered":"<p class=\"prefixo\">Extra\u00eddo do livro <a href=\"https:\/\/autonomialiteraria.com.br\/loja\/teoria-politica\/o-livro-vermelho-do-hip-hop\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">O livro vermelho do Hip-Hop: 1995 remasterizado 2025<\/a>, de Spensy Pimentel (Autonomia Liter\u00e1ria &amp; GLAC edi\u00e7\u00f5es, 2025).<\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\"><a href=\"https:\/\/autonomialiteraria.com.br\/loja\/teoria-politica\/o-livro-vermelho-do-hip-hop\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">O livro vermelho do Hip-Hop<\/a> possui uma longa hist\u00f3ria, de quase 30 anos. Filho de um f\u00e3 de Jorge Ben e James Brown, eu me encantei com o Hip-Hop desde menino, no interior do Mato Grosso do Sul: gravava as apresenta\u00e7\u00f5es que gente como Tha\u00edde fazia na TV, no final dos anos 1980, para transcrever e decorar as letras, depois cantava com os amigos, em roda, acompanhado pelo beat box. Compunha meus pr\u00f3prios raps, depois, quando morei em Bras\u00edlia, em 1993, e, frequentando a loja da gravadora Discovery, no Conic, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente rappers como X e Jamaika. <\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, ia aos shows de rap e \u00e0s galerias na 24 de Maio. Quando tive de apresentar um trabalho de conclus\u00e3o no curso de Jornalismo na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), foi natural escolher o tema. Para mim, era, em primeiro lugar, uma homenagem aos artistas que eu tanto admirava e uma contribui\u00e7\u00e3o que eu, que n\u00e3o sabia dan\u00e7ar, grafitar, versar ou tocar nas picapes, poderia dar ao movimento. Algo para se integrar, ent\u00e3o, ao que se costuma denominar de \u201cquinto elemento\u201d do Hip-Hop, o conhecimento.<\/p>\n<p>Da universidade para as ruas<\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Logo depois de ter conclu\u00eddo meu curso na ECA, com esse livro-reportagem, passei a tirar fotoc\u00f3pias dele e entreg\u00e1-lo em papel \u00e0s pessoas que me haviam dado entrevista. Assim, o Livro Vermelho come\u00e7ou a circular dentro do movimento Hip-Hop, chegando a v\u00e1rios lugares do pa\u00eds, porque as pessoas gostavam do que liam, faziam novas c\u00f3pias e distribu\u00edam \u2013 segundo me relatavam. Quando a ent\u00e3o rec\u00e9m-criada revista Caros Amigos publicou uma entrevista com Mano Brown, no in\u00edcio de 1998, imaginei que eles poderiam ter interesse no material e o levei at\u00e9 a reda\u00e7\u00e3o, deixando uma c\u00f3pia na mesa de S\u00e9rgio de Souza, lenda do jornalismo brasileiro e ent\u00e3o diretor da revista. Qual n\u00e3o foi minha grata surpresa quando, semanas depois, recebo um telefonema de S\u00e9rgio convidando-me para ir \u00e0 reda\u00e7\u00e3o: muito interessados no que haviam lido, a equipe da revista queria fazer um n\u00famero especial da revista dedicado ao Hip-Hop. Foi uma tremenda honra! Assim, o Livro Vermelho ajudou a dar \u00e0 luz ao Especial Hip-Hop da Caros Amigos, de 1998, que contou com algumas reportagens minhas, al\u00e9m da contribui\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios outros incr\u00edveis jornalistas, como a amiga Marina Amaral, depois fundadora da Ag\u00eancia P\u00fablica, com a qual colaboro at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 recebia propostas para publicar o livro nessa \u00e9poca, mas ainda n\u00e3o estava satisfeito com ele. Em 1999, o ent\u00e3o rec\u00e9m-criado site Bocada Forte \u2013 o primeiro portal de Hip-Hop do Brasil \u2013 me convidou para divulg\u00e1-lo de forma online. Conheci a turma do Bocada ao participar de uma roda de conversa no Monte Azul, bairro deles na Zona Sul da S\u00e3o Paulo \u2013 era muito comum ser convidado para essas atividades na \u00e9poca, porque existiam pouqu\u00edssimos trabalhos escritos sobre o movimento at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cNos \u00faltimos anos, tenho ficado particularmente impressionado com o rap ind\u00edgena que tem surgido em v\u00e1rias partes do mundo, inclusive no Brasil.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/solysombrabar\/\" aria-label=\"[SyS]-Banner-site\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/SyS-Banner-site.gif\" alt=\"\"   width=\"300\" height=\"600\"\/><\/a><\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo tive acesso a uma bibliografia adicional, gra\u00e7as \u00e0 generosidade de v\u00e1rias pessoas que me presenteavam com livros e outros materiais, interessadas em contribuir para que o trabalho ficasse ainda melhor. Consegui, assim, fazer uma revis\u00e3o satisfat\u00f3ria dos tr\u00eas primeiros cap\u00edtulos (o original tinha seis), e acabei entendendo que esse trecho j\u00e1 seria suficiente para que as pessoas tivessem acesso \u00e0s ideias mais essenciais do livro \u2013 inclusive porque os demais cap\u00edtulos diziam respeito a discuss\u00f5es mais datadas. Essa vers\u00e3o, com tr\u00eas partes, foi a que ficou conhecida na internet, passando a ser reproduzida em v\u00e1rios outros sites ligados ao Hip-Hop e citada em dezenas de trabalhos acad\u00eamicos que viriam a ser produzidos nos anos seguintes.<\/p>\n<p>Nova fase da vida<\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Depois a vida virou um \u201credemunho\u201d, que me levou outra vez a Bras\u00edlia, em 2003, depois S\u00e3o Paulo novamente, ent\u00e3o Mato Grosso do Sul, M\u00e9xico, Paran\u00e1, e finalmente \u00e0 Bahia, onde vivo desde 2015 com minha fam\u00edlia. Formei-me tamb\u00e9m antrop\u00f3logo, trabalhei junto aos povos ind\u00edgenas, sobretudo os Kaiow\u00e1 e Guarani, e nos \u00faltimos anos tenho atuado junto \u00e0 articula\u00e7\u00e3o de movimentos conhecida como <a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2024\/03\/as-novas-aliancas-estrategicas-na-luta-pela-terra\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Teia dos Povos<\/a>, que se originou no sul da Bahia, onde moro, e hoje est\u00e1 se espalhando por todo o Brasil.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, continuei pensando com o Hip-Hop, sobretudo a partir de parcerias com o site Bocada Forte, onde publiquei alguns artigos e tradu\u00e7\u00f5es entre 2009 e 2012. Nos \u00faltimos anos, tenho ficado particularmente impressionado com o rap ind\u00edgena que tem surgido em v\u00e1rias partes do mundo, inclusive no Brasil. No M\u00e9xico, tive a grata oportunidade de conhecer grupos de apoio aos presos pol\u00edticos do movimento negro estadunidense e o incr\u00edvel pensamento de militantes como o jornalista Mumia Abu Jamal. Mesmo preso injustamente, em condi\u00e7\u00f5es terr\u00edveis, h\u00e1 mais de 40 anos, ele \u00e9 um dos pensadores que consegue fazer os questionamentos mais profundos ao Hip-Hop. Algumas das conclus\u00f5es finais desta nova vers\u00e3o do livro est\u00e3o fortemente alinhadas com suas ideias.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cPrecisamos recordar qual foi o solo em que foram plantadas as verdadeiras ra\u00edzes do Hip-Hop.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 esse cipoal de refer\u00eancias que me ajudou a chegar a esta nova vers\u00e3o remasterizada do Livro Vermelho, surgida a partir do generoso convite do camarada Leonardo Araujo Beserra, da GLAC, com a gentil intermedia\u00e7\u00e3o do compa Erahsto Felicio, da Teia dos Povos. O principal trabalho foi o de revisar o texto original, acrescentando, precisando ou corrigindo refer\u00eancias. O volume de produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica que hoje existe sobre o Hip-Hop \u00e9 imenso e, al\u00e9m disso, os pioneiros do movimento, antes escanteados, passaram a ser valorizados e por isso deram v\u00e1rias entrevistas (ou escreveram textos) ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, detalhando melhor o contexto do Bronx nos anos 1970, entre outros elementos. Tamb\u00e9m busquei acrescentar informa\u00e7\u00f5es sobre os desdobramentos est\u00e9ticos e pol\u00edticos da cultura Hip-Hop ao longo dos \u00faltimos 25 anos \u2013 boa parte disso, em di\u00e1logo com o companheiro jornalista Jair Cortercertu, do Bocada Forte. A \u00faltima parte do livro reaproveita alguns poucos elementos da vers\u00e3o original e incorpora trechos de outros escritos que publiquei entre 2010 e 2014.<\/p>\n<p>Ao final, \u00e9 importante dizer: dei-me ao trabalho de revisar e revisitar o texto de 1999, sobretudo, porque entendo que passamos por um grave momento hist\u00f3rico. O avan\u00e7o do supremacismo branco nos Estados Unidos est\u00e1 impulsionando uma perigosa onda internacional de fortalecimento do fascismo, e \u00e9 boa hora para darmos um tempo na ostenta\u00e7\u00e3o generalizada com que tanta gente anda vivendo enquanto zanza pela gozol\u00e2ndia apocal\u00edptica, dan\u00e7ando \u00e0 beira do desastre clim\u00e1tico. Precisamos recordar qual foi o solo em que foram plantadas as verdadeiras ra\u00edzes do Hip-Hop. Que as hist\u00f3rias rememoradas pelo Livro Vermelho sigam servindo de inspira\u00e7\u00e3o a novas gera\u00e7\u00f5es em luta!<\/p>\n<p>Spensy Pimentel<\/p>\n<p>nasceu em Mato Grosso do Sul e mudou-se aos 16 anos para Bras\u00edlia, depois S\u00e3o Paulo, onde se formou como jornalista. Colaborou com meios como Folha de S\u00e3o Paulo, Superinteressante, Showbizz, UOL, Ag\u00eancia Brasil, R\u00e1dio Nacional, Caros Amigos, Revista do Brasil (CUT), Carta Capital, Ag\u00eancia P\u00fablica, Rep\u00f3rter Brasil, Bocada Forte e Desinform\u00e9monos (M\u00e9xico), entre outros. Em paralelo, tornou-se mestre e doutor em Antropologia, pela Universidade de S\u00e3o Paulo, com est\u00e1gio na Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico. \u00c9 autor de O \u00edndio que mora na nossa cabe\u00e7a: sobre as dificuldades para entender os povos ind\u00edgenas (Prumo, 2012) e coautor de diversos document\u00e1rios, sendo o mais recente 2 de Julho: A Retomada, em colabora\u00e7\u00e3o com sua companheira, a tamb\u00e9m jornalista Joana Moncau, e com o l\u00edder campon\u00eas Joelson Ferreira, da Teia dos Povos.<\/p>\n<p>\t\t\tCierre<\/p>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Extra\u00eddo do livro O livro vermelho do Hip-Hop: 1995 remasterizado 2025, de Spensy Pimentel (Autonomia Liter\u00e1ria &amp; GLAC&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":38801,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[141],"tags":[114,115,149,150,32,33],"class_list":{"0":"post-38800","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-musica","8":"tag-entertainment","9":"tag-entretenimento","10":"tag-music","11":"tag-musica","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38800","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38800"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38800\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/38801"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38800"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38800"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38800"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}