{"id":389805,"date":"2026-05-21T13:58:13","date_gmt":"2026-05-21T13:58:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/389805\/"},"modified":"2026-05-21T13:58:13","modified_gmt":"2026-05-21T13:58:13","slug":"ponto-kultural-um-lugar-vazio-cheio-de-gente-cronica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/389805\/","title":{"rendered":"Ponto Kultural: um lugar vazio cheio de gente | Cr\u00f3nica"},"content":{"rendered":"<p>Uma mesa branca, desproporcionalmente grande para o sil\u00eancio do \u00e1trio do Museu das Artes de Sintra (MU.SA). Em redor da mesa, trinta cadeiras vazias aguardam por corpos, obras e vozes. Aos poucos, a sala enche-se. Vinte e sete artistas de Sintra, todos vestidos de preto, e com uma obra debaixo do bra\u00e7o, ocupam as cadeiras.<\/p>\n<p>&#8220;O evento chama-se \u2018Lugar Vazio\u2019 porque parte da ideia de ocupar um lugar que tem estado vazio para o artista sintrense, ou que, muitas vezes, n\u00e3o parece estar verdadeiramente dispon\u00edvel para ser ocupado. No \u00e2mbito do Dia Mundial dos Museus, a C\u00e2mara Municipal de Sintra convidou-nos a trazer um projeto para dentro do museu. E n\u00f3s pens\u00e1mos que, se temos tr\u00eas horas para ocupar o museu, queremos levar para l\u00e1 os artistas que t\u00eam vindo a dialogar connosco&#8221;, explica Rodrigo Faria, coordenador e gestor de projetos do Ponto Kultural, espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o em Algueir\u00e3o-Mem Martins, criado pelo coletivo Unidigrazz, prestes a cumprir um ano de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O Ponto Kultural nasce da falta de espa\u00e7o, de apoios e de visibilidade para os processos art\u00edsticos. &#8220;Quando surgiu a oportunidade de termos um espa\u00e7o, nunca o pens\u00e1mos como algo apenas para n\u00f3s, enquanto coletivo, mas como um lugar aberto que pudesse dar plataforma a outros artistas, acolher resid\u00eancias, bolsas, workshops e palestras&#8221;, explica Rodrigo. &#8220;Temos uma programa\u00e7\u00e3o trimestral sustentada por bolsas e resid\u00eancias art\u00edsticas, com apoio financeiro e de mentoria.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c0 volta da mesa, falo com alguns dos artistas presentes.<\/p>\n<p>&#8220;A minha linguagem nasce do movimento em saltos altos, da identidade queer e da forma como o meu corpo ocupa os diferentes espa\u00e7os&#8221;, explica Hugo Silveira, dan\u00e7arino, enquanto mostra um botim de salto alto. &#8220;Foi o primeiro salto que usei nas forma\u00e7\u00f5es de High Heels, nem era do meu tamanho e dan\u00e7ava de fecho aberto, mas abriu\u2011me as portas para ser quem sou hoje e para descobrir a forma de movimento com que me identifico atualmente.&#8221; No projeto &#8220;Mar Alto&#8221;, Hugo percorre as esta\u00e7\u00f5es de comboio da linha de Sintra. &#8220;Pretendo criar espa\u00e7o para n\u00f3s como pessoas queer e n\u00e3o nos isolarmos nos nossos blocos de bet\u00e3o, celebrando a nossa exist\u00eancia no exterior.&#8221;<\/p>\n<p>Bruno Nunes \u00e9 brasileiro, filho de imigrantes, e assina artisticamente como Senun. &#8220;Vim para Portugal ainda muito novo e isso influencia diretamente a forma como penso e construo imagem.&#8221; A obra que apresenta \u00e9 uma fotografia do m\u00fasico &#8220;Prod\u00edgio&#8221;, uma imagem que &#8220;representa mais do que uma trajet\u00f3ria individual, \u00e9 uma mem\u00f3ria coletiva ligada \u00e0 linha de Sintra e a uma gera\u00e7\u00e3o que influenciou m\u00fasica, linguagem e est\u00e9tica contempor\u00e2nea em Portugal, mesmo muitas vezes fora dos espa\u00e7os tradicionais de legitima\u00e7\u00e3o cultural&#8221;. Para Bruno, essa fotografia \u00e9 tamb\u00e9m um gesto de ocupa\u00e7\u00e3o: &#8220;um artista criado na periferia da linha de Sintra, que mostra que o sonho de muitos jovens na mesma situa\u00e7\u00e3o se pode tornar realidade.&#8221;<\/p>\n<p>Madalena Santos assina o seu trabalho como RGBored. O caminho pela ilustra\u00e7\u00e3o digital come\u00e7ou em 2018, na licenciatura em design de moda: &#8220;Lembro-me de dizerem que os meus desenhos t\u00e9cnicos das roupas pareciam ilustra\u00e7\u00f5es e que n\u00e3o era o pretendido. Em casa, apliquei a mesma t\u00e9cnica a pessoas e, depois, comecei a ilustrar tamb\u00e9m pensamentos e emo\u00e7\u00f5es que n\u00e3o sabia bem como exprimir por palavras.&#8221;<\/p>\n<p>Mostra-me &#8220;Brainwash&#8221;, uma BD que representa uma lavagem cerebral literal, protagonizada por uma ovelha. &#8220;Quis reiterar a import\u00e2ncia de mantermos o nosso esp\u00edrito cr\u00edtico, de ouvirmos o nosso instinto e questionarmos algumas imposi\u00e7\u00f5es da sociedade que nem sempre nos servem ou preenchem&#8221;, conclui.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Silva \u00e9 realizador e est\u00e1 a trabalhar no filme &#8220;O Sangue da Alian\u00e7a&#8221;, centrado na m\u00e3e, uma mulher cabo-verdiana, quase septuagen\u00e1ria, que se separa ap\u00f3s quase 40 anos de rela\u00e7\u00e3o. O filme cruza patriarcado, depress\u00e3o e as marcas hist\u00f3ricas da emigra\u00e7\u00e3o das d\u00e9cadas de 1960 e 1970. F\u00e1bio traz consigo o livro Pele Negra, M\u00e1scaras Brancas, de Frantz Fanon. &#8220;Apesar de ter sido publicado h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, continua extremamente atual e inspira-me profundamente. Muitas vezes serve de alicerce ao meu processo criativo, por me fazer refletir sobre territ\u00f3rio, comunidade e, sobretudo, a necessidade de compreendermos os processos hist\u00f3ricos que ainda hoje nos segregam. S\u00f3 assim podemos criar obras politicamente conscientes, anticoloniais, que deem visibilidade \u00e0s quest\u00f5es associadas \u00e0 periferia.&#8221;<\/p>\n<p>Maria Caetano Vilalobos \u00e9 poeta, performer e professora. Calmaria \u00e9 o seu segundo livro de poesia. &#8220;Trouxe-o no seguimento de responder ao lugar vazio que se cria entre a raiva e o amor. Nesse limbo-dilema em sil\u00eancio antes de agir e responder. Calmaria \u00e9 sobre f\u00e9 e tentar encontrar o equil\u00edbrio apesar do caos.&#8221; A sinopse: &#8220;Na rebenta\u00e7\u00e3o a busca pela mar\u00e9 baixa. Nos agueiros a esperan\u00e7a pela mar\u00e9 alta. No fogo cruzado o sil\u00eancio c\u00famplice. O escapismo da realidade como bote salva\u2011vidas. A apneia como paradoxal ferramenta de sobreviv\u00eancia. O amor. Sempre. Raiz.&#8221;<\/p>\n<p>O autor escreve segundo o Acordo Ortogr\u00e1fico de 1990<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma mesa branca, desproporcionalmente grande para o sil\u00eancio do \u00e1trio do Museu das Artes de Sintra (MU.SA). 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