{"id":390475,"date":"2026-05-22T00:11:16","date_gmt":"2026-05-22T00:11:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/390475\/"},"modified":"2026-05-22T00:11:16","modified_gmt":"2026-05-22T00:11:16","slug":"investigacao-ou-docencia-o-dilema-que-esta-a-redefinir-as-universidades-portuguesas-megafone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/390475\/","title":{"rendered":"Investiga\u00e7\u00e3o ou doc\u00eancia? O dilema que est\u00e1 a redefinir as universidades portuguesas | Megafone"},"content":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tornou-se o principal crit\u00e9rio de valoriza\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica. Essa l\u00f3gica alterou profundamente aquilo que significa ser professor universit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Atualmente, um candidato com forte produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas compet\u00eancias pedag\u00f3gicas limitadas, pode facilmente superar outro com experi\u00eancia consolidada de ensino e elevada qualidade docente. Na pr\u00e1tica, muitos candidatos vocacionados sobretudo para a investiga\u00e7\u00e3o concorrem \u00e0s vagas docentes porque estas oferecem maior estabilidade profissional. Em contrapartida, quem deseja dedicar-se verdadeiramente ao ensino universit\u00e1rio encontra um sistema onde a pedagogia <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/12\/06\/p3\/cronica\/fim-carreira-professor-universitario-2157072v\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">tem frequentemente um peso secund\u00e1rio<\/a>.<\/p>\n<p>Esta realidade n\u00e3o surge por acaso. O pr\u00f3prio enquadramento legal portugu\u00eas ajuda a explic\u00e1-la.<\/p>\n<p>O Estatuto da Carreira Docente Universit\u00e1ria (ECDU), aprovado pelo Decreto-Lei n.\u00ba 448\/79, de 13 de novembro, estabelece no artigo 4.\u00ba que os docentes universit\u00e1rios devem \u201cprestar o servi\u00e7o docente que lhes for distribu\u00eddo\u201d e \u201cdesenvolver actividades de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d. Desde cedo, o modelo portugu\u00eas construiu a carreira universit\u00e1ria numa l\u00f3gica h\u00edbrida entre ensino e investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 na coexist\u00eancia destas dimens\u00f5es, mas no desequil\u00edbrio entre ambas.<\/p>\n<p>O artigo 37.\u00ba do ECDU determina que os concursos devem avaliar o m\u00e9rito cient\u00edfico e pedag\u00f3gico dos candidatos. Contudo, na pr\u00e1tica, a avalia\u00e7\u00e3o tornou-se assim\u00e9trica. A produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 medida atrav\u00e9s de indicadores relativamente objetivos \u2014 publica\u00e7\u00f5es, cita\u00e7\u00f5es, quartis ou projetos financiados \u2014 enquanto a qualidade pedag\u00f3gica continua muitas vezes dependente de crit\u00e9rios vagos e pouco robustos.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 previs\u00edvel: aquilo que \u00e9 mais facilmente mensur\u00e1vel torna-se mais valorizado.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o agravou-se com a press\u00e3o dos rankings internacionais, que privilegiam sobretudo investiga\u00e7\u00e3o, impacto cient\u00edfico e internacionaliza\u00e7\u00e3o. Consequentemente, muitas institui\u00e7\u00f5es passaram a favorecer candidatos que reforcem indicadores cient\u00edficos institucionais.<\/p>\n<p>Naturalmente, muitos investigadores s\u00e3o tamb\u00e9m excelentes docentes. O problema n\u00e3o \u00e9 a investiga\u00e7\u00e3o em si. O problema surge quando a excel\u00eancia cient\u00edfica passa implicitamente a compensar fragilidades pedag\u00f3gicas.<\/p>\n<p>No ensino superior tornou-se relativamente normal assumir que um excelente curr\u00edculo cient\u00edfico equivale automaticamente a excel\u00eancia docente.<\/p>\n<p>N\u00e3o equivale.<\/p>\n<p>A pedagogia universit\u00e1ria exige compet\u00eancias pr\u00f3prias: comunica\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o, supervis\u00e3o, motiva\u00e7\u00e3o dos estudantes e adapta\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica. S\u00e3o compet\u00eancias t\u00e9cnicas que raramente recebem valoriza\u00e7\u00e3o equivalente nos concursos acad\u00e9micos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a carreira de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica em Portugal permaneceu historicamente marcada pela precariedade. Durante anos, muitos investigadores dependeram de bolsas e contratos tempor\u00e1rios. Consequentemente, a carreira docente universit\u00e1ria tornou-se a principal via de estabilidade para quem pretende continuar a investigar.<\/p>\n<p>Mesmo com a aprova\u00e7\u00e3o da Lei n.\u00ba 55\/2025, de 28 de abril, continua a existir uma sobreposi\u00e7\u00e3o significativa entre fun\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e docentes nas universidades portuguesas. Na pr\u00e1tica, muitos concursos para professor universit\u00e1rio acabam por funcionar como mecanismos indiretos de integra\u00e7\u00e3o de investigadores.<\/p>\n<p>Entretanto, os estudantes permanecem frequentemente no centro do discurso institucional, mas longe do centro efetivo das decis\u00f5es de recrutamento.<\/p>\n<p>Uma universidade n\u00e3o existe apenas para produzir artigos cient\u00edficos. Existe para ensinar, formar pensamento cr\u00edtico e preparar novas gera\u00e7\u00f5es. Quando o ensino passa para segundo plano, a pr\u00f3pria miss\u00e3o universit\u00e1ria fica desequilibrada.<\/p>\n<p>Portugal precisa, por isso, de discutir seriamente uma diferencia\u00e7\u00e3o mais clara entre carreiras predominantemente cient\u00edficas e pedag\u00f3gicas no ensino superior, atribuindo \u00e0 doc\u00eancia um peso efetivamente relevante nos concursos acad\u00e9micos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tornou-se o principal crit\u00e9rio de valoriza\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica. 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