{"id":392653,"date":"2026-05-24T02:37:02","date_gmt":"2026-05-24T02:37:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/392653\/"},"modified":"2026-05-24T02:37:02","modified_gmt":"2026-05-24T02:37:02","slug":"entenda-por-que-e-dificil-parar-de-ser-sedentario-23-05-2026-equilibrio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/392653\/","title":{"rendered":"Entenda por que \u00e9 dif\u00edcil parar de ser sedent\u00e1rio &#8211; 23\/05\/2026 &#8211; Equil\u00edbrio"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea provavelmente j\u00e1 se cansou de ouvir que a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/atividade-fisica\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">atividade f\u00edsica<\/a> faz bem e deveria pratic\u00e1-la. H\u00e1 gente correndo no bairro: gente correndo no bairro, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/saopaulo\/2019\/05\/1987940-com-diaria-de-r-500-academia-cria-ambiente-totalmente-conectado-e-decoracao-instagramavel.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">academias cheias<\/a>, v\u00eddeos de treino aparecendo o tempo todo nos feeds de not\u00edcias das <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/opiniao\/2026\/05\/medicamentos-em-plataformas-digitais-sao-ameaca-a-saude.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">plataformas digitais<\/a>. A impress\u00e3o \u00e9 de que todo mundo se exercita.<\/p>\n<p>Mas essa sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 enganosa. Ela nasce de um atalho comum no nosso c\u00e9rebro: damos mais peso ao que vemos com frequ\u00eancia no nosso entorno imediato \u2014e, hoje, isso inclui as redes sociais. \u00c9 o que podemos chamar de ilus\u00e3o do mundo ativo. Na pr\u00e1tica, uma s\u00e9rie de pesquisas tem mostrado o contr\u00e1rio: a popula\u00e7\u00e3o mundial est\u00e1 mais inativa do que nunca.<\/p>\n<p>Essa contradi\u00e7\u00e3o levanta uma pergunta inc\u00f4moda: se h\u00e1 uma quantidade crescente de boas evid\u00eancias cient\u00edficas documentando que se movimentar \u00e9 importante para cuidar do nosso bem mais precioso \u2014a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/saude\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">sa\u00fade<\/a>\u2014 por que ainda escolhemos o sof\u00e1?<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova para mim. Ela come\u00e7ou a me intrigar h\u00e1 cerca de 15 anos, quando comecei a dar aulas em uma academia de muscula\u00e7\u00e3o. Desde ent\u00e3o, entre pr\u00e1tica e pesquisa, fui percebendo que o problema n\u00e3o est\u00e1 apenas no acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, mas em algo mais profundo: o modo como nos motivamos, fazemos escolhas e tomamos decis\u00f5es no dia a dia.<\/p>\n<p>A dificuldade de aderir<\/p>\n<p>Aderir \u00e0 atividade f\u00edsica \u00e9 um dos grandes desafios da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/saude-publica\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">sa\u00fade p\u00fablica<\/a> contempor\u00e2nea. Apesar de d\u00e9cadas de campanhas, diretrizes e recomenda\u00e7\u00f5es, como as da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/oms\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">OMS<\/a> (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade), grande parte da popula\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o atinge os n\u00edveis m\u00ednimos de atividade f\u00edsica. E ainda que o conhecimento sobre os benef\u00edcios do exerc\u00edcio se expandiu, os n\u00edveis de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2026\/03\/desigualdades-sociais-influenciam-quem-e-sedentario-e-quem-pratica-atividade-fisica-diz-estudo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">sedentarismo <\/a>permanecem altos \u2014 e, em muitos casos, aumentaram.<\/p>\n<p>Isso revela um limite importante do modelo tradicional de comunica\u00e7\u00e3o nesse campo: a ideia de que informar \u00e9 suficiente para mudar comportamento. N\u00e3o \u00e9 o que vemos. \u00c9 nesse contexto que se insere um artigo recente em que colegas e eu reunimos evid\u00eancias de diferentes \u00e1reas para entender por que as diretrizes atuais n\u00e3o t\u00eam produzido os efeitos esperados.<\/p>\n<p>No coment\u00e1rio cient\u00edfico &#8220;Base comportamental humana para recomendar mudan\u00e7as nas diretrizes de atividade f\u00edsica&#8221;, publicado em 2026 na revista Sports Medicine and Health Science, mostramos que o descompasso entre as recomenda\u00e7\u00f5es e como as pessoas realmente tomam decis\u00f5es no dia a dia.<\/p>\n<p>Evid\u00eancias cada vez mais consistentes mostram que o comportamento humano n\u00e3o \u00e9 guiado apenas pela racionalidade. Saber que algo \u00e9 bom n\u00e3o significa faz\u00ea-lo. N\u00e3o por acaso, estudos indicam que quase metade das pessoas que pretendem se exercitar n\u00e3o consegue transformar essa inten\u00e7\u00e3o em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De olho nas recompensas<\/p>\n<p>Para entender esse descompasso, \u00e9 preciso olhar para al\u00e9m da l\u00f3gica e considerar fatores comportamentais. Do ponto de vista psicol\u00f3gico, o exerc\u00edcio f\u00edsico envolve custos imediatos (como esfor\u00e7o, tempo, desconforto e \u00e0s vezes dinheiro), enquanto muitos dos seus benef\u00edcios mais valorizados (como prevenir doen\u00e7as ou aumentar a longevidade) est\u00e3o no futuro.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, nosso c\u00e9rebro tende a favorecer recompensas imediatas. Esse fen\u00f4meno, conhecido como desconto hiperb\u00f3lico, ajuda a explicar por que \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil trocar um treino por permanecer deitado no sof\u00e1, &#8220;rolando&#8221; as redes sociais ou assistindo a uma s\u00e9rie. S\u00e3o atividades recompensadoras no presente, ainda que nem sempre ben\u00e9ficas no longo prazo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a decis\u00e3o de se exercitar n\u00e3o passa apenas por c\u00e1lculos conscientes. Emo\u00e7\u00f5es, h\u00e1bitos, experi\u00eancias anteriores e contexto social exercem um papel decisivo \u2014muitas vezes autom\u00e1tico. \u00c9 aqui que entra um ponto central destacado pelas pesquisas mais recentes \u2014e refor\u00e7ado pelo nosso coment\u00e1rio cient\u00edfico: o que sentimos durante a pr\u00e1tica importa muito.<\/p>\n<p>Evid\u00eancias mostram que experi\u00eancias positivas durante o exerc\u00edcio aumentam as chances de continuidade. Por outro lado, sensa\u00e7\u00f5es de desconforto, vergonha ou inadequa\u00e7\u00e3o podem gerar rejei\u00e7\u00e3o duradoura. Isso ajuda a explicar por que motiva\u00e7\u00f5es iniciais \u2014geralmente ligadas \u00e0 sa\u00fade, ao condicionamento f\u00edsico ou \u00e0 est\u00e9tica\u2014 s\u00e3o importantes, mas insuficientes para sustentar o h\u00e1bito.<\/p>\n<p>Prazer na experi\u00eancia faz diferen\u00e7a<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, todo mundo conhece algu\u00e9m que passou por isso: come\u00e7ou a se exercitar com muita vontade e empolga\u00e7\u00e3o, mas, passadas algumas semanas, desistiu. O problema a\u00ed n\u00e3o era falta de informa\u00e7\u00e3o \u2014 era a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>A psicologia do exerc\u00edcio mostra que essas experi\u00eancias constroem uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria afetiva, que influencia \u2014muitas vezes de forma autom\u00e1tica\u2014 a decis\u00e3o de repetir ou evitar o comportamento. Sentimentos de autonomia, compet\u00eancia e pertencimento tamb\u00e9m entram nessa equa\u00e7\u00e3o: s\u00e3o necessidades psicol\u00f3gicas fundamentais para sustentar a motiva\u00e7\u00e3o ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, fatores mais amplos n\u00e3o podem ser ignorados. Mudan\u00e7as sociais como urbaniza\u00e7\u00e3o, uso intensivo de tecnologias e redu\u00e7\u00e3o do movimento no trabalho e no deslocamento, contribu\u00edram para um cotidiano estruturalmente mais sedent\u00e1rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, nem toda atividade f\u00edsica \u00e9 equivalente: esfor\u00e7os intensos e repetitivos em contextos de trabalho, com baixa autonomia e alto desgaste, nem sempre produzem os mesmos benef\u00edcios \u00e0 sa\u00fade que atividades realizadas no lazer. Esse chamado &#8220;paradoxo da atividade f\u00edsica&#8221; refor\u00e7a a necessidade de abordagens mais nuan\u00e7adas.<\/p>\n<p>Novos pontos de vista<\/p>\n<p>A ci\u00eancia ainda est\u00e1 avan\u00e7ando nessa resposta, mas o que encontramos at\u00e9 agora indica alguns caminhos consistentes. Pessoas tendem a relatar mais prazer em atividades de intensidade leve a moderada (embora algumas prefiram intensidades mais elevadas), realizadas em ambientes agrad\u00e1veis \u2014como ao ar livre e em contato com a natureza. Tornar o exerc\u00edcio uma atividade social, incorporar m\u00fasica e, sobretudo, permitir algum grau de escolha e autonomia tamb\u00e9m s\u00e3o estrat\u00e9gias que favorecem a ader\u00eancia.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, as evid\u00eancias apontam para uma mudan\u00e7a importante de perspectiva. Se quisermos, de fato, aumentar os n\u00edveis de atividade f\u00edsica da popula\u00e7\u00e3o, precisamos ir mais al\u00e9m do que dizer \u00e0s pessoas o quanto e por que se exercitar. \u00c9 necess\u00e1rio considerar como elas vivenciam essa pr\u00e1tica no cotidiano.<\/p>\n<p>Isso implica valorizar outras dimens\u00f5es muitas vezes negligenciadas: prazer, autonomia, contexto social e benef\u00edcios imediatos. Talvez estejamos mais interessados no que podemos ganhar no curto prazo quando nos movimentamos \u2014e esses ganhos s\u00e3o potentes, reais e come\u00e7am no momento em que o corpo entra em a\u00e7\u00e3o, como melhora do humor, redu\u00e7\u00e3o da ansiedade e sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar.<\/p>\n<p>Em outras palavras, pode ser que o caminho n\u00e3o seja refor\u00e7ar apenas que o exerc\u00edcio &#8220;faz bem no futuro&#8221;, mas ajudar as pessoas a entender que ele j\u00e1 vale a pena agora. Porque, no fim, voc\u00ea precisa se sentir bem para querer repetir. E talvez seja essa invers\u00e3o de l\u00f3gica que esteja faltando: entender que o exerc\u00edcio f\u00edsico n\u00e3o serve apenas para adicionar anos \u00e0 vida \u2014mas para adicionar vida aos anos.<\/p>\n<p class=\"tagline\">O texto foi publicado originalmente no The Conversation. Leia <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/nao-se-culpe-a-ciencia-explica-por-que-e-tao-dificil-trocar-o-sofa-pelo-exercicio-regular-282810\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">aqui<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Voc\u00ea provavelmente j\u00e1 se cansou de ouvir que a atividade f\u00edsica faz bem e deveria pratic\u00e1-la. 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