{"id":392802,"date":"2026-05-24T08:19:17","date_gmt":"2026-05-24T08:19:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/392802\/"},"modified":"2026-05-24T08:19:17","modified_gmt":"2026-05-24T08:19:17","slug":"gorringe-o-nosso-tesouro-no-fundo-do-mar-mostrado-em-documentario-televisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/392802\/","title":{"rendered":"Gorringe, o nosso tesouro no fundo do mar, mostrado em document\u00e1rio | Televis\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A luz brilhante que torna quase irreais as florestas de algas a ondular e os peixes que passam pela c\u00e2mara como dardos com tra\u00e7os de amarelo impressionam. \u201cAs \u00e1guas no Gorringe s\u00e3o t\u00e3o cristalinas que cheg\u00e1mos a ver as grandes florestas de lamin\u00e1rias [algas] a mais de 60 a 70 metros de profundidade. Junto a Portugal continental crescem at\u00e9 aos 15, 20 metros, no m\u00e1ximo\u201d, conta Nuno S\u00e1. Fot\u00f3grafo e vide\u00f3grafo submarino premiado, \u00e9 ele o realizador do document\u00e1rio Gorringe, o Gigante do Atl\u00e2ntico, que a SIC exibe neste domingo, \u00e0s 12h.<\/p>\n<p>Muitos portugueses podem ter ouvido falar do banco de Gorringe porque foi apontado como uma das poss\u00edveis origens do <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2005\/10\/30\/jornal\/origem-do-terramoto-permanece--um-misterio-46358\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">terramoto (e tsunami) de 1755<\/a> que destruiu Lisboa e grande parte da costa portuguesa. Mas continua a ser mais ou menos segredo que esta \u00e9 a montanha mais alta da Europa, s\u00f3 que est\u00e1 debaixo do mar, e \u00e9 uma arca do tesouro.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio Gorringe, o Gigante do Atl\u00e2ntico resulta dos trabalhos feitos durante a <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2024\/10\/26\/azul\/reportagem\/raias-gravidas-florestas-algas-bemvindos-gorringe-refugio-vida-marinha-2108839\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">miss\u00e3o cient\u00edfica<\/a> de Setembro de 2024, conduzida pelo Estado portugu\u00eas e pela Funda\u00e7\u00e3o Oceano Azul, bem como por mais algumas institui\u00e7\u00f5es internacionais. E o que mostra \u00e9 um cen\u00e1rio \u00fanico, a cerca de 222 quil\u00f3metros para sudoeste do cabo de S\u00e3o Vicente, que provou ser uma caixinha de surpresas.<\/p>\n<p>Vemos golfinhos, imagens impressionantes do esguicho a grande altura de uma baleia, e multid\u00f5es de l\u00edrios, peixes que n\u00e3o gostam muito de ser pescados, mas que foram uma companhia constante dos mergulhadores. E florestas de algas que lembram cabelos de sereia.<\/p>\n<p>Tapetes de tremelgas<\/p>\n<p>O maior mist\u00e9rio \u00e9 ter-se descoberto ali uma <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2024\/10\/26\/azul\/reportagem\/raias-gravidas-florestas-algas-bemvindos-gorringe-refugio-vida-marinha-2108839\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">aglomera\u00e7\u00e3o de tremelgas<\/a>, ou raias el\u00e9ctricas \u2014 ficam umas em cima das outras, como uma manta de retalhos, poisadas no fundo. Levou algum tempo at\u00e9 os cientistas perceberem algo ainda mais surpreendente: eram todas f\u00eameas, e estavam todas gr\u00e1vidas. Tinha-se descoberto um ber\u00e7\u00e1rio de tremelgas, como nunca tinha sido descrito em lado algum no mundo.<\/p>\n<p>\u201cParecem fazer viagens bastante longas para chegar a este s\u00edtio espec\u00edfico no meio do Oceano Atl\u00e2ntico para se reproduzirem\u201d, diz <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/06\/20\/azul\/noticia\/documentario-nuno-sa-desvenda-misterio-tubaroesbaleia-visitam-ilha-santa-maria-2010688\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">Nuno S\u00e1<\/a>. \u201cNa minha vida inteira se calhar vi menos de dez tremelgas em mergulhos na costa continental portuguesa. E ali v\u00edamos centenas por mergulho. E estavam sempre amontoadas umas em cima das outras\u201d, relata.<\/p>\n<p>Porqu\u00ea, n\u00e3o se sabe ainda. \u201cPode ser por uma quest\u00e3o de regula\u00e7\u00e3o da temperatura. Ou talvez tenha a ver com as suas t\u00e9cnicas de protec\u00e7\u00e3o: elas conseguem emitir descargas el\u00e9ctricas muito fortes. E estando ali, todas deitadas em cima umas das outras&#8230; Deve ser pouco apelativo para qualquer predador aproximar-se de um grupo de raias el\u00e9ctricas\u201d, sugere o fot\u00f3grafo submarino.<\/p>\n<p>O facto de ali existir uma maternidade de tremelgas ajuda a explicar por que \u00e9 que o Gorringe \u00e9 t\u00e3o especial. \u201cNo meio da imensid\u00e3o do Atl\u00e2ntico, h\u00e1 uma montanha gigante, muito isolada, que vem desde mais de 5000 metros de profundidade quase at\u00e9 \u00e0 superf\u00edcie. Isto cria um o\u00e1sis no meio deste deserto gigante azul, porque imensas esp\u00e9cies precisam de ter contacto com o fundo marinho. Os montes submarinos s\u00e3o como que uma esta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o numa auto-estrada gigante, onde se junta uma quantidade de vida enorme\u201d, explica Nuno S\u00e1.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        As raias el\u00e9ctricas, ou tremelgas, gr\u00e1vidas, que se aglomeram no fundo do mar, foram a maior surpresa da expedi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#13;<br \/>\nJordi Chias\/Funda\u00e7\u00e3o Oceano Azul                    &#13;<\/p>\n<p>Os cientistas tamb\u00e9m chamam \u201cstepping stones\u201d a estas \u00e1reas: zonas de paragem que permitem aos grandes viajantes do oceano descansar, comer, reproduzir-se.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por um lado, o Gorringe pode ser descrito como um ecossistema pr\u00edstino, como seria a costa portuguesa h\u00e1 milhares ou milh\u00f5es de anos, e onde a miss\u00e3o cient\u00edfica de 2024 n\u00e3o detectou esp\u00e9cies invasoras. Mas, ao mesmo tempo, \u00e9 um ecossistema em desequil\u00edbrio, porque os predadores de topo, como os tubar\u00f5es, basicamente desapareceram, v\u00edtimas da pesca desregulada. E a salvaguarda daquela zona, embora esteja a ser criada uma \u00e1rea marinha protegida, est\u00e1 longe de assegurada.<\/p>\n<p>Pesca n\u00e3o pode continuar ali<\/p>\n<p>O Gorringe foi inclu\u00eddo no projecto da nova <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2026\/01\/20\/azul\/noticia\/nova-reserva-marinha-d-carlos-gorringe-madeiratore-ficara-parte-altomar-2161724\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">Reserva Natural Marinha D. Carlos<\/a>, com uma \u00e1rea de 173 mil quil\u00f3metros quadrados \u2014 quase o dobro da \u00e1rea de Portugal em terra. O projecto esteve em consulta p\u00fablica no in\u00edcio deste ano, mas o Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (CNADS) recomendou em Mar\u00e7o ao Governo que o reveja, porque n\u00e3o assegura os objectivos de conserva\u00e7\u00e3o enunciados.<\/p>\n<p>O principal problema \u00e9 permitir a <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2026\/03\/13\/azul\/noticia\/conselho-ambiente-recomenda-revisao-reserva-marinha-d-carlos-2167826\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">continuidade de t\u00e9cnicas de pesca<\/a> n\u00e3o compat\u00edveis com a preserva\u00e7\u00e3o dos valores naturais. \u201c\u00c9 uma iniciativa, e uma ambi\u00e7\u00e3o completamente de louvar. Tem \u00e9 de ser implement\u00e1vel\u201d, alerta Ester Serr\u00e3o, l\u00edder do grupo de Biogeografia, Ecologia e Evolu\u00e7\u00e3o do Centro de Ci\u00eancias do Mar da Universidade do Algarve, uma das cientistas (e mergulhadoras) que participaram no document\u00e1rio e que nos ajudam a compreender o que as imagens mostram.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Dois golfinhos-pintados-do-atl\u00e2ntico, uma companhia frequente dos navios e dos mergulhadores na zona do Gorringe&#13;<br \/>\nJ.A.Silva\/Funda\u00e7\u00e3o Oceano Azul                    &#13;<\/p>\n<p>\u201cSe for uma \u00e1rea protegida gigante e sem restri\u00e7\u00f5es \u00e0 pesca espec\u00edfica, na verdade \u00e9 s\u00f3 p\u00f4r um nome, continua a ser tudo igual. \u00c9 uma reserva no papel\u201d, sustenta. Al\u00e9m do maravilhamento perante a descoberta daquele o\u00e1sis, a mensagem mais forte do document\u00e1rio \u00e9 a necessidade de proteger o Gorringe da pesca predat\u00f3ria. \u201cNaquela zona, concentra-se uma quantidade impressionante de esfor\u00e7o de pesca, porque \u00e9 uma zona riqu\u00edssima, onde se concentram-se muitas esp\u00e9cies\u201d, relata a cientista da Universidade do Algarve.<\/p>\n<p>Tubar\u00f5es desaparecidos<\/p>\n<p>\u201cNo Gorringe devia haver tubar\u00f5es em grande abund\u00e2ncia, que est\u00e3o no topo da cadeia alimentar, e n\u00e3o os vimos de todo. E est\u00e1vamos a largar isco para os atrair\u201d, aponta tamb\u00e9m Nuno S\u00e1. \u201cO excesso de pesca simplesmente varreu o topo da cadeia alimentar dali.\u201d<\/p>\n<p>Continua a existir uma pesca intensiva, sobretudo de palangre, dirigida a esp\u00e9cies de alto valor, como atum ou espadarte. Um palangre \u00e9 feito de linhas com anz\u00f3is e isco, dispostas ao longo de v\u00e1rios quil\u00f3metros. \u201cT\u00eam imensas embarca\u00e7\u00f5es, cada uma com palangres de quil\u00f3metros, para apanhar tudo o que nada por ali. Al\u00e9m do impacto colateral dos palangres, que \u00e9 apanhar nestas linhas tamb\u00e9m aves marinhas e outras esp\u00e9cies\u201d, diz Ester Serr\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas mesmo esta pesca j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que em tempos foi. \u201cO que me contaram pescadores, por exemplo de Sagres, \u00e9 que j\u00e1 nem v\u00e3o ao Gorringe porque j\u00e1 nem vale a pena, embora antigamente fosse de uma grande riqueza\u201d, salienta a cientista. \u201cContaram-nos que se organizavam viagens ao Gorringe s\u00f3 para pesca desportiva: deitavam isco e apareciam tantos, tantos tubar\u00f5es que, digamos, divertiam-se, era um desporto.\u201d<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Os mergulhadores encontraram multid\u00f5es de peixes&#13;<br \/>\nJordi Chias\/Funda\u00e7\u00e3o Oceano Azul                    &#13;<\/p>\n<p>Estas matan\u00e7as indiscriminadas e a sobrepesca contribuem para que hoje estejam <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2024\/03\/12\/azul\/noticia\/pesca-pos-14-tubaroes-profundidade-raias-risco-extincao-2083069\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">em risco muitas esp\u00e9cies de <\/a><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2024\/03\/12\/azul\/noticia\/pesca-pos-14-tubaroes-profundidade-raias-risco-extincao-2083069\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">tubar\u00e3o<\/a>. \u201cEnfim, isto se calhar acontecia por falta de educa\u00e7\u00e3o e de sensibiliza\u00e7\u00e3o!\u201d, admite Ester Serr\u00e3o. \u201cAs pessoas pensam que os recursos marinhos s\u00e3o inesgot\u00e1veis, porque [o mar] parece t\u00e3o grande. H\u00e1 sempre aquela sensa\u00e7\u00e3o de que dura para sempre, porque a natureza n\u00e3o se v\u00ea, est\u00e1 dentro de \u00e1gua\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 um tesouro escondido, sim. \u201cMas \u00e9 um tesouro sustent\u00e1vel. Se n\u00e3o o estragarmos, mant\u00e9m-se e vai crescendo, continua a dar juros, que s\u00e3o as esp\u00e9cies que saem dali e migram para a costa e v\u00e3o beneficiar outros ecossistemas. No fundo, o Gorringe \u00e9 como se fosse um capital que d\u00e1 juros.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A luz brilhante que torna quase irreais as florestas de algas a ondular e os peixes que passam&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":392803,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[10],"tags":[20726,785,2780,27,28,3697,1413,1414,15,16,20724,14,25,26,21,22,12,13,19,20,6760,9868,32,23,24,33,218,17,18,29,30,31],"class_list":["post-392802","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-portugal","tag-areas-marinhas-protegidas","tag-azul","tag-biodiversidade","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-conservacao-da-natureza","tag-cultura-ipsilon","tag-documentario","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-fundacao-oceano-azul","tag-headlines","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-main-news","tag-mainnews","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-oceano","tag-pesca","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-pt","tag-televisao","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/392802","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=392802"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/392802\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/392803"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=392802"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=392802"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=392802"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}