{"id":39365,"date":"2025-08-21T22:06:08","date_gmt":"2025-08-21T22:06:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/39365\/"},"modified":"2025-08-21T22:06:08","modified_gmt":"2025-08-21T22:06:08","slug":"yuko-tsushima-narra-vida-de-mae-solo-na-toquio-de-1970-21-08-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/39365\/","title":{"rendered":"Yuko Tsushima narra vida de m\u00e3e solo na T\u00f3quio de 1970 &#8211; 21\/08\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Duas qualidades sobressaem na leitura do belo &#8220;Territ\u00f3rio da Luz&#8221;, romance de 1979 da japonesa Yuko Tsushima, lan\u00e7ado h\u00e1 pouco por aqui.<\/p>\n<p>De cara, chama a aten\u00e7\u00e3o o modo como a autora d\u00e1 cores extraordin\u00e1rias \u00e0 banalidade da rotina de sua narradora, \u00e0s voltas com o trabalho como bibliotec\u00e1ria e a cria\u00e7\u00e3o da filha pequena, ap\u00f3s ter sido deixada pelo marido e se mudar para o apartamento ensolarado que d\u00e1 t\u00edtulo do livro.<\/p>\n<p>O cotidiano da personagem an\u00f4nima \u2014distante de n\u00f3s em tempo, lugar e cultura\u2014 vai ganhando vida, e estabelecemos com ele uma intimidade insuspeita \u00e0 medida que acompanhamos epis\u00f3dios triviais como discuss\u00f5es com vizinhos, um passeio pelo parque, <a href=\"https:\/\/f5.folha.uol.com.br\/viva-bem\/2023\/04\/descubra-o-que-seu-sonho-erotico-pode-revelar-sobre-voce.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">sonhos er\u00f3ticos<\/a> e\/ou assustadores e reencontros tensos com o ex-marido.<\/p>\n<p>Publicado originalmente de forma seriada, os cap\u00edtulos funcionando como epis\u00f3dios-s\u00edntese do momento de transi\u00e7\u00e3o da narradora, o romance pouco a pouco constr\u00f3i uma vida bastante tang\u00edvel.<\/p>\n<p>N\u00f3s nos aproximamos, sim, mas sem deixar de sentir um alheamento perene, como se a personagem, ao revelar seus afetos mais comezinhos, deixasse claro que h\u00e1 algo de impenetr\u00e1vel em cada um \u2014algo que se mostra tanto mais alheio quanto mais honesta e minuciosa \u00e9 a forma como o expressamos.<\/p>\n<p>A luz se espalha por todo o romance: no piso do apartamento; no c\u00e9u que brilha ap\u00f3s um explos\u00e3o; nas arvores que refletem o sol; nos pequenos fogos de artif\u00edcio em uma festividade; na explos\u00e3o de uma f\u00e1brica. Essa luminosidade funciona tamb\u00e9m de maneira aleg\u00f3rica, j\u00e1 que os pensamentos e afetos da narradora s\u00e3o expostos por ela com uma clareza e objetividade que ofuscam.<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>Essa luminosidade paradoxal define a segunda qualidade extraordin\u00e1ria do romance: com sua dic\u00e7\u00e3o franca e inquieta, mas sem melodrama nenhum, a narradora de Tsushima nos traz para perto sem nunca nos deixar esquecer seu isolamento brutal.<\/p>\n<p>Apesar de todos podermos nos identificar com ao menos parte de suas ang\u00fastias e desejos, h\u00e1 uma barreira entre n\u00f3s e ela, ainda mais dura e interessante quando se trata da experi\u00eancia de leitores brasileiros distantes quase meio s\u00e9culo do contexto da narrativa.<\/p>\n<p>Essa sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ada pela tradu\u00e7\u00e3o de Rita Kohl, que realiza o dif\u00edcil feito de dosar a coloquialidade da voz narrativa com a estranheza intr\u00ednseca tanto \u00e0 dist\u00e2ncia individual quanto \u00e0 cultural, que se torna parte importante da leitura. Essa tens\u00e3o se d\u00e1 a ver com for\u00e7a sobretudo nas muitas intera\u00e7\u00f5es que a jovem m\u00e3e estabelece com chefes, amigas, m\u00e3es de colegas da filha, desconhecidos, amantes.<\/p>\n<p>Tsushima \u00e9 mais uma de muitas autoras estrangeiras que, tendo escrito seus romances h\u00e1 d\u00e9cadas, est\u00e3o agora sendo traduzidas aqui pela primeira vez. Ela vem se juntar a nomes t\u00e3o interessantes e diversos quanto <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2022\/05\/caderno-proibido-traz-quarentona-que-inspirou-obra-de-elena-ferrante.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Alba de C\u00e9spedes<\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/11\/como-tove-ditlevsen-antecipou-autoficcao-ao-falar-de-pobreza-amor-e-vicios.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Tove Ditlevsen<\/a>, em uma resposta bem-vinda \u00e0 demanda do mercado por narrativas \u00edntimas de mulheres, com o privil\u00e9gio de temas como a maternidade, a sexualidade e a tens\u00e3o entre a vida dom\u00e9stica e a profissional.<\/p>\n<p>Em &#8220;Territ\u00f3rio da Luz&#8221;, a rela\u00e7\u00e3o da narradora com a filha, que passa de dois a tr\u00eas anos no decorrer dos meses narrados, \u00e9 objeto das passagens mais duras e tamb\u00e9m das mais ternas. O cansa\u00e7o faz suas rea\u00e7\u00f5es \u00e0s fragilidades da menina por vezes beirarem a crueldade, mas \u00e9 tamb\u00e9m com ela que a jovem m\u00e3e estabelece a cumplicidade mais doce e alegre.<\/p>\n<p>\u00c9 arrebatador o trecho em que as duas encontram um homem b\u00eabado ca\u00eddo na rua, e a menina pede que a m\u00e3e cuide do &#8220;dod\u00f3i&#8221; do desconhecido.<\/p>\n<p>Talvez, por\u00e9m, os momentos mais definidores do romance sejam aqueles que a narradora compartilha de forma prec\u00e1ria com personagens quase sempre an\u00f4nimos, em parques, bares, ruas que nos transportam para uma T\u00f3quio t\u00e3o confusa quanto palp\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 nesses instantes brev\u00edssimos que ela parece se sentir mais amparada, em lampejos de reconhecimento entre solid\u00f5es. Todas as passagens terminam de forma melanc\u00f3lica, assim como o livro, mas fica em n\u00f3s a sensa\u00e7\u00e3o de algo compartilhado, ao menos at\u00e9 o estreito limite do comunic\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Duas qualidades sobressaem na leitura do belo &#8220;Territ\u00f3rio da Luz&#8221;, romance de 1979 da japonesa Yuko Tsushima, lan\u00e7ado&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":39366,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[367,169,114,115,1907,236,461,864,237,170,32,33],"class_list":{"0":"post-39365","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-asia","9":"tag-books","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-escritores","13":"tag-folha","14":"tag-japao","15":"tag-literatura","16":"tag-livro","17":"tag-livros","18":"tag-portugal","19":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39365","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39365"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39365\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39366"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39365"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39365"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39365"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}