{"id":395493,"date":"2026-05-26T11:49:18","date_gmt":"2026-05-26T11:49:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/395493\/"},"modified":"2026-05-26T11:49:18","modified_gmt":"2026-05-26T11:49:18","slug":"miles-davis-comprometeu-seu-jazz-engajado-a-vida-25-05-2026-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/395493\/","title":{"rendered":"Miles Davis comprometeu seu jazz engajado \u00e0 vida &#8211; 25\/05\/2026 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Efem\u00e9rides costumam remeter a monumentos intactos e fi\u00e9is ao ponto zero de origem. N\u00e3o raro, tamb\u00e9m t\u00eam cheiro de naftalina. Da\u00ed n\u00e3o ter cabimento ir a um <a href=\"https:\/\/acervofolha.blogfolha.uol.com.br\/2016\/09\/28\/ha-25-anos-miles-davis-colocou-jazz-de-luto\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Miles Davis<\/a>, cujo centen\u00e1rio \u00e9 lembrado nesta ter\u00e7a-feira (26), para um mero &#8220;in memoriam&#8221;.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque o trompetista e astro do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/jazz\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">jazz<\/a> n\u00e3o est\u00e1 esquecido \u2014continua refer\u00eancia, tal <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/06\/1895466-saxofonista-john-coltrane-e-homenageado-na-colecao-folha.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">John Coltrane<\/a>, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/04\/1877246-voz-de-billie-holiday-a-fez-superar-vida-de-problemas.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Billie Holiday<\/a>, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq24119819.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Thelonious Monk<\/a>, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1994\/4\/25\/ilustrada\/9.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Duke Ellington<\/a>, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/livrariadafolha\/802803-nos-anos-1960-louis-armstrong-era-considerado-popular-demais-para-ser-bom.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Louis Armstrong<\/a>. E tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/beatles\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Beatles<\/a>, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/rolling-stones\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Rolling Stones<\/a>, Elvis, Sinatra, Jimi Hendrix, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/michael-jackson\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Michael Jackson<\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/prince\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Prince<\/a>.<\/p>\n<p>Miles Davis, o artista e o ser, n\u00e3o carece de resgate ou reconhecimento. Sua obra est\u00e1 toda ela documentada e acess\u00edvel. As plataformas de streaming trazem a sua monumental obra sonora. YouTube e Instagram trazem um Davis em shows, premia\u00e7\u00f5es como o Grammy, entrevistas, document\u00e1rios e clipes.<\/p>\n<p>At\u00e9 alguns raros e, por isso, lend\u00e1rios shows que o trompetista fez nos teatros municipais do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo, em 1974. Imagens em movimento perdidas ou jamais captadas, mas registros fotogr\u00e1ficos e sonoros confirmam o evento.<\/p>\n<p>O septeto fez varia\u00e7\u00f5es e derivados do funk jazz que o disco &#8220;On the Corner&#8221; tinha lan\u00e7ado em 1972, num show em que seu l\u00edder ficou de costas para uma plateia majoritariamente branca e com pouqu\u00edssimos negros.<\/p>\n<p>Era Davis, desde sempre, criticando o elitismo e, mais importante, a total falta de entendimento sobre o que seria, de fato, a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/arte\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">arte<\/a> negra. Fort\u00edssimo, engajado, irreverente e ricamente est\u00e9tico, o gesto revelava n\u00e3o s\u00f3 o artista, mas o que vinha com ele, antes e junto.<\/p>\n<p>Inventariar Davis e sua obra a partir da est\u00e9tica \u2014uma <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/musica\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">m\u00fasica<\/a>, atitude ou gesto\u2014 \u00e9 um meio de acessar a experi\u00eancia do mundo. \u00c9 dessa iman\u00eancia material t\u00edpica do processo hist\u00f3rico que surgem, por exemplo, discos como &#8220;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2019\/08\/saiba-quem-tocou-em-cada-faixa-de-kind-of-blue-disco-que-completa-60-anos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Kind of Blue<\/a>&#8221; e &#8220;In a Silent Way&#8221;.<\/p>\n<p>A arte nasce da mat\u00e9ria da vida, pura rea\u00e7\u00e3o ao estado das coisas. Mesmo a dire\u00e7\u00e3o mais espiritual da arte de um John Coltrane nasce de uma situa\u00e7\u00e3o de mundo.<\/p>\n<p>Mundano por excel\u00eancia, Davis comprometeu sua arte \u00e0 vida, e vice-versa. O modo de estar no mundo pautou as v\u00e1rias revolu\u00e7\u00f5es feitas pelo trompetista \u2014todas elas num vi\u00e9s de inova\u00e7\u00e3o, inconformismo, pol\u00eamica e vanguarda absoluta.<\/p>\n<p>Davis e seu modo de estar no mundo definem melhor o que \u00e9 essencial na experi\u00eancia art\u00edstica de um autor e tamb\u00e9m da recep\u00e7\u00e3o \u2014remetendo \u00e0 ideia pronta, mas que faz certo sentido, de que a &#8220;arte transforma&#8221;.<\/p>\n<p>Encontrar Davis vivo neste ano \u00e9 procurar por algo do s\u00e9culo 20 que emana ainda hoje. Seria como o tren\u00f3 do protagonista de &#8220;Cidad\u00e3o Kane&#8221;, de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2025\/12\/melhor-livro-sobre-orson-welles-no-brasil-finalmente-chega-ao-pais.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Orson Welles<\/a>, revelado ao espectador gra\u00e7as ao fen\u00f4meno cinematogr\u00e1fico da exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A biografia de Davis poderia at\u00e9 come\u00e7ar pela sua \u00faltima fase, entre 1981 e 1991, que parece distinta da intensidade das outras d\u00e9cadas. Davis voltava \u00e0 cena do jazz com um temperamento nada irasc\u00edvel. Mais amoroso e sereno, mas ainda rigoroso e mantendo o mesmo \u00edmpeto de levar o jazz \u00e0 fric\u00e7\u00e3o e ao di\u00e1logo com outros estilos sonoros.<\/p>\n<p>&#8220;The Man with the Horn&#8221;, de 1981, era um reencontro com certas ra\u00edzes ancestrais do jazz junto a sons contempor\u00e2neos. &#8220;Decoy&#8221;, de 1983, assim como &#8220;You\u2019re Under Arrest&#8221;, de 1985, teria Davis performando como um g\u00e2ngster e contando com parceiros de longa data como Al Foster e John McLaughlin, junto a releituras de m\u00fasicas <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/pop\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">pop<\/a> de Michael Jackson e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2024\/06\/cyndi-lauper-diz-que-foi-inclusiva-e-debateu-temas-como-aids-antes-de-ser-moda.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Cyndi Lauper<\/a>.<\/p>\n<p>Davis se tornou uma figura mais pop nesses anos. Fez uma apari\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, mas marcante, como um cafet\u00e3o num epis\u00f3dio da s\u00e9rie &#8220;Miami Vice&#8221; e, mais tarde, em 1991, num filme australiano chamado &#8220;Dingo&#8221;.<\/p>\n<p>Era o per\u00edodo do Miles Davis de roupas ultracoloridas, mascando chiclete o tempo todo e mantendo intacto o impulso de incorporar novos estilos ao jazz, como o hip-hop \u2014influ\u00eancia que aparece em &#8220;Doo-Bop&#8221;, disco inacabado em que trabalhava quando morreu, em 28 de setembro de 1991.<\/p>\n<p>A \u00faltima d\u00e9cada n\u00e3o deixa de ser uma reitera\u00e7\u00e3o de quem foi Davis. O abatimento f\u00edsico, nos seus \u00faltimos anos, dava contornos interessantes \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. At\u00e9 na pintura Davis enveredou. E, tal a m\u00fasica, fez uma obra neoabstrata que reprocessou cubismo, Kandinsky, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/04\/veja-principais-obras-de-pablo-picasso-pintor-cubista-morto-ha-50-anos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Picasso <\/a>e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/01\/quem-foi-jean-michel-basquiat-o-genio-que-se-tornou-o-artista-negro-mais-valorizado-do-mundo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Basquiat<\/a>.<\/p>\n<p>Em 1988, numa entrevista em Munique, na Alemanha, onde o m\u00fasico tocaria, dissertou sobre a rela\u00e7\u00e3o entre cores e sons. E ficou patente o quanto Davis tinha um entendimento &#8220;de cena&#8221;, visual e perform\u00e1tico, sobre o jazz.<\/p>\n<p>A ideia salta a 1955, quando Davis, em Paris por motivos de m\u00fasica, \u00e9 convidado por Louis Malle para compor a trilha sonora de &#8220;Ascensor para o Cadafalso&#8221;. Ele improvisou, em tempo real, enquanto via o filme montado e Jeanne Moreau na tela andando perdida pelas ruas. A experi\u00eancia coloca Davis como um artista de cinema \u2014e um gal\u00e3 em cena.<\/p>\n<p>Voltando ao Davis do in\u00edcio de tudo, filho de uma fam\u00edlia abastada que lhe deu acesso ao ensino musical e que, por isso, o fez mudar de uma fazenda no Illinois, onde nasceu, para a Nova York da efervescente cena do jazz.<\/p>\n<p>&#8220;Subversivo&#8221;, o bebop desprezava o jazz dan\u00e7ante e militava por uma maior lat\u00eancia e materialidade sonora, aberto \u00e0 improvisa\u00e7\u00e3o total que permitia um certo &#8220;caos&#8221; mel\u00f3dico e ritmo mais alucinante.<\/p>\n<p>Davis entrou no jogo, mas n\u00e3o pela intensidade sonora. O som que sa\u00eda de seu trompete era marcante e de uma for\u00e7a polida, sem as &#8220;limalhas&#8221; sonoras que o bebop emanava nos sopros e dedilhares intensos.<\/p>\n<p>O cool jazz tinha mais a ver com Davis, em sons ao mesmo tempo firmes e suaves, lan\u00e7ando aos t\u00edmpanos uma melodia envolvente e notas mais escassas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 intensidade do bebop. A sensibilidade do cool em &#8220;Round About Midnight&#8221; e &#8220;Birth of the Cool&#8221; trazia sedu\u00e7\u00e3o e imers\u00e3o hipn\u00f3tica.<\/p>\n<p>Nascia a seguir o jazz modal, que concedia improvisa\u00e7\u00f5es mais complexas e pistas sonoras aut\u00f4nomas dialogando entre si. Obra-prima absoluta, &#8220;Kind of Blue&#8221;, de 1959, com suas duas notas na faixa &#8220;So What&#8221; se tornou uma refer\u00eancia. Ali\u00e1s, ali estavam John Coltrane, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2026\/02\/bill-evans-expoente-do-jazz-tem-a-vida-e-lutos-revistos-em-filme-na-berlinale.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Bill Evans<\/a>, Paul Chambers, Jimmy Cobb e Cannobal Adderley.<\/p>\n<p>Davis daria um sutil in\u00edcio ao fusion ao incorporar a m\u00fasica cl\u00e1ssica e latina ao jazz em &#8220;Sketches of Spain&#8221;, de 1960. Nos anos seguintes, o m\u00fasico enveredaria pelo p\u00f3s-bop, estilo mais abstrato e aberto a flutua\u00e7\u00f5es mais livres.<\/p>\n<p>&#8220;In a Silent Way&#8221;, de 1969, marca a passagem do &#8220;jazz de ontem&#8221; para o &#8220;jazz do agora&#8221;. Este disco trazia os sons eletrificados, mas numa esp\u00e9cie de convite sutil e sedutor ao que viria um ano depois na obra-prima &#8220;Bitches Brew&#8221;.<\/p>\n<p>Amigado com o rock\u2019n\u2019roll, o jazz ali ganhava acesso a novos espa\u00e7os, p\u00fablicos e uma revis\u00e3o sobre o que de fato seria o g\u00eanero. Em 1972, &#8220;On the Corner&#8221; se entrosa mais com o funk, o orientalismo e uma express\u00e3o de palco e som mais lis\u00e9rgico, hipn\u00f3tico. A disson\u00e2ncia \u00e9 incorporada na experi\u00eancia sonora.<\/p>\n<p>Vez e outra tomado pela hero\u00edna nos anos 1950, Davis radicalizaria no consumo de \u00e1lcool, coca\u00edna e, por consequ\u00eancia, os registros de shows que fez nos anos 1970 traziam um Davis com semblante vidrado, como tomado por uma for\u00e7a letal e destrutiva.<\/p>\n<p>Davis sairia de cena por seis anos, entre 1976 e 1981, num ex\u00edlio embebido de morfina, code\u00edna, vodca e u\u00edsque. Algo pr\u00f3ximo de um Napole\u00e3o que conseguiu voltar da ilha de Santa Helena. Fruto de um estar no mundo real, sua obra acabou ganhando propor\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias, sen\u00e3o cinematogr\u00e1ficas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Efem\u00e9rides costumam remeter a monumentos intactos e fi\u00e9is ao ponto zero de origem. 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