{"id":39635,"date":"2025-08-22T01:55:43","date_gmt":"2025-08-22T01:55:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/39635\/"},"modified":"2025-08-22T01:55:43","modified_gmt":"2025-08-22T01:55:43","slug":"ferias-de-agosto-a-luta-de-classes-em-tom-de-comedia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/39635\/","title":{"rendered":"&#8216;F\u00e9rias de Agosto&#8217;. A luta de classes em tom de com\u00e9dia"},"content":{"rendered":"<p>De algumas cinematografias nacionais, diz-se que t\u00eam dificuldade em refletir as din\u00e2micas sociais do seu pr\u00f3prio pa\u00eds \u2014 a produ\u00e7\u00e3o portuguesa poder\u00e1 ser um caso a justificar uma an\u00e1lise atenta. Essas cinematografias mostram ainda mais dificuldade em espelhar tais din\u00e2micas atrav\u00e9s do registo c\u00f3mico \u2014 tamb\u00e9m a\u00ed, o caso portugu\u00eas merece ser analisado. Pois bem, nada disso constitui um problema no interior da produ\u00e7\u00e3o de It\u00e1lia. A partir desta quinta-feira nas salas, eis mais uma prova simples e esclarecedora: <strong>F\u00e9rias de Agosto<\/strong><strong>, de Paolo Virz\u00ec, consegue ser, de uma s\u00f3 vez, um espelho cr\u00edtico da sociedade italiana e uma com\u00e9dia de contagiante energia.<\/strong><\/p>\n<p>Em boa verdade, a express\u00e3o \u201cespelho cr\u00edtico\u201d \u00e9 discut\u00edvel. N\u00e3o se trata de propor uma tese social, nem sequer de favorecer a ideia de que um filme existe como um relat\u00f3rio \u201csociol\u00f3gico\u201d sobre o que quer que seja. Na melhor tradi\u00e7\u00e3o de um cinema que, para todos os efeitos, sempre foi genuinamente social (ser\u00e1 preciso relembrar o valor hist\u00f3rico e simb\u00f3lico do neorrealismo?), <strong>aquilo a que assistimos em <\/strong><strong>F\u00e9rias de Agosto<\/strong><strong> envolve uma h\u00e1bil cria\u00e7\u00e3o de personagens e, em paralelo com o trabalho de argumento, a atribui\u00e7\u00e3o dessas personagens a atores cuja alegria de representar continuam a surpreender-nos.<\/strong><\/p>\n<p>O filme organiza-se como um labirinto \u201ccoral\u201d em que, n\u00e3o havendo um centro dominante, ningu\u00e9m \u00e9 meramente decorativo ou aned\u00f3tico. Partilhando a autoria do argumento com o seu irm\u00e3o Carlo Virz\u00ec e ainda Francesco Bruni, <strong>o realizador coloca em cena duas fam\u00edlias que, nas f\u00e9rias de ver\u00e3o, se cruzam numa ilha do mar Tirreno.<\/strong><\/p>\n<p>Duas personagens polarizam os acontecimentos: Sandro Molino (interpretado por Silvio Orlando, nosso conhecido de alguns filmes de Nanni Moretti), veterano da luta antifascista que n\u00e3o quer deixar morrer as mem\u00f3rias pol\u00edticas que o cen\u00e1rio evoca, e Sabry Mazzalupi (Anna Ferraioli Ravel), vedeta das futilidades \u201csociais\u201d da internet que vai casar com aquele que \u00e9 uma esp\u00e9cie de empres\u00e1rio, encenador e explorador das suas proezas em rede.<\/p>\n<p><strong>Constru\u00eddo atrav\u00e9s de cenas curtas, mas sempre significativas (o trabalho de montagem distingue-se por uma agilidade sem ostenta\u00e7\u00e3o), <\/strong><strong>F\u00e9rias de Agosto<\/strong><strong> evolui como um turbilh\u00e3o de humor em que, a pouco e pouco, se vai insinuando um misto de melancolia e amargura<\/strong> \u2014 e lembramo-nos da heran\u00e7a plural de cineastas como Mario Monicelli (1915-2010) e Dino Risi (1916-2008), autores de t\u00edtulos emblem\u00e1ticos como Gangsters Falhados (1958) e A Ultrapassagem (1962), respetivamente.<\/p>\n<p>No limite, est\u00e1 em jogo uma verdadeira par\u00e1bola sobre a luta de classes. N\u00e3o em termos panflet\u00e1rios, muito menos partid\u00e1rios, antes como paciente observa\u00e7\u00e3o de um estado de coisas em que as rela\u00e7\u00f5es mercantis se v\u00e3o sobrepondo aos restos de solidariedade ou compaix\u00e3o humana. Observe-se a pobre Sabry, caricatura muito realista das mais pat\u00e9ticas influencers, condenada a publicar a sua imagem di\u00e1ria de \u201calegria de viver\u201d enquanto vai chorando as agruras do seu destino.<\/p>\n<p><strong>Outra vez as f\u00e9rias<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e9rias de Agosto (t\u00edtulo original: Un Altro Ferragosto) n\u00e3o \u00e9 apenas um relato consciente das mem\u00f3rias sociais (de outros modos de viver) que as personagens transportam. Elas pertencem tamb\u00e9m \u00e0 mem\u00f3ria da pr\u00f3pria filmografia de Paolo Virz\u00ec, j\u00e1 que o novo filme resulta do reencontro com personagens e cen\u00e1rios que ele filmara em Ferie d\u2019Agosto (1996), com um argumento em que Francesco Bruni tamb\u00e9m j\u00e1 participava.<\/p>\n<p>Assim, al\u00e9m de Silvio Orlando, encontramos os \u201crepetentes\u201d Sabrina Ferrili, Laura Morante, Gigio Alberti e Claudia Della Seta. Sem esquecer a presen\u00e7a exuberante de Christian De Sica (filho de Vittorio De Sica) no papel obrigat\u00f3rio do \u201cengenheiro\u201d \u2014 isto porque, bem entendido, n\u00e3o h\u00e1 com\u00e9dia italiana que dispense o requinte pol\u00edtico de um glorioso \u201cengenheiro\u201d&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"De algumas cinematografias nacionais, diz-se que t\u00eam dificuldade em refletir as din\u00e2micas sociais do seu pr\u00f3prio pa\u00eds \u2014&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":39636,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[4503,470,306,114,115,4502,147,148,146,32,33],"class_list":{"0":"post-39635","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-as-estreias-da-semana","9":"tag-cinema","10":"tag-edicao-impressa","11":"tag-entertainment","12":"tag-entretenimento","13":"tag-estreias-da-semana","14":"tag-film","15":"tag-filmes","16":"tag-movies","17":"tag-portugal","18":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39635","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39635"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39635\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39636"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39635"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39635"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39635"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}