{"id":401725,"date":"2026-05-31T17:27:14","date_gmt":"2026-05-31T17:27:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/401725\/"},"modified":"2026-05-31T17:27:14","modified_gmt":"2026-05-31T17:27:14","slug":"a-via-lactea-devorou-outra-galaxia-cientistas-dizem-ter-encontrado-os-restos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/401725\/","title":{"rendered":"A Via L\u00e1ctea devorou outra gal\u00e1xia. Cientistas dizem ter encontrado os restos"},"content":{"rendered":"<p>                Cientistas descobrem vest\u00edgios de gal\u00e1xia &#8220;devorada&#8221; h\u00e1 10 mil milh\u00f5es de anos. Descoberta pode mudar o que sabemos sobre a forma\u00e7\u00e3o da Via L\u00e1ctea<\/p>\n<p data-end=\"81\" data-start=\"0\">Um conjunto invulgar de estrelas poder\u00e1 representar os restos de uma gal\u00e1xia an\u00e3 que a Via L\u00e1ctea devorou h\u00e1 cerca de 10 mil milh\u00f5es de anos. Os astr\u00f3nomos deram \u00e0 antiga gal\u00e1xia o nome de Loki, inspirado no deus n\u00f3rdico da travessura. A descoberta poder\u00e1 alterar a atual compreens\u00e3o sobre a evolu\u00e7\u00e3o da Via L\u00e1ctea no passado distante.<\/p>\n<p data-end=\"797\" data-start=\"557\">A vasta Via L\u00e1ctea estende-se por cerca de 100 mil anos-luz e cont\u00e9m entre 100 mil milh\u00f5es e 400 mil milh\u00f5es de estrelas, <a href=\"https:\/\/science.nasa.gov\/universe\/exoplanets\/our-milky-way-galaxy-how-big-is-space\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">segundo a NASA<\/a>. Um ano-luz corresponde \u00e0 dist\u00e2ncia percorrida pela luz num ano \u2014 cerca de 9,46 bili\u00f5es de quil\u00f3metros.<\/p>\n<p data-end=\"1165\" data-start=\"799\">A nossa gal\u00e1xia n\u00e3o foi sempre este gigante c\u00f3smico. Cresceu ao longo do tempo, a partir de h\u00e1 cerca de 12 mil milh\u00f5es de anos, atrav\u00e9s da fus\u00e3o com m\u00faltiplas gal\u00e1xias an\u00e3s. Mas o tamanho e a massa originais da Via L\u00e1ctea continuam a ser uma inc\u00f3gnita \u2014 levando os cientistas a procurar vest\u00edgios das gal\u00e1xias que consumiu para reconstruir a sua hist\u00f3ria e evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-end=\"1438\" data-start=\"1167\">Para identificar essas pe\u00e7as em falta, os astr\u00f3nomos concentraram-se agora num grupo de estrelas pobres em metais detetadas, de forma inesperada, perto do disco gal\u00e1ctico, segundo um estudo publicado este m\u00eas na revista <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/mnras\/article\/548\/2\/stag563\/8537783?login=false#562528145\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Monthly Notices of the Royal Astronomical Society<\/a>.<\/p>\n<p data-end=\"1876\" data-start=\"1440\">Os astr\u00f3nomos interessam-se por estas estrelas pr\u00f3ximas do disco \u2014 uma enorme regi\u00e3o rotativa semelhante a uma panqueca, que cont\u00e9m grande parte das estrelas da Via L\u00e1ctea \u2014 porque as primeiras estrelas do universo eram compostas por hidrog\u00e9nio e h\u00e9lio. Esses elementos fundiram-se nos n\u00facleos das estrelas para criar elementos mais pesados, antes de explos\u00f5es que espalharam esses materiais e enriqueceram gera\u00e7\u00f5es futuras de estrelas.<\/p>\n<p data-end=\"2141\" data-start=\"1878\">As estrelas pobres em metais est\u00e3o frequentemente associadas a antigas gal\u00e1xias an\u00e3s, que a Via L\u00e1ctea poder\u00e1 ter consumido ao longo do tempo para atingir o tamanho atual \u2014 e os restos dessas \u201crefei\u00e7\u00f5es c\u00f3smicas\u201d podem estar escondidos nas profundezas da gal\u00e1xia.<\/p>\n<p data-end=\"2455\" data-start=\"2143\">A composi\u00e7\u00e3o pobre em metais destas estrelas antigas, t\u00e3o pr\u00f3ximas do disco gal\u00e1ctico, sugere que a Via L\u00e1ctea fez uma refei\u00e7\u00e3o particularmente grande com outra gal\u00e1xia no in\u00edcio da sua hist\u00f3ria \u2014 e que essa gal\u00e1xia poder\u00e1 representar um bloco de constru\u00e7\u00e3o cr\u00edtico e at\u00e9 agora ignorado da nossa pr\u00f3pria gal\u00e1xia.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/6a12e137d34edcee7c6483fd.webp\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>   Dados de mais de 1,8 mil milh\u00f5es de estrelas foram usados para criar este mapa da Via L\u00e1ctea captado pelo Gaia. (ESA\/Gaia\/DPAC; CC BY-SA 3.0 IGO) <\/p>\n<p>A procura por estrelas pobres em metais <\/p>\n<p data-end=\"3003\" data-start=\"2662\">Os astr\u00f3nomos s\u00e3o como detetives do universo, \u00e0 procura de pistas sobre as suas origens, e as estrelas extremamente pobres em metais \u2014 conhecidas como VMP (very-metal-poor) \u2014 s\u00e3o uma ferramenta poderosa nessa investiga\u00e7\u00e3o, explica Cara Battersby, professora associada de F\u00edsica na Universidade do Connecticut, que n\u00e3o participou no estudo.<\/p>\n<p data-end=\"3314\" data-start=\"3005\">\u201cAs estrelas VMP existem h\u00e1 milhares de milh\u00f5es de anos e guardam pistas sobre a forma\u00e7\u00e3o das primeiras gera\u00e7\u00f5es de estrelas do universo\u201d, esclarece Battersby. Estudar a composi\u00e7\u00e3o e o movimento destas estrelas pode revelar detalhes sobre as condi\u00e7\u00f5es e din\u00e2micas do universo primordial, acrescentou.<\/p>\n<p data-end=\"3494\" data-start=\"3316\">A procura por estrelas pobres em metais na Via L\u00e1ctea tem-se concentrado sobretudo no halo estelar da gal\u00e1xia, uma enorme nuvem difusa e arredondada que rodeia o disco gal\u00e1ctico.<\/p>\n<p data-end=\"3651\" data-start=\"3496\">Mas alguns astr\u00f3nomos acreditam que evid\u00eancias de fus\u00f5es ainda mais antigas podem estar escondidas mais profundamente na Via L\u00e1ctea, nomeadamente no disco.<\/p>\n<p data-end=\"4010\" data-start=\"3653\">A abund\u00e2ncia de estrelas jovens e ricas em metais, bem como a grande quantidade de poeira no disco gal\u00e1ctico, dificultou a identifica\u00e7\u00e3o de estrelas pobres em metais nessa regi\u00e3o, destaca Federico Sestito, principal autor do estudo e investigador de p\u00f3s-doutoramento no Centro de Investiga\u00e7\u00e3o em Astrof\u00edsica da Universidade de Hertfordshire, em Inglaterra.<\/p>\n<p data-end=\"4491\" data-start=\"4012\">Sestito e os colegas identificaram 20 estrelas pobres em metais surpreendentemente pr\u00f3ximas do disco atrav\u00e9s de observa\u00e7\u00f5es do telesc\u00f3pio Gaia, da Ag\u00eancia Espacial Europeia. O observat\u00f3rio espacial mapeou os movimentos e composi\u00e7\u00f5es de dois mil milh\u00f5es de estrelas da Via L\u00e1ctea entre julho de 2014 e janeiro de 2025. Depois, a equipa utilizou o espectr\u00f3grafo de alta resolu\u00e7\u00e3o do telesc\u00f3pio Canad\u00e1-Fran\u00e7a-Havai, perto do cume de Maunakea, no Havai, para observar essas estrelas.<\/p>\n<p data-end=\"4852\" data-start=\"4493\">A idade exata das estrelas \u00e9 dif\u00edcil de determinar, mas a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica sugere que t\u00eam mais de 10 mil milh\u00f5es de anos, indica Sestito. Todas est\u00e3o localizadas a cerca de 7 mil anos-luz do nosso sistema solar. As estrelas tamb\u00e9m apresentam composi\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas semelhantes, sugerindo que vieram todas da mesma gal\u00e1xia an\u00e3 pobre em metais, segundo o estudo.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/6a12e137d34e28842c84653d.webp\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>   O mapeamento do Gaia mostra como 40 mil estrelas, todas localizadas a menos de 326 anos-luz do sistema solar, se ir\u00e3o mover nos pr\u00f3ximos 400 mil anos. (ESA\/Gaia\/DPAC; CC BY-SA 3.0 IGO) <\/p>\n<p data-end=\"5052\" data-start=\"4854\">Onze das estrelas estavam numa \u00f3rbita pr\u00f3grada \u2014 movendo-se na mesma dire\u00e7\u00e3o do disco gal\u00e1ctico \u2014 enquanto nove seguiam numa \u00f3rbita retr\u00f3grada, movendo-se na dire\u00e7\u00e3o oposta. Poder\u00e3o ser restos de uma gal\u00e1xia an\u00e3 engolida pela Via L\u00e1ctea apenas alguns milhares de milh\u00f5es de anos ap\u00f3s o Big Bang, que ocorreu h\u00e1 cerca de 13,8 mil milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p data-end=\"5589\" data-start=\"5401\">Os autores do estudo acreditam que estas estrelas \u201ccapturadas\u201d simplesmente permaneceram integradas na nossa gal\u00e1xia, acabando dispersas em diferentes padr\u00f5es orbitais, considera Battersby.<\/p>\n<p data-end=\"6038\" data-start=\"5591\">\u201cSe o cen\u00e1rio Loki estiver correto, ent\u00e3o um sistema fundido com a nossa gal\u00e1xia pode depositar estrelas tanto em \u00f3rbitas pr\u00f3gradas como retr\u00f3gradas\u201d, observa Sestito. \u201cIsto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se o evento de fus\u00e3o aconteceu quando a Via L\u00e1ctea ainda era pequena e a sua for\u00e7a gravitacional era mais fraca do que atualmente. Simula\u00e7\u00f5es cosmol\u00f3gicas sugerem que isto pode ter acontecido n\u00e3o mais de 3 ou 4 mil milh\u00f5es de anos ap\u00f3s o Big Bang.\u201d<\/p>\n<p data-end=\"6492\" data-start=\"6040\">Hans-Walter Rix, diretor do departamento de gal\u00e1xias e cosmologia do Instituto Max Planck para Astronomia, na Alemanha, afirmou que o mais impressionante do estudo \u00e9 \u201ca forma como usam a abund\u00e2ncia detalhada de elementos qu\u00edmicos como impress\u00e3o digital para identificar uma origem comum destas estrelas numa gal\u00e1xia sat\u00e9lite agora destru\u00edda, apesar de algumas se moverem na dire\u00e7\u00e3o certa e outras na dire\u00e7\u00e3o oposta\u201d. Rix n\u00e3o participou na investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"800\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/6a12e136d34edcee7c6483fb.webp\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>   Esta imagem visualiza a Via L\u00e1ctea e o halo de estrelas que a rodeia, algumas das quais tiveram origem em fus\u00f5es antigas. (ESA\/Gaia\/DPAC) <\/p>\n<p data-end=\"6645\" data-start=\"6494\">Sestito inspirou-se em Loki para dar nome \u00e0 antiga gal\u00e1xia an\u00e3 porque as inten\u00e7\u00f5es do deus trapaceiro s\u00e3o dif\u00edceis de interpretar nas hist\u00f3rias mitol\u00f3gicas.<\/p>\n<p data-end=\"7059\" data-start=\"6805\">\u201cDa mesma forma, estas estrelas capturadas deram-nos bastante trabalho para perceber a sua origem\u201d, explica. \u201cNo in\u00edcio, n\u00e3o foi f\u00e1cil conciliar a ideia de que um sistema capturado pudesse dispersar estrelas tanto em \u00f3rbitas pr\u00f3gradas como retr\u00f3gradas.\u201d<\/p>\n<p data-end=\"7178\" data-start=\"7061\">Outra explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 que as estrelas resultem de mais do que um evento de fus\u00e3o com a Via L\u00e1ctea, acrescenta.<\/p>\n<p data-end=\"7327\" data-start=\"7180\">Mas a ideia de as estrelas de uma \u00fanica gal\u00e1xia terem sido incorporadas na Via L\u00e1ctea \u00e9 intrigante e merece mais investiga\u00e7\u00e3o, defende Battersby.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria &#8220;alimentar&#8221; da Via L\u00e1ctea <\/p>\n<p data-end=\"7784\" data-start=\"7370\">A Via L\u00e1ctea cresceu atrav\u00e9s de canibalismo gal\u00e1ctico \u2014 quando uma gal\u00e1xia grande \u201ccome\u201d uma gal\u00e1xia pequena e usa a for\u00e7a gravitacional para absorver as suas estrelas e g\u00e1s. Os restos dessas refei\u00e7\u00f5es permitem aos astr\u00f3nomos reconstruir a \u201chist\u00f3ria alimentar\u201d da gal\u00e1xia, explica Alexander Ji, professor assistente de Astronomia e Astrof\u00edsica na Universidade de Chicago, que tamb\u00e9m n\u00e3o participou na investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"401\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/6a12e136d34e28842c84653b.webp\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>   Vest\u00edgios de outras gal\u00e1xias podem ser encontrados na Via L\u00e1ctea. (ESA\/Gaia\/DPAC) <\/p>\n<p data-end=\"7881\" data-start=\"7786\">\u201cH\u00e1 muitas pequenas fus\u00f5es a acontecer constantemente, mas as grandes refei\u00e7\u00f5es podem alterar a hist\u00f3ria de crescimento da Via L\u00e1ctea\u201d, diz Ji.<\/p>\n<p data-end=\"8200\" data-start=\"8043\">Um desses eventos transformadores ocorreu quando a Via L\u00e1ctea se fundiu com a gal\u00e1xia Gaia-Sausage-Enceladus entre h\u00e1 8 mil milh\u00f5es e 10 mil milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p data-end=\"8349\" data-start=\"8202\">\u201cPensamos que isso ajudou a \u2018reiniciar\u2019 a Via L\u00e1ctea, fazendo-a passar da sua fase inicial turbulenta para o disco est\u00e1vel que tem hoje\u201d, aponta Ji.<\/p>\n<p data-end=\"8625\" data-start=\"8351\">O novo estudo sugere que a fus\u00e3o da Via L\u00e1ctea com a gal\u00e1xia Loki ter\u00e1 sido quase t\u00e3o importante como o evento Gaia-Sausage-Enceladus. Mas as evid\u00eancias est\u00e3o largamente escondidas, porque os restos de Loki s\u00e3o dif\u00edceis de encontrar perto do disco gal\u00e1ctico, acrescenta Ji.<\/p>\n<p data-end=\"8832\" data-start=\"8627\">\u201cSe isto for real, significa que estamos a perder uma parte importante da hist\u00f3ria de forma\u00e7\u00e3o da Via L\u00e1ctea, e talvez tenhamos de rever a vis\u00e3o atual para perceber o impacto de um evento destes\u201d, argumenta.<\/p>\n<p data-end=\"9118\" data-start=\"8834\">Ji duvida que Loki seja uma gal\u00e1xia totalmente desconhecida, uma vez que muitas potenciais descobertas de eventos de fus\u00e3o acabam por revelar-se extens\u00f5es de sistemas j\u00e1 conhecidos. Ainda assim, sublinha que os autores do estudo inclu\u00edram as devidas reservas cient\u00edficas no trabalho.<\/p>\n<p data-end=\"9291\" data-start=\"9120\">\u201c\u00c9 uma nova possibilidade interessante que vale a pena explorar, e espero que haja investigadores a tentar testar se Loki \u00e9 real com conjuntos de dados maiores\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Cientistas descobrem vest\u00edgios de gal\u00e1xia &#8220;devorada&#8221; h\u00e1 10 mil milh\u00f5es de anos. 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