{"id":40234,"date":"2025-08-22T13:13:11","date_gmt":"2025-08-22T13:13:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/40234\/"},"modified":"2025-08-22T13:13:11","modified_gmt":"2025-08-22T13:13:11","slug":"da-para-emagrecer-comendo-ultraprocessados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/40234\/","title":{"rendered":"D\u00e1 para emagrecer comendo ultraprocessados?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" alt=\"figura humana com hot-dog nas m\u00e3os\" data-entity-type=\"file\" data-entity-uuid=\"73417f6f-33ec-48f0-bdc6-6284508c2c39\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/EATING_HOTDOG_INTERNA_OK.jpg\" class=\"align-center\" width=\"980\" height=\"654\" loading=\"lazy\"\/><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Quase um ano ap\u00f3s seu lan\u00e7amento, finalmente adquiri a vers\u00e3o brasileira do best-seller global \u201c<a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/gente-ultraprocessada\/?srsltid=AfmBOorSztNZlnggHnzOFz5mWgvM5q164nQEpxuzX2Dv8szPNO3mbqz7\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Gente ultraprocessada: por que comemos coisas que n\u00e3o s\u00e3o comida, e por que n\u00e3o conseguimos parar de com\u00ea-las<\/a>\u201d, de autoria do infectologista e doutor em virologia molecular Chris Van Tulleken, com pref\u00e1cio de um dos criadores do sistema NOVA (utilizado para classificar os alimentos segundo seu grau de processamento), Carlos Monteiro.<\/p>\n<p>Apesar de o livro estar diretamente ligado ao tema de hoje, tratarei dele em um artigo \u00e0 parte, abordando seus principais pontos e poss\u00edveis problemas. Por ora, um resumo:<\/p>\n<p>Tulleken questionava a hip\u00f3tese de que o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados fosse o principal respons\u00e1vel pelos alarmantes aumentos de obesidade e doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis (como diabetes e hipertens\u00e3o). Para testar essa ideia, decidiu realizar um experimento em seu pr\u00f3prio corpo, passando a se alimentar quase exclusivamente de ultraprocessados \u2014 uma esp\u00e9cie de reinven\u00e7\u00e3o do Super Size Me, j\u00e1 comentado anteriormente <a href=\"https:\/\/www.revistaquestaodeciencia.com.br\/artigo\/2024\/06\/04\/fast-food-e-obesidade-documentario-desonesto-questao-real\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">aqui<\/a> na <strong>RQC<\/strong>.<\/p>\n<p>Durante dois meses, o m\u00e9dico seguiu duas dietas distintas e registrou, em ambos os per\u00edodos, medidas antropom\u00e9tricas e biomarcadores. Basicamente, ele participou de um ensaio cl\u00ednico do tipo cross-over: no primeiro m\u00eas, absteve-se completamente dos ultraprocessados; no segundo, no chamado \u201cgrupo interven\u00e7\u00e3o\u201d, passou a seguir uma dieta composta por 80% de alimentos ultraprocessados.<\/p>\n<p>Como voc\u00eas devem imaginar, se h\u00e1 pref\u00e1cio do professor Carlos Monteiro na vers\u00e3o brasileira, Tulleken passou por maus bocados.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise detalhada do \u201cexperimento\u201d fica para outro artigo. O destaque de hoje \u00e9 uma pesquisa assinada por Tulleken e colaboradores c\u00e9lebres, como o l\u00edder do estudo e pesquisador associado do Departamento de Ci\u00eancias Comportamentais e da Sa\u00fade do University College London, Samuel Dicken. Em outro trabalho, intitulado \u201c<a href=\"https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/lanepe\/article\/PIIS2666-7762(24)00210-2\/fulltext\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Food consumption by degree of food processing and risk of type 2 diabetes mellitus: a prospective cohort analysis of the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC)<\/a>\u201d, Dicken verificou que, a cada aumento de 10% na ingest\u00e3o di\u00e1ria de ultraprocessados, havia um risco 17% maior de incid\u00eancia de diabetes tipo 2. E a cada aumento de 10% no consumo de alimentos minimamente processados mais ingredientes culin\u00e1rios (como \u00f3leo, a\u00e7\u00facar e sal) ou de alimentos processados, observou-se uma menor incid\u00eancia de diabetes tipo 2 (6% e 8% de redu\u00e7\u00e3o, respectivamente).<\/p>\n<p>Apesar de o EPIC n\u00e3o ter recebido grande destaque na m\u00eddia, a nova pesquisa foi alvo de in\u00fameras mat\u00e9rias, tanto internacionais quanto nacionais: \u201c<a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/saude\/comida-caseira-e-melhor-que-ultraprocessados-saudaveis-na-perda-de-peso\/#:~:text=Estudo%20brit%C3%A2nico%20revela%20que%20alimenta%C3%A7%C3%A3o,alimentos%20ultraprocessados%20atendem%20diretrizes%20nutricionais\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Comida caseira \u00e9 melhor que ultraprocessados saud\u00e1veis na perda de peso<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2025\/08\/04\/well\/eat\/avoiding-ultraprocessed-foods-might-double-weight-loss.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Avoiding Ultraprocessed Foods Might Double Weight Loss<\/a>\u201d, sugerindo que evitar o consumo de alimentos ultraprocessados poderia dobrar a perda de peso.<\/p>\n<p>Para quem acabou passando batido por esse \u201chype\u201d, trata-se de uma pesquisa publicada em agosto de 2025 na Nature Medicine, sob o t\u00edtulo \u201c<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41591-025-03842-0\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Ultraprocessed or minimally processed diets following healthy dietary guidelines on weight and cardiometabolic health: a randomized, crossover trial\u201d<\/a>. O estudo teve como objetivo comparar os efeitos na sa\u00fade entre dietas \u00e0 base de alimentos minimamente processados (AMP) e alimentos ultraprocessados (AUP) que seguem as recomenda\u00e7\u00f5es do EatWell Guide (guia alimentar do Reino Unido).<\/p>\n<p>Diferentemente do sistema brasileiro, que se concentra no processamento, o EatWell Guide divide os alimentos em cinco grandes grupos: frutas e vegetais; carboidratos ricos em amido; prote\u00ednas; latic\u00ednios e derivados; \u00f3leos e gorduras. O guia tamb\u00e9m traz outras orienta\u00e7\u00f5es, como quantidade di\u00e1ria de l\u00edquidos, alimentos a serem consumidos com modera\u00e7\u00e3o e a recomenda\u00e7\u00e3o de sempre conferir r\u00f3tulos, optando por produtos com baixo teor de gordura, a\u00e7\u00facar e s\u00f3dio.<\/p>\n<p>A pesquisa avaliou tanto a varia\u00e7\u00e3o de peso quanto desfechos cardiometab\u00f3licos, comportamentais, mentais e hormonais, al\u00e9m de explorar a viabilidade e a aceitabilidade da interven\u00e7\u00e3o de suporte comportamental.<\/p>\n<p>O estudo foi um ensaio cl\u00ednico randomizado do tipo crossover 2&#215;2: os participantes entram em um de dois grupos interven\u00e7\u00e3o, depois passam por um per\u00edodo de \u201climpeza\u201d (sem receber nenhum tratamento) e, em seguida, s\u00e3o integrados ao grupo oposto. O objetivo do estudo foi comparar os efeitos na sa\u00fade de dietas de oito semanas com alimentos minimamente processados (MPFs) e ultraprocessados (UPFs), seguindo as recomenda\u00e7\u00f5es do EatWell Guide (EWG).<\/p>\n<p>O desfecho prim\u00e1rio foi a mudan\u00e7a porcentual de peso, enquanto os desfechos secund\u00e1rios inclu\u00edram medidas antropom\u00e9tricas, composi\u00e7\u00e3o corporal, marcadores cardiometab\u00f3licos e par\u00e2metros relacionados ao apetite.<\/p>\n<p>O design metodol\u00f3gico foi o seguinte: os pacientes considerados eleg\u00edveis deveriam apresentar IMC igual ou superior a 25 (sobrepeso) e inferior a 40 (obesidade m\u00f3rbida), al\u00e9m de consumo habitual de 50% ou mais de calorias provenientes de UPFs. Dos 135 candidatos, 80 foram exclu\u00eddos por n\u00e3o atenderem aos crit\u00e9rios estabelecidos ou apresentarem caracter\u00edsticas espec\u00edficas, como alergia alimentar, gravidez, etc.<\/p>\n<p>Os 55 participantes restantes foram randomizados para um dos dois grupos e, antes de receberem a dieta, passaram duas semanas sendo avaliados para estabelecer a linha de base. Ao fim desse per\u00edodo, iniciou-se a fase de dieta, com dura\u00e7\u00e3o de oito semanas, seguida de nova aferi\u00e7\u00e3o de peso. Em sequ\u00eancia, ocorreu o per\u00edodo de \u201climpeza\u201d, que durou quatro semanas, e depois mais duas semanas de aferi\u00e7\u00e3o sem dieta padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao longo dessas 24 semanas, foram realizadas seis rodadas de avalia\u00e7\u00e3o, incluindo peso, biomarcadores, question\u00e1rios, entre outros.<\/p>\n<p>Todas as refei\u00e7\u00f5es, lanches e bebidas de ambas as dietas foram preparadas e entregues nas resid\u00eancias dos participantes duas vezes por semana, j\u00e1 ajustadas \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es governamentais citadas anteriormente \u2014 como menor teor de gordura saturada, a\u00e7\u00facar adicionado e sal.<\/p>\n<p>Para garantir ingest\u00e3o ad libitum, as por\u00e7\u00f5es foram dimensionadas para cerca de 4.000 kcal\/dia, cabendo aos participantes decidir a quantidade a consumir. Sempre que poss\u00edvel, refei\u00e7\u00f5es e lanches foram pareados entre as dietas em um card\u00e1pio rotativo de sete dias.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de outros ensaios, e da percep\u00e7\u00e3o comum de que UPFs s\u00e3o pobres em nutrientes, a dieta de UPFs deste estudo utilizou produtos reformulados e nutricionalmente aprimorados, como cereais matinais, refei\u00e7\u00f5es prontas e alternativas vegetais.<\/p>\n<p>Dos 55 participantes iniciais, 12 desistiram do estudo em algum momento. Ao todo, 50 participantes forneceram dados do desfecho prim\u00e1rio para pelo menos uma das dietas \u2014 permitindo aferir a inten\u00e7\u00e3o de tratar, uma medida estat\u00edstica que analisa todos os participantes de um grupo de tratamento, independentemente de sua ades\u00e3o ao protocolo ou de terem recebido o tratamento planejado \u2014 e 43 forneceram dados para ambas as dietas.<\/p>\n<p>Os volunt\u00e1rios tinham, em m\u00e9dia, 43,2 anos, eram majoritariamente brancos (67,4%), mulheres (90,7%), com hist\u00f3rico familiar de obesidade (58,1%) e alto n\u00edvel educacional. O peso m\u00e9dio foi de 89,8 kg, com IMC de 32,4 kg\/m\u00b2.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise por inten\u00e7\u00e3o de tratar, a perda de peso ap\u00f3s oito semanas foi de 2,06% na dieta MPF e 1,05% na UPF, sendo maior sempre na primeira dieta, independentemente do n\u00edvel de processamento. A dieta MPF promoveu redu\u00e7\u00f5es significativamente maiores no peso (0,96 kg) e no IMC (0,34 kg\/m\u00b2) em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 UPF, sem diferen\u00e7as relevantes na circunfer\u00eancia da cintura, rela\u00e7\u00e3o cintura-altura, massa muscular, \u00f3ssea, livre de gordura ou percentual total de \u00e1gua corporal.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises secund\u00e1rias mostraram que a MPF tamb\u00e9m reduziu, de forma significativa, a massa e o percentual de gordura, a gordura visceral e a massa total de \u00e1gua corporal, al\u00e9m de apresentar melhorias nessas medidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linha de base \u2014 efeito que n\u00e3o foi observado com a dieta UPF.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s oito semanas, a press\u00e3o arterial foi significativamente menor em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linha de base na dieta MPF, mas n\u00e3o na UPF. J\u00e1 a frequ\u00eancia card\u00edaca reduziu apenas na UPF.<\/p>\n<p>Entre os marcadores cl\u00ednicos, colesterol total, HDL e n\u00e3o-HDL diminu\u00edram em ambas as dietas; triglicer\u00eddeos e hemoglobina glicada reduziram exclusivamente na MPF. Curiosamente, glicemia de jejum e LDL apresentaram redu\u00e7\u00e3o significativa somente na dieta UPF.<\/p>\n<p>Nos testes Power of Food Scale (question\u00e1rio que avalia o impacto psicol\u00f3gico de viver em ambientes com alimentos em abund\u00e2ncia, medindo o apetite por alimentos palat\u00e1veis em tr\u00eas n\u00edveis: alimentos dispon\u00edveis, presentes e degustados) e o Control of Eating Questionnaire (escala que busca mensurar apetite, desejo por diferentes alimentos e regula\u00e7\u00e3o do humor), houve pontua\u00e7\u00f5es menores na MPF, mas n\u00e3o na UPF. Embora ambas as dietas tenham melhorado o controle do desejo, somente a MPF foi capaz de aumentar o controle sobre o desejo por alimentos salgados e diminuir a dificuldade em resistir ao alimento desejado.<\/p>\n<p>diminuir a dificuldade em resistir ao alimento desejado.<\/p>\n<p>Nas escalas visuais anal\u00f3gicas (ferramenta que permite medir classifica\u00e7\u00f5es subjetivas de fome, saciedade, desejo de comer e consumo alimentar prospectivo) n\u00e3o houve mudan\u00e7as estatisticamente significativas. Entretanto, tend\u00eancias apontaram menor fome p\u00f3s-prandial, menor capacidade de comer, menor prazer em comer e maior saciedade na dieta MPF em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 UPF.<\/p>\n<p>Igualmente importante, dados de ingest\u00e3o alimentar autorrelatados demonstraram que a ingest\u00e3o energ\u00e9tica foi de -503,7 kcal\/dia na dieta MPF e -289,6 kcal\/dia na dieta UPF (diferen\u00e7a de 214,1 kcal). Ao comparar os mesmos participantes nas duas interven\u00e7\u00f5es, a ingest\u00e3o foi significativamente menor na MPF (-327,3 kcal\/dia).<\/p>\n<p>Dos 50 volunt\u00e1rios que participaram de pelo menos uma das duas etapas, 32 forneceram di\u00e1rios alimentares completos para a dieta MPF e 35 para a dieta UPF. A ades\u00e3o foi maior nos primeiros per\u00edodos (MPF primeiro: 91,8% e segundo: 78,5%; UPF primeiro: 93,3% e segundo: 87,4%).<\/p>\n<p>N\u00e3o houve diferen\u00e7as significativas na altera\u00e7\u00e3o da atividade f\u00edsica moderada a vigorosa, nem nos eventos adversos entre as dietas. Contudo, verificaram-se maiores problemas relacionados \u00e0 constipa\u00e7\u00e3o, refluxo, m\u00e1 digest\u00e3o, fadiga, infec\u00e7\u00f5es e eventos relacionados ao sono na dieta UPF.<\/p>\n<p>Caso os achados se mantivessem ao longo de 1 ano, isso resultaria em perda de peso estimada de aproximadamente 9 a 13% na dieta MPF e 4 a 5% na dieta UPF.<\/p>\n<p>Com base nisso, os autores concluem que dietas ad libitum de oito semanas, baseadas em MPF e UPF e seguindo as diretrizes do Reino Unido, resultaram em perda de peso, com redu\u00e7\u00f5es significativamente maiores na dieta MPF. Enquanto a MPF promoveu maior diminui\u00e7\u00e3o de massa gorda e \u00e1gua corporal total, a UPF reduziu apenas a \u00e1gua corporal, sem impactar significativamente a adiposidade total. Diversos mecanismos foram propostos para explicar as diferen\u00e7as de peso observadas, incluindo composi\u00e7\u00e3o nutricional, textura, densidade energ\u00e9tica e velocidade de ingest\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro aspecto a ser considerado \u00e9 que os UPF, mesmo reformulados, s\u00e3o hiperpalat\u00e1veis e t\u00eam sabor mais acentuado, o que pode estimular o consumo. Apesar das avalia\u00e7\u00f5es de apetite terem sido semelhantes entre as dietas, as classifica\u00e7\u00f5es de sabor e palatabilidade foram significativamente menores na dieta MPF, o que pode ter influenciado o comportamento alimentar \u2014 algo evidenciado pelo fato de alguns volunt\u00e1rios terem abandonado a dieta MPF, mas nenhum, a dieta UPF.<\/p>\n<p>O estudo apresenta limita\u00e7\u00f5es, reconhecidas pelos pr\u00f3prios pesquisadores. O \u201ccarryover effect\u201d (que ocorre quando os volunt\u00e1rios s\u00e3o expostos a mais de uma interven\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sendo poss\u00edvel estabelecer se os achados decorrem da nova interven\u00e7\u00e3o, da anterior ou de uma soma de ambas) n\u00e3o pode ser descartado. Al\u00e9m disso, como o estudo foi conduzido principalmente com mulheres, com alto grau de escolaridade e sem restri\u00e7\u00f5es ou intoler\u00e2ncias alimentares, os resultados n\u00e3o podem ser generalizados.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de um ambiente controlado e a n\u00e3o devolu\u00e7\u00e3o dos di\u00e1rios alimentares por alguns participantes limitaram o monitoramento da ades\u00e3o.<\/p>\n<p>Da mesma forma, devido ao desenho do experimento em \u201cambiente livre\u201d, n\u00e3o foi poss\u00edvel avaliar diretamente o balan\u00e7o energ\u00e9tico nem utilizar biomarcadores nutricionais.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s nuances n\u00e3o mencionadas pelos pesquisadores, destaco que, embora os participantes estivessem em um \u201cambiente livre\u201d, suas refei\u00e7\u00f5es eram entregues em casa. Isso levanta a possibilidade de que a praticidade desse fornecimento tenha influenciado os resultados.<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 que o estudo n\u00e3o foi cego e os participantes receberam suporte por meio de chamadas semanais com a equipe de pesquisa, para discutir problemas e incentivar a ades\u00e3o. Esses dois aspectos introduzem vi\u00e9s tanto por parte dos participantes quanto dos pesquisadores. \u00c9 compreens\u00edvel que fosse imposs\u00edvel cegar os participantes, mas as chamadas semanais podem ter introduzido vi\u00e9s adicional nos pesquisadores.<\/p>\n<p>No caso dos participantes, o n\u00e3o cegamento pode ter levado a altera\u00e7\u00f5es em seu comportamento, tanto no consumo alimentar quanto nas respostas a question\u00e1rios de m\u00e9tricas subjetivas. J\u00e1 entre os pesquisadores, o n\u00e3o cegamento pode ter influenciado a forma como se comunicaram ou prestaram assist\u00eancia, potencialmente favorecendo um grupo em rela\u00e7\u00e3o ao outro.<\/p>\n<p>O terceiro ponto \u00e9 que, por n\u00e3o estarem em um ambiente controlado, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar com certeza se os indiv\u00edduos consumiram os alimentos fornecidos. Embora a maioria tenha entregado di\u00e1rios alimentares, h\u00e1 risco de imprecis\u00e3o e a possibilidade de que vi\u00e9s de mem\u00f3ria ou de desejabilidade social tenha influenciado as informa\u00e7\u00f5es relatadas.<\/p>\n<p>Por fim \u2014 e talvez este seja o ponto mais pol\u00eamico \u2014, embora muitos destaquem a superioridade da dieta MPF em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 UPF e projetem que, se mantida por um ano, os resultados seriam ainda mais expressivos, \u00e9 importante considerar que a ades\u00e3o \u00e0 dieta MPF foi menor. No longo prazo, \u00e9 prov\u00e1vel que mais indiv\u00edduos a abandonassem em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 dieta UPF, o que poderia levar \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o do peso perdido ou, na melhor das hip\u00f3teses, \u00e0 aus\u00eancia de nova perda de peso.<\/p>\n<p>Outro aspecto relevante \u00e9 que o estudo n\u00e3o foi voltado para perda de peso \u2014 ou seja, n\u00e3o havia d\u00e9ficit cal\u00f3rico \u2014, mas sim para avaliar os efeitos do processamento dos alimentos em um consumo ad libitum. Mesmo nesse cen\u00e1rio, o suposto efeito viciante e hiperpalat\u00e1vel dos UPF n\u00e3o se concretizou, j\u00e1 que os participantes perderam peso e apresentaram redu\u00e7\u00e3o da glicemia de jejum e do LDL-colesterol, dois biomarcadores importantes relacionados a diabetes mellitus e a doen\u00e7as cardiovasculares. Esse resultado se deve, claro, ao fato de os UPF do estudo serem nutricionalmente balanceados e mais \u201csaud\u00e1veis\u201d que suas contrapartes industrializadas t\u00edpicas.<\/p>\n<p>O estudo, portanto, fornece evid\u00eancias para hip\u00f3teses j\u00e1 levantadas: optar por alimentos MPF em vez de UPF, mesmo quando nutricionalmente equilibrados, pode favorecer a redu\u00e7\u00e3o de peso, devido a refei\u00e7\u00f5es menos densamente cal\u00f3ricas, ingeridas mais lentamente e com texturas diferenciadas, entre outros efeitos.<\/p>\n<p>Por outro lado, em termos de aplicabilidade no longo prazo, engajar-se exclusivamente em uma dieta baseada em MPF parece extremamente desafiador \u2014 para n\u00e3o dizer imposs\u00edvel \u2014 para grande parte da popula\u00e7\u00e3o. Isso pode comprometer a ades\u00e3o e a consist\u00eancia da dieta, limitando a manuten\u00e7\u00e3o ou o avan\u00e7o da perda de peso ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Acredito que, com base neste estudo, podemos extrair uma reflex\u00e3o importante, ainda que \u00f3bvia:<\/p>\n<p>Uma dieta equilibrada, baseada em alimentos in natura e minimamente processados, continua sendo a op\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel. No entanto, quando h\u00e1 a presen\u00e7a de alimentos ultraprocessados \u2014 surpresa \u2014, a dieta ainda pode ser considerada saud\u00e1vel, desde que a propor\u00e7\u00e3o desses alimentos seja baixa em rela\u00e7\u00e3o ao restante do dia, da semana ou do m\u00eas.<\/p>\n<p>Mesmo em situa\u00e7\u00f5es nas quais a dieta contenha uma quantidade elevada de UPF \u2014 algo que, pessoalmente, n\u00e3o recomendaria \u2014, como ocorreu neste estudo, \u00e9 poss\u00edvel observar algumas melhorias, desde que se opte por alternativas consideradas mais saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mauro Proen\u00e7a \u00e9 nutricionista<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>VAN TULLEKEN, C. Gente Ultraprocessada: Por que comemos coisas que n\u00e3o s\u00e3o comida, e por que n\u00e3o conseguimos parar de com\u00ea-las. S\u00e3o Paulo: Elefante 2024. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/gente-ultraprocessada\/?srsltid=AfmBOorSztNZlnggHnzOFz5mWgvM5q164nQEpxuzX2Dv8szPNO3mbqz7\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/gente-ultraprocessada\/?srsltid=AfmBOorSztNZlnggHnzOFz5mWgvM5q164nQEpxuzX2Dv8szPNO3mbqz7<\/a>.<\/p>\n<p>DICKEN, S. et al. Food consumption by degree of food processing and risk of type 2 diabetes mellitus: a prospective cohort analysis of the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC). <strong>The Lancet Regional Health &#8211; Europe. <\/strong><strong>Vol. 46, 101043, Nov. 2024<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/lanepe\/article\/PIIS2666-7762(24)00210-2\/fulltext\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/lanepe\/article\/PIIS2666-7762(24)00210-2\/fulltext<\/a>.<\/p>\n<p>DICKEN, S. et al. Ultraprocessed or minimally processed diets following healthy dietary guidelines on weight and cardiometabolic health: a randomized, crossover trial.<strong> <\/strong><strong>Nat Med (2025)<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41591-025-03842-0\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41591-025-03842-0<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00a0 Quase um ano ap\u00f3s seu lan\u00e7amento, finalmente adquiri a vers\u00e3o brasileira do best-seller global \u201cGente ultraprocessada: por&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":40235,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[12292,116,12293,32,33,117],"class_list":{"0":"post-40234","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-dieta-e-nutricao","9":"tag-health","10":"tag-metodo-cientifico","11":"tag-portugal","12":"tag-pt","13":"tag-saude"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40234","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40234"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40234\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40235"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40234"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40234"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40234"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}