{"id":40252,"date":"2025-08-22T13:25:14","date_gmt":"2025-08-22T13:25:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/40252\/"},"modified":"2025-08-22T13:25:14","modified_gmt":"2025-08-22T13:25:14","slug":"marianna-brennand-a-exploracao-sexual-acontece-em-todos-os-cantos-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/40252\/","title":{"rendered":"Marianna Brennand: &#8220;A explora\u00e7\u00e3o sexual acontece em todos os cantos do Brasil&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A jovem Jamilli Correa confere ao filme, de uma brutalidade contida, uma enorme carga de sensibilidade e humanismo. Coproduzido pela portuguesa Fado Filmes, o filme tamb\u00e9m teve contribui\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os Dardenne e de Walter Salles. A realizadora explicou tudo ao JN.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"inread\"><strong>Como \u00e9 que descobriu esta comunidade e a situa\u00e7\u00e3o que vemos no filme?<\/strong><\/p>\n<p>Em meados de 2013 estava a lan\u00e7ar um document\u00e1rio sobre o artista pl\u00e1stico Francisco Brennand, que \u00e9 meu tio-av\u00f4 e tive um encontro com a Faf\u00e1 de Bel\u00e9m, de quem sou amiga h\u00e1 muito tempo. Foi ela que me contou. Tinha estado recentemente no Maraj\u00f3 e entrado em contacto com essa realidade terr\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o sexual de meninas. Aquilo tocou-me profundamente, como mulher e como documentarista.<\/p>\n<p><strong>Porque acabou por se decidir a fazer uma fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o um document\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro2\">Logo no in\u00edcio da pesquisa percebi que n\u00e3o conseguia contar essa hist\u00f3ria de uma maneira documental sem impor mais viol\u00eancia sobre essas jovens. Precisaria de pedir-lhes que contassem essas hist\u00f3rias muito traum\u00e1ticas e reviverem essas viol\u00eancias. A fic\u00e7\u00e3o apresentou-se como a \u00fanica forma de contar esta hist\u00f3ria, de uma maneira \u00e9tica e respeitosa, sem trazer mais viol\u00eancia para uma realidade que j\u00e1 \u00e9 muito violenta.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que tomou ent\u00e3o contacto com as hist\u00f3rias ver\u00eddicas que a inspiraram para criar as suas personagens?<\/strong><\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro3\">Foi um processo muito longo, muitas viagens ao Maraj\u00f3. Tivemos contacto com assistentes sociais, conselheiros tutelares, psic\u00f3logos, agentes da pol\u00edcia, toda a rede de apoio \u00e0s v\u00edtimas de viol\u00eancia. Tamb\u00e9m percorri aquele rio, vi abordagens nos barcos, tive um contacto muito pr\u00f3ximo, para n\u00e3o precisar de conversar com nenhuma das crian\u00e7as que viveram essas viol\u00eancias. Conheci-as, mas n\u00e3o houve nenhuma abordagem direta.<\/p>\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o que vemos naquela regi\u00e3o espec\u00edfica \u00e9 comum em outras \u00e1reas da Amaz\u00f3nia?<\/strong><\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro4\">A explora\u00e7\u00e3o sexual acontece a partir daqueles barcos que atravessam o rio levando mercadorias. Onde tem esse tr\u00e1fego de balsas, isso geralmente acontece. Mas a explora\u00e7\u00e3o sexual acontece em todos os cantos do Brasil e infelizmente em muitos lugares do mundo. Dependendo das caracter\u00edsticas geogr\u00e1ficas, sociais, pol\u00edticas e econ\u00f3micas de cada regi\u00e3o, existe de maneiras diferentes.<\/p>\n<p><strong>A Marianna vem do document\u00e1rio, mas conseguiu construir uma narrativa bastante forte.<\/strong><\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro5\">Foram oito anos de escrita, foi um privil\u00e9gio. As escolhas principais que balizaram o filme e a constru\u00e7\u00e3o dessa narrativa, foi o desejo de retratar com verdade toda a complexidade da situa\u00e7\u00e3o, sem criar personagens manique\u00edstas. Mas nunca foi escrita uma cena onde o abuso \u00e9 mostrado explicitamente. Foi uma grande oportunidade como realizadora mulher de contar uma hist\u00f3ria feminina, sobre o ponto de vista feminino, sem um olhar masculino, sem a erotiza\u00e7\u00e3o dos nossos corpos.<\/p>\n<p><strong>Do ponto de vista log\u00edstico quais foram as principais dificuldades da produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro6\">Houve uma decis\u00e3o que teve de ser tomada desde o in\u00edcio. N\u00e3o era vi\u00e1vel filmar no Maraj\u00f3, que \u00e9 muito distante. Ap\u00f3s mais de um ano de pesquisa film\u00e1mos numa ilha em frente de Bel\u00e9m. Tivemos de fazer uma reconstitui\u00e7\u00e3o, porque as casas do Maraj\u00f3 s\u00e3o projetadas para fora, ficam no rio. N\u00e3o se pode sair de casa a correr, tem de ser a nadar. Isso transforma a vida das pessoas e diz muito sobre esse aprisionamento, sobre a maneira como aquelas meninas podem ou n\u00e3o pedir ajuda, podem ou n\u00e3o sair de casa.<\/p>\n<p><strong>Durante todo o processo sofreu alguma press\u00e3o para n\u00e3o fazer o filme?<\/strong><\/p>\n<p>Isso n\u00e3o aconteceu, mas por termos tomado os nossos cuidados desde o in\u00edcio. As pessoas n\u00e3o sabiam que este filme estava a ser feito. Ajuda sempre a captar recursos, dizer que um filme est\u00e1 a ser feito, mas no nosso caso preferimos n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o para o que est\u00e1vamos a fazer, para proteger a equipa e para que entr\u00e1ssemos com muito respeito nesse territ\u00f3rio e para tratar de tudo com muita \u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que descobriu a jovem protagonista, que apesar de nunca ter feito cinema tem uma presen\u00e7a muito forte?<\/strong><\/p>\n<p>Fizemos um processo de casting de quase um ano, com uma diretora de S\u00e3o Paulo e uma diretora local. Acab\u00e1mos por encontrar a Jamilli j\u00e1 mesmo no final. J\u00e1 est\u00e1vamos em Bel\u00e9m quando conhecemos a Jamilli e as meninas que fazem as irm\u00e3s dela.<\/p>\n<p><strong>O que a convenceu que a Jamilli era a sua Marcielle?<\/strong><\/p>\n<p>A Jamilli tinha uma for\u00e7a, um olhar, uma presen\u00e7a. Desde que a conhecemos que vimos que ela tinha um foco, uma for\u00e7a, um magnetismo muito impressionante. Ela chamou a nossa aten\u00e7\u00e3o. A Jamilli, como as outras duas, s\u00e3o meninas urbanas, da periferia de Bel\u00e9m. N\u00e3o tinham contacto com nenhuma comunidade ribeirinha, nunca tinham remado uma canoa, nunca tinham andado na floresta.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que as prepararam para a rodagem?<\/strong><\/p>\n<p>Precis\u00e1mos principalmente de entender a maturidade emocional dessas crian\u00e7as. Quando j\u00e1 s\u00f3 t\u00ednhamos umas dez a quinze crian\u00e7as fizemos um workshop para conversar com elas e com os pais e entender como \u00e9 que elas se sentiam naquele ambiente, que experi\u00eancias tinham tido. E a Jamilli foi-se logo destacando.<\/p>\n<p><strong>Ela estava consciente da hist\u00f3ria que estava a contar?<\/strong><\/p>\n<p>Ela sabia sobre o que era o filme. Os pais dela e de todas as outras crian\u00e7as tamb\u00e9m. Mas como forma de as proteger tom\u00e1mos a decis\u00e3o de n\u00e3o lhes mostrar o gui\u00e3o. Toda a prepara\u00e7\u00e3o foi feita de uma maneira muito l\u00fadica. E tentei dirigi-la de maneira muito simb\u00f3lica, para que n\u00e3o soubesse exatamente o que estava a acontecer em cada. Tivemos esses cuidados para que o ambiente fosse muito saud\u00e1vel e que n\u00e3o passassem por nenhum tipo de situa\u00e7\u00e3o que pudesse ser emocionalmente violenta.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que aconteceu esta coprodu\u00e7\u00e3o com Portugal?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma coprodu\u00e7\u00e3o muito especial para n\u00f3s. O Lu\u00eds Galv\u00e3o Teles \u00e9 um grande parceiro, juntou-se ao nosso projeto praticamente desde o in\u00edcio. Foi muito importante a parceria com a Fado Filmes.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que se processou a colabora\u00e7\u00e3o com os Dardenne?<\/strong><\/p>\n<p>A Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo come\u00e7ou um mercado em 2018, para ligar produtores brasileiros e internacionais. A Delphine Thompson, a produtora deles, estava nesse encontro e gostou muito do gui\u00e3o. Os Dardenne tamb\u00e9m e fizeram bastantes sugest\u00f5es no gui\u00e3o. O nosso interesse era tamb\u00e9m tornar a hist\u00f3ria universal. Quando mostramos o gui\u00e3o a vis\u00f5es do mundo t\u00e3o distantes das nossas, essa colabora\u00e7\u00e3o contribui para essa universalidade da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>E no caso do Walter Salles?<\/strong><\/p>\n<p>A VideoFilmes do Walter coproduziu e distribuiu o meu document\u00e1rio sobre o Francisco Brennand. Conhe\u00e7o o Walter h\u00e1 muitos anos, ele escreveu a minha carta de recomenda\u00e7\u00e3o para a faculdade. Estudei cinema na Calif\u00f3rnia, ele tamb\u00e9m o tinha feito. Quando voltei para o Brasil procurei a VideoFilmes e come\u00e7\u00e1mos esta parceria. Foi quando lan\u00e7ava o meu document\u00e1rio que tive esse encontro com a Faf\u00e1 de Bel\u00e9m. H\u00e1 um fio que liga todas as coisas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A jovem Jamilli Correa confere ao filme, de uma brutalidade contida, uma enorme carga de sensibilidade e humanismo.&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":40253,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[114,115,147,148,146,32,33],"class_list":{"0":"post-40252","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-entertainment","9":"tag-entretenimento","10":"tag-film","11":"tag-filmes","12":"tag-movies","13":"tag-portugal","14":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40252","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40252"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40252\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40253"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40252"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40252"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40252"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}