{"id":40527,"date":"2025-08-22T17:40:12","date_gmt":"2025-08-22T17:40:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/40527\/"},"modified":"2025-08-22T17:40:12","modified_gmt":"2025-08-22T17:40:12","slug":"mulheres-sem-abrigo-historias-de-medo-e-sobrevivencia-quando-a-rua-e-o-mal-menor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/40527\/","title":{"rendered":"Mulheres sem-abrigo: Hist\u00f3rias de medo e sobreviv\u00eancia quando a rua \u00e9 o mal menor"},"content":{"rendered":"<p>Ser mulher na rua \u00e9 uma fragilidade acrescida, confessaram algumas mulheres sem-abrigo com quem a Lusa falou. \u00c0 perda de dignidade e autoestima juntam-se viol\u00eancia, humilha\u00e7\u00e3o, medo e a necessidade de estrat\u00e9gias de autoprote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"inread\">Maria (nome fict\u00edcio), 48 anos, vive h\u00e1 seis meses numa unidade de acolhimento da Comunidade Vida e Paz, uma das poucas com quartos para mulheres. Antes disso, passou tr\u00eas anos na rua, depois de recusar voltar a viver com um companheiro violento, durante a pandemia de covid-19.<\/p>\n<p>&#8220;Deixei o meu filho com os meus pais. Achei mais seguro do que lev\u00e1-lo para a rua&#8221;, diz.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro1\">Na rua, aprendeu a proteger-se: andar com a mochila \u00e0s costas, dormir cada noite num s\u00edtio diferente, evitar rotinas. Mas nem sempre funcionava.<\/p>\n<p>&#8220;Um dia adormeci numa escada, achando que ningu\u00e9m me encontrava. Acordei com um homem em cima de mim. Consegui empurr\u00e1-lo. Fugi com medo que me perseguisse&#8221;, recorda. <\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro2\">Teve a tenda destru\u00edda, foi amea\u00e7ada com uma faca. &#8220;Ser mulher na rua \u00e9 uma fragilidade e uma dificuldade acrescida&#8221;, resume.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"ngx-body\" guid=\"e04472ab-0bfb-4d50-819c-a0530263d358\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1755884411_164_image.jpg\" width=\"100%\"\/><\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro3\">Foto: Ant\u00f3nio Cotrim\/LUSA<\/p>\n<p>Margarida Bolh\u00e3o, 55 anos, viveu mais de 15 anos na rua. Hoje est\u00e1 acolhida pela Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), mas lembra-se bem do medo constante de ser violada.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro4\">Carregava sempre a mochila \u00e0s costas para n\u00e3o ser roubada, usava-a como almofada \u00e0 noite. &#8220;Procurava a companhia de homens s\u00f3 pela sensa\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o&#8221;. <\/p>\n<p>Segundo Teresa Prata, assistente social da Comunidade Vida e Paz, &#8220;as mulheres est\u00e3o mais vulner\u00e1veis a todos os tipos de viol\u00eancia&#8221;. Muitas juntam-se a grupos ou a companheiros para se protegerem, mesmo em contextos de depend\u00eancia emocional ou abuso.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro5\">Ana (nome fict\u00edcio), 36 anos, vive numa tenda debaixo de um viaduto h\u00e1 um ano e meio. Fugiu de uma rela\u00e7\u00e3o de 17 anos marcada por agress\u00f5es. O filho vive com o pai, a filha com um tio. &#8220;Como com os ratos, durmo com os ratos&#8221;, descreve. Nos dias em que est\u00e1 menstruada, lava-se com garraf\u00f5es atr\u00e1s de um muro.<\/p>\n<p>&#8220;Pensos [higi\u00e9nicos] nem sempre tenho. \u00c0s vezes uso cuecas ou meias&#8221;, conta. <\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro6\">Quer voltar a viver com os filhos, mas teme que, se admitir a sua situa\u00e7\u00e3o, os filhos sejam institucionalizados. Sem rendimentos, n\u00e3o consegue pagar um quarto nem procurar trabalho.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"ngx-body\" guid=\"f0803af4-9700-43de-9606-c00a192ee36c\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1755884412_180_image.jpg\" width=\"100%\"\/><\/p>\n<p>Foto: Ant\u00f3nio Cotrim\/LUSA<\/p>\n<p>Lu\u00edsa Gomes, 57 anos, foi sem-teto durante 15 anos. Lembra-se da vergonha que sentia durante o tempo que dormiu na rua e de se sentir exposta perante as pessoas que passavam por si. Recorda-se tamb\u00e9m das &#8220;hemorragias muito grandes&#8221; na altura da menstrua\u00e7\u00e3o, que a obrigavam a ir lavar-se num chafariz.<\/p>\n<p>&#8220;Cheguei a ir ao supermercado, com o sangue quase a escorrer-me pelas pernas, roubar um penso [higi\u00e9nico] porque eu n\u00e3o tinha&#8221;, recorda. Ap\u00f3s anos de prostitui\u00e7\u00e3o, decidiu mudar de vida ao entregar o quarto filho para ado\u00e7\u00e3o. Hoje vive com apoio da associa\u00e7\u00e3o CRESCER, no programa Housing First.<\/p>\n<p>Cristiana Merendeiro, neuropsic\u00f3loga e coordenadora na CRESCER, diz que &#8220;cerca de 30% das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo s\u00e3o mulheres&#8221;, com idades entre os 40 e 45 anos em m\u00e9dia. Mas nota um aumento de jovens com hist\u00f3ricos severos de viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o mulheres com traumas brutais, com sa\u00fade mental fragilizada&#8221;, afirma. Muitas evitam as equipas de rua por prote\u00e7\u00e3o, escondendo-se ou s\u00f3 sentindo seguran\u00e7a se estiverem em casal.<\/p>\n<p>Critica a resposta institucional que, perante m\u00e3es sem-abrigo, opta pela separa\u00e7\u00e3o dos filhos. &#8220;Isso \u00e9 altamente traum\u00e1tico para as crian\u00e7as e destrutivo para as fam\u00edlias&#8221;. <\/p>\n<p>Maria Madalena Ramalho, vice-presidente da Cruz Vermelha, confirma que o n\u00famero de mulheres em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo apoiadas pela institui\u00e7\u00e3o tem crescido. Nos \u00faltimos dois anos, o n\u00famero total de pessoas apoiadas pela CVP aumentou 126%. <\/p>\n<p>&#8220;O fen\u00f3meno est\u00e1 a caminhar para a paridade&#8221;, diz, apontando causas como a crise econ\u00f3mica, o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o e o aumento das fam\u00edlias monoparentais &#8212; na maioria compostas por mulheres com filhos.<\/p>\n<p>Admite que a situa\u00e7\u00e3o se agrave com a subida do custo da habita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o acompanhada pelo aumento dos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Segundo o Inqu\u00e9rito de Caracteriza\u00e7\u00e3o das Pessoas em Situa\u00e7\u00e3o de Sem-Abrigo, de 31 de dezembro de 2023, existiam 13.128 pessoas nesta condi\u00e7\u00e3o, das quais 4.871 na \u00c1rea Metropolitana de Lisboa. Um n\u00famero em crescimento &#8212; no qual as mulheres s\u00e3o cada vez menos exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ser mulher na rua \u00e9 uma fragilidade acrescida, confessaram algumas mulheres sem-abrigo com quem a Lusa falou. \u00c0&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":40528,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,12,13,19,20,32,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-40527","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-news","18":"tag-noticias","19":"tag-noticias-principais","20":"tag-noticiasprincipais","21":"tag-portugal","22":"tag-principais-noticias","23":"tag-principaisnoticias","24":"tag-pt","25":"tag-top-stories","26":"tag-topstories","27":"tag-ultimas","28":"tag-ultimas-noticias","29":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40527"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40527\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40528"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}