{"id":406875,"date":"2026-06-05T02:23:10","date_gmt":"2026-06-05T02:23:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/406875\/"},"modified":"2026-06-05T02:23:10","modified_gmt":"2026-06-05T02:23:10","slug":"aids-ainda-atrai-preconceito-e-mata-milhares-no-brasil-04-06-2026-equilibrio-e-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/406875\/","title":{"rendered":"Aids ainda atrai preconceito e mata milhares no Brasil &#8211; 04\/06\/2026 &#8211; Equil\u00edbrio e Sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p>O ano de 1981 foi marcante para o Brasil. O pa\u00eds rumava para o fim da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/ditadura-militar\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">ditadura militar<\/a>, com o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2021\/04\/atentado-do-riocentro-golpeou-autoridade-de-figueiredo-e-completa-40-anos-sem-culpados.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">atentado do Riocentro<\/a> e a abertura pol\u00edtica sob <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-100-anos\/2021\/03\/joao-figueiredo-e-um-genio-disse-glauber-rocha-a-folha-em-1979.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Jo\u00e3o Figueiredo<\/a>. <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/pele\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Pel\u00e9<\/a> foi eleito &#8220;atleta do s\u00e9culo&#8221; pelo jornal franc\u00eas L\u2019\u00c9quipe. <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/silvio-santos\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Silvio Santos<\/a> inaugurou o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/sbt\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">SBT<\/a>.<\/p>\n<p>Um abalo s\u00edsmico contr\u00e1rio, por\u00e9m, chegou pelo notici\u00e1rio de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/saude\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">sa\u00fade<\/a>: em 5 de junho daquele ano, os <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/estados-unidos\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Estados Unidos<\/a> identificaram o come\u00e7o de uma epidemia de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/aids\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Aids<\/a> que se tornaria global e atingiria tamb\u00e9m a sociedade brasileira pelos 45 anos seguintes, completos nesta sexta-feira (5). Quase meio s\u00e9culo depois, o pa\u00eds ainda amarga duros \u00edndices, com milhares de novos diagn\u00f3sticos e mortes por ano.<\/p>\n<p>Desde 1982, quando a epidemia chegou ao Brasil, 1,6 milh\u00e3o conviveram com o HIV. Destes, 1,1 milh\u00e3o de casos progrediram para Aids, segundo o DataSUS. At\u00e9 o fim de 2024, 402 mil pessoas morreram pela doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O v\u00edrus que encurtou a vida de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/cazuza\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Cazuza<\/a> (1990), <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/09\/suposta-filha-de-freddie-mercury-guia-biografia-dificil-de-acreditar.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Freddie Mercury<\/a> (1991) e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/renato-russo\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Renato Russo<\/a> (1996) contaminou 25.571 pessoas no ano passado e matou 9.157 em 2024 no Brasil.<\/p>\n<p>Vista ent\u00e3o como uma senten\u00e7a de morte, a Aids ganhou tratamentos que derrubaram sua letalidade. O estigma, contudo, permanece como um obst\u00e1culo \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, afirma Alvaro Costa, infectologista do Hospital das Cl\u00ednicas e sub-investigador da Unidade de Pesquisa do Centro de Refer\u00eancia e Tratamento DST\/Aids.<\/p>\n<p>&#8220;Nos anos 1990, era uma doen\u00e7a fatal, com expectativa de vida curta e intenso estigma. Hoje, \u00e9 uma doen\u00e7a cr\u00f4nica tratada: os pacientes t\u00eam uma \u00f3tima qualidade de vida, rem\u00e9dios dispon\u00edveis no SUS e preven\u00e7\u00e3o. Mas o estigma \u00e9 o mesmo. As pessoas ainda se escondem, t\u00eam medo e s\u00e3o julgadas&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Para o m\u00e9dico, n\u00e3o se trata apenas de narrativa. O estigma impede um debate s\u00e9rio sobre a doen\u00e7a e novos tratamentos.<\/p>\n<p>&#8220;Existem bons estudos, com robustez, com comprometimento. Mas diferentemente do c\u00e2ncer, por exemplo, o HIV ainda remete a tabu, \u00e0 sexualidade das pessoas e \u00e0 discuss\u00e3o moral&#8221;, afirma Costa.<\/p>\n<p>H\u00e1 exemplos recentes de retrocesso ligado ao conservadorismo. Em 2025, o governo Donald Trump promoveu uma s\u00e9rie de cancelamentos de programas sobre HIV\/Aids nos Estados Unidos. Tamb\u00e9m cortou bilh\u00f5es de d\u00f3lares em ajuda externa.<\/p>\n<p>A Aids completa 45 anos sem cura e sem vacina, mas h\u00e1 avan\u00e7os em tratamento e preven\u00e7\u00e3o. Se nos anos 1990 pacientes com HIV precisavam tomar mais de 20 comprimidos ao longo do dia, em esquemas complexos e com efeitos colaterais severos, hoje \u00e9 poss\u00edvel controlar a infec\u00e7\u00e3o com um \u00fanico comprimido di\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os antirretrovirais modernos reduzem a carga viral a n\u00edveis indetect\u00e1veis, impedindo a transmiss\u00e3o sexual do v\u00edrus.<\/p>\n<p>Outro marco foi o surgimento da PrEP (profilaxia pr\u00e9-exposi\u00e7\u00e3o), adotada na d\u00e9cada de 2010 em diversos pa\u00edses e em 2017 no SUS. O m\u00e9todo consiste no uso de antirretrovirais por pessoas que n\u00e3o t\u00eam HIV, mas apresentam maior risco de exposi\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus. Quando utilizada corretamente, a PrEP reduz em 99% a chance de infec\u00e7\u00e3o e \u00e9 hoje uma das principais formas de preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O acesso a essas ferramentas, contudo, ainda \u00e9 desigual, avalia Costa. &#8220;O que vemos no Brasil \u00e9 uma boa rede de apoio nos grandes centros, sobretudo no Sudeste, e o interior desfavorecido. Temos m\u00e9dicos que ainda n\u00e3o conhecem PrEP, munic\u00edpios sem testagem, pessoas sem informa\u00e7\u00e3o. O controle da Aids depende de a\u00e7\u00f5es integradas: PrEP, camisinha e testagem. Se algum deles falha, h\u00e1 preju\u00edzos&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Vando Oliveira, 55, recebeu o diagn\u00f3stico de Aids em novembro de 1998. Acompanhou, ao longo de 28 anos, as mudan\u00e7as nas estrat\u00e9gias de sa\u00fade para conter a doen\u00e7a e viu avan\u00e7os e retrocessos, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;O preconceito ainda n\u00e3o est\u00e1 vencido, e a Aids saiu de pauta. Todo dia tem gente se infectando, todo dia tem gente morrendo. N\u00e3o se pode baixar a guarda&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Ele conta que j\u00e1 havia medica\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel quando recebeu o diagn\u00f3stico, mas foi tomado por uma inseguran\u00e7a sobre o futuro. &#8220;Como eu ia chegar em casa e dizer \u00e0 minha filha que eu tinha Aids? Como contar para os meus amigos? Mais do que sofrer preconceito, era expor pessoas que voc\u00ea ama ao julgamento alheio.&#8221;<\/p>\n<p>Hoje coordenador da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV no Cear\u00e1, Oliveira diz que diariamente conhece novas hist\u00f3rias com o mesmo dilema, que castiga principalmente as pessoas em maior vulnerabilidade.<\/p>\n<p>&#8220;O perfil de quem tem Aids \u00e9 a pessoa pobre, negra e perif\u00e9rica. Justamente quem tem menos informa\u00e7\u00e3o, renda e acesso \u00e0 sa\u00fade. Lidamos com 900 fam\u00edlias que dependem de cesta b\u00e1sica para se alimentar. Quantas est\u00e3o sem pedir? H\u00e1 pessoas vivendo com HIV e com fome. Como se toma rem\u00e9dio com fome?&#8221;, questiona.<\/p>\n<p>Oliveira avalia que houve nos \u00faltimos anos um afrouxamento das pol\u00edticas sobre Aids, decorrente de uma falsa percep\u00e7\u00e3o de que a doen\u00e7a n\u00e3o mais representava perigo, influenciada pelos avan\u00e7os no tratamento.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje eu tomo rem\u00e9dio todo dia e vivo bem, mas ainda h\u00e1 muita gente com Aids no Brasil sem rem\u00e9dio, vide o n\u00famero anual de mortes. Isso o Estado n\u00e3o pode permitir&#8221;, diz.<\/p>\n<p>    Cuide-se<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Ci\u00eancia, h\u00e1bitos e preven\u00e7\u00e3o numa newsletter para a sua sa\u00fade e bem-estar<\/p>\n<p>De acordo com o boletim epidemiol\u00f3gico de Aids de 2025, o Brasil registrou em 2024 uma taxa de 3,4 \u00f3bitos para cada 100 mil habitantes, o menor \u00edndice de mortalidade da s\u00e9rie hist\u00f3rica. De 2023 para 2024 houve queda de 12,8% no n\u00famero de mortes, passando de 10.500 para 9.157.<\/p>\n<p>O perfil de quem se infecta mudou ao longo das d\u00e9cadas. Ap\u00f3s anos de feminiza\u00e7\u00e3o, a epidemia voltou a se concentrar em homens. Em 2024, havia 28 homens vivendo com HIV para cada 10 mulheres.<\/p>\n<p>Pretos e pardos representavam 59,7% de todos os novos registros, enquanto a participa\u00e7\u00e3o de pessoas brancas caiu para 36,8%. Por fim, o documento do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade destaca que o n\u00famero de pessoas com 60 anos ou mais com HIV aumentou 46,2% na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O ano de 1981 foi marcante para o Brasil. 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