{"id":407947,"date":"2026-06-05T21:17:13","date_gmt":"2026-06-05T21:17:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/407947\/"},"modified":"2026-06-05T21:17:13","modified_gmt":"2026-06-05T21:17:13","slug":"por-que-venus-gira-no-sentido-contrario-ao-da-terra-05-06-2026-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/407947\/","title":{"rendered":"Por que V\u00eanus gira no sentido contr\u00e1rio ao da Terra &#8211; 05\/06\/2026 &#8211; Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Cientistas brasileiros podem ter desvendado a raz\u00e3o pela qual <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/venus\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">V\u00eanus<\/a> gira no sentido contr\u00e1rio ao da Terra \u2013fen\u00f4meno chamado de rota\u00e7\u00e3o retr\u00f3grada. O motivo pode ser uma combina\u00e7\u00e3o de fatores gravitacionais e atmosf\u00e9ricos inerentes ao pr\u00f3prio planeta, sem a necessidade de colis\u00f5es entre corpos celestes ou outros eventos catastr\u00f3ficos externos, segundo um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/astronomia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Astronomia<\/a>, Geof\u00edsica e Ci\u00eancias Atmosf\u00e9ricas da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/universidade\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Universidade<\/a> de S\u00e3o Paulo (IAG-<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/usp\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">USP<\/a>).<\/p>\n<p>A maioria dos planetas do Sistema Solar \u2013incluindo a Terra\u2013 gira em torno do pr\u00f3prio eixo de oeste para leste. As exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o V\u00eanus e Urano, que giram de leste para oeste, mas a origem dessa rota\u00e7\u00e3o retr\u00f3grada nunca foi satisfatoriamente explicada. No caso de V\u00eanus, que \u00e9 um planeta rochoso, o estudo do IAG-USP mostra que a invers\u00e3o do sentido de rota\u00e7\u00e3o pode emergir naturalmente da intera\u00e7\u00e3o entre mar\u00e9s gravitacionais e efeitos t\u00e9rmicos na atmosfera.<\/p>\n<p>&#8220;Foi uma descoberta fortuita. Eu n\u00e3o estava trabalhando nesse assunto. Meu foco \u00e9 o efeito de mar\u00e9 em exoplanetas. Mas, ao estudar o problema, motivado por quest\u00f5es em minha \u00e1rea de interesse, percebi que havia um ponto essencial que tinha passado despercebido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 din\u00e2mica de V\u00eanus&#8221;, afirma Sylvio Ferraz Mello, professor do IAG-USP e autor principal do trabalho, publicado em mar\u00e7o no <a href=\"https:\/\/iopscience.iop.org\/article\/10.3847\/1538-3881\/ae43e4\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">peri\u00f3dico The Astronomical Journal<\/a> e apoiado pela Fapesp.<\/p>\n<p>A rota\u00e7\u00e3o de V\u00eanus foi determinada no in\u00edcio dos anos 1960, quando observa\u00e7\u00f5es de radar conseguiram atravessar sua espessa cobertura de nuvens. Medi\u00e7\u00f5es mais recentes indicam um per\u00edodo de aproximadamente 243 dias, em sentido retr\u00f3grado.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, sabe-se que esse estado resulta do equil\u00edbrio entre dois mecanismos f\u00edsicos antag\u00f4nicos. De um lado, atuam as mar\u00e9s gravitacionais, geradas principalmente pela atra\u00e7\u00e3o do Sol, que tendem a desacelerar a rota\u00e7\u00e3o do planeta e lev\u00e1-lo a um estado de sincroniza\u00e7\u00e3o com o movimento orbital.<\/p>\n<p>De outro, a atmosfera extremamente densa de V\u00eanus \u2013cerca de 90 vezes mais massiva que a da Terra\u2013 sofre aquecimento desigual pela radia\u00e7\u00e3o solar, produzindo deforma\u00e7\u00f5es t\u00e9rmicas que geram um torque atmosf\u00e9rico capaz de acelerar a rota\u00e7\u00e3o em sentido oposto ao das mar\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8220;A atra\u00e7\u00e3o do Sol sobre a parte s\u00f3lida do planeta e sobre a atmosfera atua em sentidos opostos. Uma tende a frear a rota\u00e7\u00e3o, a outra, a aceler\u00e1-la no sentido contr\u00e1rio \u2013e a atmosfera acaba vencendo&#8221;, diz Ferraz Mello.<\/p>\n<p>Essa competi\u00e7\u00e3o entre os dois mecanismos explica por que V\u00eanus gira para tr\u00e1s hoje. Mas n\u00e3o responde a uma quest\u00e3o fundamental: como o planeta chegou a esse estado?<\/p>\n<p>O estudo mostra que a atmosfera n\u00e3o apenas mant\u00e9m a rota\u00e7\u00e3o retr\u00f3grada, mas \u00e9 essencial para sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Simula\u00e7\u00f5es indicam que, se V\u00eanus fosse privado de sua atmosfera, a a\u00e7\u00e3o isolada das mar\u00e9s gravitacionais faria o planeta retornar a uma rota\u00e7\u00e3o direta em menos de 1 milh\u00e3o de anos. Nesse cen\u00e1rio, ela tenderia a se sincronizar com o per\u00edodo orbital (o tempo que um corpo celeste leva para completar uma volta inteira ao redor de outro objeto no espa\u00e7o), como ocorre com a Lua em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra.<\/p>\n<p>&#8220;Se a invers\u00e3o tivesse sido causada por um evento s\u00fabito, como uma colis\u00e3o, o planeta voltaria depois a girar no sentido correto. Portanto, n\u00e3o pode ser um efeito instant\u00e2neo, tem de ser um processo cont\u00ednuo&#8221;, argumenta Ferraz Mello. Isso significa que a rota\u00e7\u00e3o retr\u00f3grada n\u00e3o \u00e9 um estado robusto por si s\u00f3: ela depende continuamente da presen\u00e7a e das propriedades da atmosfera.<\/p>\n<p>Para entender a origem desse comportamento, o estudo analisa as equa\u00e7\u00f5es que descrevem a evolu\u00e7\u00e3o da rota\u00e7\u00e3o sob a a\u00e7\u00e3o conjunta dos dois torques. O resultado revela uma estrutura t\u00edpica de sistemas din\u00e2micos: uma bifurca\u00e7\u00e3o em forquilha (pitchfork bifurcation). Sem atmosfera significativa, o sistema tem um \u00fanico estado est\u00e1vel \u2013a rota\u00e7\u00e3o s\u00edncrona (quando o tempo que um corpo celeste leva para dar uma volta em torno de si mesmo \u00e9 exatamente igual ao tempo que leva para completar uma \u00f3rbita ao redor de outro corpo).<\/p>\n<p>Com o aumento da influ\u00eancia atmosf\u00e9rica, ele perde estabilidade e se desdobra em dois novos estados est\u00e1veis, ambos ass\u00edncronos: um com rota\u00e7\u00e3o mais lenta que a \u00f3rbita (subs\u00edncrona) e outro com rota\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida (supers\u00edncrona). Um desses estados pode evoluir para rota\u00e7\u00e3o retr\u00f3grada.<\/p>\n<p>&#8220;Existe um ponto em que o sistema bifurca: ou o planeta passa a girar mais r\u00e1pido ou mais devagar. As duas possibilidades se apresentam. No caso de V\u00eanus, ele seguiu o caminho mais lento at\u00e9 inverter o sentido&#8221;, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>O modelo permite reconstruir um poss\u00edvel cen\u00e1rio evolutivo para V\u00eanus. Inicialmente, o planeta, ainda com atmosfera pouco desenvolvida, estaria sujeito principalmente \u00e0s mar\u00e9s gravitacionais, evoluindo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sincroniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;No in\u00edcio, V\u00eanus deve ter girado como a Terra, com o Sol nascendo a leste e se pondo a oeste. As mar\u00e9s foram freando essa rota\u00e7\u00e3o at\u00e9 atingir o estado s\u00edncrono&#8221;, afirma Ferraz Mello.<\/p>\n<p>Com o tempo, o degaseamento do interior do planeta \u2013o processo pelo qual gases s\u00e3o liberados para a superf\u00edcie\u2013 levou \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma atmosfera densa. Isso aumentou progressivamente o torque atmosf\u00e9rico, at\u00e9 que o sistema atingiu o ponto de bifurca\u00e7\u00e3o. A partir desse ponto, a rota\u00e7\u00e3o poderia evoluir para um dos dois estados poss\u00edveis, com probabilidades compar\u00e1veis. Em fun\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es no momento da transi\u00e7\u00e3o, o planeta seguiu para um regime que se tornou retr\u00f3grado. &#8220;\u00c9 um processo simples do ponto de vista f\u00edsico. A teoria n\u00e3o exige condi\u00e7\u00f5es excepcionais \u2013\u00e9 uma consequ\u00eancia natural da evolu\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria&#8221;, diz o pesquisador.<\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m mostra que o estado atual de V\u00eanus pode estar pr\u00f3ximo de um limite de estabilidade. Pequenas varia\u00e7\u00f5es em par\u00e2metros como temperatura superficial ou propriedades atmosf\u00e9ricas tenderiam a alterar o equil\u00edbrio entre os torques. E, em certas condi\u00e7\u00f5es, o sistema perderia estados estacion\u00e1rios est\u00e1veis, com uma evolu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da rota\u00e7\u00e3o. As observa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis ainda n\u00e3o s\u00e3o suficientemente precisas para descartar mudan\u00e7as lentas no per\u00edodo de rota\u00e7\u00e3o, que, eventualmente, estariam ocorrendo.<\/p>\n<p>Do cen\u00e1rio catastr\u00f3fico ao previs\u00edvel<\/p>\n<p>Um dos resultados mais relevantes do trabalho \u00e9 sua poss\u00edvel generaliza\u00e7\u00e3o para outros sistemas planet\u00e1rios. O modelo indica que a invers\u00e3o do sentido de rota\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno raro ou excepcional. Planetas rochosos situados na zona habit\u00e1vel de estrelas semelhantes ao Sol \u2013regi\u00e3o onde a temperatura permite a exist\u00eancia de \u00e1gua l\u00edquida\u2013 podem desenvolver atmosferas suficientemente densas para produzir torques compar\u00e1veis aos de V\u00eanus. Nesses casos, a mesma din\u00e2mica pode levar \u00e0 rota\u00e7\u00e3o retr\u00f3grada. &#8220;N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno raro. Esse tipo de evolu\u00e7\u00e3o pode ter ocorrido muitas vezes nos exoplanetas que conhecemos&#8221;, afirma Ferraz Mello. Exoplanetas s\u00e3o planetas que orbitam outras estrelas fora do Sistema Solar.<\/p>\n<p>Ao substituir cen\u00e1rios catastr\u00f3ficos por um mecanismo cont\u00ednuo e previs\u00edvel, o estudo oferece uma nova perspectiva sobre a evolu\u00e7\u00e3o da rota\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria. Mais do que explicar um caso particular, ele aponta para um comportamento possivelmente comum no Universo e amplia o quadro te\u00f3rico necess\u00e1rio para interpretar a diversidade de planetas j\u00e1 observados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Cientistas brasileiros podem ter desvendado a raz\u00e3o pela qual V\u00eanus gira no sentido contr\u00e1rio ao da Terra \u2013fen\u00f4meno&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":407948,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[84],"tags":[443,109,107,108,236,3536,2078,32,33,105,103,104,2560,106,110,3062,2077,12209,3064,50130],"class_list":["post-407947","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-ciencia-e-tecnologia","tag-astronomia","tag-ciencia","tag-ciencia-e-tecnologia","tag-cienciaetecnologia","tag-folha","tag-pesquisa-cientifica","tag-planetas","tag-portugal","tag-pt","tag-science","tag-science-and-technology","tag-scienceandtechnology","tag-sistema-solar","tag-technology","tag-tecnologia","tag-universidade","tag-universo","tag-urano","tag-usp","tag-venus"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116699584548261938","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407947","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=407947"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407947\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/407948"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=407947"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=407947"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=407947"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}