{"id":408663,"date":"2026-06-06T15:19:29","date_gmt":"2026-06-06T15:19:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/408663\/"},"modified":"2026-06-06T15:19:29","modified_gmt":"2026-06-06T15:19:29","slug":"como-viver-com-o-mal-maite-a-eta-e-aramburu-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/408663\/","title":{"rendered":"Como viver com o mal: &#8220;Maite&#8221;, a ETA e Aramburu \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Como todos os homens livres, Miguel \u00c1ngel Blanco n\u00e3o se prestava a defini\u00e7\u00f5es simples. Era, ainda assim, um rapaz da sua gera\u00e7\u00e3o. Filho de pais galegos que emigraram para o Pa\u00eds Basco \u00e0 procura de uma vida melhor, Miguel \u00c1ngel nasceu na prov\u00edncia basca de Biscaia a 13 de maio de 1968. Era basco, galego e espanhol, n\u00e3o vendo qualquer problema na coexist\u00eancia destas identidades.<\/p>\n<p>Em mi\u00fado, partilhou com o pai o of\u00edcio de pedreiro. Nas fam\u00edlias humildes, onde o esfor\u00e7o \u00e9 uma necessidade honrada, nunca sobram bra\u00e7os para trabalhar. Uma vez licenciado em ci\u00eancias econ\u00f3micas pela Universidade do Pa\u00eds Basco, encontrou trabalho na consultora Eman Consulting como economista. Para orgulho dos pais e satisfa\u00e7\u00e3o do filho, o elevador social ainda funcionava.<\/p>\n<p>Os tempos livres eram feitos \u00e0 bateria de uma banda de amigos que por vezes arriscava trocar a sala de ensaios por salas de casamentos e baptizados. N\u00e3o foi coisa profissional, apenas uma brincadeira de jovens. Mas se o passatempo podia gerar rendimento extra, ent\u00e3o ouro sobre azul.<\/p>\n<p>Em 1995, aos 27 anos, filiou-se nas Nuevas Generaciones, a \u201cjota\u201d do Partido Popular, a principal for\u00e7a pol\u00edtica do centro-direita espanhol. Nas aut\u00e1rquicas desse mesmo ano, foi eleito vereador no munic\u00edpio de Erm\u00faa, na sua Biscaia natal, terra com pouco mais de 16 mil habitantes. Com uma \u00e1rea de 6,5 km2, \u00e9 mais pequena do que o mais pequeno dos munic\u00edpios portugueses.<\/p>\n<p>A 10 de julho de 1997, quando sa\u00eda do comboio que o levava de casa para o trabalho, foi sequestrado por uma c\u00e9lula da organiza\u00e7\u00e3o terrorista Euskadi Ta Askatasuna (P\u00e1tria Basca e Liberdade), conhecida pela sigla ETA. J\u00e1 o tinham tentado localizar no dia anterior.<\/p>\n<p>Aos olhos da ETA, Miguel \u00c1ngel Blanco n\u00e3o era basco. Nascera em Biscaia, mas os seus pais eram galegos, portanto, maketos, um termo pejorativo que o nacionalismo basco reservou aos imigrantes. S\u00f3 havia uma forma de ser basco e era a ETA que a definia. Quem n\u00e3o aceitasse a tutela ideol\u00f3gica e pol\u00edtica do terrorismo estava votado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de traidor.<\/p>\n<p>                    <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/maite-fernando-aramburu.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1852\" height=\"2776\" class=\"news-photo\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\"\/>                <\/p>\n<p class=\"legenda\">\n            \u25b2 T\u00edtulo: &#8220;Maite&#8221; | Autor: Fernando Aramburu | Tradu\u00e7\u00e3o: J. Teixeira de Aguilar | Editora: Dom Quixote | P\u00e1ginas: 272<\/p>\n<p>No entanto, Miguel \u00c1ngel ter\u00e1 sido escolhido por raz\u00f5es mais prosaicas. A amea\u00e7a omnipresente da viol\u00eancia terrorista levou muitos pol\u00edticos a adoptar medidas de seguran\u00e7a pessoal, como andar com escolta armada. Para a ETA, era muito mais f\u00e1cil sequestrar um jovem que se deslocava em transportes p\u00fablicos, um vereador de um pequeno munic\u00edpio, que em Portugal seria apenas uma junta de freguesia, do que raptar um presidente de c\u00e2mara, um deputado ou um ministro.<\/p>\n<p>Qual foi a motiva\u00e7\u00e3o do sequestro? Do ponto de vista da ETA, havia raz\u00f5es estrat\u00e9gicas e t\u00e1cticas. No plano estrat\u00e9gico, tratava-se de inverter a percep\u00e7\u00e3o de debilidade que grassava dentro e fora da organiza\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia espanhola desarticulara v\u00e1rias c\u00e9lulas terroristas e, muito mais importante, prendera de uma assentada toda a direc\u00e7\u00e3o da ETA na localidade de Bidart, no pa\u00eds basco franc\u00eas, a 29 de mar\u00e7o de 1992. A nova lideran\u00e7a, que entrou para substituir os detidos, teve o mesmo destino.<\/p>\n<p>Acabou-se, assim, o mito de invencibilidade alimentado pela organiza\u00e7\u00e3o terrorista durante anos. A ETA estava profundamente debilitada e o des\u00e2nimo alastrava nas fileiras da milit\u00e2ncia. Esta fraqueza teve tamb\u00e9m impacto eleitoral, com o Herri Batasuna, o bra\u00e7o partid\u00e1rio da organiza\u00e7\u00e3o terrorista, a sofrer uma dura penaliza\u00e7\u00e3o nas urnas.<\/p>\n<p>No plano t\u00e1ctico, foi a resposta a uma pesada humilha\u00e7\u00e3o. A 1 de Julho de 1997, t\u00e3o somente nove dias antes do sequestro de Miguel \u00c1ngel Blanco, a Guardia Civil conseguiu, por fim, localizar e libertar Jos\u00e9 Antonio Ortega Lara. Funcion\u00e1rio do sistema prisional, Ortega Lara estava em cativeiro h\u00e1 532 dias, o mais longo sequestro levado a cabo pela ETA. Foi mantido numa cela subterr\u00e2nea min\u00fascula e insalubre, onde suportou condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o pavorosas que chegou a pensar em suic\u00eddio.\u00a0A sua liberta\u00e7\u00e3o foi muito mais do que a liberta\u00e7\u00e3o de um homem: foi uma vit\u00f3ria das For\u00e7as de Seguran\u00e7a, mas tamb\u00e9m dos poucos trabalhadores, amigos e familiares que sa\u00edram \u00e0s ruas para protestar contra o terrorismo.<\/p>\n<p>Somando as dificuldades estrat\u00e9gicas \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o t\u00e1ctica, era preciso um golpe de for\u00e7a que vingasse a honra da ETA. \u00c0s 18h30 do dia 10 de julho, poucas horas ap\u00f3s o sequestro de Miguel \u00c1ngel, a ETA emitiu um comunicado no qual dava ao governo 48 horas para alterar sua pol\u00edtica prisional e transferir de imediato para o Pa\u00eds Basco os condenados por crimes de terrorismo. Caso contr\u00e1rio, Miguel \u00c1ngel Blanco seria executado.<\/p>\n<p>A reivindica\u00e7\u00e3o era imposs\u00edvel de cumprir. \u00c0 \u00e9poca, a ETA tinha mais de 500 reclusos espalhados por pres\u00eddios de todo o territ\u00f3rio espanhol, donde, mesmo que o Executivo de Jos\u00e9 Mar\u00eda Aznar quisesse negociar, seria imposs\u00edvel transferir e acomodar todos estes presos em apenas dois dias.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da tarde de 12 de julho, terminadas as 48 horas, os terroristas colocaram Miguel \u00c1ngel na bagageira de um ve\u00edculo e transportaram-no manietado para uma zona despovoada pr\u00f3xima \u00e0 cidade de Lasarte, na prov\u00edncia basca de Guip\u00fazcoa. Uma vez chegados, retiraram o ref\u00e9m do carro e, enquanto um dos terroristas agarrava o jovem vereador do Partido Popular, que permanecia com as m\u00e3os amarradas, outro etarra deu-lhe dois tiros na cabe\u00e7a \u00e0 queima-roupa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Como todos os homens livres, Miguel \u00c1ngel Blanco n\u00e3o se prestava a defini\u00e7\u00f5es simples. 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