{"id":408871,"date":"2026-06-06T20:11:28","date_gmt":"2026-06-06T20:11:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/408871\/"},"modified":"2026-06-06T20:11:28","modified_gmt":"2026-06-06T20:11:28","slug":"um-em-cada-dois-trabalhadores-com-ansiedade-nao-faz-tratamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/408871\/","title":{"rendered":"Um em cada dois trabalhadores com ansiedade n\u00e3o faz tratamento"},"content":{"rendered":"<p>Mais da metade dos trabalhadores brasileiros diagnosticados com ansiedade n\u00e3o recebe qualquer tipo de tratamento. O dado, revelado por um levantamento in\u00e9dito da plataforma de sa\u00fade corporativa Axenya, realizado com mais de 91 mil colaboradores de empresas, mostra que o sofrimento mental continua sem acompanhamento mesmo quando j\u00e1 foi identificado.<\/p>\n<p>A pesquisa aponta que 51,6% dos profissionais diagnosticados com ansiedade n\u00e3o recebem atendimento especializado. Al\u00e9m disso, 12,2% apresentam sinais de depress\u00e3o moderada ou grave e 62,7% dormem menos de seis horas por noite. No total, um em cada tr\u00eas trabalhadores apresenta algum sinal cl\u00ednico relevante de sofrimento mental.<\/p>\n<p>O estudo utilizou o PHQ-9, instrumento cl\u00ednico validado internacionalmente e amplamente empregado por psiquiatras para rastreamento de sintomas depressivos.<\/p>\n<p>\u201cOs resultados implicam que n\u00e3o \u00e9 falta de consci\u00eancia, mas sim de acesso, de continuidade e de um sistema que feche essa conta. A empresa que n\u00e3o enxerga isso est\u00e1 pagando o custo sem nenhum dos benef\u00edcios do cuidado\u201d, afirma Mariano Garc\u00eda-Vali\u00f1o, fundador e CEO da Axenya.<\/p>\n<p>  Sofrimento normalizado<\/p>\n<p>Embora a discuss\u00e3o sobre sa\u00fade mental esteja cada vez mais presente no ambiente corporativo, muitos trabalhadores ainda demoram anos para procurar ajuda. Segundo o psiquiatra Bruno Brand\u00e3o, um dos principais obst\u00e1culos \u00e9 a normaliza\u00e7\u00e3o dos sintomas.<\/p>\n<p>\u201cExiste muito preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental. Muita gente acredita que a ansiedade \u00e9 um tra\u00e7o da personalidade ou que precisa aguentar sozinho, que se falar vai ser criticada ou julgada\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O especialista explica que sinais cl\u00e1ssicos do transtorno acabam sendo incorporados \u00e0 rotina sem despertar preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPreocupa\u00e7\u00e3o em excesso, pensamento acelerado, dormir pouco\u2026 a pessoa normaliza: \u2018Eu durmo pouco porque sou mais produtivo\u2019. Irritabilidade vira \u2018exig\u00eancia\u2019. E isso acaba se transformando em um padr\u00e3o de funcionamento que a pessoa considera normal\u201d, analisa.<\/p>\n<p>De acordo com Brand\u00e3o, pesquisas mostram que o intervalo entre o surgimento dos primeiros sintomas e a busca por tratamento pode chegar a uma d\u00e9cada. Muitos pacientes s\u00f3 procuram atendimento aos 40 ou 45 anos, frequentemente j\u00e1 convivendo com sintomas f\u00edsicos persistentes, como dores de cabe\u00e7a, refluxo e problemas gastrointestinais.<\/p>\n<p>  Sono irregular<\/p>\n<p>Os dados da pesquisa mostram que a priva\u00e7\u00e3o de sono \u00e9 uma realidade para a maioria dos trabalhadores com ansiedade. Para o psiquiatra, o problema vai al\u00e9m do cansa\u00e7o e pode acelerar o surgimento de outros transtornos mentais.<\/p>\n<p>\u201cO sono regula todo o funcionamento do nosso corpo. Quando a pessoa dorme pouco de forma cr\u00f4nica, h\u00e1 um aumento da reatividade emocional e uma redu\u00e7\u00e3o da atividade cognitiva. Mem\u00f3ria, concentra\u00e7\u00e3o e velocidade de racioc\u00ednio diminuem\u201d, explica.<\/p>\n<p>Segundo ele, o sistema l\u00edmbico, respons\u00e1vel pelas emo\u00e7\u00f5es, permanece hiperativado, enquanto as \u00e1reas cerebrais ligadas ao racioc\u00ednio e ao controle emocional perdem efici\u00eancia. O resultado \u00e9 um aumento da irritabilidade, da preocupa\u00e7\u00e3o excessiva e da dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, o estresse cr\u00f4nico, impulsionado pela hiperconectividade, pelas cobran\u00e7as constantes e pela sensa\u00e7\u00e3o permanente de urg\u00eancia, pode favorecer o desenvolvimento da depress\u00e3o, alerta Brand\u00e3o. \u201c\u00c9 um ciclo. O estresse leva \u00e0 depress\u00e3o e \u00e0 ins\u00f4nia; a ins\u00f4nia piora o estresse e a depress\u00e3o. Um retroalimenta o outro. Precisamos tratar os tr\u00eas fatores de forma integrada\u201d.<\/p>\n<p>  Impacto profissional<\/p>\n<p>Os efeitos da ansiedade e da depress\u00e3o n\u00e3o tratadas ultrapassam a esfera individual. Os transtornos afetam a produtividade, a tomada de decis\u00f5es, a criatividade e os relacionamentos profissionais. Tamb\u00e9m aumentam o absente\u00edsmo (indicador de Recursos Humanos que mede a frequ\u00eancia de aus\u00eancias, atrasos ou sa\u00eddas antecipadas de um colaborador durante sua jornada de trabalho) e elevam o risco de doen\u00e7as f\u00edsicas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tratar quadros neuropsiqui\u00e1tricos reflete tamb\u00e9m na quest\u00e3o econ\u00f4mica daquela empresa\u201d, destaca Brand\u00e3o.<\/p>\n<p>Os desafios se tornam ainda maiores entre os trabalhadores mais jovens. Um levantamento realizado com 11.600 colaboradores pelo pesquisador Gustavo Hohendorff mostra que a Gera\u00e7\u00e3o Z concentra alguns dos indicadores mais preocupantes de bem-estar emocional.<\/p>\n<p>Entre as mulheres da gera\u00e7\u00e3o, 72% relatam emo\u00e7\u00f5es negativas na maior parte dos dias. J\u00e1 58% dos jovens adultos afirmam sentir pouca ou nenhuma sensa\u00e7\u00e3o de prop\u00f3sito no trabalho.<\/p>\n<p>\u201cA Gera\u00e7\u00e3o Z chegou ao mercado de trabalho com mais vocabul\u00e1rio sobre sa\u00fade mental do que qualquer gera\u00e7\u00e3o anterior e, paradoxalmente, com menos ferramentas pr\u00e1ticas para cuidar dela. Isso n\u00e3o \u00e9 fraqueza. \u00c9 um sintoma de um sistema que ainda n\u00e3o aprendeu a tratar o bem-estar como prioridade antes de virar crise\u201d, afirma Mariano Garc\u00eda-Vali\u00f1o.<\/p>\n<p>  Ajuda profissional<\/p>\n<p>Para o psiquiatra Bruno Brand\u00e3o, a ansiedade n\u00e3o deve ser encarada como uma caracter\u00edstica da personalidade ou uma condi\u00e7\u00e3o que precisa ser suportada em sil\u00eancio. \u201cEntender que a ansiedade n\u00e3o \u00e9 sinal de fraqueza, n\u00e3o \u00e9 falta de Deus, de for\u00e7a ou de vontade. N\u00e3o \u00e9 \u2018jeito de ser\u2019. \u00c9 um quadro trat\u00e1vel, como qualquer outra doen\u00e7a. Quanto mais cedo buscar tratamento, melhor o progn\u00f3stico\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Segundo ele, procurar ajuda profissional \u00e9 uma forma de autocuidado e pode transformar significativamente a qualidade de vida. \u201cMuitos pacientes, depois de anos, dizem: \u2018Por que n\u00e3o busquei antes? Minha vida virou outra\u2019. A ansiedade tem tratamento. Quanto mais cedo a pessoa procura ajuda, maiores s\u00e3o as chances de recuperar qualidade de vida e evitar que o sofrimento se torne cr\u00f4nico\u201d, finaliza o Brand\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mais da metade dos trabalhadores brasileiros diagnosticados com ansiedade n\u00e3o recebe qualquer tipo de tratamento. 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