{"id":40898,"date":"2025-08-22T22:54:12","date_gmt":"2025-08-22T22:54:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/40898\/"},"modified":"2025-08-22T22:54:12","modified_gmt":"2025-08-22T22:54:12","slug":"pedrogao-esta-neste-momento-muito-mais-vulneravel-do-que-estava-antes-do-incendio-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/40898\/","title":{"rendered":"\u201cPedr\u00f3g\u00e3o est\u00e1 neste momento muito mais vulner\u00e1vel do que estava antes do inc\u00eandio\u201d | Entrevista"},"content":{"rendered":"<p>A conversa de Carlos Ribeiro com o <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/azul\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Azul<\/a> decorre enquanto este cientista e bombeiro est\u00e1 num centro de coordena\u00e7\u00e3o de inc\u00eandio em S\u00e1t\u00e3o, distrito da Guarda. Somos interrompidos v\u00e1rias vezes por comunica\u00e7\u00f5es sobre a situa\u00e7\u00e3o do terreno, sobre as quais tem de tomar decis\u00f5es. Enquanto isso, o investigador do Centro de Estudos Florestais da Universidade de Coimbra vai deixando v\u00e1rios alertas.<\/p>\n<p>\u201cTemos de ter no\u00e7\u00e3o de que os grandes inc\u00eandios come\u00e7aram a sair fora de \u00e9poca\u201d, afirma, j\u00e1 a olhar para os pr\u00f3ximos meses. \u201cEsta \u00e9 uma altera\u00e7\u00e3o que os decisores pol\u00edticos tamb\u00e9m t\u00eam de ter em conta.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tamb\u00e9m apostar na ac\u00e7\u00e3o urgente logo depois de um fogo na terra queimada, para evitar, por exemplo, que as cinzas deslizem e contaminem as linhas de \u00e1gua. Deixa ainda um aviso e um desabafo: \u201cPedr\u00f3g\u00e3o est\u00e1 neste momento muito mais vulner\u00e1vel do que estava antes do inc\u00eandio.\u201d\u200b<\/p>\n<p><strong>Temos o <\/strong><strong>territ\u00f3rio desordenado e o clima, que s\u00e3o dif\u00edceis de controlar. Qual \u00e9 o papel das escolhas dos decisores?<\/strong><br \/>Dou-lhe um exemplo sobre \u00e1reas que arderam em 2013 e que at\u00e9 \u00e0 data ainda n\u00e3o arderam, mas onde nada foi feito. Por exemplo, Pedr\u00f3g\u00e3o. Nada foi feito. Pedr\u00f3g\u00e3o Grande est\u00e1 neste momento muito mais vulner\u00e1vel do que estava antes do inc\u00eandio.<\/p>\n<p><strong>Por causa do combust\u00edvel que acumulou?<\/strong><br \/>Sim. Outro exemplo: o caso do eucalipto. Aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o considero que haja uma esp\u00e9cie pior do que outra. Mas temos esp\u00e9cies florestais que s\u00e3o mais pir\u00f3filas, isto \u00e9, esp\u00e9cies que gostam mais do fogo. H\u00e1 esp\u00e9cies que ap\u00f3s um inc\u00eandio ser\u00e3o as primeiras a regenerar-se e a dominar o territ\u00f3rio. Temos de identificar estes casos e agir. Mas, muitas vezes, a decis\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o acompanha a decis\u00e3o t\u00e9cnica. E aqui \u00e9 que est\u00e1 um grave problema. Mais um caso concreto: o munic\u00edpio Moimenta da Beira. Pediu-me para fazer um plano de fogo controlado. Eu fiz. O que aconteceu?<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o foi executado.<\/strong><br \/>N\u00e3o foi executado. Nem sequer foram aprovadas \u00e1reas na reuni\u00e3o do plano da defesa da floresta contra inc\u00eandios. E a \u00e1rea toda que ardeu agora\u2026 Noventa por cento do plano era naquela zona, em que j\u00e1 deveria ter sido executado.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, houve uma decis\u00e3o t\u00e9cnica, mas faltou a decis\u00e3o pol\u00edtica.<\/strong><br \/>Sim, faltou tomar essa decis\u00e3o. Talvez por falta de recursos, n\u00e3o sei, n\u00e3o encontro uma justifica\u00e7\u00e3o. O certo \u00e9 que n\u00e3o foi executado.<\/p>\n<p><strong>Mas 90% da \u00e1rea que ardeu agora estava dentro desse per\u00edmetro?<\/strong><br \/>Estava dentro do plano. A grande maioria das \u00e1reas era naquela zona que eu tinha identificado.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 escolhas humanas que podem <\/strong><strong>minimizar desastres. Mas qual \u00e9 a culpa do clima?<\/strong><br \/>O clima ajuda ao processo. E as duas coisas est\u00e3o directamente relacionadas, porque quanto mais altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas houver, mais gravosos v\u00e3o ser os inc\u00eandios no futuro. H\u00e1 tr\u00eas semanas, durante os primeiros inc\u00eandios de Vila Real, alertei que os piores dias ainda estavam para vir. E \u00e9 um facto que as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas aumentam a frequ\u00eancia e a intensidade de condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas extremas, e que depois favorecem os inc\u00eandios.<\/p>\n<p><strong>Temos a fogueira perfeita?<\/strong><br \/>Temos tudo, os factores est\u00e3o todos alinhados e o combust\u00edvel torna-se cada vez mais inflam\u00e1vel, temos os combust\u00edveis finos mortos, que ajudam \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o do fogo, mas temos tamb\u00e9m os combust\u00edveis vivos, que por estarem ainda mais secos, ajudam a tornar os matos e a floresta altamente inflam\u00e1veis. Por um lado, a probabilidade de igni\u00e7\u00e3o \u00e9 muito alta, e por outro, a velocidade do fogo e a intensidade s\u00e3o muito fortes e est\u00e3o fora da nossa capacidade. Quando o fogo encontra o tal combust\u00edvel e o tal desordenamento do territ\u00f3rio, est\u00e3o criadas as condi\u00e7\u00f5es ideais para evoluir para um comportamento extremo. E n\u00e3o h\u00e1 capacidade de ningu\u00e9m o parar, at\u00e9 que surjam as condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas adequadas.<\/p>\n<p><strong>E a noite&#8230;<\/strong><br \/>Quando estes grandes inc\u00eandios surgem nestas zonas, podemos ter um combate mais eficaz durante o per\u00edodo nocturno, mas h\u00e1 semanas em que o per\u00edodo nocturno tem humidades na ordem dos 30% a 40%. Essa humidade relativa do ar n\u00e3o chega, o combust\u00edvel n\u00e3o ganha humidade para retardar o fogo.<\/p>\n<p><strong>A tend\u00eancia \u00e9 piorar?<\/strong><br \/>As altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas v\u00e3o agravar ainda mais isto, mas tamb\u00e9m est\u00e3o a aumentar cada vez mais Quanto mais inc\u00eandios tivermos e mais di\u00f3xido de carbono e outras part\u00edculas libertarem para a atmosfera por causa deles, mais vamos afectar o clima e as condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas no futuro. Normalmente, [o per\u00edodo pior] no ano dura cerca de 15 dias.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o acha que o desastre est\u00e1 perto do fim?<\/strong><br \/>N\u00e3o quero estar a arriscar nisso. Podemos ainda vir a ter os inc\u00eandios de Setembro e Outubro, que \u00e0s vezes s\u00e3o mais gravosos do que estes, porque a seca prolongada vai agrav\u00e1-los. Mas a realidade \u00e9 que com as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas vamos deixar de ter s\u00f3 uma \u00e9poca de fogos.<\/p>\n<p>Temos de ter no\u00e7\u00e3o de que os grandes inc\u00eandios come\u00e7aram a sair fora de \u00e9poca. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 em Julho, Agosto e Setembro. Esta \u00e9 uma altera\u00e7\u00e3o que os decisores pol\u00edticos tamb\u00e9m t\u00eam de ter em conta, porque temos de ter um sistema anual refor\u00e7ado quando as condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas s\u00e3o mais gravosas fora do per\u00edodo normal de inc\u00eandio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A conversa de Carlos Ribeiro com o Azul decorre enquanto este cientista e bombeiro est\u00e1 num centro de&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":40899,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[785,27,28,15,16,7954,14,2830,2832,25,26,21,22,12,13,19,20,32,23,24,33,17,18,12437,29,30,31],"class_list":{"0":"post-40898","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-azul","9":"tag-breaking-news","10":"tag-breakingnews","11":"tag-featured-news","12":"tag-featurednews","13":"tag-florestas","14":"tag-headlines","15":"tag-incendios","16":"tag-incendios-florestais","17":"tag-latest-news","18":"tag-latestnews","19":"tag-main-news","20":"tag-mainnews","21":"tag-news","22":"tag-noticias","23":"tag-noticias-principais","24":"tag-noticiasprincipais","25":"tag-portugal","26":"tag-principais-noticias","27":"tag-principaisnoticias","28":"tag-pt","29":"tag-top-stories","30":"tag-topstories","31":"tag-tragedia-em-pedrogao-grande","32":"tag-ultimas","33":"tag-ultimas-noticias","34":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40898","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40898"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40898\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40899"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40898"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40898"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40898"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}