{"id":411176,"date":"2026-06-08T23:29:26","date_gmt":"2026-06-08T23:29:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/411176\/"},"modified":"2026-06-08T23:29:26","modified_gmt":"2026-06-08T23:29:26","slug":"alcool-em-queda-e-maconha-em-alta-nos-estados-unidos-por-que-o-consumo-abusivo-de-alcool-segue-crescendo-no-brasil-cisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/411176\/","title":{"rendered":"\u00c1lcool em queda e maconha em alta nos Estados Unidos: por que o consumo abusivo de \u00e1lcool segue crescendo no Brasil? &#8211; CISA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nos Estados Unidos, o n\u00famero de pessoas que usam maconha quase todos os dias superou, pela primeira vez, o de quem bebe \u00e1lcool com essa frequ\u00eancia. O dado refor\u00e7a a ideia de que o padr\u00e3o de consumo de subst\u00e2ncias est\u00e1 mudando em alguns pa\u00edses. No Brasil, os n\u00fameros v\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o oposta: o consumo abusivo de bebidas alco\u00f3licas continua subindo, sobretudo entre mulheres e jovens, e o \u00e1lcool ainda \u00e9, com folga, a subst\u00e2ncia que mais adoece e mata a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, o \u00e1lcool foi a principal subst\u00e2ncia recreativa da cultura ocidental, e a maconha, uma alternativa de menor express\u00e3o. Esse quadro est\u00e1 mudando em alguns lugares. Levantamentos populacionais nos Estados Unidos mostram que o uso intenso de cannabis cresceu r\u00e1pido, enquanto o consumo frequente de \u00e1lcool recuou. O movimento interessa \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, mas n\u00e3o cabe transp\u00f4-lo de forma autom\u00e1tica para a realidade brasileira.<\/p>\n<p><b>O que mudou nos Estados Unidos<\/b><\/p>\n<p>A an\u00e1lise mais influente sobre o tema foi publicada por Jonathan Caulkins, da Carnegie Mellon University, na revista Addiction\u00b9. Reunindo dados de 27 edi\u00e7\u00f5es da principal pesquisa domiciliar norte-americana sobre uso de subst\u00e2ncias, com mais de 1,6 milh\u00e3o de participantes entre 1979 e 2022, o autor encontrou uma mudan\u00e7a expressiva. Em 1992, havia cerca de dez vezes mais pessoas bebendo \u00e1lcool diariamente ou quase todos os dias (8,9 milh\u00f5es) do que usando maconha com essa frequ\u00eancia (menos de 1 milh\u00e3o). Em 2022, pela primeira vez, o quadro se inverteu: 17,7 milh\u00f5es de pessoas relataram uso di\u00e1rio ou quase di\u00e1rio de maconha, contra 14,7 milh\u00f5es de bebedores na mesma frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>A intensidade do consumo mostra outra diferen\u00e7a. Muito mais gente bebe do que usa cannabis, mas o consumo em alto volume \u00e9 menos comum entre quem bebe. Cerca de 40% dos usu\u00e1rios atuais de maconha relatam uso di\u00e1rio ou quase di\u00e1rio, um padr\u00e3o mais pr\u00f3ximo do tabaco do que do \u00e1lcool. Caulkins observa ainda que essas tend\u00eancias acompanham as mudan\u00e7as na pol\u00edtica sobre drogas: o uso de cannabis caiu nos per\u00edodos de maior restri\u00e7\u00e3o e cresceu nas fases de liberaliza\u00e7\u00e3o, processo que se acelerou com a legaliza\u00e7\u00e3o recreativa em v\u00e1rios estados.<\/p>\n<p><b>A hip\u00f3tese da substitui\u00e7\u00e3o e seus limites<\/b><\/p>\n<p>Parte desse movimento costuma ser lida como substitui\u00e7\u00e3o: a ideia de que algumas pessoas estariam trocando o \u00e1lcool pela cannabis, fen\u00f4meno popularizado pela express\u00e3o \u201cCalifornia sober\u201d (s\u00f3brio \u00e0 moda californiana, ou seja, abst\u00eamio de \u00e1lcool, mas usu\u00e1rio de maconha). At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, essa hip\u00f3tese se apoiava sobretudo em pesquisas observacionais e em relatos pessoais.<\/p>\n<p>Em 2025, um ensaio cl\u00ednico da Brown University, publicado no American Journal of Psychiatry\u00b2, trouxe a primeira evid\u00eancia experimental sobre o tema. Em um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, 157 adultos que faziam uso intenso de \u00e1lcool e usavam cannabis ao menos duas vezes por semana foram avaliados em um ambiente de laborat\u00f3rio que simulava um bar. Ap\u00f3s fumar cannabis com THC ativo, os participantes consumiram entre 19% e 27% menos \u00e1lcool do que ap\u00f3s o placebo, al\u00e9m de relatarem menor vontade de beber e de demorarem mais para tomar o primeiro gole.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios autores, por\u00e9m, pedem cautela. O efeito \u00e9 agudo, de curt\u00edssimo prazo e medido em laborat\u00f3rio; n\u00e3o prova que a cannabis seja tratamento seguro para problemas com \u00e1lcool. N\u00e3o h\u00e1, hoje, qualquer recomenda\u00e7\u00e3o de usar maconha para beber menos. A cannabis tem riscos pr\u00f3prios, incluindo depend\u00eancia, e boa parte de quem tem transtorno por uso de cannabis tamb\u00e9m preenche crit\u00e9rios para transtorno por uso de \u00e1lcool. Trocar uma subst\u00e2ncia pela outra n\u00e3o \u00e9, portanto, uma solu\u00e7\u00e3o sem danos.<\/p>\n<p><b>O Brasil na contram\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Enquanto nos Estados Unidos o consumo frequente de \u00e1lcool recua, o Brasil segue outro caminho, e ele preocupa. O pa\u00eds acompanha a tend\u00eancia mundial de queda no consumo per capita de bebidas alco\u00f3licas, mas o consumo abusivo continua subindo. Segundo o sistema Vigitel, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a preval\u00eancia de Beber Pesado Epis\u00f3dico (BPE), quatro ou mais doses em uma ocasi\u00e3o para mulheres e cinco ou mais para homens, subiu de 15,7% em 2006 para 20,4% em 2024 nas capitais brasileiras.<\/p>\n<p>O crescimento n\u00e3o \u00e9 uniforme. Entre os homens, o consumo abusivo ficou alto e relativamente est\u00e1vel, em torno de 25% a 27%. A maior mudan\u00e7a veio das mulheres: a preval\u00eancia quase dobrou em duas d\u00e9cadas, de 7,8% em 2006 para 15,2% em 2023, com peso especial entre as mais jovens. O aumento se concentra tamb\u00e9m nas faixas et\u00e1rias jovens e entre pessoas de maior escolaridade. Ou seja, o problema n\u00e3o est\u00e1 restrito a grupos espec\u00edficos ou socialmente mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p><b>Por que essa diferen\u00e7a importa<\/b><\/p>\n<p>A vis\u00e3o dos dois cen\u00e1rios ajuda a evitar compara\u00e7\u00f5es indevidas. A ideia de que \u201cuma nova gera\u00e7\u00e3o bebe menos\u201d, embora amparada por dados de <a href=\"https:\/\/cisa.org.br\/sua-saude\/informativos\/artigo\/item\/564-levantamento-nacional-mostra-queda-no-consumo-de-alcool-entre-adultos-e-adolescentes\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">pesquisas recentes no Brasil, <\/a>\u00a0deve ser tratada com cautela. Aqui,\u00a0 o \u00e1lcool ainda \u00e9 a subst\u00e2ncia psicoativa que mais causa danos, ligada a doen\u00e7as cr\u00f4nicas, acidentes de tr\u00e2nsito, viol\u00eancia e mortes evit\u00e1veis. E o uso abusivo, que \u00e9 o padr\u00e3o mais preocupante, cresce entre alguns grupos populacionais, apesar da queda do consumo geral.\u00a0<\/p>\n<p>O contexto regulat\u00f3rio e cultural tamb\u00e9m difere. Nos Estados Unidos, a expans\u00e3o da cannabis ocorre em meio \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o e a um debate intenso sobre danos comparativos. No Brasil, o \u00e1lcool faz parte da sociabilidade e das festas, e \u00e9 cercado de baixa percep\u00e7\u00e3o de risco. Esse enraizamento cultural ajuda a entender por que o consumo abusivo resiste, e cresce, mesmo com a queda no volume m\u00e9dio consumido.<\/p>\n<p><b>O que fazer com essas informa\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>O primeiro passo \u00e9 n\u00e3o tratar o \u00e1lcool como um problema \u201cem retra\u00e7\u00e3o\u201d. Os dados brasileiros mostram o contr\u00e1rio e pedem aten\u00e7\u00e3o constante. Monitorar o padr\u00e3o de consumo, e n\u00e3o s\u00f3 a quantidade m\u00e9dia, faz diferen\u00e7a: o Beber Pesado Epis\u00f3dico concentra boa parte dos danos agudos, mesmo entre quem n\u00e3o bebe todos os dias.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso olhar para p\u00fablicos pouco visados pelas campanhas, como mulheres e adultos de maior escolaridade, entre os quais o consumo abusivo vem subindo. As mensagens de preven\u00e7\u00e3o t\u00eam de alcan\u00e7ar esses grupos sem refor\u00e7ar estigmas que afastam as pessoas do cuidado.<\/p>\n<p>Por fim, os achados internacionais sobre cannabis e \u00e1lcool merecem leitura cuidadosa. Eles apontam mecanismos relevantes e devem ser acompanhados pela ci\u00eancia, mas n\u00e3o autorizam solu\u00e7\u00f5es simplistas. No Brasil, a prioridade continua a mesma: enfrentar o consumo abusivo de \u00e1lcool com pol\u00edticas baseadas em evid\u00eancias, j\u00e1 que \u00e9 essa a subst\u00e2ncia que mais pesa sobre a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Em s\u00edntese:<\/b><\/p>\n<ul>&#13;<\/p>\n<li style=\"font-weight: 400;\">Nos Estados Unidos, o uso di\u00e1rio ou quase di\u00e1rio de maconha superou, pela primeira vez, o de \u00e1lcool (17,7 milh\u00f5es contra 14,7 milh\u00f5es em 2022), em meio a um recuo do consumo frequente de bebidas;<\/li>\n<p>&#13;<\/p>\n<li style=\"font-weight: 400;\">Um ensaio cl\u00ednico recente sugere que a cannabis pode reduzir o consumo de \u00e1lcool no curt\u00edssimo prazo, mas os autores alertam que isso n\u00e3o a torna um tratamento seguro nem uma substitui\u00e7\u00e3o isenta de riscos;<\/li>\n<p>&#13;<\/p>\n<li style=\"font-weight: 400;\">No Brasil, o consumo abusivo de \u00e1lcool (Beber Pesado Epis\u00f3dico) seguiu em alta, passando de 15,7% (2006) para 20,4% (2024), com crescimento expressivo entre mulheres e jovens;<\/li>\n<p>&#13;<\/p>\n<li style=\"font-weight: 400;\">O \u00e1lcool permanece a subst\u00e2ncia psicoativa que mais adoece e mata no pa\u00eds, por isso, as pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o precisam focar no padr\u00e3o de consumo, alcan\u00e7ar novos p\u00fablicos e basear-se em evid\u00eancias, sem solu\u00e7\u00f5es simplistas de substitui\u00e7\u00e3o entre subst\u00e2ncias.<\/li>\n<p>&#13;\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nos Estados Unidos, o n\u00famero de pessoas que usam maconha quase todos os dias superou, pela primeira vez,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":411177,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[4522,9934,67503,152,67502,116,4841,32,33,117],"class_list":["post-411176","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-alcool","tag-bebida-alcoolica","tag-consumoabusivo","tag-drogas","tag-estadosunidos","tag-health","tag-maconha","tag-portugal","tag-pt","tag-saude"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116717090641066153","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/411176","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=411176"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/411176\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/411177"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=411176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=411176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=411176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}