{"id":412646,"date":"2026-06-10T10:02:13","date_gmt":"2026-06-10T10:02:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/412646\/"},"modified":"2026-06-10T10:02:13","modified_gmt":"2026-06-10T10:02:13","slug":"o-calor-joga-no-mundial-contra-todas-as-equipas-portugal-sera-dos-mais-prejudicados-mundial-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/412646\/","title":{"rendered":"O calor joga no Mundial contra todas as equipas. Portugal ser\u00e1 dos mais prejudicados | Mundial 2026"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 jogos que se ganham na t\u00e9cnica, outros na t\u00e1ctica, alguns na resist\u00eancia. O Campeonato do Mundo de 2026 poder\u00e1 ser decidido tamb\u00e9m por um factor menos control\u00e1vel: o calor. Num torneio alargado a 48 selec\u00e7\u00f5es e 104 jogos, distribu\u00eddos entre o Canad\u00e1, os Estados Unidos e o M\u00e9xico, as temperaturas extremas deixaram de ser um detalhe para se assumirem como um protagonista persistente e, mais importante ainda, um perigo. Um perigo para quem est\u00e1 em campo, mas tamb\u00e9m para os adeptos. Portugal, avisam os cientistas, \u00e9 a equipa do seu grupo mais exposta ao risco de calor excessivo.<\/p>\n<p>Um <a href=\"https:\/\/www.climatecentral.org\/world-cup-2026\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">estudo<\/a> da Climate Central, divulgado neste m\u00eas, conclui que \u201cas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas est\u00e3o a aumentar a probabilidade de calor capaz de reduzir o desempenho dos jogadores em 97 dos 104 jogos do <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/mundial-2026\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Mundial de 2026<\/a>\u201d, colocando em risco n\u00e3o apenas o rendimento em campo, mas tamb\u00e9m a seguran\u00e7a dos adeptos.<\/p>\n<p>A selec\u00e7\u00e3o portuguesa merece <a href=\"https:\/\/www.climatecentral.org\/world-cup-2026\/teams\/portugal\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">destaque<\/a> neste estudo. No caso de <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/seleccao-nacional\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Portugal<\/a>, o primeiro jogo previsto \u201capresenta uma probabilidade de 96% de ocorrer calor capaz de afectar o desempenho dos jogadores \u2014 um valor cinco pontos percentuais mais elevado devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u201d. Os tr\u00eas primeiros jogos apresentam uma probabilidade superior a 95% de \u201crisco de calor prejudicial ao desempenho\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a Climate Central, a tend\u00eancia mant\u00e9m-se ao longo da fase de grupos e \u201ctodos os jogos de Portugal apresentam uma probabilidade superior a 50% de calor limitador de desempenho\u201d, sendo mesmo a selec\u00e7\u00e3o \u201cmais exposta dentro do seu grupo, com uma probabilidade m\u00e9dia de 96% nesses encontros\u201d.<\/p>\n<p>Se, ainda assim, Portugal derrotar este advers\u00e1rio invis\u00edvel e chegar \u00e0 final, h\u00e1 mais um confronto \u00e0 espera: \u201cSe Portugal chegar \u00e0 final, disputar\u00e1 seis jogos em que h\u00e1 mais de 50% de probabilidade de o calor afectar o desempenho. E tr\u00eas jogos em que as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas est\u00e3o a aumentar essa probabilidade em, pelo menos, dez pontos percentuais\u201d, referem as previs\u00f5es dos investigadores da Climate Central.<\/p>\n<p>            &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<\/p>\n<p>Jogos em condi\u00e7\u00f5es perigosas<\/p>\n<p>Segundo a mesma an\u00e1lise, \u201cos investigadores avaliaram a probabilidade de as temperaturas ultrapassarem os 28\u00b0C \u2014 um limiar associado \u00e0 quebra de desempenho \u2014 e verificaram que praticamente todos os jogos enfrentam agora um risco acrescido dessas condi\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Este indicador confirma uma preocupa\u00e7\u00e3o j\u00e1 conhecida no futebol de alto rendimento: temperaturas acima de 28\u00b0C reduzem a frequ\u00eancia de sprints, a dist\u00e2ncia total percorrida e o tempo de recupera\u00e7\u00e3o, afectando directamente o ritmo de jogo, as op\u00e7\u00f5es t\u00e1cticas e o estilo das partidas.<\/p>\n<p>Os dados do estudo da Climate Central detalham ainda o grau de exposi\u00e7\u00e3o: \u201cNoventa e sete dos 104 jogos t\u00eam maior probabilidade de enfrentar calor limitador de desempenho devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u201d e \u201cquase metade das partidas apresenta pelo menos 50% de probabilidade de ocorrerem nessas condi\u00e7\u00f5es\u201d. Em 26 jogos, esse risco \u201caumenta pelo menos dez pontos percentuais por efeito do aquecimento global\u201d.<\/p>\n<p>Segundo um <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2026\/05\/14\/desporto\/noticia\/preparemse-mundial-escaldante-alertam-cientistas-2174741\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">outro estudo<\/a> do colectivo de cientistas World Weather Attribution (WWA), cerca de um quarto dos jogos \u2014 26 partidas \u2014 dever\u00e1, ali\u00e1s, disputar-se em condi\u00e7\u00f5es consideradas perigosas segundo o \u00edndice de Temperatura de Globo e Bolbo H\u00famido (Wet Bulb Globe Temperature, WBGT, na sigla em ingl\u00eas), a medida de refer\u00eancia mundial para avaliar o stress t\u00e9rmico humano em ambientes de calor extremo, que combina temperatura, humidade, radia\u00e7\u00e3o solar e vento. N\u00e3o se trata, por isso, de dias simplesmente \u201cquentes\u201d, mas de n\u00edveis de stress t\u00e9rmico capazes de afectar o rendimento e <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/08\/21\/azul\/noticia\/acontece-corpo-humano-situacoes-calor-intenso-2060839\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">amea\u00e7ar a sa\u00fade<\/a>.<\/p>\n<p>Este indicador revela uma realidade menos intuitiva: uma temperatura do ar aparentemente moderada pode, na verdade, tornar-se insuportavelmente quente ou mesmo mortal quando combinada com a humidade. Um valor de 28\u00b0C WBGT, por exemplo, pode equivaler, na pr\u00e1tica, a 38\u00b0C em ambiente seco.<\/p>\n<p>A crise clim\u00e1tica e o futebol patrocinado por petrol\u00edferas<\/p>\n<p>A crise clim\u00e1tica est\u00e1 a afectar de forma evidente muitas das condi\u00e7\u00f5es de que dependemos para (sobre)viver, mas tamb\u00e9m outras dimens\u00f5es da vida colectiva que muitos valorizam, como o futebol.<\/p>\n<p>Desde 1994, quando os Estados Unidos receberam a competi\u00e7\u00e3o pela \u00faltima vez, \u201co risco de uma onda de calor duplicou\u201d devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, alerta Simon Stiell, respons\u00e1vel da ONU para o clima, apelando a \u201cac\u00e7\u00f5es mais r\u00e1pidas para proteger o desporto que amamos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e1 quente para os jogadores, para os adeptos, para toda a gente. Est\u00e1 quente e est\u00e1 a ficar cada vez mais quente. N\u00e3o \u00e9 por acaso. S\u00e3o as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. O planeta est\u00e1 a aquecer ap\u00f3s mais de um s\u00e9culo de queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis, como o carv\u00e3o, o petr\u00f3leo e o g\u00e1s. Isso ret\u00e9m o calor na atmosfera. E agora estamos a senti-lo \u2014 em todo o lado\u201d, refere Simon Stiell numa declara\u00e7\u00e3o em v\u00eddeo.<\/p>\n<p>Neste caso, n\u00e3o estamos perante uma probabilidade, mas perante um consenso cient\u00edfico. \u201cA nossa <a href=\"https:\/\/www.worldweatherattribution.org\/climate-change-big-player-at-fifa-world-cup-2026\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">investiga\u00e7\u00e3o<\/a> mostra que as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas t\u00eam um efeito real e mensur\u00e1vel na viabilidade de acolher campeonatos do mundo de Ver\u00e3o no Hemisf\u00e9rio Norte\u201d, afirma Friederike Otto, climat\u00f3loga do Imperial College London, a prop\u00f3sito do estudo do WWA.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa ainda de ser ins\u00f3lito que, t\u00e3o atingido pela crise clim\u00e1tica, o Mundial de 2026 conte entre os seus principais patrocinadores com a Saudi Aramco, a maior companhia petrol\u00edfera do mundo, respons\u00e1vel por mais de 4% de todas as emiss\u00f5es globais de gases de efeito estufa desde 1965, de acordo com as estimativas da iniciativa <a href=\"https:\/\/carbonmajors.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Carbon Majors<\/a>. Em Portugal, \u00e9 tamb\u00e9m a petrol\u00edfera nacional, a Galp, um dos principais patrocinadores da selec\u00e7\u00e3o. A somar a este facto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel de resto ignorar o contributo desta competi\u00e7\u00e3o para as elevadas emiss\u00f5es de CO2 que arrasta consigo.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Mais calor, menos futebol<\/p>\n<p>No terreno, o impacto ser\u00e1 vis\u00edvel: a intensidade baixa, o ritmo abranda, a gest\u00e3o do esfor\u00e7o torna-se central. Em termos simples, o calor muda o jogo. Menos sprints, menos press\u00e3o, mais pausas \u2014 formais e informais. Teremos, assim, uma elevada probabilidade de assistir a jogos menos intensos, com um futebol abafado e mais arrastado por causa do calor.<\/p>\n<p>Como descreve Stiell, \u201cisso significa mais calor extremo, mais fadiga, decis\u00f5es mais dif\u00edceis e reac\u00e7\u00f5es mais lentas\u201d, afectando jogadores e adeptos. Os investigadores referem que o stress t\u00e9rmico e a insola\u00e7\u00e3o afectam os sistemas cardiovascular, muscular e nervoso central dos atletas, nomeadamente na capacidade de tomar decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Os jogadores sabem-no por experi\u00eancia pr\u00f3pria. Numa carta aberta, alertam que o stress t\u00e9rmico \u201cpode provocar sensa\u00e7\u00e3o de desmaio, tonturas, fadiga, c\u00e3ibras musculares e problemas ainda mais graves\u201d, sublinhando que \u201cconseguimos correr menos e torna-se imposs\u00edvel jogar com a mesma intensidade\u201d.<\/p>\n<p>A resposta institucional passa, para j\u00e1, pela adapta\u00e7\u00e3o. A FIFA introduziu pausas obrigat\u00f3rias de hidrata\u00e7\u00e3o de tr\u00eas minutos em cada parte, \u201cindependentemente das condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas\u201d. O calend\u00e1rio foi ajustado, privilegiando, sempre que poss\u00edvel, est\u00e1dios cobertos e hor\u00e1rios menos expostos. Ainda assim, as limita\u00e7\u00f5es s\u00e3o evidentes.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Alguns jogos ser\u00e3o disputados em cidades particularmente vulner\u00e1veis, como Miami ou Kansas City, em est\u00e1dios abertos. E h\u00e1 um dado que agrava a equa\u00e7\u00e3o: cerca de cinco partidas poder\u00e3o ultrapassar os 28\u00b0C WBGT \u2014 um limiar que o sindicato de jogadores considera inseguro ao ponto de recomendar o adiamento. Para alguns investigadores, essa linha vermelha encontra-se at\u00e9 um pouco abaixo, nos 26\u00b0C.<\/p>\n<p>Medidas de protec\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Se dentro das quatro linhas h\u00e1 equipas m\u00e9dicas, pausas e monitoriza\u00e7\u00e3o constante, fora delas o cen\u00e1rio \u00e9 mais incerto. \u201cOs jogadores s\u00e3o protegidos por equipas m\u00e9dicas. Os adeptos, muitas vezes, n\u00e3o s\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Os f\u00e3s v\u00e3o expressar o seu entusiasmo em est\u00e1dios ao ar livre, recintos abertos, filas, transportes e outros momentos de exposi\u00e7\u00e3o prolongada ao risco, sobretudo para os mais idosos, crian\u00e7as e pessoas com doen\u00e7as cr\u00f3nicas.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, para os adeptos, a FIFA reservou uma surpresa de \u00faltima hora, anunciando, sem muitas explica\u00e7\u00f5es, que seria proibido entrar com garrafas de \u00e1gua nos est\u00e1dios. Perante as cr\u00edticas, acabou por mudar de ideias e anunciou nas suas redes sociais que os adeptos podem levar uma garrafa de \u00e1gua descart\u00e1vel, de pl\u00e1stico macio, com capacidade para 590ml, selada, para qualquer jogo.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<blockquote class=\"twitter-tweet\">\n<p lang=\"en\" dir=\"ltr\">All fans will be permitted to bring in one, soft, plastic, 20 ounces (590ml), factory sealed disposable water bottle into any FIFA World Cup 2026 match in the USA and Canada. ?<\/p>\n<p>As FIFA World Cup 2026 Chief Operating Officer, Heimo Schirgi, explains, fans will not be permitted\u2026 <a href=\"https:\/\/t.co\/ePEHq9oalJ\" rel=\"nofollow\">pic.twitter.com\/ePEHq9oalJ<\/a><\/p>\n<p>\u2014 FIFA (@FIFAcom) <a href=\"https:\/\/x.com\/FIFAcom\/status\/2063022567141638254?ref_src=twsrc%5Etfw\" rel=\"nofollow\">June 5, 2026<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p> &#13;<\/p>\n<p>O Mundial de 2026 surge como um ponto de viragem, n\u00e3o apenas para o futebol de elite, mas para todo o ecossistema desportivo. Trata-se de uma tend\u00eancia estrutural que torna o calor mais frequente, mais intenso e mais perigoso.<\/p>\n<p>Simon Stiell lembra que o problema do calor ultrapassa o desporto: \u201cN\u00e3o s\u00e3o apenas as coisas que adoramos, como o futebol, que est\u00e3o em risco \u2014 s\u00e3o tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es de vida de que todos dependemos.\u201d<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 clara: \u201cSabemos como resolver a crise clim\u00e1tica \u2014 abandonar os combust\u00edveis f\u00f3sseis e acelerar a transi\u00e7\u00e3o para energias limpas.\u201d<\/p>\n<p>O futebol adapta-se: ajusta hor\u00e1rios, cria pausas, rev\u00ea protocolos. Mas a ideia repete-se: a adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega. Enquanto as emiss\u00f5es continuarem a aquecer o planeta, o calor continuar\u00e1 a ser advers\u00e1rio. E h\u00e1 tamb\u00e9m um apelo: \u201cSe quem ama o futebol se mobilizar para o proteger, isso pode mudar o jogo\u201d, lembra Simon Stiell.<\/p>\n<p>Em 2026, ele estar\u00e1 em campo em todos os jogos. Invis\u00edvel, imparcial, implac\u00e1vel \u2014 e imposs\u00edvel de substituir ou expulsar com cart\u00e3o vermelho. \u00c9 o planeta que nos exibe o cart\u00e3o de falta grave colectiva.<\/p>\n<p>            <script async src=\"https:\/\/platform.twitter.com\/widgets.js\" charset=\"utf-8\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 jogos que se ganham na t\u00e9cnica, outros na t\u00e1ctica, alguns na resist\u00eancia. 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