{"id":413267,"date":"2026-06-10T20:35:23","date_gmt":"2026-06-10T20:35:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/413267\/"},"modified":"2026-06-10T20:35:23","modified_gmt":"2026-06-10T20:35:23","slug":"o-mar-esta-a-subir-mais-depressa-e-portugal-e-das-zonas-onde-o-risco-disparou-alteracoes-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/413267\/","title":{"rendered":"O mar est\u00e1 a subir mais depressa e Portugal \u00e9 das zonas onde o risco disparou | Altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<p>O problema da subida do n\u00edvel do mar \u00e9 muitas vezes apresentado como algo distante, quase abstracto. Um problema para finais do s\u00e9culo, quando falamos dos resultados de modelos clim\u00e1ticos e de cen\u00e1rios de emiss\u00f5es. Mas h\u00e1 dois novos estudos que trazem esta quest\u00e3o para o presente.<\/p>\n<p>Os artigos cient\u00edficos publicados esta quarta-feira nas revistas Nature Climate Change e Science Advances v\u00eam desfazer aquela que pode ser uma confort\u00e1vel ilus\u00e3o que olha para a subida do n\u00edvel do mar como uma amea\u00e7a futura: o impacto j\u00e1 est\u00e1 c\u00e1, \u00e9 mensur\u00e1vel, inequ\u00edvoco e, sobretudo, acelerado. \u201cA costa de Portugal est\u00e1 a registar aumentos um pouco mais r\u00e1pidos nos eventos extremos do n\u00edvel do mar do que em muitos outros locais do mundo\u201d, nota S\u00f6nke Dangendorf, o principal autor de um dos estudos.<\/p>\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41558-026-02659-0\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">estudo<\/a> liderado por S\u00f6nke Dangendorf, publicado na Nature Climate Change, conclui que <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2026\/03\/04\/azul\/noticia\/subida-nivel-mar-afinal-30-cm-metro-elevada-2166765\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">a subida do n\u00edvel do mar<\/a> causada por actividades humanas \u201cj\u00e1 transformou a probabilidade de extremos historicamente raros\u201d. O que \u00e9 que isto quer dizer? Diz-nos que aquilo que antes era raro se tornou comum. Eventos extremos do n\u00edvel do mar \u2014 as chamadas cheias costeiras \u2014 n\u00e3o est\u00e3o apenas a aumentar em intensidade, mas tamb\u00e9m em frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>A equipa combinou observa\u00e7\u00f5es de mar\u00e9grafos com simula\u00e7\u00f5es de modelos clim\u00e1ticos para analisar as altera\u00e7\u00f5es na frequ\u00eancia de eventos extremos do n\u00edvel do mar entre 1900 e 2005. \u201cA frequ\u00eancia mediana de um evento extremo que ocorria uma vez em 100 anos aumentou cerca de 12 vezes\u201d, concluem. Um epis\u00f3dio que em condi\u00e7\u00f5es normais ocorreria uma vez por s\u00e9culo pode agora acontecer, em m\u00e9dia, a cada oito anos.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Eros\u00e3o Costeira na Figueira da Foz &#13;<br \/>\nTiago Lopes                    &#13;<\/p>\n<p>Cheias em Portugal 20 vezes mais frequentes<\/p>\n<p>Numa resposta ao Azul, S\u00f6nke Dangendorf come\u00e7a por escrever que, na an\u00e1lise realizada, n\u00e3o teve acesso a um mar\u00e9grafo portugu\u00eas que tenha fornecido dados suficientes. No entanto, a partir dos registos de mar\u00e9grafos de Vigo e Tarifa, em Espanha, e de outros mar\u00e9grafos franceses e espanh\u00f3is que disponibilizam registos de longa dura\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel tirar algumas conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cA nossa an\u00e1lise mostra que, ao longo de v\u00e1rios locais com mar\u00e9grafos <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/08\/18\/azul\/video\/daqui-anos-praia-ja-nao-20230818-103808\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">em Portugal<\/a>, uma inunda\u00e7\u00e3o que ocorria uma vez a cada 100 anos em 1900 acontece agora com uma frequ\u00eancia mais de 20 vezes superior. O factor dominante por tr\u00e1s destas altera\u00e7\u00f5es \u2014 tal como a n\u00edvel global \u2014 \u00e9 a altera\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica provocada pelo homem, em particular desde a d\u00e9cada de 1970\u201d, responde o cientista.<\/p>\n<p>\u201cO for\u00e7amento radiactivo de origem antropog\u00e9nica \u2014 o equil\u00edbrio entre a radia\u00e7\u00e3o solar absorvida e a radia\u00e7\u00e3o solar libertada pela atmosfera do planeta, influenciado por factores humanos como as emiss\u00f5es de gases com efeito de estufa e as altera\u00e7\u00f5es no uso do solo \u2014, por si s\u00f3, quadruplicou a probabilidade de ocorr\u00eancia desses fen\u00f3menos\u201d, refere, por seu turno, o comunicado de imprensa sobre o estudo.<\/p>\n<p>A variabilidade natural, que inclui factores como os aeross\u00f3is vulc\u00e2nicos e o fen\u00f3meno El Ni\u00f1o, por exemplo, tamb\u00e9m contribuiu, mas em menor grau na maioria das zonas costeiras, acrescenta a nota de imprensa.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Aumentos mais r\u00e1pidos na nossa costa<\/p>\n<p>S\u00f6nke Dangendorf refere que a costa de Portugal est\u00e1 a registar \u201c<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/01\/03\/azul\/noticia\/nivel-medio-mar-regista-maior-valor-2024-maregrafo-cascais-2117594\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">aumentos um pouco mais r\u00e1pidos<\/a> nos eventos extremos do n\u00edvel do mar do que em muitos outros locais do mundo\u201d. E explica: \u201cEsta mudan\u00e7a n\u00e3o se deve ao facto de as tempestades se terem tornado mais intensas; deve-se principalmente ao facto de o n\u00edvel de refer\u00eancia do mar ter subido, o que significa que as ondas de tempestade e as mar\u00e9s altas come\u00e7am agora a partir de um n\u00edvel de base mais elevado\u201d.<\/p>\n<p>\u201cComo resultado, tempestades moderadas podem hoje causar inunda\u00e7\u00f5es que, historicamente, exigiam condi\u00e7\u00f5es muito mais severas. A f\u00edsica \u00e9 simples, mas as consequ\u00eancias para as comunidades costeiras s\u00e3o profundas\u201d, escreve ainda o professor do Departamento de Ci\u00eancias e Engenharia Fluvial e Costeira da Universidade de Tulane, em Nova Orle\u00e3es, nos EUA.<\/p>\n<p>O cientista deixa ainda um aviso: \u201cPara Portugal, as implica\u00e7\u00f5es s\u00e3o claras. As estat\u00edsticas hist\u00f3ricas de n\u00edveis extremos do mar j\u00e1 n\u00e3o descrevem o risco actual, e o planeamento baseado em valores de refer\u00eancia desactualizados subestimar\u00e1 a frequ\u00eancia e a gravidade de futuros extremos do n\u00edvel do mar e das inunda\u00e7\u00f5es associadas. As nossas conclus\u00f5es sublinham a import\u00e2ncia de um planeamento de resili\u00eancia com vis\u00e3o de futuro e de normas de adapta\u00e7\u00e3o din\u00e2micas\u201d.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                         Vila do Conde, Vila Ch\u00e3, territ\u00f3rio amea\u00e7ado pela subida do mar e eros\u00e3o costeira&#13;<br \/>\nTiago Bernardo Lopes                    &#13;<\/p>\n<p>Limita\u00e7\u00f5es e limiares<\/p>\n<p>Nos estudos agora publicados est\u00e3o em causa conclus\u00f5es baseadas em observa\u00e7\u00f5es reais, combinadas com modelos clim\u00e1ticos hist\u00f3ricos, ainda que com limita\u00e7\u00f5es assumidas pelos autores.<\/p>\n<p>Uma das limita\u00e7\u00f5es do estudo publicado na Nature Climate Change \u00e9 a \u201cdistribui\u00e7\u00e3o desigual das medi\u00e7\u00f5es directas atrav\u00e9s de mar\u00e9grafos, com elevadas concentra\u00e7\u00f5es nas costas da Am\u00e9rica do Norte e da Europa\u201d, l\u00ea-se na nota de imprensa, que real\u00e7a ainda a \u201cfalta de disponibilidade de simula\u00e7\u00f5es de modelos clim\u00e1ticos hist\u00f3ricos anteriores a 2005\u201d.<\/p>\n<p>O outro <a href=\"http:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/sciadv.adz3595\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">artigo<\/a>, publicado na Science Advances e liderado por Daniel Gilford, aprofunda esse retrato com uma m\u00e9trica diferente, mas complementar. Em vez de olhar para grandes eventos raros, mede quantas vezes os n\u00edveis de \u00e1gua ultrapassam um limiar considerado extremo.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 igualmente inquietante: \u201cA <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/03\/17\/azul\/noticia\/nivel-global-mar-subiu-previsto-2024-eis-motivo-2126296\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">subida do n\u00edvel do mar<\/a> causada pelos humanos \u00e9 respons\u00e1vel por 58% das ocorr\u00eancias di\u00e1rias observadas de n\u00edveis extremos de \u00e1gua entre 2000 e 2018.\u201d<\/p>\n<p>Mais do que isso, a altera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pequena nem recente. \u201cEm m\u00e9dia, a subida do n\u00edvel do mar provocada pelo ser humano levou a um aumento pr\u00f3ximo do triplo no n\u00famero de dias com estes epis\u00f3dios desde a d\u00e9cada de 1970\u201d, constatam os cientistas. Ou seja, ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, aquilo que era excep\u00e7\u00e3o tornou-se regra; o extraordin\u00e1rio passou a fazer parte do quotidiano.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<blockquote><p>&#13;<\/p>\n<p>A nossa an\u00e1lise mostra que, ao longo de v\u00e1rios locais com mar\u00e9grafos em Portugal, uma inunda\u00e7\u00e3o que ocorria uma vez a cada 100 anos em 1900 acontece agora com uma frequ\u00eancia mais de 20 vezes superior. S\u00f6nke Dangendorf<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\nS\u00f6nke Dangendorf, investigador                &#13;\n            <\/p><\/blockquote>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<br \/>\n            &#13;<\/p>\n<p>O risco costeiro j\u00e1 chegou<\/p>\n<p>Os dois estudos, ainda que distintos na abordagem, convergem numa ideia simples e forte: o risco costeiro global j\u00e1 foi profundamente alterado pela ac\u00e7\u00e3o humana. Essa altera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 homog\u00e9nea nem abstracta: traduz-se em mais dias de inunda\u00e7\u00e3o, mais infra-estruturas danificadas e maior press\u00e3o sobre ecossistemas e comunidades.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a profundamente desigual, j\u00e1 que mais de 680 milh\u00f5es de pessoas vivem em zonas costeiras de baixa altitude, muitas delas em pa\u00edses com menor capacidade de adapta\u00e7\u00e3o, lembra a nota de imprensa do estudo publicado na Nature Climate Change.<\/p>\n<p>Isso significa que pequenas varia\u00e7\u00f5es no n\u00edvel m\u00e9dio do mar podem representar a diferen\u00e7a entre seguran\u00e7a e cat\u00e1strofe. Como mostram os dados, essas pequenas varia\u00e7\u00f5es j\u00e1 acumuladas s\u00e3o suficientes para alterar drasticamente a probabilidade de fen\u00f3menos extremos.<\/p>\n<p>Um dos contributos mais relevantes destes estudos \u00e9 precisamente a combina\u00e7\u00e3o entre escalas: do global ao local. O artigo da Nature Climate Change demonstra que a influ\u00eancia humana domina desde os anos 1960, tornando-se o principal motor das mudan\u00e7as recentes.<\/p>\n<p>    &#13;<\/p>\n<blockquote><p>&#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                680 milh\u00f5es&#13;<br \/>\n                Mais de 680 milh\u00f5es de pessoas vivem em zonas costeiras de baixa altitude, muitas delas em pa\u00edses com menor capacidade de adapta\u00e7\u00e3o.&#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;\n        <\/p><\/blockquote>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<br \/>\n        &#13;<\/p>\n<p>Ignorar o risco n\u00e3o o abranda ou elimina<\/p>\n<p>J\u00e1 o artigo da Science Advances evidencia que essa influ\u00eancia \u00e9 praticamente universal, \u201cquantific\u00e1vel em 97% dos 519 locais com medi\u00e7\u00f5es de mar\u00e9 analisados\u201d e que se manifesta no dia-a-dia, no n\u00famero de mar\u00e9s que ultrapassam n\u00edveis cr\u00edticos.<\/p>\n<p>\u201cOs nossos resultados mostram que [a subida do n\u00edvel do mar] \u00e9 um fen\u00f3meno generalizado a n\u00edvel global e contribui substancialmente para o aumento dos casos de ultrapassagem do n\u00edvel m\u00e1ximo da mar\u00e9 e, por extens\u00e3o, para amea\u00e7as mais frequentes de inunda\u00e7\u00f5es costeiras ao longo das costas de todo o mundo\u201d, escreve o cientista especialista em meteorologia e atmosfera Daniel Gilford e a sua equipa no artigo.<\/p>\n<p>\u201cCom o n\u00famero de dias de ultrapassagem do n\u00edvel m\u00e1ximo da mar\u00e9 a aumentar acentuadamente nos \u00faltimos 70 anos, a marca das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas no risco de inunda\u00e7\u00f5es costeiras \u00e9 clara e persistente\u201d, acrescentam no trabalho.<\/p>\n<p>A adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 urgente, mas a mitiga\u00e7\u00e3o continua a ser crucial. Os n\u00fameros mostram uma tend\u00eancia clara de acelera\u00e7\u00e3o: quanto mais o n\u00edvel m\u00e9dio do mar sobe, mais rapidamente cresce a frequ\u00eancia de fen\u00f3menos extremos. Pequenos aumentos adicionais podem traduzir-se em saltos abruptos no risco.<\/p>\n<p>Se o risco j\u00e1 mudou ent\u00e3o as estrat\u00e9gias costeiras baseadas em estat\u00edsticas do passado tornam\u2011se rapidamente obsoletas. Infra-estruturas desenhadas para fen\u00f3menos raros podem estar hoje subdimensionadas, alertam os cientistas, refor\u00e7ando que igualmente que \u201cplanos urban\u00edsticos baseados em probabilidades hist\u00f3ricas podem subestimar perigos actuais\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O problema da subida do n\u00edvel do mar \u00e9 muitas vezes apresentado como algo distante, quase abstracto. 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