{"id":414235,"date":"2026-06-11T18:20:12","date_gmt":"2026-06-11T18:20:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/414235\/"},"modified":"2026-06-11T18:20:12","modified_gmt":"2026-06-11T18:20:12","slug":"cientistas-criam-o-primeiro-mapa-global-dos-fungos-subterraneos-biodiversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/414235\/","title":{"rendered":"Cientistas criam o primeiro mapa global dos fungos subterr\u00e2neos | Biodiversidade"},"content":{"rendered":"<p>Investigadores mapearam, pela primeira vez, a rede de fungos subterr\u00e2neos que sustenta grande parte da vida vegetal. Estima-se que a camada superficial dos solos do planeta acolha 110 mil bili\u00f5es de quil\u00f3metros de quil\u00f3metros \u2014 quase mil milh\u00f5es de vezes a dist\u00e2ncia entre a Terra e o Sol \u2014 de hifas vivas, ou seja, os filamentos f\u00fangicos que estabelecem uma rela\u00e7\u00e3o vantajosa com a maioria das \u00e1rvores e plantas.<\/p>\n<p>\u201cA Terra cont\u00e9m uma vasta infra-estrutura oculta de redes f\u00fangicas sob nossos p\u00e9s. Essas redes ajudam as plantas a aceder a nutrientes e transportar carbono para o solo, mas at\u00e9 agora n\u00e3o t\u00ednhamos uma ideia clara da dimens\u00e3o global desse sistema\u201d, explica ao Azul o bi\u00f3logo Justin Stewart, autor principal do estudo publicado esta quinta-feira na <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.adu4373\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">revista Science<\/a>.<\/p>\n<p>Justin Stewart, investigador da Sociedade para a Protec\u00e7\u00e3o das Redes Subterr\u00e2neas (SPUN, na sigla em ingl\u00eas) explica que o trabalho traz uma primeira cartografia para compreendermos onde as <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/02\/13\/azul\/noticia\/arvores-conversam-debaixo-terra-novo-estudo-nao-2038697\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">redes de fungos micorr\u00edzicos<\/a> t\u00eam maior densidade, onde est\u00e3o menos abundantes e, por fim, onde ainda precisamos de obter mais informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os fungos micorr\u00edzicos estabelecem rela\u00e7\u00f5es de simbiose com cerca de 70% das esp\u00e9cies de plantas. Nessa parceria, fornecem nutrientes e \u00e1gua \u00e0s plantas e recebem em troca o carbono produzido pelos vegetais. \u00c9 por isso que a rede global de fungos subterr\u00e2neos desempenha um papel central no ciclo do carbono planet\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cHoje, mais de 70% das esp\u00e9cies de plantas terrestres dependem de fungos micorr\u00edzicos\u201d, l\u00ea-se no estudo publicado na Science. Os autores sublinham que \u201cestas redes tubulares transportam cerca de mil milh\u00f5es de toneladas de carbono por ano para os solos da Terra\u201d, o que ajuda a explicar o papel que t\u00eam n\u00e3o s\u00f3 no funcionamento dos ecossistemas, mas tamb\u00e9m na regula\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Estima-se que processem anualmente 11% das emiss\u00f5es de CO2 oriundas de actividades humanas. <\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Colecta de amostras de solo &#13;<br \/>\nDR                     &#13;<\/p>\n<p>Diferentes solos, diferentes redes<\/p>\n<p>Justin Stewart explica que uma das maiores dificuldades desta investiga\u00e7\u00e3o foi precisamente a enorme diversidade dos solos terrestres. \u201cUm solo des\u00e9rtico, um solo de floresta tropical, um solo de pradaria e um solo agr\u00edcola podem ter climas, perfis qu\u00edmicos, comunidades vegetais e hist\u00f3rias de uso da terra muito diferentes\u201d, observa. A isso soma-se o facto de estas redes f\u00fangicas serem microsc\u00f3picas e dif\u00edceis de medir directamente.<\/p>\n<p>Para contornar essa dificuldade, a equipa reuniu medi\u00e7\u00f5es feitas por investigadores de diferentes partes do mundo, criando uma base de dados global sobre a densidade das hifas vivas, isto \u00e9, a quantidade de rede f\u00fangica existente num determinado volume de solo.<\/p>\n<p>O estudo integrou dados de 322 trabalhos cient\u00edficos, representando mais de 16 mil amostras de solo recolhidas em nove biomas. Com esse material, os autores treinaram modelos de aprendizagem autom\u00e1tica para relacionar a densidade das redes com factores ambientais como temperatura, precipita\u00e7\u00e3o (chuva), vegeta\u00e7\u00e3o e caracter\u00edsticas do solo. Depois, cruzaram essas rela\u00e7\u00f5es com dados de sat\u00e9lite e outros dados ambientais globais para estimar onde estas redes ser\u00e3o mais ou menos densas \u00e0 escala planet\u00e1ria.<\/p>\n<p>O trabalho obrigou n\u00e3o apenas a medir o comprimento dos filamentos f\u00fangicos, mas tamb\u00e9m estimar quanto pesam. Para isso, a equipa recorreu a imagiologia rob\u00f3tica de centenas de milhares de hifas vivas, medindo a largura dessas estruturas e combinando-a com a extens\u00e3o total dessas estruturas.<\/p>\n<p>\u201cDa mesma forma que se pode estimar o tamanho de uma floresta sabendo quantas \u00e1rvores existem e qual \u00e9 a dimens\u00e3o dos troncos e copas, n\u00f3s combin\u00e1mos informa\u00e7\u00e3o sobre o comprimento e a largura das hifas para estimar o volume\u201d, explicou Stewart numa resposta por email. A partir desse volume, foi poss\u00edvel calcular a biomassa.<\/p>\n<p>O sistema circulat\u00f3rio da Terra<\/p>\n<p>A camada superficial dos solos (at\u00e9 15 cent\u00edmetros de profundidade) alberga uma massa estimada em cerca de 300 milh\u00f5es de toneladas de filamentos f\u00fangicos. Trata-se de uma quantidade colossal de biomassa, equipar\u00e1vel ao peso de 30 mil torres Eiffel ou de 1500 navios porta-contentores.<\/p>\n<p>O resultado de tantos c\u00e1lculos e estimativas \u00e9 uma imagem in\u00e9dita da escala das redes f\u00fangicas que existem sob os nossos p\u00e9s. \u201c\u00c9 dif\u00edcil exagerar a import\u00e2ncia e a enormidade destes fungos\u201d, afirma Justin Stewart. \u201cPode haver at\u00e9 dez metros de rede micorr\u00edzica numa simples colher de ch\u00e1 de solo.\u201d<\/p>\n<p>Justin Stewart conta ter ficado surpreendido com o contraste entre o peso relativamente modesto destes organismos e a escala quase c\u00f3smica da infra-estrutura que constroem. A relev\u00e2ncia ecol\u00f3gica destas redes, refere o investigador, \u201cn\u00e3o decorre apenas do seu peso, mas das enormes colec\u00e7\u00f5es subterr\u00e2neas de redes diferentes que criam\u201d.<\/p>\n<p>Justin Stewart compara essas redes a estradas. O peso total das estradas, diz, n\u00e3o \u00e9 necessariamente o aspecto mais importante de um mapa rodovi\u00e1rio. O que importa \u00e9 a acessibilidade que estas infra-estruturas oferecem \u2013 os territ\u00f3rios que ligam e o movimento que permitem. O mesmo se passar\u00e1 com estes fungos: s\u00e3o leves, mas a sua extens\u00e3o e densidade tornam-nos decisivos na circula\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea de carbono, \u00e1gua e nutrientes. \u00c9 por isso, nota o bi\u00f3logo, que estas redes f\u00fangicas subterr\u00e2neas \u201cs\u00e3o por vezes descritas como parte do sistema circulat\u00f3rio da Terra\u201d.<\/p>\n<p>Das pradarias aos solos agr\u00edcolas<\/p>\n<p>O estudo identifica as pradarias como ecossistemas particularmente importantes para os <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/01\/04\/azul\/noticia\/florestas-perigo-suzanne-missao-salvar-arvoresmae-2032968\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">fungos micorr\u00edzicos<\/a>. A conclus\u00e3o do artigo indica que as an\u00e1lises sugerem que as pradarias albergam as densidades mais elevadas destas redes subterr\u00e2neas, e o material de apoio \u00e0 publica\u00e7\u00e3o acrescenta que estes ecossistemas concentram cerca de 40% da biomassa global associada a tais fungos. Entre as regi\u00f5es apontadas com densidades excepcionais surgem as pradarias inundadas do Sud\u00e3o do Sul, por exemplo, bem como o planalto tibetano.<\/p>\n<p>Em sentido inverso, as terras agr\u00edcolas com culturas intensivas aparecem associadas a densidades aproximadamente 50% inferiores \u00e0s dos ecossistemas selvagens. Os investigadores n\u00e3o estabelecem uma rela\u00e7\u00e3o causal directa entre pr\u00e1ticas agr\u00edcolas intensivas e a qualidade das redes subterr\u00e2neas, mas admitem preocupa\u00e7\u00e3o quanto ao efeito que teias f\u00fangicas menos densas poder\u00e3o ter sobre a capacidade dos solos para armazenar carbono, reciclar nutrientes e resistir a situa\u00e7\u00f5es de stress ambiental.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica entre as plantas e fungos micorr\u00edzicos ter\u00e1 mais de 450 milh\u00f5es de anos e, segundo o artigo, ajudou a moldar a vegeta\u00e7\u00e3o do planeta e os ciclos biogeoqu\u00edmicos. A evolu\u00e7\u00e3o desta parceria, l\u00ea-se no estudo, coincidiu com uma redu\u00e7\u00e3o de 90% do di\u00f3xido de carbono atmosf\u00e9rico, num processo que poder\u00e1 ter facilitado a coloniza\u00e7\u00e3o do meio terrestre por vegetais.<\/p>\n<p>\u201cOs fungos foram ignorados na agenda clim\u00e1tica e da conserva\u00e7\u00e3o durante demasiado tempo. Est\u00e1 na altura de mudar essa traject\u00f3ria\u201d, afirma bi\u00f3loga evolucion\u00e1ria Toby Kiers, directora executiva da SPUN, citada num comunicado.<\/p>\n<p>O projecto foi acompanhado por uma visualiza\u00e7\u00e3o interactiva, o <a href=\"https:\/\/spun-625.pages.dev\/story\/a-hidden-infrastructure\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Mycorrhizal Infrastructure Map<\/a>, que permite observar estas estimativas \u00e0 escala de um quil\u00f3metro quadrado em toda a superf\u00edcie terrestre, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o das calotas polares e das zonas para as quais ainda n\u00e3o existem dados suficientes.<\/p>\n<p>Essa insufici\u00eancia de dados \u00e9, ali\u00e1s, uma das conclus\u00f5es do trabalho. A an\u00e1lise de incerteza permitiu identificar ecossistemas sub-amostrados que exigem maior aten\u00e7\u00e3o emp\u00edrica. Por outras palavras, o mesmo que estudo quantifica a extraordin\u00e1ria extens\u00e3o das redes de fungos micorr\u00edzicos tamb\u00e9m mostra quanto permanece por conhecer sobre a distribui\u00e7\u00e3o, vulnerabilidade e papel dessas teias f\u00fangicas no funcionamento do sistema terrestre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Investigadores mapearam, pela primeira vez, a rede de fungos subterr\u00e2neos que sustenta grande parte da vida vegetal. 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