{"id":416901,"date":"2026-06-13T23:36:38","date_gmt":"2026-06-13T23:36:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/416901\/"},"modified":"2026-06-13T23:36:38","modified_gmt":"2026-06-13T23:36:38","slug":"luis-wittnich-carrisso-1886-1937-opiniao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/416901\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Wittnich Carrisso (1886\u20131937) | Opini\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 nomes que o tempo n\u00e3o apaga. Permanecem discretamente inscritos na mem\u00f3ria coletiva, n\u00e3o apenas pelo que realizaram, mas pelo exemplo que deixaram \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes. Record\u00e1-los \u00e9 um exerc\u00edcio de gratid\u00e3o e de justi\u00e7a e \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de reconhecer aqueles que, atrav\u00e9s do conhecimento, ajudaram a construir um mundo mais esclarecido.<\/p>\n<p>Entre essas figuras destaca-se Lu\u00eds Wittnich Carrisso, eminente cientista portugu\u00eas, professor catedr\u00e1tico e vice-reitor da Universidade de Coimbra, diretor do Jardim Bot\u00e2nico e do Instituto Bot\u00e2nico J\u00falio Henriques. Natural da Figueira da Foz, dedicou a sua vida ao estudo das ci\u00eancias naturais, deixando uma marca importante na bot\u00e2nica portuguesa e na investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica desenvolvida pela Universidade de Coimbra.<\/p>\n<p>O seu nome ficar\u00e1 para sempre associado a Angola, territ\u00f3rio que o fascinou e ao qual consagrou uma parte significativa da sua carreira. Nas suas miss\u00f5es cient\u00edficas percorreu cerca de 30 mil quil\u00f3metros, recolhendo um vast\u00edssimo patrim\u00f3nio bot\u00e2nico que viria a enriquecer de forma not\u00e1vel as cole\u00e7\u00f5es cient\u00edficas da universidade. Investigador incans\u00e1vel, mas tamb\u00e9m homem de interven\u00e7\u00e3o c\u00edvica, desempenhou fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de relevo, entre as quais a presid\u00eancia da C\u00e2mara Municipal de Coimbra, tendo sido distinguido por diversas condecora\u00e7\u00f5es em reconhecimento do seu contributo para a ci\u00eancia, o ensino e a sociedade.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                         Lu\u00eds Wittnich Carrisso junto \u00e0 planta Welwitschia mirabilis&#13;<br \/>\nDR                    &#13;<\/p>\n<p>Movido por uma curiosidade insaci\u00e1vel e por uma genu\u00edna paix\u00e3o pela descoberta, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2016\/07\/20\/culturaipsilon\/noticia\/trilho-dos-naturalistas-documentario-rtp2-1738771\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">Carrisso<\/a> regressou sucessivamente a \u00c1frica em busca de novas respostas sobre a flora daquele territ\u00f3rio. Foi durante a sua terceira expedi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica a Angola, em 1937, que o destino interrompeu abruptamente essa caminhada. No <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/interactivos\/diario-de-um-cientista\/artigo\/lagartixa-filosofal-deserto-de-angola\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">deserto do Namibe<\/a>, enquanto realizava trabalho de campo com a sua equipa, faleceu subitamente, aos 51 anos, v\u00edtima de s\u00edncope card\u00edaca. Morreu como viveu: em plena miss\u00e3o cient\u00edfica, dedicado \u00e0 observa\u00e7\u00e3o e ao estudo da natureza.<\/p>\n<p>Muitos anos mais tarde, tive a oportunidade de visitar aquele mesmo lugar. Era um objetivo antigo, alimentado pelo desejo de conhecer um espa\u00e7o que pertence simultaneamente \u00e0 geografia e \u00e0 mem\u00f3ria da ci\u00eancia portuguesa. Estar ali, foi mais do que uma viagem; foi uma forma de prestar homenagem a Lu\u00eds Carrisso, evocando n\u00e3o apenas o investigador que ali concluiu a sua \u00faltima expedi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m os valores que moldaram a sua vida: a curiosidade intelectual, a coragem perante o desconhecido e a determina\u00e7\u00e3o de ampliar as fronteiras do conhecimento.<\/p>\n<p>Assim, a 14 de junho de 2026, quando se assinalarem 89 anos da sua morte, representantes da comunidade portuguesa e antigos estudantes da Universidade de Coimbra residentes <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/interactivos\/diario-de-um-cientista\/artigo\/kwadi-uma-lingua-perdida\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">em Angola<\/a> v\u00e3o reunir-se no Namibe para honrar a sua mem\u00f3ria, uma homenagem organizada por Ant\u00f3nio Mal\u00f3 de Abreu, doutorando em bioci\u00eancias em Coimbra. Um gesto que deu continuidade a uma tradi\u00e7\u00e3o de reconhecimento mantida ao longo dos anos por diversas institui\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 academia de Coimbra, entre elas a Tuna Acad\u00e9mica, o Orfeon Acad\u00e9mico e a Associa\u00e7\u00e3o dos Antigos Estudantes de Coimbra em Angola.<\/p>\n<p>Junto ao obelisco erguido no local do acampamento onde faleceu, ficou registado esse momento de evoca\u00e7\u00e3o. Cantou-se Coimbra no sil\u00eancio de um dos desertos mais antigos do mundo, naquele ch\u00e3o austero e fascinante que revelou \u00e0 ci\u00eancia a <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/08\/30\/ciencia\/noticia\/welwitschia-mirabilis-tanto-invulgar-bizarra-1975363\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">singularidade da Welwitschia mirabilis<\/a>. Diante da montanha que Carrisso procurara subir no dia da sua morte, reviveu-se a mem\u00f3ria de uma vida inteiramente dedicada \u00e0 descoberta.<\/p>\n<p>Conta a tradi\u00e7\u00e3o local que o nome dessa montanha, conhecida entre o povo Mukubal como Kanewuia, na l\u00edngua tchiherero significa \u201cquem a sobe n\u00e3o volta\u201d. Talvez alguns vejam nessa coincid\u00eancia um eco de antigas cren\u00e7as. Talvez n\u00e3o passe de uma simples fatalidade inscrita na hist\u00f3ria. Mas, para al\u00e9m de qualquer interpreta\u00e7\u00e3o, permanece uma certeza: a de que o tempo n\u00e3o conseguiu apagar a mem\u00f3ria de Lu\u00eds Carrisso.<\/p>\n<p>E enquanto houver quem recorde o seu percurso, quem reconhe\u00e7a o valor da sua obra e quem encontre inspira\u00e7\u00e3o no seu exemplo, continuar\u00e1 vivo o legado de um homem que fez da ci\u00eancia uma miss\u00e3o e do conhecimento uma forma de servir os outros.<\/p>\n<p>A autora escreve segundo um novo acordo ortogr\u00e1fico<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 nomes que o tempo n\u00e3o apaga. 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