{"id":41893,"date":"2025-08-23T18:14:24","date_gmt":"2025-08-23T18:14:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/41893\/"},"modified":"2025-08-23T18:14:24","modified_gmt":"2025-08-23T18:14:24","slug":"educacao-da-tristeza-de-valter-hugo-mae-rdb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/41893\/","title":{"rendered":"\u201cEduca\u00e7\u00e3o da tristeza\u201d de Valter Hugo M\u00e3e | RDB"},"content":{"rendered":"<p>Nos novelos da perda<\/p>\n<p>  on Agosto 22, 2025 at 10:11 am<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil, para n\u00e3o dizer imposs\u00edvel, ler <strong>Valter Hugo M\u00e3e<\/strong> e n\u00e3o ficar emocionado e ref\u00e9m de uma escrita que mais parece filigrana, pois ao ser t\u00e3o preciosa e rendilhada nos abra\u00e7a como um ente querido para n\u00e3o largar. Com <strong><a style=\"color: #000000\" href=\"https:\/\/www.portoeditora.pt\/produtos\/ficha\/educacao-da-tristeza\/31995054\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Educa\u00e7\u00e3o da tristeza (Porto Editora, 2025)<\/a><\/strong>, regressamos a esse estado m\u00e1gico e a um dos territ\u00f3rios mais constantes na obra de M\u00e3e: a reflex\u00e3o sobre a vulnerabilidade humana.<\/p>\n<p>Os 27 pequenos textos presentes no livro, escritos em tons escarlate e azul, tal como os desenhos que os acompanham, foram nascendo durante cerca de um ano e meio, tal como o seu autor j\u00e1 revelou, e centram-se no desaparecimento de Eduardo, sobrinho de Valter Hugo M\u00e3e, e Isabel Lhano, artista pl\u00e1stica e amiga do autor de livros seminais como <a style=\"color: #000000\" href=\"https:\/\/www.portoeditora.pt\/produtos\/ficha\/a-maquina-de-fazer-espanhois\/16188109\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">A m\u00e1quina de fazer espanh\u00f3is<\/a> e <a style=\"color: #000000\" href=\"https:\/\/www.portoeditora.pt\/produtos\/ficha\/a-desumanizacao\/15081037\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">A desumaniza\u00e7\u00e3o<\/a>. <\/p>\n<p>Partindo de um t\u00edtulo paradoxal, mas revelador, neste livro entende-se a tristeza n\u00e3o como doen\u00e7a para a qual se procura a cura, mas um campo inevit\u00e1vel de aprendizagem, uma gram\u00e1tica silenciosa que molda identidades, e, por vezes, queima, outras cauteriza, mas nunca sara. Essa ambival\u00eancia encontra neste somat\u00f3rio de pensamentos e confiss\u00f5es o paradigma quando Valter Hugo M\u00e3e se refere \u00e0 mem\u00f3ria do seu pai, \u00e0 sua morte, principalmente no texto em que relata ter assistido \u00e0 exuma\u00e7\u00e3o do seu corpo.<\/p>\n<p>A escrita \u00fanica de M\u00e3e mant\u00e9m-se fiel \u00e0 sua dic\u00e7\u00e3o singular, com frases que oscilam entre a poesia e a crueza, uma pontua\u00e7\u00e3o subversiva que desarma o leitor e uma cad\u00eancia que mistura oralidade com lirismo. Essa experimenta\u00e7\u00e3o formal, descarada, tantas vezes apontada como sua \u201cimagem\u201d de marca, funciona como dispositivo para aproximar o leitor da intimidade das \u201cpersonagens\u201d, e especialmente de quem a (d)escreve, despojando a narrativa de conven\u00e7\u00f5es, como, por exemplo, quando revisita her\u00f3is de uma vida ligada \u00e0 m\u00fasica, com refer\u00eancias aos seus gostos, incluindo-se alus\u00f5es aos M\u00e3o Morta, Sonic Youth, Nick Cave ou ao espetro punk, n\u00e3o esquecendo a beleza intr\u00ednseca das composi\u00e7\u00f5es de Mahler ou Vivaldi.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" fetchpriority=\"high\" width=\"300\" height=\"463\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/capa.webp.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-126287\"\/><\/p>\n<p>Podendo ser entendido num universo mais (auto)biogr\u00e1fico como o partilhado em <a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.portoeditora.pt\/produtos\/ficha\/contra-mim\/24148563\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Contra Mim<\/a>, este livro constr\u00f3i-se a partir de figuras humanas que, mesmo citadas ou an\u00f3nimas, fortes ou fr\u00e1geis, transportam uma densidade universal retirada das mais comuns a\u00e7\u00f5es ou estados de alma. Porque, sejamos crian\u00e7as, idosos, solit\u00e1rios, enquanto seres em perda fazemos parte de um teatro que tra\u00e7a o retrato onde os mais comuns dias se misturam com o tr\u00e1gico e o absurdo. \u00c9 nessa tens\u00e3o \u2014 entre a banalidade e o abismo existencial \u2014 que o escritor vencedor do Pr\u00e9mio Liter\u00e1rio Jos\u00e9 Saramago, entre outros, reencontra a sua for\u00e7a e arte.<\/p>\n<p>Por isso, ao inv\u00e9s de narrar grandes feitos, explora o rumor das pequenas vidas, conferindo-lhes dimens\u00e3o quase m\u00edtica, segredando-nos ao ouvido temas que v\u00e3o das obras em casa, da casa nova, dos \u201cmalditos\u201d 50 anos de vida, dos projetos para novos livros, das gripes recorrentes e outras enfermidades, do excesso do perfume nos outros, da canseira que \u00e9 ajardinar, ao \u00f3dio aos invernos com odes aos amenos 22\u00baC. <\/p>\n<p>Valter Hugo M\u00e3e volta assim a demonstrar, mesmo que n\u00e3o seja seu prop\u00f3sito, que a Literatura, com letra grande como gosta de escrever em Educa\u00e7\u00e3o da tristeza, n\u00e3o teme ser simultaneamente opaca e profundamente emotiva, atribuindo \u00e0 tristeza uma dimens\u00e3o pol\u00edtica, centralizando-a. Esse confronto confere-lhe resist\u00eancia e prop\u00f5e que olhemos a vulnerabilidade e a fragilidade como formas de conhecimento e aprendizagem, criando uma filosofia afetiva cuja doutrina \u00e9 aceitar o que do\u00ed como intr\u00ednseco \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana.\u00a0\u00a0 <\/p>\n<p>Isso pode implicar uma leitura demorada, capaz de provocar desconforto, mergulhando-nos numa intimidade singular que funciona como terapia ou catarse face a uma dor que atravessa a vida comum, entrela\u00e7ada nos novelos da perda, da saudade e de um amor que n\u00e3o se extingue.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/7785.thumbnail.jpg\" itemprop=\"image\" alt=\"avatar\"\/> Apaixonado pelos sons, imagens e hist\u00f3rias que me rodeiam, gosto de refletir essas ideias por via da palavra, seja ela escrita ou falada, mas sempre sentida. O amor pela m\u00fasica, livros e quejandos, \u00e9 coisa que, em mim, n\u00e3o encontra medida palp\u00e1vel, \u00e9 forma de respirar que transcende fronteiras, funde ritmos, estilos e filosofias. <a href=\"https:\/\/www.ruadebaixo.com\/nick-cave-regressa-as-livrarias-com-a-morte-de-bunny-munro.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><\/p>\n<p> Artigo anterior<\/p>\n<p>Nick Cave regressa \u00e0s livrarias com \u201cA morte de Bunny Munro\u201d<\/p>\n<p> <\/a> <a href=\"https:\/\/www.ruadebaixo.com\/como-se-nao-houvesse-amanha-de-sergio-godinho.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><\/p>\n<p> Pr\u00f3ximo Artigo<\/p>\n<p>\u201cComo se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3\u201d de S\u00e9rgio Godinho<\/p>\n<p> <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nos novelos da perda on Agosto 22, 2025 at 10:11 am \u00c9 dif\u00edcil, para n\u00e3o dizer imposs\u00edvel, ler&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":41894,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-41893","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41893","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41893"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41893\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41894"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41893"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41893"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41893"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}