{"id":419128,"date":"2026-06-15T22:07:42","date_gmt":"2026-06-15T22:07:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/419128\/"},"modified":"2026-06-15T22:07:42","modified_gmt":"2026-06-15T22:07:42","slug":"quer-melhorar-o-seu-sono-imite-os-habitos-dos-cacadores-recolectores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/419128\/","title":{"rendered":"Quer melhorar o seu sono? Imite os h\u00e1bitos dos ca\u00e7adores-recolectores"},"content":{"rendered":"<p>                ENTREVISTA || O autor David Samson subiu \u00e0s \u00e1rvores para estudar os ninhos de chimpanz\u00e9s, na sua busca para compreender como evoluiu o sono humano<\/p>\n<p style=\"margin-bottom:11px\">Os especialistas recomendam que os adultos durmam cerca de oito horas ininterruptas num quarto fresco e escuro. Se o fizer de uma forma consistente, dizem, pode acrescentar v\u00e1rios anos \u00e0 sua vida.<\/p>\n<p>\u00c9 um ideal que muitas pessoas n\u00e3o conseguem atingir. E tamb\u00e9m n\u00e3o foi assim que os humanos dormiram durante a maior parte da nossa hist\u00f3ria evolutiva, segundo \u201cThe Sleepless Ape: The Story of Sleep in Human Evolution\u201d [\u201cO Macaco com Ins\u00f3nia: A Hist\u00f3ria do Sono na Evolu\u00e7\u00e3o Humana&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre], publicado em maio,.<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo David Samson, autor do livro e professor associado na Universidade de Toronto, escalou \u00e1rvores, para estudar os locais onde dormiam chimpanz\u00e9s, e visitou tribos remotas, para perceber como se desenrolou a hist\u00f3ria do sono humano.<\/p>\n<p>As descobertas de Samson revelam como os padr\u00f5es de sono humanos se tornaram mais curtos, mais profundos e mais flex\u00edveis do que os dos nossos antepassados \u200b\u200bmais semelhantes aos macacos, libertando tempo para se dedicarem \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o de ferramentas, \u00e0s intera\u00e7\u00f5es sociais e \u00e0 migra\u00e7\u00e3o em todo o mundo.<\/p>\n<p>O especialista defende que estes h\u00e1bitos de sono \u00fanicos promoveram a sobreviv\u00eancia, a inova\u00e7\u00e3o e moldaram o comportamento da nossa esp\u00e9cie de formas cruciais. Os humanos de hoje, privados de sono, tamb\u00e9m podem aprender muito com a forma como os nossos antepassados \u200b\u200bcostumavam dormir, junta. \u201cO sono influencia muito o nosso desempenho mental e f\u00edsico ao longo do dia\u201d, diz \u00e0 CNN. \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel, ent\u00e3o, que sejamos os primatas que menos tempo dormem no planeta?\u201d.<\/p>\n<p>Esta entrevista foi editada para maior clareza e concis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>CNN: O seu livro chama-se \u201cO Macaco com Ins\u00f3nia\u201d. Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p> <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/samson-the-sleepless-ape-cover.jpg\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>   O livro \u201cA Hist\u00f3ria do Sono na Evolu\u00e7\u00e3o Humana\u201d foi publicado em maio (Princeton University Press) <\/p>\n<p style=\"margin-bottom:11px\"><strong>David Samson<\/strong>: Foram precisos cerca de 15 anos para obter o n\u00famero necess\u00e1rio de estudos sobre o sono dos primatas para podermos, de facto, realizar estas an\u00e1lises estat\u00edsticas. Verificou-se que estes modelos previam que os humanos deveriam dormir 10 horas e meia. N\u00e3o sei quanto a si, mas eu n\u00e3o durmo certamente 10 horas e meia. A m\u00e9dia humana em todas as culturas \u00e9, provavelmente, algo em torno das sete horas. O modelo previa que dormir\u00edamos muito mais, o que significa que os humanos s\u00e3o uma exce\u00e7\u00e3o evolutiva.<\/p>\n<p>Os humanos n\u00e3o s\u00e3o apenas os primatas que dormem menos, mas tamb\u00e9m temos a maior propor\u00e7\u00e3o de sono REM quando comparado com qualquer outro primata do planeta. Aquilo que o livro tenta explorar e desvendar \u00e9 a hist\u00f3ria de como isso aconteceu.<\/p>\n<p><strong>CNN: O seu livro detalha como a nossa esp\u00e9cie ancestral deixou a seguran\u00e7a de dormir nas \u00e1rvores para passar a dormir no ch\u00e3o, em busca de abrigo, fogo e sono em grupo. Como \u00e9 que essa mudan\u00e7a nos beneficiou?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Samson<\/strong>: O que cri\u00e1mos foi um espa\u00e7o completamente novo e inovador para dormir. A analogia que tenho utilizado aqui \u00e9 a de uma concha.<\/p>\n<p>Sabemos que os primeiros humanos, como o Homo erectus, dormiam em grupo. Podemos afirmar que, nessa \u00e9poca, provavelmente, j\u00e1 existiria um uso controlado do fogo. Devido ao facto de haver um grupo muito maior, com variabilidade demogr\u00e1fica \u2014 com av\u00f3s e adolescentes no grupo \u2014, havia, provavelmente, algu\u00e9m acordado 24 horas por dia, sete dias por semana, para dar o alarme em caso de perigo. Para mim, \u00e9 muito claro que um acampamento de ca\u00e7adores-recolectores ter\u00e1 sido adaptado para ter cotovias e corujas [nota de tradu\u00e7\u00e3o: padr\u00f5es de sono, os primeiros funcionam melhor de manh\u00e3, os segundos \u00e0 noite] relativamente bem distribu\u00eddas, de modo a que a sua concha fosse um pouco mais segura durante um per\u00edodo de 24 horas.<\/p>\n<p>Muitos dos leitores poder\u00e3o pensar: \u201cPara conseguir a quantidade ideal de sono, preciso de isolamento das pessoas, preciso de isolamento dos est\u00edmulos\u201d. Contudo, quase todos os ambientes de pequena escala em que j\u00e1 realizei investiga\u00e7\u00e3o s\u00e3o ambientes altamente din\u00e2micos. Existe uma sensa\u00e7\u00e3o generalizada de seguran\u00e7a quando se regressa ao acampamento. \u00c9 como uma pequena bolha, uma esp\u00e9cie de casulo. Onde se sente isto: &#8220;finalmente posso baixar a guarda\u201d.<\/p>\n<p><strong>CNN: Os humanos t\u00eam mais sono REM do que outros primatas, apesar de dormirem menos no total. Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Samson<\/strong>: Quando algu\u00e9m est\u00e1 em sono REM f\u00e1sico, fica desligado do mundo, naquele que \u00e9 o ponto m\u00e1ximo poss\u00edvel. Para os nossos antepassados, era extremamente custoso estar neste estado. Ainda assim, depois de constru\u00edda essa tal carapa\u00e7a, de repente passa a ter uma nova oportunidade de obter este sono realmente valioso em propor\u00e7\u00f5es maiores do que outros animais.<\/p>\n<p>O sono REM \u00e9 a fase do sono famosa por estar associada aos sonhos.<\/p>\n<p>Est\u00e1 associada \u00e0 criatividade e \u00e0 inova\u00e7\u00e3o, tudo coisas que ter\u00e3o sido, penso eu, pr\u00e9-requisitos para nos tornarmos uma esp\u00e9cie bem-sucedida.<\/p>\n<p><strong>CNN: Porque estudou os ninhos dos chimpanz\u00e9s?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Samson<\/strong>: J\u00e1 subi a muitas \u00e1rvores. Os grandes s\u00edmios s\u00e3o muito singulares. Constroem ninhos que s\u00e3o, basicamente, camas nas \u00e1rvores. \u00c9 algo fascinante. Estes ninhos mant\u00eam-nos aquecidos. Como n\u00e3o est\u00e3o no solo, protegem-se dos grandes predadores. E como s\u00e3o feitos com plantas que repelem os insetos, tamb\u00e9m se protegem dos micropredadores.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom:11px\">\u00a0<\/p>\n<p> <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/p8t28g.jpg\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>   Um chimpanz\u00e9 repousa num ninho para dormir na copa de uma \u00e1rvore no Parque Nacional de Gombe Stream, na Tanz\u00e2nia (dpa\/picture alliance\/Alamy Stock Photo) <\/p>\n<p style=\"margin-bottom:11px\">Poder medir as suas camas \u2018in situ\u2019 [no local] permitiu-me vislumbrar como funciona a mente de um chimpanz\u00e9. Estas foram todas quest\u00f5es que os nossos antepassados \u200b\u200bhumanos tiveram de resolver quando come\u00e7\u00e1mos a dormir no ch\u00e3o e perdemos este local \u00fanico para dormir.<\/p>\n<p><strong>CNN: Passou algum tempo com uma das \u00faltimas tribos de ca\u00e7adores-recolectores que existem na Terra, os Hadza, no norte da Tanz\u00e2nia. O que lhe ensinaram sobre o sono?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Samson<\/strong>: Acredito que n\u00f3s, no Ocidente, de uma certa forma, temos \u2018fetichizado\u2019 o sono enquanto cultura. Quando se pergunta aos ca\u00e7adores-recolectores se gostam ou n\u00e3o de dormir, esta \u00e9 a resposta esmagadora: &#8220;Adoro o meu sono&#8221;. Diria que \u00e9 um mist\u00e9rio, porque sei, empiricamente, que t\u00eam um sono mais fragmentado. Ent\u00e3o, o que raio estar\u00e1 a acontecer? Penso que a solu\u00e7\u00e3o para isto nos leva ao nosso rel\u00f3gio biol\u00f3gico: os ritmos circadianos. Se observarmos durante um per\u00edodo de 24 horas, a maioria das pessoas passa mais de 90% do seu tempo em ambientes fechados. Isto \u00e9 p\u00e9ssimo.<\/p>\n<p>A menos que compreendamos como aumentar e desfrutar do ritmo dos nossos rel\u00f3gios biol\u00f3gicos, estaremos sempre condenados a ter uma rela\u00e7\u00e3o estranha, talvez disfuncional ou desregulada, com o nosso sono.<\/p>\n<p><strong>CNN: De que forma o seu trabalho sobre o sono paleo \u2013 ou seja, sobre dormir como os nossos antepassados \u200b\u200b\u2013 influenciou os seus pr\u00f3prios h\u00e1bitos de sono?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Samson<\/strong>: A minha rela\u00e7\u00e3o com a luz melhorou muito o meu sono. Abandonei os despertadores. Deixo que o sol me acorde. Nada de cortinas opacas ou de perder a liga\u00e7\u00e3o com o ambiente exterior. Quando acordo, saio e tomo o meu pequeno-almo\u00e7o, partilhando esse momento com o sol. Ao meio-dia, \u00e0 hora de almo\u00e7o, mesmo que o dia esteja mau, nublado, a chover ou frio, saio. \u00c9 o meu conselho.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, o p\u00f4r do sol \u00e9 o meu principal sinal para reduzir a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz azul proveniente de fontes artificiais, como os ecr\u00e3s. At\u00e9 posso usar o telem\u00f3vel, por exemplo, mas ponho-o no modo escuro. Se andar pela casa, e isto \u00e9 algo que j\u00e1 fa\u00e7o h\u00e1 anos, uso pequenas lanternas com uma temperatura de cor de 2.700 kelvins ou menos, que emitem luz quente. Basta carreg\u00e1-las numa porta USB. A luz das velas \u00e9 melhor ainda. E tamb\u00e9m presto aten\u00e7\u00e3o ao meu ritmo metab\u00f3lico. A minha \u00faltima ingest\u00e3o de calorias \u00e9 tr\u00eas a quatro horas antes da hora que prevejo para me deitar.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m est\u00e1 com problemas para dormir, diria para se preocupar menos com o sono em si. E para come\u00e7ar a perguntar a si pr\u00f3prio: \u201cEstou em sincronia evolutiva ou em dessincronia evolutiva?\u201d. A ins\u00f3nia \u00e9 um \u00f3timo exemplo de uma cl\u00e1ssica incompatibilidade evolutiva: a ideia que norteou a nossa evolu\u00e7\u00e3o foi como as coisas eram, n\u00e3o como as coisas s\u00e3o. A ins\u00f3nia \u00e9 hipervigil\u00e2ncia. Os nossos antepassados \u200b\u200btinham hipervigil\u00e2ncia e, muito provavelmente, havia um bom motivo para isso. Viviam em ambientes din\u00e2micos. N\u00f3s somos descendentes deles.<\/p>\n<p>Penso que, de certa forma, estamos na imin\u00eancia de uma revela\u00e7\u00e3o sobre o sono. Conquist\u00e1mos tantos benef\u00edcios, com o conforto e a seguran\u00e7a do local onde dormimos, mas, em contrapartida, o que perdemos foi a liga\u00e7\u00e3o com a nossa fisiologia circadiana. Acredito que, se conseguirmos unir estes dois aspetos, poderemos mesmo melhorar o nosso sono e bem-estar no futuro, com base tanto na compreens\u00e3o da nossa hist\u00f3ria evolutiva como na ci\u00eancia moderna do sono.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"ENTREVISTA || O autor David Samson subiu \u00e0s \u00e1rvores para estudar os ninhos de chimpanz\u00e9s, na sua busca&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":419129,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[609,836,611,27,28,31864,607,608,333,832,604,16332,135,610,1714,476,15,16,301,830,14,603,25,26,570,45227,21,22,831,833,62,834,12,13,19,20,835,602,52,32,23,24,117,536,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":["post-419128","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-alerta","tag-analise","tag-ao-minuto","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-chimpanzes","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-comentadores","tag-costa","tag-crime","tag-descanso","tag-desporto","tag-direto","tag-dormir","tag-economia","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-governo","tag-guerra","tag-headlines","tag-justica","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-live","tag-macacos","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mais-vistas","tag-marcelo","tag-mundo","tag-negocios","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-opiniao","tag-pais","tag-politica","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-saude","tag-sono","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/419128","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=419128"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/419128\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/419129"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=419128"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=419128"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=419128"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}