{"id":4194,"date":"2025-07-27T17:25:29","date_gmt":"2025-07-27T17:25:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/4194\/"},"modified":"2025-07-27T17:25:29","modified_gmt":"2025-07-27T17:25:29","slug":"os-4-livros-que-raduan-nassar-nunca-deixou-de-reler-mesmo-depois-do-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/4194\/","title":{"rendered":"Os 4 livros que Raduan Nassar nunca deixou de reler \u2014 mesmo depois do sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 quem diga que toda obra \u00e9 feita de outras leituras. No caso de Raduan Nassar, essa afirma\u00e7\u00e3o talvez seja inc\u00f4moda demais, porque exige adivinhar o que ele sempre preferiu guardar. Nassar nunca foi um autor de rever\u00eancias p\u00fablicas. Deu poucas entrevistas, recusou homenagens, retirou-se quando o pa\u00eds inteiro ainda o descobria. Mesmo assim, em raros momentos, deixou escapar nomes. T\u00edtulos. Ecos. N\u00e3o explicou muito. Mas o que deixou entrever permite um gesto raro: rastrear n\u00e3o a biblioteca inteira, mas as fissuras que ele escolheu manter abertas. Jorge de Lima, por exemplo, foi um desses nomes. Quando falou de \u201cInven\u00e7\u00e3o de Orfeu\u201d, disse que lia sem entender, mas entendia demais. \u00c9 um tipo de leitura que n\u00e3o se resume \u00e0 an\u00e1lise. \u00c9 quase corpo. Tamb\u00e9m leu \u201cS. Bernardo\u201d, de Graciliano Ramos, com o respeito de quem reconhece a arquitetura da secura. De Robbe\u2011Grillet, disse que a literatura era civilizada demais, mas \u201cbem constru\u00edda\u201d. E mergulhou. E ficou. Em Bacon, encontrou m\u00e9todo, sim. Mas tamb\u00e9m ruptura. H\u00e1 uma coer\u00eancia curiosa nesses quatro livros: nenhum deles \u00e9 pass\u00edvel de leitura f\u00e1cil. Todos exigem escuta. E todos parecem guardar, de algum modo, a mesma tens\u00e3o que existe nos seus pr\u00f3prios textos. Uma viol\u00eancia contida, uma l\u00f3gica que beira o del\u00edrio, uma organiza\u00e7\u00e3o que quase fere. Raduan n\u00e3o falou de Kafka, nem de Proust, nem de Clarice. N\u00e3o por rejei\u00e7\u00e3o, provavelmente. Mas porque o que ele leu como releitura nunca foi moda. Foi ferida. E isso importa. Porque quando algu\u00e9m se retira da literatura como ele se retirou, tudo o que resta \u00e9 voltar ao que ficou. E ali, entre os poucos t\u00edtulos que confessou, talvez esteja o que ele pr\u00f3prio n\u00e3o quis escrever mais. Porque j\u00e1 tinham escrito. E tinham escrito do \u00fanico jeito que ele mesmo parecia achar aceit\u00e1vel: com urg\u00eancia, com rigor, com sil\u00eancio. Reler, nesse caso, nunca foi nostalgia. Foi perman\u00eancia.<\/p>\n<p>Les Gommes (1953), Alain Robbe-Grillet<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"610\" height=\"975\" class=\"alignnone size-full\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Les-Gommes-610x975.webp.webp\" alt=\"\"\/><\/p>\n<p class=\"callout-body\">Um homem caminha por uma cidade. Est\u00e1 em miss\u00e3o, ou talvez em simula\u00e7\u00e3o de miss\u00e3o. O que deveria ser um romance policial se desmancha em descri\u00e7\u00f5es obsessivas, repeti\u00e7\u00f5es de gestos, objetos, rotas. Cada espa\u00e7o parece ter sido inventado para ser percorrido em v\u00e3o. O detetive \u2014 se \u00e9 que o \u00e9 \u2014 busca um culpado ou uma pista, mas encontra, sobretudo, a dissolu\u00e7\u00e3o de qualquer certeza. O texto rejeita os artif\u00edcios do enredo cl\u00e1ssico: n\u00e3o h\u00e1 suspense, n\u00e3o h\u00e1 progress\u00e3o l\u00f3gica, n\u00e3o h\u00e1 mesmo garantia de que um crime tenha ocorrido. Em vez disso, h\u00e1 um cen\u00e1rio minucioso, quase cl\u00ednico, descrito com rigor geom\u00e9trico, onde o real se torna inst\u00e1vel por excesso de nitidez. A linguagem \u00e9 seca, controlada, mas perturba pela repeti\u00e7\u00e3o e pelo deslocamento constante. Robbe-Grillet conduz a narrativa como quem desconstr\u00f3i o pr\u00f3prio g\u00eanero que ocupa. O resultado n\u00e3o \u00e9 a resolu\u00e7\u00e3o de um caso, mas o esvaziamento de sua possibilidade. Um romance que, ao apagar o que se espera do romance, revela outro tipo de leitura: mais inquieta, mais circular, mais visual. Uma leitura onde a d\u00favida \u00e9 o \u00fanico tra\u00e7o que resiste.<\/p>\n<p>Inven\u00e7\u00e3o de Orfeu (1952), Jorge de Lima<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"610\" height=\"951\" class=\"alignnone size-full\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Invencao-de-Orfeu-610x951.webp.webp\" alt=\"\"\/><\/p>\n<p class=\"callout-body\">Atravessar este poema \u00e9 aceitar que n\u00e3o h\u00e1 linha reta onde a linguagem foi feita para circular. N\u00e3o h\u00e1 protagonista, h\u00e1 uma voz que se desdobra em vozes, num percurso em espiral que busca o absoluto e, ao mesmo tempo, o que h\u00e1 de mais \u00edntimo na perda. A escrita n\u00e3o se organiza como \u00e9pico nem como l\u00edrica pura. Ela funde B\u00edblia, mitologia, ex\u00edlio, barroco, Atl\u00e2ntico e inf\u00e2ncia. Em sua estrutura fragment\u00e1ria, o livro se constr\u00f3i em camadas, como um coral onde nenhum verso \u00e9 definitivo e nenhuma imagem permanece intacta. A viagem \u00e9 do esp\u00edrito, mas tamb\u00e9m da terra: da \u00c1frica \u00e0 Roma, do mar ao verbo. O ritmo \u00e9 ora lit\u00fargico, ora abrupto, como se o autor testasse o f\u00f4lego do leitor. A leitura exige aten\u00e7\u00e3o de corpo inteiro, porque o texto n\u00e3o se deixa reduzir \u00e0 compreens\u00e3o l\u00f3gica. O que se entende \u00e9 menos importante do que o que se pressente. \u00c9 poema que funde cosmogonia e abismo, f\u00e9 e forma. E, ao fim, ainda que n\u00e3o se chegue a Orfeu, algo se descobre da linguagem como reinven\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>S\u00e3o Bernardo (1934), Graciliano Ramos<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"610\" height=\"939\" class=\"alignnone size-full\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Sao-Bernardo-610x939.webp.webp\" alt=\"\"\/><\/p>\n<p class=\"callout-body\">Um homem que aprendeu a dominar a terra decide tamb\u00e9m dominar a linguagem. \u00c9 ele quem narra, em tom direto, sem piedade, como se a escrita fosse um acerto de contas com a vida. Paulo Hon\u00f3rio \u00e9 o propriet\u00e1rio do engenho S\u00e3o Bernardo, mas a hist\u00f3ria que conta n\u00e3o \u00e9 a de uma fazenda, e sim a de um homem que se construiu \u00e0 for\u00e7a e que agora tenta entender o que perdeu no processo. O romance \u00e9 narrado em primeira pessoa, num mon\u00f3logo que revela muito mais do que pretende esconder. A linguagem \u00e9 seca, cortante, cheia de elipses morais e confiss\u00f5es desconfort\u00e1veis. O tempo narrativo oscila entre o presente do relato e o passado das a\u00e7\u00f5es, compondo uma esp\u00e9cie de tribunal \u00edntimo em que o protagonista se julga e, ao mesmo tempo, se justifica. A estrutura \u00e9 contida, mas os afetos s\u00e3o densos. N\u00e3o h\u00e1 hero\u00edsmo, apenas o peso do que foi feito. O resultado \u00e9 um dos romances mais impactantes da prosa brasileira, n\u00e3o pelo que enfeita, mas pelo que retira. E pelo sil\u00eancio que deixa depois.<\/p>\n<p>Novum Organum (1620), Francis Bacon<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"610\" height=\"915\" class=\"alignnone size-full\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Novos-Metodos-das-Ciencias-610x915.webp.webp\" alt=\"\"\/><\/p>\n<p class=\"callout-body\">Nenhuma tese \u00e9 oferecida aqui como verdade definitiva. O que Francis Bacon prop\u00f5e \u00e9 o desmonte dos velhos m\u00e9todos e a constru\u00e7\u00e3o de um novo instrumento: um organum que sirva \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o emp\u00edrica e \u00e0 observa\u00e7\u00e3o rigorosa. Contra os \u00eddolos do pensamento \u2014 aqueles formados pela linguagem, pela tradi\u00e7\u00e3o, pela autoridade ou pelas limita\u00e7\u00f5es individuais \u2014 ele ergue um m\u00e9todo baseado na indu\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, no ac\u00famulo paciente dos fatos, na recusa ao argumento por si s\u00f3. A linguagem \u00e9 clara, racional, direta, mas sem ser \u00e1rida. Bacon n\u00e3o escreve para convencer com ret\u00f3rica; escreve para deslocar h\u00e1bitos de pensamento. A obra se estrutura em aforismos, cada um constru\u00eddo com precis\u00e3o e progress\u00e3o, como degraus de um percurso l\u00f3gico que pretende ser, ao mesmo tempo, m\u00e9todo e ruptura. N\u00e3o h\u00e1 narrativa nem personagem, mas h\u00e1 tens\u00e3o: entre cren\u00e7a e d\u00favida, entre h\u00e1bito e descoberta. Ler este livro \u00e9 entrar em um laborat\u00f3rio filos\u00f3fico onde a observa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais confi\u00e1vel que a convic\u00e7\u00e3o. \u00c9 filosofia que funda ci\u00eancia. \u00c9 t\u00e9cnica que se faz cr\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 quem diga que toda obra \u00e9 feita de outras leituras. 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