{"id":42201,"date":"2025-08-23T22:45:10","date_gmt":"2025-08-23T22:45:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/42201\/"},"modified":"2025-08-23T22:45:10","modified_gmt":"2025-08-23T22:45:10","slug":"eles-ja-nao-querem-a-rale-europeus-estao-a-revoltar-se-contra-o-turismo-de-massas-e-portugal-e-um-exemplo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/42201\/","title":{"rendered":"&#8220;Eles j\u00e1 n\u00e3o querem a ral\u00e9&#8221;: europeus est\u00e3o a revoltar-se contra o turismo de massas (e Portugal \u00e9 um exemplo)"},"content":{"rendered":"<p>\t                Moradores locais de v\u00e1rias cidades europeias denunciam como o turismo est\u00e1 a transformar as cidades em &#8220;museus a c\u00e9u aberto&#8221;. Uma cidade portuguesa \u00e9 apontada como um exemplo de gest\u00e3o do turismo de massas<\/p>\n<p>Enquanto manifestantes tomavam as ruas de Espanha, interrompiam o casamento de um bilion\u00e1rio em Veneza e at\u00e9 causavam o encerramento do Louvre devido a uma revolta dos funcion\u00e1rios contra a sobrelota\u00e7\u00e3o, Noel Josephides observava tudo com uma frase em mente: eu avisei.<\/p>\n<p>\u201cEu podia ter dito h\u00e1 10 anos que isto acabaria por acontecer\u201d, come\u00e7a por afirmar. \u201cE eu disse. Eu disse: &#8216;Isto vai ficar fora de controlo&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Noel Josephides \u00e9 o presidente de longa data da Sunvil, uma operadora tur\u00edstica sediada no Reino Unido que, desde 1970, leva brit\u00e2nicos abastados de f\u00e9rias. Noel tamb\u00e9m j\u00e1 foi presidente da ABTA e da AITO, ambas entidades do setor de viagens do Reino Unido, o que o torna uma das grandes figuras do turismo europeu.<\/p>\n<p>Noel diz que previu o atual colapso do excesso de turismo na Europa.<\/p>\n<p>\u201cEu avisei que ir\u00edamos enfrentar enormes problemas no futuro\u201d, diz, recordando um discurso que proferiu na conven\u00e7\u00e3o anual da ABTA, realizada em Dubrovnik, Cro\u00e1cia, em 2013.<\/p>\n<p>Noel fez esse aviso quando a economia partilhada \u2014 liderada no setor de viagens pela Airbnb \u2014 estava a crescer rapidamente em toda a Europa. A sua preocupa\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o era apenas com os alugueres de curta dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na altura, previu uma tempestade perfeita: companhias a\u00e9reas low cost em r\u00e1pida expans\u00e3o, a trabalhar em conjunto com o aumento dos alugueres de curta dura\u00e7\u00e3o, para criar uma vasta nova capacidade de f\u00e9rias, reduzindo os pre\u00e7os e inaugurando uma nova era de viagens low cost em grande escala.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, como operador tur\u00edstico, Noel trabalha em concorr\u00eancia direta com os alugueres de curta dura\u00e7\u00e3o e o planeamento independente de viagens que as companhias a\u00e9reas low cost incentivam. No entanto, hoje, Noel parece uma figura de Cassandra \u2014 ele previu o caos, mas ningu\u00e9m agiu. Agora, os seus piores receios est\u00e3o a ganhar forma.<\/p>\n<p>\u201cAs popula\u00e7\u00f5es locais est\u00e3o certas\u201d, diz, referindo-se aos protestos crescentes em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa. \u201cEst\u00e1 fora de controlo. Estou do lado dos manifestantes, mesmo que isso afete o meu neg\u00f3cio.\u201d<\/p>\n<p>  <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1755989109_301_1000.webp\" width=\"1000\"\/> <\/p>\n<p>    24 de abril de 2020, em Barcelona, Espanha. Quase ningu\u00e9m passa pela Plaza Real, no famoso bairro g\u00f3tico, em plena pandemia covid-19. (Matthias Oesterle via Getty Images) <\/p>\n<p>\u201cUm salm\u00e3o a nadar contra a corrente\u201d <\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o na Europa neste ver\u00e3o est\u00e1 muito longe das ruas vazias e das \u00e1guas l\u00edmpidas do ver\u00e3o de 2020. Durante a pandemia, muitos destinos prometeram reinventar o turismo para melhor. Todavia, assim que as restri\u00e7\u00f5es de viagem foram levantadas, as coisas rapidamente voltaram ao que eram antes \u2014 e, em muitos casos, pioraram, gra\u00e7as ao que ficou conhecido como \u201cviagens de vingan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Para alguns moradores locais, a mem\u00f3ria do confinamento assumiu um brilho id\u00edlico.<\/p>\n<p>\u201cLembro-me de caminhar pelas ruas muito pr\u00f3ximas a Las Ramblas e ouvir o canto dos p\u00e1ssaros e os sinos das igrejas\u201d, descreve Maite Domingo Alegre, que vive em Barcelona. \u201cNunca tinha percebido que os sinos tocavam. Mas agora j\u00e1 n\u00e3o consigo ouvi-los. O turismo trouxe tanto barulho que \u00e9 inacredit\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>Maite Domingo Alegre, professora de ingl\u00eas da Universitat Pompeu Fabra, mora no centro hist\u00f3rico da cidade, perto da catedral, e trabalha perto de Las Ramblas. Hoje, diz que a cidade mudou de tal forma que est\u00e1 irreconhec\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cSempre tivemos turismo, e turismo de massas, mas nos \u00faltimos 10 a 15 anos isso mudou drasticamente\u201d, come\u00e7a por dizer. \u201cJ\u00e1 n\u00e3o \u00e9 sazonal, \u00e9 365 dias por ano. E j\u00e1 h\u00e1 mais turistas do que habitantes.\u201d<\/p>\n<p>As ruas lotadas s\u00e3o uma coisa; os efeitos colaterais, segundo a professora, s\u00e3o piores.<\/p>\n<p>\u201cA maioria das lojas \u2014 mesmo minimercados, lojas de roupas, restaurantes, tudo o que esteja localizado no centro \u2014 \u00e9 basicamente feita para turistas\u201d, observa Maite. \u201cOs pre\u00e7os subiram. O Airbnb basicamente expulsou muitos moradores locais. A maioria dos meus amigos fugiu do bairro porque n\u00e3o tem mais condi\u00e7\u00f5es de morar l\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>A pandemia intensificou o problema, conclui Maite, uma vez que atraiu trabalhadores remotos &#8211; os chamados n\u00f3madas digitais &#8211; de toda a Europa. \u201cEles n\u00e3o se misturam com os moradores locais. N\u00e3o est\u00e3o interessados na cultura catal\u00e3 ou mesmo espanhola. Acham que \u00e9 mais barato e t\u00eam boa comida e bebidas baratas, ent\u00e3o a maioria dos bares e restaurantes tamb\u00e9m \u00e9 pensada para eles.\u201d<\/p>\n<p>Em Veneza, a hist\u00f3ria \u00e9 a mesma. O \u00faltimo v\u00eddeo do m\u00fasico pop local Ornello mostra-o vestido de astronauta, a caminhar entre as multid\u00f5es de ver\u00e3o. Na sua identidade real, Alessio Centenaro, sente-se igualmente deslocado na sua cidade natal.<\/p>\n<p>  <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"570\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1755989109_135_1000.webp\" width=\"1000\"\/> <\/p>\n<p>    No seu \u00faltimo videoclip, o m\u00fasico Ornello aparece vestido de astronauta a caminhar pelas ruas movimentadas que se tornaram estranhas para ele. (Cortesia de Ornello) <\/p>\n<p>\u201cSou ciclista e aos domingos pego na minha bicicleta na Piazzale Roma [terminal rodovi\u00e1rio de Veneza]. Saio e vou contra todos os turistas que chegam e sinto-me como um salm\u00e3o a nadar contra a corrente. \u00c0s vezes, quando est\u00e1s rodeado de turistas, com centenas \u00e0 tua volta, sentes-te como se fosses tu o estrangeiro.\u201d<\/p>\n<p>Veneza sempre foi uma cidade tur\u00edstica, mas tamb\u00e9m j\u00e1 teve uma popula\u00e7\u00e3o residente consider\u00e1vel, lembra Alessio: \u201cExistem 48 mil pessoas oficialmente, mas ningu\u00e9m diz qual \u00e9 a percentagem de idosos. Eu diria que talvez 70% tenham mais de 70 anos. Se eles viverem mais 15 anos, o que acontecer\u00e1 depois?\u201d<\/p>\n<p>De \u201csecreto\u201d a sobrelotado <\/p>\n<p>Nas \u00faltimas cinco d\u00e9cadas, Josephides viu destinos passarem de encantadores a sobrelotados. A trajet\u00f3ria, diz o operador tur\u00edstico, \u00e9 quase sempre a mesma.<\/p>\n<p>Primeiro, uma operadora de turismo como a Sunvil identifica um destino pouco visitado que parece perfeito para os seus clientes \u2014 pessoas que procuram f\u00e9rias onde n\u00e3o estar\u00e3o rodeadas por outros turistas. Adiciona esse destino aos seus cat\u00e1logos, geralmente incluindo um voo charter semanal para levar os clientes at\u00e9 l\u00e1 nos primeiros tempos. As primeiras temporadas s\u00e3o um per\u00edodo tranquilo, com relativamente poucos visitantes. Os turistas desfrutam da paz e do sil\u00eancio; os residentes desfrutam do dinheiro que eles injetam na economia local.<\/p>\n<p>Mas depois a not\u00edcia espalha-se. Uma companhia a\u00e9rea de baixo custo \u2014 porque s\u00e3o as companhias a\u00e9reas de baixo custo, e n\u00e3o as tradicionais, que investem em lugares menos conhecidos \u2014 come\u00e7a a operar para o destino. No ano seguinte, as suas concorrentes seguem o exemplo, ansiosas por n\u00e3o perder a oportunidade. E se a Jet2 sabe algo que n\u00f3s n\u00e3o sabemos?<\/p>\n<p>De repente, h\u00e1 um excesso de avi\u00f5es a voar para o destino e, para os encher, as companhias a\u00e9reas reduzem as tarifas, o que significa que o turismo econ\u00f3mico se transforma num \u201cturismo de massas\u201d, descreve Josephides. O alojamento tem dificuldade em acompanhar o ritmo do n\u00famero crescente de visitantes, levando os locais a investir em arrendamentos de curta dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em pouco tempo, esse destino \u201csecreto\u201d fica lotado \u2014 n\u00e3o apenas pelos pioneiros mais abastados, mas tamb\u00e9m pelo turismo de massas, que voa em companhias a\u00e9reas low cost, fica hospedado num Airbnb e, em geral, gasta menos na regi\u00e3o. Assim, a primeira onda segue para um novo lugar, e o ciclo recome\u00e7a.<\/p>\n<p>Noel Josephides nomeia a ilha grega de Samos como um dos pr\u00f3ximos destinos a passar por esse ciclo. Este ano, h\u00e1 um voo direto semanal do Reino Unido. \u201cNo pr\u00f3ximo ano, a TUI [uma ag\u00eancia de viagens alem\u00e3] ter\u00e1 voos \u00e0s quintas-feiras e domingos. A Jet2 disponibilizou quatro voos: dois de Manchester, um de Birmingham e um de Stansted. Ent\u00e3o, \u00e9 s\u00f3 esperar para ver a Ryanair e a easyJet a chegarem.\u201d Os participantes do turismo de massas \u201cmovem-se como um aspirador\u201d, compara Noel. \u201cA natureza da ilha vai mudar, mas os governos locais n\u00e3o v\u00e3o compreender o que vai acontecer at\u00e9 ser tarde demais.\u201d<\/p>\n<p>Mesmo os destinos tur\u00edsticos j\u00e1 estabelecidos podem ser v\u00edtimas da sua pr\u00f3pria popularidade. Os aeroportos nas ilhas gregas de Corfu e Creta est\u00e3o inundados de voos, observa Noel: \u201cO turismo de massas n\u00e3o vai para destinos desconhecidos, ent\u00e3o temos uma s\u00e9rie de voos baratos a alimentar empresas como a Airbnb. A popula\u00e7\u00e3o local est\u00e1 certa \u2014 est\u00e1 fora de controlo.\u00bb<\/p>\n<p>Em comunicado, um porta-voz da Airbnb responde: \u201cA Airbnb oferece uma maneira diferente de viajar, que distribui melhor os h\u00f3spedes e os benef\u00edcios para mais comunidades. O facto \u00e9 que o excesso de turismo est\u00e1 piorar nas cidades onde a Airbnb \u00e9 fortemente restringida: em Amesterd\u00e3o ou Barcelona, a introdu\u00e7\u00e3o de restri\u00e7\u00f5es rigorosas aos alugueres de curta dura\u00e7\u00e3o coincidiu com um aumento acentuado nas di\u00e1rias de h\u00f3spedes impulsionado pelos hot\u00e9is e um aumento nos pre\u00e7os de acomoda\u00e7\u00f5es para viajantes. As cidades que querem ter um impacto significativo no excesso de turismo devem abra\u00e7ar o turismo que apoia as fam\u00edlias e as comunidades.\u00bb A empresa acrescenta que 59% das estadias vendidas na UE na Airbnb em 2024 foram em destinos fora das cidades, enquanto, segundo um relat\u00f3rio interno publicado em junho, a maioria dos turistas ainda escolhe hot\u00e9is. A VRBO, outro grande fornecedor de alugueres de curta dura\u00e7\u00e3o, n\u00e3o respondeu a um pedido de coment\u00e1rio.<\/p>\n<p>  <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"679\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1755989110_654_1000.webp\" width=\"1000\"\/> <\/p>\n<p>    O turismo de Palma est\u00e1 a tomar medidas para recentrar a ind\u00fastria nos residentes, e n\u00e3o nos visitantes. (Sergi Reboredo\/Getty Images) <\/p>\n<p>Uma ofensiva contra o excesso de turismo <\/p>\n<p>Pedro Homar conhece bem essa press\u00e3o. Como diretor de turismo da Visit Palma, est\u00e1 dividido entre os visitantes que se comportam mal na cidade espanhola e os residentes que exigem medidas.<\/p>\n<p>\u201cTemos de garantir que o turismo \u00e9 uma ind\u00fastria sustent\u00e1vel, n\u00e3o apenas do ponto de vista ambiental, mas tamb\u00e9m do ponto de vista social e econ\u00f3mico\u201d, defende. \u201cA nossa economia depende do turismo, por isso, ou garantimos a sustentabilidade f\u00edsica ou n\u00e3o teremos futuro.\u201d<\/p>\n<p>Desde a pandemia, Palma deixou de se promover abertamente. Em vez disso, realiza \u201ccampanhas de imagem\u201d para moldar as perce\u00e7\u00f5es \u2014 chegando mesmo a distribuir an\u00fancios para denunciar certos comportamentos em determinados resorts.<\/p>\n<p>Em 2022, a cidade em Maiorca, Espanha, limitou a chegada de navios de cruzeiro a tr\u00eas por dia, embora o porto tenha capacidade para seis. Barcelona seguiu o exemplo, anunciando em julho que vai encerrar dois dos seus sete terminais de cruzeiros a partir de 2026. Palma proibiu apartamentos de aluguer de curta dura\u00e7\u00e3o e Airbnbs em edif\u00edcios residenciais no centro da cidade e estabeleceu um limite de 12 mil camas de hotel: ou seja, para que um novo hotel abra, outro deve fechar.<\/p>\n<p>Palma tamb\u00e9m criou um fundo de 50 milh\u00f5es de euros para comprar e retirar de circula\u00e7\u00e3o hot\u00e9is datados \u2014 normalmente, propriedades mais baratas que tendem a atrair turistas com or\u00e7amentos mais modestos. \u201c\u00c9 uma forma de retirar do mercado todos esses hot\u00e9is obsoletos e antigos que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o competitivos e n\u00e3o s\u00e3o o tipo de produto que queremos para o destino\u201d, explica Pedro Homar.<\/p>\n<p>  <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"677\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1755989110_827_1000.webp\" width=\"1000\"\/> <\/p>\n<p>    Vsitar a Fontana di Trevi, em Roma, tornou-se um desafio. (Jakub Porzycki\/NurPhoto\/Getty Images) <\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o precisamos de voc\u00eas\u201d <\/p>\n<p>A abordagem de Palma levanta uma quest\u00e3o: quem tem o \u201cdireito\u201d de viajar?<\/p>\n<p>Alguns destinos h\u00e1 muito que aplicaram custos elevados para dissuadir o turismo de massas. O But\u00e3o, na \u00c1sia, cobra uma taxa de cerca de 85 euros para o \u201cfundo de desenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d. Uma licen\u00e7a para fazer trekking com gorilas em Ruanda <a href=\"https:\/\/visitrwanda.com\/interests\/gorilla-tracking\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">custa cerca de 1.290 euros por pessoa<\/a>. At\u00e9 mesmo a taxa de 10 euros aplicada aos turistas que visitam Veneza tem sido alvo de cr\u00edticas dos moradores locais, que acusam a cidade de vender-se aos ricos.<\/p>\n<p>Pedro Homar defende que os destinos devem ter o direito de escolher quem os visita, comparando essa abordagem com a sele\u00e7\u00e3o de quem queremos convidar para jantar.<\/p>\n<p>\u201cAcredito realmente que, como destinos tur\u00edsticos j\u00e1 estabelecidos h\u00e1 algum tempo, temos o direito de escolher os turistas que queremos e os que n\u00e3o queremos\u00bb, argumenta. \u201cQueremos turistas que respeitem a nossa cultura, o nosso modo de vida, as nossas tradi\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSe est\u00e1 a pensar em vir sem uma perspetiva respeitosa, dizemos, respeitosamente, que n\u00e3o precisamos de si.\u201d<\/p>\n<p>Noel Josephides \u00e9 mais direto. \u201cEles j\u00e1 n\u00e3o querem a ral\u00e9. Parece horr\u00edvel dizer isso, e todos t\u00eam direito a f\u00e9rias, mas os n\u00fameros continuam a crescer. A situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 fora de controlo. Compreendo a democratiza\u00e7\u00e3o, mas cabe ao destino decidir se quer clientes sem dinheiro\u201d, defende, acrescentando: \u201cEu tamb\u00e9m gostava de conduzir um Ferrari, mas n\u00e3o tenho dinheiro para isso.\u201d<\/p>\n<p>Por enquanto, diz Noel, a maioria dos destinos europeus parece focada em limitar o n\u00famero de turistas, em vez de excluir totalmente os que viajam com or\u00e7amento limitado.<\/p>\n<p>Reconquistar os moradores locais <\/p>\n<p>Restaurar a boa vontade dos moradores \u00e9 t\u00e3o importante como lidar com as multid\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cUma cidade onde os residentes n\u00e3o est\u00e3o satisfeitos \u00e9 uma cidade que n\u00e3o funciona\u201d, afirma Ruben Santopietro, CEO da Visit Italy, uma empresa de marketing para v\u00e1rios destinos em todo o pa\u00eds. \u201cPerde completamente a sua identidade. Os residentes sentem-se exclu\u00eddos e os bairros tornam-se tur\u00edsticos.\u201d<\/p>\n<p>Nascido em N\u00e1poles, palco de protestos contra a falta de habita\u00e7\u00e3o e o aumento do n\u00famero de alugueres de curta dura\u00e7\u00e3o em mar\u00e7o, Ruben Santopietro assistiu ao aumento da popularidade da sua cidade natal \u2014 e dos pre\u00e7os das habita\u00e7\u00f5es \u2014 ao longo da \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Ruben alerta que, se o turismo continuar a crescer fora de controlo, \u201cem cinco anos, 50% das citt\u00e0 d&#8217;arte [cidades italianas de cultura] tornar-se-\u00e3o inacess\u00edveis\u201d. Roma, Floren\u00e7a e N\u00e1poles j\u00e1 est\u00e3o \u201csufocadas pelo turismo\u201d quase a ponto de n\u00e3o retorno, avisa.<\/p>\n<p>Segundo Ruben, a verdade \u00e9 que os turistas querem os moradores locais por perto. \u201cVeneza pertence aos venezianos. Se os moradores locais n\u00e3o estiverem l\u00e1, eles n\u00e3o v\u00e3o viajar para l\u00e1. Colocar os residentes no centro dos modelos de turismo \u00e9 a \u00fanica maneira de evitar que as nossas cidades de se transformem em museus a c\u00e9u aberto.\u201d<\/p>\n<p>Homar concorda, repetindo a mesma frase \u2014 \u201ccolocar os residentes no centro da estrat\u00e9gia tur\u00edstica\u201d \u2014 ao falar sobre o novo plano quinquenal de Palma, adotado em 2023. Alguns hot\u00e9is adquiridos pela cidade ser\u00e3o substitu\u00eddos por espa\u00e7os verdes ou convertidos em habita\u00e7\u00f5es. Em novembro, Palma lan\u00e7ar\u00e1 atividades culturais gratuitas para os moradores locais \u2014 recitais de \u00f3rg\u00e3o, dias infantis no antigo atelier do artista Joan Mir\u00f3, concertos teatrais organizados por esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio nacionais espanholas, passeios arquitet\u00f3nicos guiados pela cidade \u2014 para \u201cpromover o sentimento de perten\u00e7a e o orgulho de ser cidad\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTodas estas iniciativas ser\u00e3o realizadas em espa\u00e7os que, por alguma raz\u00e3o, os residentes acreditam serem apenas para turistas\u201d, explica. \u201cEstamos a perceber que o sentimento de perten\u00e7a que os residentes costumavam ter em rela\u00e7\u00e3o a Palma est\u00e1 a desaparecer gradualmente, e precisamos de mudar essa din\u00e2mica.\u201d<\/p>\n<p>O flagelo das redes sociais <\/p>\n<p>Redistribuir os turistas tamb\u00e9m pode ajudar. O problema em It\u00e1lia, segundo Ruben Santopietro, n\u00e3o \u00e9 que o pa\u00eds n\u00e3o consiga lidar com os n\u00fameros \u2014 \u00e9 que todos v\u00e3o aos mesmos s\u00edtios.<\/p>\n<p>Neste ver\u00e3o, a ag\u00eancia de Ruben lan\u00e7ou uma campanha, chamada \u201cOs 99% da It\u00e1lia\u201d, para incentivar os turistas a visitar destinos menos conhecidos, de G\u00e9nova a Tropea (alguns dos quais eram seus clientes, mas n\u00e3o todos). \u201cUtilizamos as redes sociais, pois foram elas que criaram estes desequil\u00edbrios\u201d, explica, acrescentando que espera resultados tang\u00edveis a longo prazo, j\u00e1 que as campanhas de marketing regionais demoram mais tempo a surtir efeito.<\/p>\n<p>Ruben Santopietro diz que, mesmo nos destinos mais movimentados, \u00e9 poss\u00edvel tomar medidas para dispersar os visitantes. Para isso, sugere incentivos \u2014 por exemplo, bilhetes com desconto para o Coliseu de Roma para aqueles que j\u00e1 visitaram a antiga cidade costeira de Ostia Antica.<\/p>\n<p>  <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"670\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1755989110_317_1000.webp\" width=\"1000\"\/> <\/p>\n<p>    Os moradores de N\u00e1poles protestaram contra a crise imobili\u00e1ria em mar\u00e7o, apontando os alugueres de curta dura\u00e7\u00e3o como uma das causas. (Salvatore Laport\/Getty Images) <\/p>\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, mas leva tempo <\/p>\n<p>A curto prazo, \u00e9 prov\u00e1vel que os protestos se espalhem, antev\u00ea Estrella Diaz Sanchez, professora associada de marketing da Universidade de Castilla-La Mancha, em Espanha.<\/p>\n<p>\u201cAlguns moradores locais est\u00e3o frustrados com o n\u00famero de turistas que recebem, mas acho que o principal fator \u00e9 o aumento vertiginoso das rendas, impulsionado pelos alugueres de f\u00e9rias de curta dura\u00e7\u00e3o, que est\u00e3o a expulsar os moradores locais do mercado imobili\u00e1rio\u201d, explica a professora. \u201cA solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 rejeitar o turismo, mas torn\u00e1-lo mais inclusivo e respeitoso.\u201d<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo Noel Josephides, o pessimista da ind\u00fastria do turismo, acredita que a recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. E d\u00e1 como exemplo Estoril, na zona costeira de Lisboa, que na d\u00e9cada de 1970 era um destino de turismo de massas. As autoridades decidiram torn\u00e1-lo um destino de luxo e tiveram sucesso.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 poss\u00edvel recuperar, mas leva tempo\u201d, avisa. \u201c\u00c9 muito mais f\u00e1cil para um destino controlar o seu crescimento do que recuper\u00e1-lo mais tarde.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Moradores locais de v\u00e1rias cidades europeias denunciam como o turismo est\u00e1 a transformar as cidades em &#8220;museus a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":42202,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[609,836,611,27,28,607,608,333,832,604,135,610,476,12878,15,16,301,830,14,603,25,26,570,21,22,831,833,62,834,12,13,19,20,835,602,52,32,23,24,17,18,1456,12875,12876,12877,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-42201","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-alerta","9":"tag-analise","10":"tag-ao-minuto","11":"tag-breaking-news","12":"tag-breakingnews","13":"tag-cnn","14":"tag-cnn-portugal","15":"tag-comentadores","16":"tag-costa","17":"tag-crime","18":"tag-desporto","19":"tag-direto","20":"tag-economia","21":"tag-excesso-de-turismo","22":"tag-featured-news","23":"tag-featurednews","24":"tag-governo","25":"tag-guerra","26":"tag-headlines","27":"tag-justica","28":"tag-latest-news","29":"tag-latestnews","30":"tag-live","31":"tag-main-news","32":"tag-mainnews","33":"tag-mais-vistas","34":"tag-marcelo","35":"tag-mundo","36":"tag-negocios","37":"tag-news","38":"tag-noticias","39":"tag-noticias-principais","40":"tag-noticiasprincipais","41":"tag-opiniao","42":"tag-pais","43":"tag-politica","44":"tag-portugal","45":"tag-principais-noticias","46":"tag-principaisnoticias","47":"tag-top-stories","48":"tag-topstories","49":"tag-turismo","50":"tag-turismo-de-massas","51":"tag-turismo-europa","52":"tag-turismo-portugal","53":"tag-ultimas","54":"tag-ultimas-noticias","55":"tag-ultimasnoticias","56":"tag-world","57":"tag-world-news","58":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42201"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42201\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42202"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}