{"id":423075,"date":"2026-06-19T02:57:45","date_gmt":"2026-06-19T02:57:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/423075\/"},"modified":"2026-06-19T02:57:45","modified_gmt":"2026-06-19T02:57:45","slug":"surto-de-peste-mais-antigo-de-que-ha-registo-ocorreu-ha-5500-anos-na-siberia-historia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/423075\/","title":{"rendered":"Surto de peste mais antigo de que h\u00e1 registo ocorreu h\u00e1 5500 anos na Sib\u00e9ria | Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de 5500 anos, grupos de ca\u00e7adores-recolectores habitavam a regi\u00e3o do lago Baical, na Sib\u00e9ria, sustentando-se de recursos abundantes, incluindo presas como alces, veados, peixes, focas e marmotas. Estas pessoas foram tamb\u00e9m as v\u00edtimas do primeiro surto de peste de que h\u00e1 registo, e que afectou sobretudo crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>Os investigadores referem que o <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/12\/07\/ciencia\/noticia\/adn-antigo-recua-dois-milhoes-anos-mastodonte-2030554\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">ADN antigo<\/a> obtido de corpos enterrados em quatro s\u00edtios funer\u00e1rios na regi\u00e3o revelou a presen\u00e7a das estirpes mais antigas de que h\u00e1 registo de Yersinia pestis, a bact\u00e9ria da peste negra. Estas mortes pr\u00e9-hist\u00f3ricas prenunciaram o imenso sofrimento que este agente patog\u00e9nico infligiria \u00e0 humanidade ao longo dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Os investigadores afirmaram que o surto foi particularmente mortal para os mais jovens, a julgar pelas sepulturas, e atribu\u00edram isso \u00e0s caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas destas estirpes que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o presentes na vers\u00e3o actual da bact\u00e9ria. A descoberta, acrescentam, refor\u00e7a as provas de que as marmotas foram a esp\u00e9cie original a hospedar a Yersinia pestis e que a doen\u00e7a surgiu na \u00c1sia Central ou Nordeste antes de se espalhar pela Eur\u00e1sia.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>\u201cAs descobertas alteram fundamentalmente a forma como pensamos sobre as origens e o impacto inicial de um dos agentes patog\u00e9nicos mais impactantes para a humanidade\u201d, afirmou o geneticista evolutivo Eske Willerslev, da Universidade de Copenhaga (Dinamarca) e da Universidade de Cambridge (Reino Unido), autor do estudo publicado esta quarta-feira na <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-026-10540-5\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">revista Nature<\/a>.<\/p>\n<p>O segundo caso mais antigo de peste que se conhece remonta h\u00e1 5300 a 5000 anos, na <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/06\/30\/ciencia\/noticia\/homem-viveu-ha-5000-anos-antiga-vitima-peste-1968311\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">Let\u00f3nia<\/a>, a cerca de 5000 quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia deste surto na regi\u00e3o do lago Baical.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Reconstitui\u00e7\u00e3o art\u00edstica de ca\u00e7adores-recolectores do lago Baical, h\u00e1 5500 anos, enterrando v\u00edtimas da peste&#13;<br \/>\nKelvin Wilson                    &#13;<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 com o desenvolvimento de m\u00e9todos para estudar o <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2019\/10\/20\/ciencia\/noticia\/svante-paabo-tecnica-eticamente-impossivel-desextinguir-neandertal-1890554\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">ADN antigo<\/a> \u00e9 que descobrimos que esta doen\u00e7a existe h\u00e1 muito mais tempo do que sab\u00edamos atrav\u00e9s dos registos hist\u00f3ricos. Trata-se de uma doen\u00e7a zoon\u00f3tica, um agente patog\u00e9nico que se mant\u00e9m principalmente em roedores e n\u00e3o em seres humanos, mas que se tem transmitido repetidamente aos seres humanos com efeitos devastadores\u201d, diz Ruairidh Macleod, geneticista da Universidade de Oxford (Reino Unido) e que tamb\u00e9m participou no estudo.<\/p>\n<p>Estes efeitos inclu\u00edram duas epidemias que mataram uma grande percentagem da popula\u00e7\u00e3o europeia: a <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2014\/02\/03\/ciencia\/noticia\/dois-esqueletos-levamnos-numa-viagem-ate-ao-seculo-vi-e-a-peste-justiniana-1622207\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">peste de Justiniano<\/a>, no s\u00e9culo VI, e a <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/06\/19\/ciencia\/noticia\/adn-seculo-xiv-revela-rotas-comerciais-podem-acendido-rastilho-peste-negra-2010210\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">peste negra<\/a>, no s\u00e9culo XIV, quando a peste foi transmitida \u00e0s pessoas atrav\u00e9s de picadas de pulgas infectadas e transportadas por ratos.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, sup\u00f4s-se que s\u00f3 tinham ocorrido surtos significativos de peste depois de a humanidade ter iniciado a agricultura e fundado povoa\u00e7\u00f5es com elevada densidade populacional. Tamb\u00e9m se pensava que as primeiras estirpes poderiam ter sido benignas. A descoberta de que a peste matou ca\u00e7adores-recolectores que vagueavam por uma paisagem florestal remota em grupos que talvez chegassem a dezenas contradiz estas hip\u00f3teses.<\/p>\n<p>No lago Baical, a Yersinia pestis foi detectada em 18 dos 46 corpos examinados, uma taxa superior \u00e0 observada em algumas valas comuns medievais de v\u00edtimas da peste. Ruairidh Macleod indica que encontrar provas de um surto letal de peste em grande escala entre estes ca\u00e7adores-recolectores foi uma \u201csurpresa total\u201d.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>\u201c<strong>Uma fase de transi\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Os investigadores recuperaram v\u00e1rios genomas da Yersinia pestis preservados nos dentes das v\u00edtimas enterradas. Estas estirpes estavam muito pr\u00f3ximas da raiz ancestral de uma bact\u00e9ria que se tinha separado do seu antecessor evolutivo talvez apenas dois s\u00e9culos antes.<\/p>\n<p>\u201cO agente patog\u00e9nico parece representar uma fase de transi\u00e7\u00e3o na evolu\u00e7\u00e3o da peste \u2014 j\u00e1 capaz de causar doen\u00e7as graves, mas ainda sem possuir o conjunto completo de adapta\u00e7\u00f5es observadas em estirpes pand\u00e9micas posteriores\u201d, explica Eske Willerslev.<\/p>\n<p>As estirpes antigas n\u00e3o possu\u00edam um gene necess\u00e1rio para a transmiss\u00e3o eficiente por pulgas e para os incha\u00e7os dolorosos provocados pela propaga\u00e7\u00e3o da infec\u00e7\u00e3o dos locais de picada das pulgas para os g\u00e2nglios linf\u00e1ticos mais pr\u00f3ximos, tal como ocorreu nas epidemias posteriores.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>No entanto, possu\u00edam uma <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2015\/07\/01\/ciencia\/noticia\/de-como-a-bacteria-da-peste-se-tornou-letal-e-mudou-a-historia-do-mundo-1700612\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">variante gen\u00e9tica<\/a> ausente nas estirpes posteriores da peste, capaz de causar complica\u00e7\u00f5es inflamat\u00f3rias graves \u00e0s quais as crian\u00e7as s\u00e3o especialmente suscept\u00edveis. Muitos dos enterrados eram crian\u00e7as, por vezes irm\u00e3os.<\/p>\n<p>\u201cEsta susceptibilidade \u00e9 mais elevada entre as crian\u00e7as dos oito aos 12 anos e constitui claramente um padr\u00e3o de mortalidade completamente diferente daquele que observamos noutros grupos de ca\u00e7adores-recolectores do Baical, onde a peste n\u00e3o \u00e9 detectada\u201d, afirma Ruairidh Macleod.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Sepultura  com tr\u00eas indiv\u00edduos entre os cinco e os 12 anos e com vest\u00edgios de infec\u00e7\u00e3o com peste&#13;<br \/>\nVladimiri\u00a0Bazaliiskii                    &#13;<\/p>\n<p>\u201cEm combina\u00e7\u00e3o com a presen\u00e7a de outros genes que agravam as infec\u00e7\u00f5es por peste, \u00e9 claro que estas estirpes pr\u00e9-hist\u00f3ricas da peste eram igualmente capazes de ser mortais, ainda que de uma forma diferente\u201d, refor\u00e7a o investigador da Universidade de Oxford.<\/p>\n<p>Depois de o <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/08\/22\/ciencia\/noticia\/novo-caso-peste-negra-detectado-estados-unidos-2144664\" target=\"_self\" rel=\"nofollow noopener\">agente patog\u00e9nico<\/a> ter passado das marmotas para as pessoas, os investigadores acreditam que se propagou atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o entre humanos, por exemplo, pela tosse.<\/p>\n<p>\u201cEste surto devastou as comunidades de ca\u00e7adores-recolectores da \u00e9poca. \u00c9 not\u00f3rio que pelo menos algumas pessoas sobreviveram para enterrar os mortos, e sabiam claramente quem era quem, com irm\u00e3os mais novos enterrados juntos em sepulturas comuns\u201d, remata Ruairidh Macleod.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 cerca de 5500 anos, grupos de ca\u00e7adores-recolectores habitavam a regi\u00e3o do lago Baical, na Sib\u00e9ria, sustentando-se de&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":422580,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[1346,109,25731,11310,116,736,542,12544,32,33,117],"class_list":["post-423075","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-bacterias","tag-ciencia","tag-epidemia","tag-evolucao-humana","tag-health","tag-historia","tag-para-redes","tag-peste-negra","tag-portugal","tag-pt","tag-saude"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116774531662245599","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/423075","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=423075"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/423075\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/422580"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=423075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=423075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=423075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}