{"id":423794,"date":"2026-06-19T19:22:13","date_gmt":"2026-06-19T19:22:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/423794\/"},"modified":"2026-06-19T19:22:13","modified_gmt":"2026-06-19T19:22:13","slug":"flip-katie-kitamura-ve-familia-como-encenacao-em-audicao-19-06-2026-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/423794\/","title":{"rendered":"Flip: Katie Kitamura v\u00ea fam\u00edlia como encena\u00e7\u00e3o em Audi\u00e7\u00e3o &#8211; 19\/06\/2026 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/tatibernardi\/2022\/01\/heroina-e-nao-vitima-da-piada.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Katie Kitamura<\/a> queria escrever um romance que fosse como uma ilus\u00e3o de \u00f3tica presente no imagin\u00e1rio de todo mundo: aquele desenho que pode ser visto como um coelho ou como um pato, a depender do \u00e2ngulo que voc\u00ea escolhe.<\/p>\n<p>As duas diferentes vers\u00f5es da imagem coabitam, sem ser antag\u00f4nicas nem depender de uma tend\u00eancia inata de cada pessoa. Oscilando os olhos para l\u00e1 e para c\u00e1, todos conseguem ver os dois animais, como se a mesma figura fizesse dois pap\u00e9is ao gosto do fregu\u00eas. Como criar um livro assim?<\/p>\n<p>O resultado do experimento chega agora no Brasil em &#8220;Audi\u00e7\u00e3o&#8221;, um artefato liter\u00e1rio que se tornou a obra mais admirada de uma escritora nipo-americana em franca ascens\u00e3o, cativando cr\u00edticos e premia\u00e7\u00f5es \u2014a autora foi finalista do Booker e do Pulitzer pela primeira vez com este seu quinto livro.<\/p>\n<p>Agora no cat\u00e1logo da F\u00f3sforo, editora que tamb\u00e9m promete o in\u00e9dito &#8220;Intimidades&#8221; para o pr\u00f3ximo semestre, Kitamura vir\u00e1 ao Brasil como uma das convidadas de destaque da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/flip\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Flip<\/a>, a Festa Liter\u00e1ria Internacional de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/paraty\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Paraty<\/a>, que acontece de 22 a 26 de julho.<\/p>\n<p>&#8220;Audi\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 protagonizado por uma atriz pr\u00f3xima \u00e0 casa dos 50 anos, casada h\u00e1 d\u00e9cadas com seu parceiro Tomas. No romance, sua hist\u00f3ria \u00e9 fatiada quase exatamente ao meio.<\/p>\n<p>Na primeira parte, a mulher \u00e9 abordada por um jovem, Xavier, que diz suspeitar ser seu filho abandonado h\u00e1 muito tempo \u2014s\u00f3 que ela jamais deu \u00e0 luz. Na segunda metade, come\u00e7a outra trama paralela em que o mesmo Xavier \u00e9, de fato, filho reconhecido da protagonista, e anuncia o desejo de voltar a morar com ela.<\/p>\n<p>As duas narrativas soam reais. Alguma delas \u00e9 falsa? Ser\u00e1 um sonho nascido dos desejos inconfess\u00e1veis da protagonista ou uma pe\u00e7a na qual ela atua sem que saibamos? H\u00e1 pistas em todos os sentidos. Onde est\u00e1 a verdade?<\/p>\n<p>Segundo a autora, onde o leitor quiser. &#8220;Eu entendo a vontade de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o&#8221;, diz, sorridente, em entrevista por v\u00eddeo. &#8220;Mas escrevi um livro que pode ser interpretado de pelo menos tr\u00eas ou quatro maneiras. Queria que fosse uma obra feita, de um jeito muito fundamental, pelos leitores. E que, possivelmente, eles percebessem isso.&#8221;<\/p>\n<p>Kitamura lembra que, ao estudar <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/literatura\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">literatura<\/a> \u2014ela hoje d\u00e1 aulas de escrita criativa na Universidade de Nova York\u2014, suas experi\u00eancias mais profundas foram com livros em que a inten\u00e7\u00e3o de quem escreveu n\u00e3o importava nada. Aqueles em que voc\u00ea n\u00e3o se pergunta &#8220;o que o autor est\u00e1 pensando?&#8221;, mas &#8220;o que esse texto est\u00e1 fazendo?&#8221;.<\/p>\n<p>Aqui, ela prop\u00f5e uma esp\u00e9cie de &#8220;teste de Rorschach&#8221; para saber o que cada pessoa enxerga na justaposi\u00e7\u00e3o dessas duas hist\u00f3rias. H\u00e1 quem veja uma mulher imaginando como seria ter um filho; e h\u00e1 quem veja o contr\u00e1rio, uma mulher fantasiando como seria n\u00e3o precisar ser m\u00e3e.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 outra leitura poss\u00edvel de &#8220;Audi\u00e7\u00e3o&#8221; como a hist\u00f3ria de uma pessoa que n\u00e3o reconhece o pr\u00f3prio filho. &#8220;Esses momentos de total estranheza sempre me interessaram&#8221;, diz Kitamura. &#8220;Quando voc\u00ea olha para algu\u00e9m que conhece intimamente e essa pessoa parece um estranho. \u00c9 uma das sensa\u00e7\u00f5es de maior desorienta\u00e7\u00e3o que se pode viver.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 uma ideia que a autora j\u00e1 tateava em seu \u00fanico romance j\u00e1 publicado no Brasil, &#8220;Uma Separa\u00e7\u00e3o&#8221;, editado h\u00e1 cinco anos pela Companhia das Letras. Com o enredo de uma mulher que vai procurar o marido desaparecido na <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/grecia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Gr\u00e9cia<\/a>, o romance explora como a dissolu\u00e7\u00e3o gradual de um relacionamento pode criar abismos guturais entre as pessoas sem que elas percebam.<\/p>\n<p>\u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o horripilante, digna do g\u00eanero terror, mesmo. Kitamura diz que uma inspira\u00e7\u00e3o frequente para &#8220;Audi\u00e7\u00e3o&#8221; foi <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2014\/05\/1454777-o-bebe-de-rosemary-retorna-como-minisserie-pos-feminista.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;O Beb\u00ea de Rosemary&#8221;<\/a> \u2014o livro de Ira Levin, que precedeu por um ano o filme de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2020\/03\/repudiar-polanski-nao-e-cancelar-mas-dar-um-basta-a-cultura-da-hipocrisia.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Roman Polanski<\/a> com Mia Farrow. Segundo a escritora, \u00e9 a hist\u00f3ria de uma mulher que sofre <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/opiniao\/2025\/05\/gaslighting-medico-cronica-de-violencias-anunciadas.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;gaslighting&#8221;<\/a> e passa a ver o mundo pelo olhar demonizante do marido.<\/p>\n<p>Estranhar o que h\u00e1 de mais familiar \u00e9 uma ideia aterradora que, mesmo assim, acontece com praticamente todo mundo \u2014veja como nossos pais e nossos filhos mudam diante de nossos olhos.<\/p>\n<p>&#8220;Meu filho tem 13 anos e, se voc\u00ea for pensar, ele j\u00e1 foi d\u00fazias de pessoas desde que nasceu&#8221;, diz Kitamura, tamb\u00e9m m\u00e3e de uma menina tr\u00eas anos mais nova. &#8220;Especialmente agora, quase todo dia, eu olho para ele e \u00e9 como se um desconhecido tivesse entrado na sala. Isso n\u00e3o \u00e9 apenas normal, \u00e9 necess\u00e1rio. Parte de crescer \u00e9 se tornar estranho para seus pais.&#8221;<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>Jogar com essa incerteza, tornando pastoso o terreno de rela\u00e7\u00f5es que deveriam ser s\u00f3lidas, \u00e9 a maior habilidade da autora. Entre suas t\u00e9cnicas para alcan\u00e7ar esse efeito, est\u00e1 a economia na informa\u00e7\u00e3o sobre as personagens, com pouqu\u00edssima hist\u00f3ria pregressa \u2014voc\u00ea n\u00e3o sabe qual a origem, a ra\u00e7a ou o nome da protagonista de &#8220;Audi\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O que pode parecer inconsist\u00eancia se torna a for\u00e7a de seu projeto liter\u00e1rio. &#8220;\u00c9 uma representa\u00e7\u00e3o mais aut\u00eantica de como as pessoas s\u00e3o. \u00c9 \u00fatil ter uma hist\u00f3ria linear de como nos tornamos quem somos, com caracter\u00edsticas e epis\u00f3dios definidores, mas para mim isso \u00e9 artificial. Precisamos dessas hist\u00f3rias para existir, constru\u00edmos nossas identidades assim, mas eu me interesso mais por personagens que n\u00e3o recorrem a isso.&#8221;<\/p>\n<p>Suas cria\u00e7\u00f5es s\u00e3o vol\u00e1teis, mut\u00e1veis, pap\u00e9is esperando para serem escritos \u2014algo mais fiel \u00e0s pessoas da vida real. N\u00e3o \u00e0 toa, a narradora deste romance mais elogiado de Kitamura \u00e9 atriz, circulando entre sua casa e as coxias do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/teatro\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">teatro<\/a> com igual naturalidade.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s nos apoiamos em v\u00e1rios artif\u00edcios de performance para existir no mundo&#8221;, aponta a escritora, que diz ter tido a sensa\u00e7\u00e3o de come\u00e7ar a &#8220;interpretar a maternidade&#8221; quando teve seu primeiro filho.<\/p>\n<p>Pense tamb\u00e9m nas cerim\u00f4nias de casamento, rituais em que voc\u00ea sacramenta seu amor pronunciando falas roteirizadas sobre sa\u00fade e doen\u00e7a, alegria e tristeza. Milh\u00f5es de casais seguindo uma narrativa universal.<\/p>\n<p>&#8220;E quando algu\u00e9m diz \u2018eu te amo\u2019? S\u00f3 h\u00e1 uma fala que voc\u00ea pode dizer de volta&#8221;, brinca a autora, rindo . &#8220;Ainda me surpreende como as nossas rela\u00e7\u00f5es seguem um roteiro t\u00e3o claramente delineado.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Katie Kitamura queria escrever um romance que fosse como uma ilus\u00e3o de \u00f3tica presente no imagin\u00e1rio de todo&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":423795,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[145],"tags":[13784,211,210,114,115,1907,3875,236,864,237,170,2082,32,33,2387],"class_list":["post-423794","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-celebridades","tag-artes-cenicas","tag-celebridades","tag-celebrities","tag-entertainment","tag-entretenimento","tag-escritores","tag-flip","tag-folha","tag-literatura","tag-livro","tag-livros","tag-paraty","tag-portugal","tag-pt","tag-teatro"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116778404810646913","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/423794","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=423794"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/423794\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/423795"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=423794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=423794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=423794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}