{"id":42435,"date":"2025-08-24T03:48:11","date_gmt":"2025-08-24T03:48:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/42435\/"},"modified":"2025-08-24T03:48:11","modified_gmt":"2025-08-24T03:48:11","slug":"manuel-o-miudo-que-se-levantava-e-deitava-a-falar-de-touros-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/42435\/","title":{"rendered":"Manuel, o mi\u00fado que se levantava e deitava a falar de touros \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 mi\u00fados que crescem a admirar estrelas de futebol, \u201cos Ronaldos e os Eus\u00e9bios\u201d: veem e reveem jogos para tentar reproduzir as mesmas fintas ou marcar golos como os deles. Mas Manuel Maria n\u00e3o era um desses mi\u00fados. Por\u00e9m, \u00eddolos n\u00e3o lhe faltavam: nascido numa fam\u00edlia de aficionados e forcados, j\u00e1 em pequeno era estes que admirava e que observava, tentando aprender como \u00e9 que pegavam os touros. O destino, diz quem o conheceu, estava tra\u00e7ado: <strong>Manuel Maria seria forcado<\/strong> \u2014 e, se tudo corresse como esperava, <strong>pegaria touros no Campo Pequeno<\/strong>.<\/p>\n<p>O destino acabou por ser cruel: Manuel Maria Trindade tornou-se mesmo forcado mas este s\u00e1bado, aos 22 anos, <a href=\"https:\/\/observador.pt\/2025\/08\/23\/forcado-de-22-anos-morre-apos-ser-colhido-no-campo-pequeno-por-um-touro-de-695-quilos\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">morreu horas depois de ter pegado um touro, em plena pra\u00e7a do Campo Pequeno<\/a>. A not\u00edcia chocou o mundo da tauromaquia e n\u00e3o s\u00f3, com lamentos sobre <strong>o jovem que se \u201cdestacava na sua gera\u00e7\u00e3o\u201d a chegarem por todo o lado<\/strong> \u2014 o Governo j\u00e1 lamentou a \u201ctr\u00e1gica\u201d morte, com o secret\u00e1rio de Estado da Cultura, Jo\u00e3o Moura, tamb\u00e9m ele um aficionado, assegurando que Manuel \u201crepresentava a juventude, a bravura e a dedica\u00e7\u00e3o que caracterizam a cultura e a tradi\u00e7\u00e3o taurom\u00e1quica portuguesa\u201d.<\/p>\n<p>Quem o conheceu, e quem o viu esta sexta-feira fazer a pega que o levaria a perder a vida depois de uma violenta colhida que o deixou com danos cerebrais irrevers\u00edveis, assegura que essa <strong>\u201cbravura e dedica\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong> foram evidentes, tanto na forma como se dedicou \u00e0 atividade como na forma como encarou o \u00faltimo touro que pegaria. O peso do touro \u2014<strong> 695 quilos<\/strong> \u2014 j\u00e1 come\u00e7ou a ser discutido como um potencial problema pelos aficionados, embora se destaque que a alta velocidade a que o animal corria ter\u00e1 sido mesmo o fator fatal.<\/p>\n<p>Manuel nasceu numa freguesia do distrito de \u00c9vora, Nossa Senhora de Machede, h\u00e1 22 anos, e toda a vida gostou de corridas de touros. Como descreve ao Observador Miguel Ortega Cl\u00e1udio, cronista taurino e amigo de Manuel e da fam\u00edlia, o av\u00f4 era um \u201cgrande aficionado\u201d, o pai era forcado, mas \u201cmesmo que o Manuel n\u00e3o tivesse nascido neste mundo teria qualquer coisa de especial, e viveria para isto\u201d: \u201c<strong>Nasceu para ser forcado,<\/strong> sonhava com os touros, com as arenas, queria desde pequeno tourear. H\u00e1 mi\u00fados que t\u00eam os <strong>Ronaldos e os Eus\u00e9bios<\/strong>, <strong>ele tinha os forcados<\/strong>. Isto \u00e9 uma coisa com que se nasce\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a mesma descri\u00e7\u00e3o, foi assim que Manuel se foi tornando um dos \u201cforcados mais destacados\u201d na sua gera\u00e7\u00e3o: sempre quis ser forcado e tornou-se mesmo um<strong> no grupo do pai,<\/strong>\u00a0o Grupo de Forcados Amadores de S\u00e3o Man\u00e7os, que celebra agora 60 anos de exist\u00eancia. \u201cPodia ter ido para grupos mais importantes, mas quis ir para o do pai\u201d, e j\u00e1 era mesmo considerado um <strong>\u201c\u00eddolo\u201d<\/strong> para mi\u00fados mais novos de S\u00e3o Man\u00e7os e uma \u201crefer\u00eancia\u201d para os outros, relata Miguel Ortega Cl\u00e1udio.<\/p>\n<p>Era \u201cirreverente\u201d, viveu os 22 anos com \u201cuma <strong>intensidade<\/strong> fora do comum\u201d, era um mi\u00fado engra\u00e7ado e que \u201cgostava imenso de pregar partidas\u201d, que pescava e fazia brincadeiras \u201cde mi\u00fados da aldeia, que vivem como n\u00e3o se vive na cidade\u201d. Foi ali que decidiu n\u00e3o continuar a estudar, mas tornar-se <strong>tratorista<\/strong>, come\u00e7ou a namorar e tinha o sonho de se casar e construir fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Mas a prioridade, continua Miguel Ortega Cl\u00e1udio, era mesmo o mundo da tauromaquia. \u201cEle falava de touros desde que se levantava at\u00e9 que se deitava\u201d. Tinha alguns <strong>sonhos<\/strong> para cumprir, e tinha realizado alguns este ano: fazer uma pega em \u00c9vora, ou nos 60 anos do seu grupo, e \u2014 <strong>\u201ca cereja no topo do bolo\u201d<\/strong> \u2014 fazer uma pega no Campo Pequeno.<\/p>\n<p>\u201cQuis o destino que ficasse l\u00e1\u201d, lamenta o amigo, que estava na pra\u00e7a do Campo Pequeno quando se deu a colhida que tiraria a vida a Manuel Trindade. Percebeu a gravidade <strong>\u201cpela cara\u201d<\/strong> dos outros forcados. \u201cEstava na corrida, foi mesmo por baixo de mim. Eu estava no camarote e foi mais uma pega. Assustei-me quando vi a cara dos outros. Percebeu-se que era grave, mas nunca se quer crer que seja t\u00e3o grave\u201d.<\/p>\n<p>Quem percebeu mais rapidamente a gravidade da situa\u00e7\u00e3o foi Ant\u00f3nio Dinis L\u00facio, cronista taurino que colabora com a empresa que organizou a corrida do Campo Pequeno. Estava a tirar fotografias e, por isso, tinha um \u201clugar privilegiado, por baixo do diretor de corrida\u201d. \u201cRapidamente nos apercebemos, porque o embate foi <strong>muito<\/strong> <strong>violento<\/strong> e ele ficou inanimado, de bru\u00e7os\u201d, conta ao Observador. Percebeu que algo de grave se tinha passado \u2014 ainda assim, como Miguel Ortega, n\u00e3o t\u00e3o grave que fosse resultar na morte do forcado.<\/p>\n<p>A confian\u00e7a que o grupo de S\u00e3o Man\u00e7os tinha em Manuel ficava evidente: o cabo tinha-o elegido como <strong>\u201co forcado ideal<\/strong> para pegar aquele touro\u201d imponente, explica Ant\u00f3nio Dinis L\u00facio, e via-se pelo posicionamento que Manuel tinha \u201cexperi\u00eancia\u201d e \u201cconfian\u00e7a\u201d \u2014 \u201cpegava desde miudito\u201d e \u201co cabo tinha muita confian\u00e7a nele\u201d. \u201cEu estava na trincheira e estava a comentar com um amigo ganadeiro [a pega], e vimos pela disposi\u00e7\u00e3o dele que tinha conhecimento da dificuldade. Percebia-se que estava <strong>\u00e0 vontade e confiante\u201d<\/strong>. Nas fotografias e v\u00eddeos que tem revendo nas horas que passaram desde aquele momento, constatou que Manuel \u201cfez tudo bem feito\u201d, mas o <strong>impacto<\/strong> foi mais forte do que podia aguentar.<\/p>\n<p>\u201cEsteve muito bem, recebeu muito bem o touro, mas as ajudas n\u00e3o conseguiram parar o \u00edmpeto do touro, que vinha com <strong>velocidade<\/strong> <strong>bastante grande<\/strong>, o que dificulta muito a a\u00e7\u00e3o dos forcados\u201d, explica, frisando que tendo em conta a \u201cviol\u00eancia com que vinha o touro quando embateu contra as t\u00e1buas\u201d na zona dos curros da pra\u00e7a (onde s\u00e3o mantidos os animais), provocou um grande impacto.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, os sinais de preocupa\u00e7\u00e3o foram aumentando: a equipa m\u00e9dica de servi\u00e7o e os socorristas foram muito c\u00e9leres, mas \u201cvia-se na cara das pessoas a preocupa\u00e7\u00e3o e apreens\u00e3o\u201d, nota. Foi preciso chamar uma <strong>Viatura M\u00e9dica de Emerg\u00eancia e Reanima\u00e7\u00e3o<\/strong> (VMER) do Hospital de Santa Maria, o que p\u00f4s quem assistia ao socorro \u2014 a pega de Manuel era a primeira e o evento continuou da\u00ed em diante \u2014 em alerta. \u201cJ\u00e1 se temia o pior. Havia muitas condi\u00e7\u00f5es de socorro, mas o embate foi de tal forma violento que <strong>s\u00f3 um milagre<\/strong> o podia salvar\u201d.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos tentaram que o \u201cmilagre\u201d acontecesse: Manuel foi levado j\u00e1 com ventila\u00e7\u00e3o assistida para o Hospital de S\u00e3o Jos\u00e9, em Lisboa, onde foi tratado por diversas les\u00f5es, sendo que a mais grave aconteceu a n\u00edvel <strong>cerebral<\/strong>, contava o<a href=\"https:\/\/touroeouro.com\/?fbclid=IwY2xjawMWzCtleHRuA2FlbQIxMABicmlkETFHbGZIVFQ2YUtmOWVvU2o4AR4lWeA-A_qS9DEA4vsWD3OMGPQu8T7EBkZ32oo86JavUE65Di2BaptKfcsDPQ_aem__SvcLq_yzD8lUMp6hd03DA\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> portal Touro e Ouro<\/a>, que noticiaria depois a sua morte. Esteve em coma induzido enquanto os m\u00e9dicos tentavam que o incha\u00e7o pudesse diminuir para que pudessem \u201cintervir cirurgicamente\u201d. Mas, na manh\u00e3 deste s\u00e1bado, a pior not\u00edcia chegava: as les\u00f5es eram demasiado graves e <strong>o jovem forcado n\u00e3o tinha resistido.<\/strong><\/p>\n<p>Nas redes sociais multiplicaram-se as <strong>homenagens<\/strong> e, entre os aficionados, algumas <strong>discuss\u00f5es<\/strong> sobre o tamanho e o peso do touro, e sobre se as suas dimens\u00f5es teriam contribu\u00eddo para este desfecho. Os cronistas e aficionados ouvidos pelo Observador relativizam esse dado. \u201cBons e maus touros h\u00e1 em todo o lado\u201d, diz Ant\u00f3nio Dinis L\u00facio, recordando o epis\u00f3dio que levou <a href=\"https:\/\/observador.pt\/2017\/09\/16\/forcado-de-alcochete-morre-apos-colhida-na-moita-do-ribatejo\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">\u00e0 morte do forcado <\/a><strong><a href=\"https:\/\/observador.pt\/2017\/09\/16\/forcado-de-alcochete-morre-apos-colhida-na-moita-do-ribatejo\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Fernando Quintela<\/a>,<\/strong> na pra\u00e7a de touros de Moita do Ribatejo, colhido por um touro com bastante menos peso (530 quilos).<\/p>\n<p>\u201cA viol\u00eancia com que embatem contra as t\u00e1buas ou como pressionam o forcado pode causar desfechos complicados. N\u00e3o tem a ver com a dimens\u00e3o e peso do touro, mas a velocidade com que vai\u201d, defende. Miguel Ortega admite que o tamanho do touro \u201cpodia ser um bocadinho <strong>exagerado<\/strong>\u201d e que \u201c\u00e9 sempre um chamariz\u201d contar com o touro maior ou mais pesado, mas recorda precisamente o caso de Quintela para dizer que \u201cn\u00e3o \u00e9 por a\u00ed\u201d: \u201cJ\u00e1 vi acontecer com pequenos e grandes. N\u00e3o \u00e9 normal haver tantos com este peso, mas acontece\u201d. O <a href=\"https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/decreto-lei\/89-2014-25676884\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">regulamento<\/a> dos espet\u00e1culos taurom\u00e1quicos estabelece pesos, mas m\u00ednimos, para os animais (de 410 a 450 quilos, consoante a categoria da pra\u00e7a).<\/p>\n<p>O tempo \u00e9 agora de luto para a fam\u00edlia e a comunidade, com outras figuras a manifestarem o seu pesar \u2014 Carlos Pinto S\u00e1, presidente da C\u00e2mara Municipal de \u00c9vora, conheceu Manuel e veio dizer-se \u201cchocado\u201d com a sua morte e com este \u201cmomento muito doloroso\u201d; os empres\u00e1rios Lu\u00eds Miguel Pombeiro e Jos\u00e9 Maria Charraz, das empresas Ova\u00e7\u00e3o e Palmas e Jos\u00e9 Charraz Tauromaquia, que operam no Campo Pequeno, tamb\u00e9m se disseram \u201cprofundamente chocados\u201d; a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Grupos de Forcados veio lamentar o sucedido e pedir que a \u201cmem\u00f3ria e o exemplo de coragem permane\u00e7am vivos no cora\u00e7\u00e3o de todos os que o conheceram e admiraram\u201d. Ant\u00f3nio Dinis sublinha essa <strong>coragem<\/strong> e remata assim: \u201c\u00c9 uma das conting\u00eancias de uma arte que \u00e9 muito radical. Se h\u00e1 <strong>desporto radical<\/strong>\u2026 \u00e9 este\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 mi\u00fados que crescem a admirar estrelas de futebol, \u201cos Ronaldos e os Eus\u00e9bios\u201d: veem e reveem jogos&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":42436,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[85],"tags":[114,115,32,33,58,4457],"class_list":{"0":"post-42435","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-entretenimento","8":"tag-entertainment","9":"tag-entretenimento","10":"tag-portugal","11":"tag-pt","12":"tag-sociedade","13":"tag-touradas"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42435","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42435"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42435\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42436"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}