{"id":424686,"date":"2026-06-20T16:32:19","date_gmt":"2026-06-20T16:32:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/424686\/"},"modified":"2026-06-20T16:32:19","modified_gmt":"2026-06-20T16:32:19","slug":"adaptacao-metabolica-estudo-da-usp-detalha-reacao-do-corpo-a-dietas-sem-carboidratos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/424686\/","title":{"rendered":"Adapta\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica: estudo da USP detalha rea\u00e7\u00e3o do corpo a dietas sem carboidratos"},"content":{"rendered":"<p>Quando o organismo \u00e9 submetido por um per\u00edodo prolongado a uma dieta rica em prote\u00ednas e totalmente isenta de carboidratos, ele aciona um complexo mecanismo de adapta\u00e7\u00e3o. Essa reorganiza\u00e7\u00e3o envolve uma altera\u00e7\u00e3o no \u201ccomando molecular\u201d do f\u00edgado, garantindo o fornecimento cont\u00ednuo de energia, mesmo durante per\u00edodos de jejum. Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto da Universidade de S\u00e3o Paulo (FMRP-USP) aprofundaram-se nesse fen\u00f4meno, utilizando experimentos com roedores para detalhar como essa adapta\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica opera.<\/p>\n<p>Os resultados dessa investiga\u00e7\u00e3o, publicados em outubro no renomado American Journal of Physiology-Endocrinology and Metabolism, oferecem pistas importantes sobre como processos semelhantes podem ocorrer no corpo humano. O estudo n\u00e3o apenas elucida a capacidade de resili\u00eancia do metabolismo diante de restri\u00e7\u00f5es nutricionais extremas, mas tamb\u00e9m abre caminhos para a compreens\u00e3o de desregula\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas em doen\u00e7as cr\u00f4nicas.<\/p>\n<p>As origens da pesquisa e o enigma da glicose<\/p>\n<p>A linha de investiga\u00e7\u00e3o que culminou neste estudo tem ra\u00edzes profundas, iniciada na d\u00e9cada de 1970 pelo endocrinologista Renato Helios Migliorini, tamb\u00e9m da FMRP-USP. Naquela \u00e9poca, os pesquisadores observaram um fen\u00f4meno intrigante em urubus, aves carn\u00edvoras cuja dieta consiste quase exclusivamente em prote\u00ednas. Mesmo ap\u00f3s longos per\u00edodos de jejum, esses animais conseguiam manter n\u00edveis normais de glicose no sangue.<\/p>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o desafiou um princ\u00edpio cl\u00e1ssico da fisiologia: a ideia de que a principal fonte de glicose para o organismo \u00e9 o carboidrato ingerido na alimenta\u00e7\u00e3o. A pergunta central que emergiu foi: como esses animais mantinham a glicemia est\u00e1vel sem consumir carboidratos? A resposta apontava para a necessidade de o pr\u00f3prio organismo fabricar o a\u00e7\u00facar circulante em quantidade suficiente para sustentar fun\u00e7\u00f5es vitais, como a atividade cerebral.<\/p>\n<p>A busca por essa resposta concentrou-se no f\u00edgado, o \u00f3rg\u00e3o onde ocorre a gliconeog\u00eanese, processo pelo qual o corpo produz glicose a partir de outras subst\u00e2ncias, como os amino\u00e1cidos derivados das prote\u00ednas. Experimentos subsequentes com gatos e ratos, alimentados com dietas hiperproteicas, confirmaram a mesma capacidade elevada de produ\u00e7\u00e3o hep\u00e1tica de glicose, demonstrando que se tratava de um mecanismo adaptativo presente tamb\u00e9m na fisiologia dos mam\u00edferos, e n\u00e3o uma particularidade das aves.<\/p>\n<p>Mergulho molecular: a evolu\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o das t\u00e9cnicas de biologia molecular, a equipe liderada pela professora \u00cdsis do Carmo Kettelhut, do Departamento de Bioqu\u00edmica e Imunologia da FMRP, decidiu aprofundar a investiga\u00e7\u00e3o no n\u00edvel celular. \u201cNaquela \u00e9poca, n\u00e3o existiam ferramentas para entender os mecanismos moleculares envolvidos. Agora conseguimos mergulhar na c\u00e9lula e identificar quem regula essa via\u201d, explica a pesquisadora, destacando a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que permitiu o novo estudo.<\/p>\n<p>Em um experimento mais recente, com apoio da <a href=\"https:\/\/fapesp.br\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Fapesp<\/a>, o pesquisador Jo\u00e3o Batista Camargo Neto, da FMRP-USP, alimentou camundongos adultos com uma dieta extrema: 86% de prote\u00ednas, 8% de gordura, 6% de sais e vitaminas, e zero carboidrato, por um per\u00edodo de 30 dias. Durante esse tempo, o peso, o consumo alimentar e a glicemia dos animais foram rigorosamente monitorados.<\/p>\n<p>Desde a primeira semana, os camundongos submetidos \u00e0 dieta hiperproteica apresentaram n\u00edveis de glicose mais baixos, mas est\u00e1veis, em compara\u00e7\u00e3o com o grupo-controle, que recebia uma dieta balanceada. O mais not\u00e1vel foi a capacidade desses animais de manter a glicemia praticamente inalterada ap\u00f3s 12 horas de jejum, enquanto os animais do grupo-controle registraram uma queda de aproximadamente 40%.<\/p>\n<p>A surpreendente troca de estrat\u00e9gia no f\u00edgado<\/p>\n<p>Os testes moleculares revelaram uma mudan\u00e7a inesperada na forma como o f\u00edgado sustentava a produ\u00e7\u00e3o de glicose. Inicialmente, a gliconeog\u00eanese era estimulada pelo glucagon, um horm\u00f4nio liberado quando os n\u00edveis de a\u00e7\u00facar no sangue caem. O glucagon, por sua vez, ativava uma prote\u00edna chamada CREB, que induzia a express\u00e3o de enzimas respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o de glicose.<\/p>\n<p>Contudo, com o passar do tempo, mesmo com n\u00edveis elevados de glucagon, essa via deixava de responder de forma eficaz. \u201cO f\u00edgado se torna resistente \u00e0 ativa\u00e7\u00e3o do glucagon. A via de sinaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 bloqueada\u201d, detalha Camargo Neto. Esse fen\u00f4meno indica que o organismo n\u00e3o mant\u00e9m o mesmo mecanismo de controle, mas sim uma ativa\u00e7\u00e3o da neoglicog\u00eanese hep\u00e1tica pela queda da insulina.<\/p>\n<p>Por volta de 15 dias ap\u00f3s o in\u00edcio da dieta hiperproteica, ocorre uma \u201ctroca de estrat\u00e9gia\u201d no organismo. O fator de transcri\u00e7\u00e3o FoxO1 assume o comando da produ\u00e7\u00e3o de glicose no f\u00edgado. Kettelhut explica que \u201cfatores de transcri\u00e7\u00e3o s\u00e3o prote\u00ednas que entram no n\u00facleo da c\u00e9lula e regulam a express\u00e3o de genes espec\u00edficos. No caso, o FoxO1 ativa genes de enzimas respons\u00e1veis por transformar amino\u00e1cidos em glicose, ou seja, genes da via gliconeog\u00eanica. Diferentemente do CREB, ele depende da queda da insulina para atuar e os animais em dieta hiperproteica apresentam n\u00edveis mais baixos desse horm\u00f4nio\u201d.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a sugere uma transi\u00e7\u00e3o de uma resposta hormonal aguda, t\u00edpica de emerg\u00eancias metab\u00f3licas, para um controle cr\u00f4nico dos genes que comandam a produ\u00e7\u00e3o de glicose. Trata-se de uma reorganiza\u00e7\u00e3o interna profunda do sistema de regula\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica do f\u00edgado. Embora os pesquisadores ainda n\u00e3o saibam o motivo exato dessa mudan\u00e7a, uma das hip\u00f3teses \u00e9 que a transi\u00e7\u00e3o represente uma economia energ\u00e9tica ou uma forma de evitar a sobrecarga constante das vias hormonais, j\u00e1 que \u201cativar a via do CREB exige maior gasto de ATP\u201d, conforme Kettelhut.<\/p>\n<p>Outro achado relevante foi o aumento da corticosterona, horm\u00f4nio equivalente ao cortisol em humanos. Esse horm\u00f4nio, parte da resposta ao estresse metab\u00f3lico, tamb\u00e9m estimula a produ\u00e7\u00e3o de glicose. A remo\u00e7\u00e3o cir\u00fargica das gl\u00e2ndulas adrenais (produtoras desse horm\u00f4nio) nos camundongos hiperproteicos resultou na perda da capacidade de manter a glicemia durante o jejum, indicando o papel essencial dos glicocorticoides nessa adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Implica\u00e7\u00f5es e cautela para a sa\u00fade humana<\/p>\n<p>Apesar do crescente interesse em dietas ricas em prote\u00edna e com restri\u00e7\u00e3o de carboidratos, os pesquisadores alertam que os resultados obtidos em roedores n\u00e3o devem ser automaticamente extrapolados para humanos. N\u00e3o existem estudos em pessoas submetidas a uma dieta totalmente isenta de carboidratos, nos moldes do experimento. Al\u00e9m disso, h\u00e1 ind\u00edcios de poss\u00edveis efeitos adversos em outros \u00f3rg\u00e3os, como o aumento do tamanho dos rins em modelos animais com alto consumo proteico. \u201cEssa dieta que usamos no estudo n\u00e3o \u00e9 palat\u00e1vel para o homem. E n\u00e3o h\u00e1 nenhum experimento feito em humanos com essas dietas\u201d, pondera a pesquisadora.<\/p>\n<p>Para Camargo Neto, o principal avan\u00e7o do estudo reside na compreens\u00e3o detalhada da regula\u00e7\u00e3o molecular da gliconeog\u00eanese. Os resultados demonstram que o metabolismo \u00e9 din\u00e2mico e altamente adapt\u00e1vel. Diante da aus\u00eancia prolongada de carboidratos, o f\u00edgado n\u00e3o apenas intensifica a produ\u00e7\u00e3o de glicose, mas reorganiza seu sistema de comando para sustentar essa fun\u00e7\u00e3o a longo prazo.<\/p>\n<p>\u201cA via metab\u00f3lica da gliconeog\u00eanese est\u00e1 desregulada em doen\u00e7as como o diabetes tipo 2 e em alguns tipos de c\u00e2ncer. Entender quem controla esse processo poder\u00e1, no futuro, ajudar no desenvolvimento de novos medicamentos e de estrat\u00e9gias terap\u00eauticas\u201d, conclui o pesquisador. A pesquisa, portanto, contribui para um conhecimento fundamental que pode, a longo prazo, impactar a sa\u00fade humana de maneira significativa.<\/p>\n<p>Para se manter atualizado sobre as \u00faltimas descobertas cient\u00edficas e outros temas relevantes, continue acompanhando o Fato Paulista. Nosso compromisso \u00e9 trazer informa\u00e7\u00e3o de qualidade, contextualizada e com a profundidade que voc\u00ea merece.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Quando o organismo \u00e9 submetido por um per\u00edodo prolongado a uma dieta rica em prote\u00ednas e totalmente isenta&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":424687,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[53310,109,1027,5535,7662,116,5949,1863,1348,32,4466,33,117],"class_list":["post-424686","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-carboidrato","tag-ciencia","tag-diabetes","tag-figado","tag-glicose","tag-health","tag-metabolismo","tag-nutricao","tag-pesquisa","tag-portugal","tag-proteina","tag-pt","tag-saude"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116783398664111590","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/424686","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=424686"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/424686\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/424687"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=424686"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=424686"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=424686"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}