{"id":425049,"date":"2026-06-21T00:06:16","date_gmt":"2026-06-21T00:06:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/425049\/"},"modified":"2026-06-21T00:06:16","modified_gmt":"2026-06-21T00:06:16","slug":"estudo-detalha-como-o-organismo-se-adapta-a-dietas-com-muita-proteina-e-nenhum-carboidrato-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/425049\/","title":{"rendered":"Estudo detalha como o organismo se adapta a dietas com muita prote\u00edna e nenhum carboidrato"},"content":{"rendered":"<p>Quando submetido por muito tempo a uma dieta rica em prote\u00ednas e totalmente isenta de carboidratos, o organismo altera o \u201ccomando molecular\u201d do f\u00edgado para manter o fornecimento adequado de energia, at\u00e9 mesmo durante o jejum. Por meio de experimentos com roedores, pesquisadores da da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto (SP) da Universidade de S\u00e3o Paulo (FMRP-USP) detalharam como essa adapta\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica funciona. Os resultados, divulgados\u00a0em outubro no American Journal of Physiology-Endocrinology and Metabolism, fornecem ind\u00edcios de como esses processos podem ocorrer, tamb\u00e9m, no organismo humano.<\/p>\n<p>De acordo com as informa\u00e7\u00f5es veiculadas pela <a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/estudo-organismo-proteina-carboidrato\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><strong>Ag\u00eancia SP<\/strong><\/a>, o trabalho \u00e9 um desdobramento de uma linha de investiga\u00e7\u00e3o iniciada na d\u00e9cada de 1970 pelo endocrinologista Renato Helios Migliorini, da FMRP-USP. Naquela \u00e9poca, os pesquisadores observaram que urubus (aves carn\u00edvoras que consomem praticamente s\u00f3 prote\u00edna) conseguiam manter n\u00edveis normais de glicose no sangue mesmo ap\u00f3s longos per\u00edodos de jejum.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o surgiu a pergunta: como esses animais mantinham a glicemia est\u00e1vel sem ingerir carboidratos? A constata\u00e7\u00e3o desafiava um princ\u00edpio cl\u00e1ssico da fisiologia, segundo o qual a principal fonte de glicose \u00e9 o carboidrato ingerido na alimenta\u00e7\u00e3o. Se esses animais n\u00e3o tinham acesso regular a esse nutriente, seria necess\u00e1rio que o pr\u00f3prio organismo fabricasse o a\u00e7\u00facar circulante e em quantidade suficiente para sustentar fun\u00e7\u00f5es vitais, como a atividade cerebral.<\/p>\n<p>Segundo a professora \u00cdsis do Carmo Kettelhut, do Departamento de Bioqu\u00edmica e Imunologia da FMRP, a busca pela resposta come\u00e7ou pelo estudo do f\u00edgado. \u00c9 nesse \u00f3rg\u00e3o que ocorre a chamada gliconeog\u00eanese, processo pelo qual o organismo fabrica glicose a partir de outras subst\u00e2ncias, como os amino\u00e1cidos derivados das prote\u00ednas. Experimentos posteriores com gatos e ratos alimentados com dietas hiperproteicas (ricas em prote\u00edna) confirmaram a mesma capacidade elevada de produ\u00e7\u00e3o hep\u00e1tica de glicose, refor\u00e7ando que se tratava de um mecanismo adaptativo presente tamb\u00e9m na fisiologia dos mam\u00edferos, e n\u00e3o de uma peculiaridade das aves.<\/p>\n<p>Anos depois, com o avan\u00e7o das t\u00e9cnicas de biologia molecular, a equipe liderada por Kettelhut decidiu investigar o que acontecia dentro das c\u00e9lulas hep\u00e1ticas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cNaquela \u00e9poca, n\u00e3o existiam ferramentas para entender os mecanismos moleculares envolvidos. Agora conseguimos mergulhar na c\u00e9lula e identificar quem regula essa via\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em um experimento mais recente, apoiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp), o pesquisador Jo\u00e3o Batista Camargo Neto (FMRP-USP) alimentou camundongos adultos com uma dieta composta por 86% de prote\u00ednas, 8% de gordura, 6% de mistura de sais e vitaminas e zero carboidrato durante 30 dias. Ao longo do per\u00edodo, foram monitorados peso, consumo alimentar e glicemia desses animais. Desde a primeira semana do estudo, os camundongos alimentados com a dieta hiperproteica apresentaram n\u00edveis de glicose mais baixos que os animais do grupo-controle (alimentados com uma dieta balanceada de prote\u00ednas e carboidratos), por\u00e9m est\u00e1veis. E, quando foram submetidos a 12 horas de jejum, mantiveram a glicemia praticamente inalterada, enquanto os animais com dieta balanceada tiveram queda de aproximadamente 40%.<\/p>\n<p>\u00a0<strong>Troca de estrat\u00e9gia<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>De acordo com Camargo Neto, os testes moleculares revelaram uma mudan\u00e7a inesperada na forma como o f\u00edgado sustentava essa produ\u00e7\u00e3o de glicose. No in\u00edcio da dieta, a produ\u00e7\u00e3o de glicose era estimulada pelo glucagon, horm\u00f4nio liberado quando o n\u00edvel de a\u00e7\u00facar no sangue cai. O glucagon ativa uma prote\u00edna chamada CREB, que induz a express\u00e3o de enzimas respons\u00e1veis pela gliconeog\u00eanese.<\/p>\n<p>Mas, com o passar do tempo, mesmo com o glucagon elevado, essa via deixava de responder. \u201cO f\u00edgado se torna resistente \u00e0 ativa\u00e7\u00e3o do glucagon. A via de sinaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 bloqueada\u201d, explica o pesquisador. Esse fen\u00f4meno indica que o organismo n\u00e3o mant\u00e9m o mesmo mecanismo de controle n\u00e3o mant\u00e9m a ativa\u00e7\u00e3o da neoglicog\u00eanese hep\u00e1tica (produ\u00e7\u00e3o de glicose pelo f\u00edgado) pela ativa\u00e7\u00e3o do glucagon, mas sim pela queda da insulina.<\/p>\n<p>Por volta de 15 dias ap\u00f3s a alimeta\u00e7\u00e3o com a dieta hiperproteica ocorre a \u201ctroca de estrat\u00e9gia\u201d do organismo e o fator de transcri\u00e7\u00e3o FoxO1 assume o comando da produ\u00e7\u00e3o de glicose pelo f\u00edgado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cFatores de transcri\u00e7\u00e3o s\u00e3o prote\u00ednas que entram no n\u00facleo da c\u00e9lula e regulam a express\u00e3o de genes espec\u00edficos. No caso, o FoxO1 ativa genes de enzimas respons\u00e1veis por transformar amino\u00e1cidos em glicose, ou seja, genes da via gliconeog\u00eanica. Diferentemente do CREB, ele depende da queda da insulina para atuar e os animais em dieta hiperproteica apresentam n\u00edveis mais baixos desse horm\u00f4nio\u201d, explica Kettelhut.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a sugere que o organismo passa de uma resposta hormonal aguda, t\u00edpica de situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia metab\u00f3lica (falta de carboidrato), para um controle cr\u00f4nico dos genes que comandam a produ\u00e7\u00e3o de glicose. Trata-se de uma reorganiza\u00e7\u00e3o interna do sistema de regula\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica do f\u00edgado.<\/p>\n<p>Os pesquisadores ainda n\u00e3o sabem responder por que motivo o organismo muda de estrat\u00e9gia para continuar produzindo glicose. Mas, entre as hip\u00f3teses, a equipe acredita que a transi\u00e7\u00e3o pode representar uma economia energ\u00e9tica ou uma forma de evitar sobrecarga constante das vias hormonais. \u201cAtivar a via do CREB exige maior gasto de ATP. Talvez o organismo opte por um mecanismo mais econ\u00f4mico a longo prazo\u201d, sugere Kettelhut, ressaltando que a hip\u00f3tese ainda \u00e9 especulativa.<\/p>\n<p>Outro achado relevante foi o aumento da corticosterona, horm\u00f4nio equivalente ao cortisol em humanos. Esse horm\u00f4nio faz parte da resposta ao estresse metab\u00f3lico e tamb\u00e9m estimula a produ\u00e7\u00e3o de glicose. Quando os pesquisadores removeram cirurgicamente as gl\u00e2ndulas adrenais (respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o desse horm\u00f4nio), os animais em dieta hiperproteica perderam a capacidade de manter a glicemia durante o jejum. Isso indica que os glicocorticoides tamb\u00e9m s\u00e3o essenciais na adapta\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica a essa dieta.<\/p>\n<p>\u00a0<strong>O que acontece com humanos?<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Apesar do interesse crescente por dietas ricas em prote\u00edna e restri\u00e7\u00e3o de carboidratos, os pesquisadores alertam que os resultados n\u00e3o devem ser automaticamente extrapolados para humanos. N\u00e3o h\u00e1 estudos em pessoas submetidas a uma dieta totalmente isenta de carboidrato, como a usada no experimento. Al\u00e9m disso, h\u00e1 ind\u00edcios de poss\u00edveis efeitos sobre outros \u00f3rg\u00e3os, entre eles aumento do tamanho dos rins em modelos animais submetidos a alto consumo proteico. \u201cEssa dieta que usamos no estudo n\u00e3o \u00e9 palat\u00e1vel para o homem. E n\u00e3o h\u00e1 nenhum experimento feito em humanos com essas dietas\u201d, pondera a pesquisadora.<\/p>\n<p>Para Camargo Neto, o principal avan\u00e7o do estudo est\u00e1 na compreens\u00e3o detalhada da regula\u00e7\u00e3o molecular da gliconeog\u00eanese. Os resultados mostram que o metabolismo \u00e9 din\u00e2mico e adapt\u00e1vel e, diante da aus\u00eancia prolongada de carboidratos, o f\u00edgado n\u00e3o apenas aumenta a produ\u00e7\u00e3o de glicose, mas reorganiza seu sistema de comando para sustentar essa fun\u00e7\u00e3o no longo prazo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cA via metab\u00f3lica da gliconeog\u00eanese est\u00e1 desregulada em doen\u00e7as como o diabetes tipo 2 e em alguns tipos de c\u00e2ncer. Entender quem controla esse processo poder\u00e1, no futuro, ajudar no desenvolvimento de novos medicamentos e de estrat\u00e9gias terap\u00eauticas\u201d, conclui.<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Quando submetido por muito tempo a uma dieta rica em prote\u00ednas e totalmente isenta de carboidratos, o organismo&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":425050,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[68425,2369,53310,1347,116,68405,32,4466,33,3550,117,3064],"class_list":["post-425049","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-agencia-sp","tag-alimentacao","tag-carboidrato","tag-estudo","tag-health","tag-ifronteira-com","tag-portugal","tag-proteina","tag-pt","tag-ribeirao-preto","tag-saude","tag-usp"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116785184011056426","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/425049","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=425049"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/425049\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/425050"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=425049"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=425049"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=425049"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}