{"id":425296,"date":"2026-06-21T07:00:14","date_gmt":"2026-06-21T07:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/425296\/"},"modified":"2026-06-21T07:00:14","modified_gmt":"2026-06-21T07:00:14","slug":"desafios-evolutivos-podem-silenciar-grilos-diz-estudo-21-06-2026-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/425296\/","title":{"rendered":"Desafios evolutivos podem silenciar grilos, diz estudo &#8211; 21\/06\/2026 &#8211; Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>O fato provavelmente n\u00e3o \u00e9 um grande consolo para quem se incomoda com o cricrilar dos grilos no meio da madrugada, mas, em diversos casos, a pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 atuando para tornar esses insetos mais discretos, ou mesmo totalmente silenciosos. \u00c9 isso o que mostrou um estudo de pesquisadores brasileiros, que mapeou o intrigante fen\u00f4meno da perda do canto dos grilos ao longo do tempo evolutivo.<\/p>\n<p>De acordo com o <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/jse.70080#support-information-section\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">estudo<\/a>, publicado neste m\u00eas na revista especializada <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/journal\/17596831\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Journal of Systematics and Evolution<\/a>, o desaparecimento da capacidade de produzir e de ouvir esses sons aconteceu m\u00faltiplas vezes ao longo da trajet\u00f3ria evolutiva de um dos subgrupos de grilos que \u00e9 comum no Brasil, o dos Oecanthidae, que tem mais de 1.400 esp\u00e9cies espalhadas pelo mundo.<\/p>\n<p>O trabalho, conduzido por pesquisadores da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/usp\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">USP<\/a> e do Museu Nacional de Hist\u00f3ria Natural da Fran\u00e7a, revelou ainda que existe um elevado grau de &#8220;coordena\u00e7\u00e3o&#8221; entre os sistemas associados ao canto \u2013os grilos que perdem a capacidade de cantar tendem a perder tamb\u00e9m a de ouvir\u2013, embora existam esp\u00e9cies dotadas de combina\u00e7\u00f5es aparentemente mais enigm\u00e1ticas, apelidadas de &#8220;ouvintes silenciosos&#8221; e &#8220;cantores surdos&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que mudan\u00e7as no habitat e a press\u00e3o trazida pelos predadores sejam respons\u00e1veis por &#8220;calar&#8221; certos grilos ao longo da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora seja natural usar termos como &#8220;canto&#8221; e &#8220;audi\u00e7\u00e3o&#8221; para descrever os comportamentos desses insetos, a maneira como eles produzem e captam sons \u00e9 muito diferente do que vemos no caso dos seres humanos e outros mam\u00edferos.<\/p>\n<p>Quando cantam, os grilos n\u00e3o usam a boca, mas esfregam as asas anteriores (da frente) uma na outra, num processo chamado estridula\u00e7\u00e3o. &#8220;Funciona como se fosse um reco-reco&#8221;, explicou \u00e0 <b>Folha<\/b> o principal autor do estudo, Lucas Denadai de Campos, do Departamento de Gen\u00e9tica e Biologia Evolutiva da USP.<\/p>\n<blockquote class=\"c-quote\">\n<p class=\"c-quote__content\">Algumas esp\u00e9cies de grilos que est\u00e3o perto de estradas podem reduzir o canto quando passam carros, e essa resposta depende da experi\u00eancia pr\u00e9via com o ru\u00eddo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Entre as estruturas especializadas das asas, conta ele, destaca-se a fileira estridulat\u00f3ria, uma veia da asa anterior direita que tem pequenos dentes na parte de baixo. &#8220;\u00c9 essa veia que \u00e9 raspada na palheta, uma estrutura da asa anterior esquerda, para produzir o som do \u2018cri-cri\u2019.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, o termo &#8220;palheta&#8221; \u00e9 o mesmo usado para o objeto que guitarristas e outros m\u00fasicos de instrumentos de corda usam para tocar. Outro termo derivado da m\u00fasica humana \u00e9 o nome de uma regi\u00e3o das asas chamada &#8220;harpa&#8221;: s\u00e3o veias acess\u00f3rias diagonais que lembram o instrumento e que ajudam a amplificar o som. Outra dessas estruturas \u00e9 o espelho, com veias que formam uma regi\u00e3o arredondada.<\/p>\n<p>Se o som n\u00e3o sai da boca, tampouco chega a uma orelha: os grilos ouvem com a ajuda das patas da frente. \u00c9 nelas que podem estar presentes o t\u00edmpano externo e o t\u00edmpano interno, respons\u00e1veis pela recep\u00e7\u00e3o ac\u00fastica.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, outra vari\u00e1vel importante \u00e9 o comprimento das asas. &#8220;Ele indica se existem estruturas respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o do som ou n\u00e3o. Asas muito curtas geralmente n\u00e3o as possuem. E existem esp\u00e9cies que nem sequer t\u00eam asas&#8221;, conta o pesquisador.<\/p>\n<p>Campos e seus colegas usaram essa lista de caracter\u00edsticas anat\u00f4micas, em suas diferentes manifesta\u00e7\u00f5es em mais de cem esp\u00e9cies da fam\u00edlia Oecanthidae, bem como uma compara\u00e7\u00e3o deles com outras fam\u00edlias de grilos, para tentar estimar como as adapta\u00e7\u00f5es para o canto e a audi\u00e7\u00e3o, bem como a falta delas, foram surgindo ou desaparecendo ao longo da evolu\u00e7\u00e3o do grupo.<\/p>\n<p>Os sons, produzidos pelos machos principalmente para atrair as f\u00eameas, s\u00e3o uma estrat\u00e9gia importante para a reprodu\u00e7\u00e3o desses insetos, mas tamb\u00e9m podem envolver custos, seja pelo gasto de energia, seja pela poss\u00edvel exposi\u00e7\u00e3o a predadores.<\/p>\n<p>O que os pesquisadores fizeram foi aplicar uma s\u00e9rie de an\u00e1lises estat\u00edsticas sofisticadas para tentar entender como as caracter\u00edsticas foram se modificando conforme a diversifica\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies dentro do grupo Oecanthidae ia acontecendo ao longo de dezenas de milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>A primeira conclus\u00e3o clara \u00e9 que, embora a capacidade de cantar e ouvir o canto estivesse presente no ancestral comum de todos os bichos do grupo, as estruturas necess\u00e1rias para essas capacidades j\u00e1 sumiram diversas vezes, e de forma independente \u2013isto \u00e9, com &#8220;galhos&#8221; distintos da \u00e1rvore geneal\u00f3gica dos grilos seguindo esse mesmo caminho em contextos diferentes.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o ou desaparecimento das asas, por exemplo, aconteceu pelo menos quatro vezes; a fileira estridulat\u00f3ria, uma das partes do &#8220;reco-reco&#8221; das asas, sumiu ao menos 11 vezes; a &#8220;harpa&#8221;, nove vezes; e assim por diante. Em geral, as perdas na produ\u00e7\u00e3o de som tendem a ser acompanhadas por perdas na capacidade de capt\u00e1-lo, o que faz sentido em termos de energia despendida para o desenvolvimento: a tend\u00eancia \u00e9 o organismo n\u00e3o gastar mais recursos com a forma\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o que deixou de ser \u00fatil.<\/p>\n<p>Algumas das esp\u00e9cies que ficaram &#8220;mudas&#8221; e &#8220;surdas&#8221; se adaptaram a espa\u00e7os muito confinados, nos quais a comunica\u00e7\u00e3o sonora j\u00e1 n\u00e3o tem tanta raz\u00e3o de ser, como ocos de madeira ou cavidades na pedra. Outras passaram a viver em \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o mais esparsa e rasteira, o que deixaria os bichos mais expostos a predadores caso cantassem com o mesmo afinco de outrora.<\/p>\n<p>Por outro lado, o canto tende a permanecer a todo vapor nas esp\u00e9cies presentes nas copas das \u00e1rvores, principalmente em florestas tropicais, pela relativa facilidade de propaga\u00e7\u00e3o do som. Ao mesmo tempo, o barulho do tr\u00e2nsito pode influenciar a emiss\u00e3o de sons dos bichos no sentido contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;Algumas esp\u00e9cies de grilos que est\u00e3o perto de estradas podem reduzir o canto quando passam carros, e essa resposta depende da experi\u00eancia pr\u00e9via com o ru\u00eddo: indiv\u00edduos que vivem mais perto da rodovia cantam com mais frequ\u00eancia, sugerindo habitua\u00e7\u00e3o ou plasticidade baseada na experi\u00eancia&#8221;, explica Campos.<\/p>\n<p>&#8220;Nos grilos de \u00e1rvore Oecanthus pellucens, os machos encurtam o tempo de canto e fazem mais pausas \u00e0 medida que o n\u00edvel de ru\u00eddo de tr\u00e1fego aumenta. Esse comportamento tamb\u00e9m pode estar relacionado ao per\u00edodo de reprodu\u00e7\u00e3o. Os machos cantam principalmente para atrair f\u00eameas. Se eles estiverem ao final desse per\u00edodo, eles geralmente continuam cantando mesmo com perturba\u00e7\u00f5es e ru\u00eddos urbanos. Fazem isso para tentar fecundar o maior n\u00famero de f\u00eameas poss\u00edvel.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O fato provavelmente n\u00e3o \u00e9 um grande consolo para quem se incomoda com o cricrilar dos grilos no&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":425297,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[84],"tags":[2780,109,107,108,236,69149,3534,3536,32,33,105,103,104,106,110,3062,3064],"class_list":["post-425296","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-ciencia-e-tecnologia","tag-biodiversidade","tag-ciencia","tag-ciencia-e-tecnologia","tag-cienciaetecnologia","tag-folha","tag-grilo","tag-insetos","tag-pesquisa-cientifica","tag-portugal","tag-pt","tag-science","tag-science-and-technology","tag-scienceandtechnology","tag-technology","tag-tecnologia","tag-universidade","tag-usp"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116786811838148587","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/425296","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=425296"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/425296\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/425297"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=425296"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=425296"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=425296"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}