{"id":425718,"date":"2026-06-21T15:25:10","date_gmt":"2026-06-21T15:25:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/425718\/"},"modified":"2026-06-21T15:25:10","modified_gmt":"2026-06-21T15:25:10","slug":"portugal-rejeita-vender-200-toneladas-de-uranio-para-ter-reserva-estrategica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/425718\/","title":{"rendered":"Portugal rejeita vender 200 toneladas de ur\u00e2nio para ter reserva estrat\u00e9gica"},"content":{"rendered":"<p>        H\u00e1 mais de 30 anos que Portugal armazenou 200 toneladas de concentrado de ur\u00e2nio ap\u00f3s fecho de mina. Executivo de Ant\u00f3nio Costa quis vender, mas nunca aconteceu. Apesar de n\u00e3o apostar no nuclear, Governo quer reserva para \u201csalvaguardar op\u00e7\u00f5es futuras\u201d.    <\/p>\n<p>A mina portuguesa de ur\u00e2nio da Urgeiri\u00e7a trabalhou durante 80 anos at\u00e9 parar a produ\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 90. Foi desta mina em Nelas, distrito de Viseu, que saiu min\u00e9rio radioativo para o laborat\u00f3rio da cientista franco-polaca Marie Sklodowska-Curie, vencedora do pr\u00e9mio Nobel duas vezes e a primeira mulher a receber a honra. Forneceu tamb\u00e9m o Reino Unido e os Estados Unidos da Am\u00e9rica no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, numa altura em que as maiores pot\u00eancias mundiais estavam numa corrida pela supremacia de armas nucleares na Guerra Fria contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Mais de 3.700 toneladas de concentrado de ur\u00e2nio foram produzidas ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O executivo de Ant\u00f3nio Costa chegou a estudar a venda deste ur\u00e2nio em 2018 \u2013 que est\u00e1 armazenado em barris num armaz\u00e9m no antigo couto mineiro da Urgeiri\u00e7a -, mas a inten\u00e7\u00e3o acabou por nunca sair da gaveta.<\/p>\n<p>Agora, o Governo de Lu\u00eds Montenegro rejeita vender este concentrado de ur\u00e2nio considerando que \u00e9 uma reserva estrat\u00e9gica de Portugal e que deve ser preservado numa perspetiva de longo prazo.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o est\u00e1 em curso qualquer processo de venda da reserva de ur\u00e2nio que constitui uma reserva estrat\u00e9gica nacional, permitindo salvaguardar op\u00e7\u00f5es futuras, designadamente em fun\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas energ\u00e9ticas, tecnol\u00f3gicas e do contexto internacional\u201d, respondeu ao Jornal Econ\u00f3mico fonte oficial do minist\u00e9rio do Ambiente e da Energia.<\/p>\n<p>Questionada se o material est\u00e1 armazenado em condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a, a tutela responde. \u201cO concentrado de ur\u00e2nio est\u00e1 sujeito a um quadro rigoroso de normas nacionais e internacionais, incluindo inspe\u00e7\u00f5es regulares por parte da EURATOM e AIEA com obriga\u00e7\u00f5es de controlo e reporte. As condi\u00e7\u00f5es de armazenamento, seguran\u00e7a f\u00edsica e prote\u00e7\u00e3o radiol\u00f3gica cumprem todos os requisitos legais e t\u00e9cnicos aplic\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p><strong>Para que serve o concentrado?<\/strong><br \/>Este produto est\u00e1 no \u201cfundo da cadeia de valor\u201d, disse ao JE Bruno Soares Gon\u00e7alves, especialista em energia nuclear.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ser extra\u00eddo, este ur\u00e2nio leva um banho de \u00e1cido no seu primeiro tratamento qu\u00edmico, gerando o concentrado que depois tem de ser enriquecido para poder ser usado como combust\u00edvel para centrais nucleares. Se o grau de enriquecimento aumentar, pode ser usado para construir bombas nucleares, um tema abordado agora com as conversa\u00e7\u00f5es entre os EUA e o Ir\u00e3o para os acordos de paz, que visam, precisamente, que Teer\u00e3o n\u00e3o consiga enriquecer ur\u00e2nio de forma a construir uma bomba. Entre os pa\u00edses que t\u00eam capacidade para enriquecer ur\u00e2nio est\u00e3o Espanha, Fran\u00e7a, Estados Unidos da Am\u00e9rica ou a R\u00fassia.<\/p>\n<p><strong>Quanto vale o ur\u00e2nio?<\/strong><br \/>A avalia\u00e7\u00e3o feita em 2012 pela estatal Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM) estima o seu valor em mais de 13,7 milh\u00f5es de euros, mas o n\u00famero nunca foi atualizado. O concentrado \u2013 conhecido por \u2018yellowcake\u2019 (na forma de p\u00f3 amarelo) \u2013 \u00e9 usado na produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel para centrais nucleares e tamb\u00e9m para armas nucleares.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma reserva interessante. Tem um valor comercial, mas diria que n\u00e3o \u00e9 um valor que, neste momento, valha a pena explorar\u201d, afirmou o professor Bruno Soares Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>\u201cSe Portugal um dia optar por ter nuclear, j\u00e1 tem uma base para fazer combust\u00edvel nuclear, embora n\u00e3o tenha o resto ainda da cadeia para o transformar\u201d, acrescentou o presidente do Instituto de Plasmas e Fus\u00e3o Nuclear \u2013 IPFN.<\/p>\n<p>\u201cPode ser vendido, mas tem potencial para ser enriquecido para uma central e termos uma reserva estrat\u00e9gica do ponto de vista nacional. Faz sentido avaliar a possibilidade\u201d, defendeu.<\/p>\n<p>Desde que assumiu o cargo que a ministra do Ambiente e da Energia tem rejeitado apostar no nuclear, considerando que essa n\u00e3o \u00e9 a escolha do pa\u00eds que deve continuar a apostar nas energias renov\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u201cPara a energia nuclear, \u00e9 preciso um investimento inicial bastante elevado. No nosso caso n\u00e3o faz sentido. Temos muito potencial renov\u00e1vel, j\u00e1 investimos. A nossa aposta dever\u00e1 ser nas renov\u00e1veis\u201d, defendeu Maria da Gra\u00e7a Carvalho em mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Recentemente, o secret\u00e1rio de Estado da Energia admitiu que o pa\u00eds at\u00e9 poderia come\u00e7ar a discutir a energia nuclear, mas somente para o longo prazo.<\/p>\n<p>\u201cPodemos hoje come\u00e7ar a discutir o nuclear, mas n\u00e3o vai resolver o problema desta crise nem da pr\u00f3xima\u201d, disse Jean Barroca no Parlamento no final de maio. \u201c\u00c9 uma conversa interessante para se come\u00e7ar a discutir, mas n\u00e3o e uma solu\u00e7\u00e3o imediata nem estrutural para o sistema\u201d, acrescentou o governante.<\/p>\n<p><strong>Empresa p\u00fablica defendeu este ano a sua venda<\/strong><br \/>A estatal Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM) chegou a defender ainda este ano a venda deste ur\u00e2nio, considerando que existe uma \u201ctend\u00eancia de valoriza\u00e7\u00e3o e retoma progressiva dos pre\u00e7os\u201d no mercado nos \u00faltimos anos a que se deve o isolamento da R\u00fassia ap\u00f3s a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>\u201cVerifica-se desta forma a exist\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para a aliena\u00e7\u00e3o do stock de concentrado de ur\u00e2nio, contudo para a sua concretiza\u00e7\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1ria assegurar a implementa\u00e7\u00e3o de um conjunto de a\u00e7\u00f5es com vista \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o do concentrado \u00e0 luz nas especifica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas atuais, a an\u00e1lise de oportunidades de mercado, tendo em considera\u00e7\u00e3o as limita\u00e7\u00f5es e requisitos legais associados \u00e0 transa\u00e7\u00e3o, transporte e exporta\u00e7\u00e3o deste tipo de materiais\u201d, segundo o Plano de Atividades da EDM para 2026.<\/p>\n<p><strong>Pre\u00e7o do ur\u00e2nio subiu 70%<\/strong><br \/>As 200 toneladas de concentrado de ur\u00e2nio foram avaliadas em 13,7 milh\u00f5es de euros pela estatal Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM) em 2012.<\/p>\n<p>Contas feitas pelo JE tendo em conta as cota\u00e7\u00f5es nos mercados internacionais, os pre\u00e7os do concentrado dispararam quase 70% no espa\u00e7o de 14 anos. O pre\u00e7o spot do ur\u00e2nio rondava os 50 d\u00f3lares por libra em meados de 2012, quando foi publicado o decreto-lei que transferiu o concentrado para a EDM. Feitas as contas com base nestas cota\u00e7\u00f5es, as 200 toneladas valeriam ent\u00e3o cerca de 22 milh\u00f5es de d\u00f3lares (19 milh\u00f5es de euros). Com os pre\u00e7os atuais, as 200 toneladas valem agora 37 milh\u00f5es de d\u00f3lares (32 milh\u00f5es de euros).<\/p>\n<p>O concentrado de ur\u00e2nio n\u00e3o \u00e9 vendido em mercado aberto como outras mat\u00e9rias-primas, com os contratos a serem negociados diretamente entre as partes.<\/p>\n<p>A EDM j\u00e1 gastou 3,5 milh\u00f5es de euros desde 2012 na manuten\u00e7\u00e3o, vigil\u00e2ncia e cumprimento de obriga\u00e7\u00f5es legais para manter o concentrado de ur\u00e2nio.<\/p>\n<p><strong>Reservas alimentam central durante um ano<\/strong><br \/>As 200 toneladas de concentrado de ur\u00e2nio t\u00eam a capacidade para fornecer entre 20-25 toneladas de combust\u00edvel, o suficiente para alimentar uma central nuclear com 1 gigawatt de pot\u00eancia durante um ano, segundo a estimativa feita pelo professor Bruno Soares Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>O especialista \u00e9 um defensor de que Portugal deveria apostar em energia nuclear.<\/p>\n<p>\u201cO nuclear tem de ser considerado, tem de ser feito uma avalia\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. Tem de ser feita a an\u00e1lise de custos totais de sistemas tendo em conta aquilo que queremos: os objetivos, a seguran\u00e7a, a resili\u00eancia para o sistema el\u00e9trico e tamb\u00e9m a procura por eletricidade que esperamos que aumente, porque queremos crescimento econ\u00f3mico\u201d, segundo o especialista.<\/p>\n<p>Nas suas contas, Portugal poderia apostar numa central com um a dois gigawatts de pot\u00eancia que custaria entre 8\/9 a 16\/18 mil milh\u00f5es de euros.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m destaca os novos pequenos reatores modulares, com menos pot\u00eancia, mas custos mais baixos, incluindo um da Rollys-Royce com 400 megawatts. \u201cA grande vantagem \u00e9 sobretudo o investimento inicial, o capital necess\u00e1rio para iniciar o processo. Num pa\u00eds pequeno como o nossos, tamb\u00e9m h\u00e1 vantagem de ser um reator menor\u201d, afirmou.<\/p>\n<p><strong>Venda ou transfer\u00eancia para instala\u00e7\u00f5es militares<\/strong><br \/>Os ex-trabalhadores da mina da Urgeiri\u00e7a defendem uma de duas medidas: ou a transfer\u00eancia do concentrado para instala\u00e7\u00f5es militares ou a sua venda com as receitas a reverterem para projetos na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEntendemos que as reservas devem sair para uma instala\u00e7\u00e3o militar, n\u00e3o devem estar na Urgeiri\u00e7a\u201d, disse ao JE Ant\u00f3nio Minhoto, presidente da ATMU \u2013 Associa\u00e7\u00e3o dos Ex-Trabalhadores das Minas de Ur\u00e2nio.<\/p>\n<p>Trabalhador na mina da Urgeiri\u00e7a durante 14 anos, rejeita que haja \u201cimpactos diretos\u201d na sa\u00fade, mas considera que n\u00e3o faz sentido manter material radioativo junto da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cCaso venha a ser vendido, esperamos que a receita seja aplicada na Urgeiri\u00e7a e na regi\u00e3o\u201d, defende Ant\u00f3nio Minhoto, adiantando que a ATMU j\u00e1 transmitiu diretamente a sua opini\u00e3o ao secret\u00e1rio de Estado da Energia Jean Barroca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 mais de 30 anos que Portugal armazenou 200 toneladas de concentrado de ur\u00e2nio ap\u00f3s fecho de mina.&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":425719,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[83],"tags":[88,69201,89,4399,90,301,13882,32,33,69202,55021,69203],"class_list":["post-425718","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-empresas","tag-business","tag-concentrado","tag-economy","tag-edm","tag-empresas","tag-governo","tag-mina","tag-portugal","tag-pt","tag-reserva-estrategica","tag-uranio","tag-urgeirica"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116788797540772871","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/425718","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=425718"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/425718\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/425719"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=425718"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=425718"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=425718"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}