{"id":42587,"date":"2025-08-24T08:01:10","date_gmt":"2025-08-24T08:01:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/42587\/"},"modified":"2025-08-24T08:01:10","modified_gmt":"2025-08-24T08:01:10","slug":"uma-relacao-perigosa-gama-revista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/42587\/","title":{"rendered":"uma rela\u00e7\u00e3o perigosa \u2014 Gama Revista"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA busca por um padr\u00e3o de beleza est\u00e1 ligada ao desejo de controle de um corpo em transforma\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, em um mundo em que as formas de demonstrar poder s\u00e3o escassas\u201d, diz psiquiatra especializado em adolescentes<strong> Gustavo Estanislau<\/strong>\n<\/p>\n<p>J\u00e1 pensou o seu corpo mudar tanto e t\u00e3o rapidamente que voc\u00ea passa a nem se reconhecer quando se olha no espelho? Parece roteiro de filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ou de terror, mas se voc\u00ea tem mais de 20 anos, pode at\u00e9 n\u00e3o lembrar mais, mas isso j\u00e1 aconteceu a voc\u00ea.<\/p>\n<p>Quando a puberdade bate, s\u00e3o novas formas, novos pelos, novos cheiros. Isso pode gerar ansiedade e uma s\u00e9rie de outros sintomas, como explica o psiquiatra especializado em adolescentes Gustavo Estanislau, autor dos livros \u201cDilema na Educa\u00e7\u00e3o\u201d (Aut\u00eantica, 2023).<\/p>\n<p>\u201cO pensamento \u00e9: o que eu posso fazer para lidar com esse mapa corporal que est\u00e1 sempre se modificando? Os jovens tentam controlar essas mudan\u00e7as do corpo e pensam que entrar em um padr\u00e3o pode ser um caminho. E a\u00ed come\u00e7am as obsess\u00f5es\u201d, afirma na entrevista a Gama.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/s-aparencia-entrevista-retrato.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-182724\"\/><\/p>\n<p class=\"subtitulo\">Receba nossos melhores conte\u00fados por email<\/p>\n<p class=\"titulo\">Inscreva-se nas nossas newsletters<\/p>\n<p class=\"titulo\">Obrigada pelo interesse!<\/p>\n<p class=\"frase\">Encaminhamos um e-mail de confirma\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Com o espelho no centro de tudo e as redes sociais como refor\u00e7o das obsess\u00f5es, os jovens t\u00eam buscado muitos m\u00fasculos, apoiados pela ind\u00fastria fitness e a de suplementos; uma magreza excessiva, que voltou com tudo na era das canetas emagrecedoras como Munjaro e Ozempic; e uma \u201cextreme make-over\u201d com todo tipo de produto de maquiagem. Chega a ser um hiperfoco, algo que desloca a energia mental que poderia ser investida no esporte, na dan\u00e7a, na escola.<\/p>\n<p>\u201cA grande quest\u00e3o \u00e9 at\u00e9 onde isso \u00e9 divertido, um hobby \u2014 como quando as meninas gostam de esmaltes, pintam as unhas e se divertem sem sofrimento \u2014, ou \u00e9 algo que deixa de lado o que \u00e9 importante para a vida\u201d, diz na entrevista que voc\u00ea l\u00ea abaixo.<\/p>\n<p>Os jovens tentam controlar as mudan\u00e7as pelas quais est\u00e3o passando, o corpo, e entrar em um padr\u00e3o parece um caminho<\/p>\n<p>Os tr\u00eas pilares da apar\u00eancia hoje s\u00e3o magreza, maquiagem e m\u00fasculos<\/p>\n<p>\u201cVemos os efeitos colaterais dessas medica\u00e7\u00f5es que trazem emagrecimento, como n\u00e1useas, tontura e a perda de peso em um corpo que j\u00e1 era saud\u00e1vel. A maquiagem tem aparecido como um hiperfoco de algumas crian\u00e7as e adolescentes, que desloca a energia mental que poderia ser investida no esporte, na dan\u00e7a, na escola. A grande quest\u00e3o \u00e9 at\u00e9 onde isso \u00e9 divertido, um hobby \u2014 como quando as meninas gostam de esmaltes, pintam as unhas e se divertem sem sofrimento \u2014, ou \u00e9 algo que deixa de lado o que \u00e9 importante para a vida.<\/p>\n<p>Com os meninos, vejo um uso descabido de energ\u00e9ticos como pr\u00e9-treino. Muitos t\u00eam arginina, que gera um formigamento no corpo e pode gerar crises de ansiedade. Tive pelo menos tr\u00eas pacientes que tiveram epis\u00f3dios nos \u00faltimos dois anos. Tamb\u00e9m vejo o uso, sem orienta\u00e7\u00e3o, de whey protein, que pode levar \u00e0 acne e, consequentemente, a medica\u00e7\u00f5es para o seu tratamento; e meninos tamb\u00e9m muito interessados em campeonatos de fisiculturismo desde muito cedo, aos 14, 15 anos.\u201d<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7a com a vontade de controlar um corpo em mudan\u00e7a<\/p>\n<p>\u201cAo longo da nossa inf\u00e2ncia, n\u00f3s desenvolvemos um mapa do nosso corpo, uma imagem de quem somos. A partir do momento em que h\u00e1 mudan\u00e7as muito r\u00e1pidas, na puberdade \u2014 8 ou 9 anos para as meninas, e 10 a 12 para os meninos \u2014, quando os horm\u00f4nios sexuais come\u00e7am a subir, esse mapa entra em parafuso. A pessoa nota mudan\u00e7as no corpo diariamente: \u00e9 espinha, pelo, cheiro. A mudan\u00e7a gera ansiedade e o adolescente passa a se olhar demais no espelho, como se fosse uma checagem, porque ele tem uma sensa\u00e7\u00e3o de estranhamento com o corpo previamente mapeado.\u201d<\/p>\n<p>Do espelho, nasce a ansiedade<\/p>\n<p>\u201cSe essa checagem for excessiva, come\u00e7a a preocupa\u00e7\u00e3o com coisas pequenas, como uma espinha, que pode impedir que se queira sair, com a impress\u00e3o de que todos v\u00e3o notar um defeito.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa idade que surgem picos de diagn\u00f3stico de transtorno de ansiedade. O pensamento \u00e9: o que eu posso fazer para lidar com esse mapa que est\u00e1 sempre se modificando? Os jovens tentam controlar as mudan\u00e7as pelas quais est\u00e3o passando, o corpo, e entrar em um padr\u00e3o parece um caminho. E a\u00ed come\u00e7am as obsess\u00f5es.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, esse novo mapa vai se reconstruindo, se redesenhando e a gente come\u00e7a a entrar em paz de novo com o que a gente tem. Mas esse processo \u00e9 superdesafiador.\u201d<\/p>\n<p>O desejo de se sentir aceito \u00e9 um motor<\/p>\n<p>\u201cPor tr\u00e1s disso tudo existe um desejo de se adaptar aos grupos, de ser querido pelas pessoas, um desejo real, digno e at\u00e9 razo\u00e1vel de se sentir aceito. Mas dois comportamentos preocupam: as pessoas que est\u00e3o com autoestima muito baixa, com n\u00edveis de ansiedade importantes e mais tristes; e as pessoas que chegaram a um padr\u00e3o \u2018ideal\u2019 e que n\u00e3o conseguem se libertar dessa pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Os jovens buscam o controle mas tamb\u00e9m o pertencimento<\/p>\n<p>\u00c9 como os mais populares da escola: se manter popular \u00e9 uma das coisas mais complicadas para um adolescente nos dias de hoje. H\u00e1 estudos que mostram que crian\u00e7as populares est\u00e3o em risco porque t\u00eam que fazer coisas danosas a elas mesmas para se manter no posto.<\/p>\n<p>Os jovens buscam o controle mas tamb\u00e9m o pertencimento, a aceita\u00e7\u00e3o muito grande dos outros e isso acaba gerando um comportamento obsessivo. Fazer exerc\u00edcios para se sentir bem consigo mesmo \u00e9 saud\u00e1vel, o problema s\u00e3o os extremos.\u201d<\/p>\n<p>A internet tem um peso forte<\/p>\n<p>\u201cUm influenciador que fala do corpo natural, da import\u00e2ncia do cuidado com a sa\u00fade, do n\u00e3o uso de \u00e1lcool e outras drogas pode ser superlegal. Mas a internet tamb\u00e9m leva a extremos, com informa\u00e7\u00f5es que podem n\u00e3o ser corretas ou adequadas para a idade. H\u00e1 adolescentes que querem utilizar subst\u00e2ncias que podem n\u00e3o ter benef\u00edcio nenhum, mas na internet h\u00e1 conte\u00fados que pregam suas vantagens. O pior de tudo \u00e9 a quantidade de informa\u00e7\u00e3o sobre esteroides.\u201d<\/p>\n<p>E at\u00e9 o contexto pol\u00edtico polarizado pode afetar a escolha por um padr\u00e3o<\/p>\n<p>Eu tenho visto muitas meninas preocupadas, com uma pauta mais humanizada, voltada ao coletivo e ao futuro, e muitos meninos igualmente preocupados, tentando resgatar um poder masculino que parece perdido. Isso me leva de novo \u00e0 ideia do controle frente ao desconhecido, da necessidade de se ter controle sobre algo, nem que seja sobre o pr\u00f3prio corpo, nesse mundo t\u00e3o complexo.<\/p>\n<p>Se eles n\u00e3o podem sonhar em ter um Porsche, eles querem ser o Porsche<\/p>\n<p>Por outro lado, tamb\u00e9m percebo meninas que se objetificam ao perceberem que existe poder em se ser um objeto de desejo das pessoas. Nos meninos, a busca pelo abd\u00f4men perfeito tem a ver com a busca por um padr\u00e3o de excel\u00eancia, de demonstra\u00e7\u00e3o de poder. Mas, para al\u00e9m disso, esses comportamentos refletem tamb\u00e9m uma necessidade de controle do pr\u00f3prio corpo que est\u00e1 em transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vivemos em um mundo em que as formas de demonstrar poder est\u00e3o ficando escassas. Os jovens t\u00eam percebido que as chances de se ganhar muito dinheiro v\u00eam sendo menores, e as m\u00eddias sociais constantemente nos transbordam com hist\u00f3rias de sucesso alheio, fazendo parecer que nada do que se conquista \u00e9 suficiente. Assim, em busca de se sobressa\u00edrem, os jovens se apegam ao que podem. Se eles n\u00e3o podem sonhar em ter um Porsche, eles querem ser o Porsche.\u201d<\/p>\n<p>Como identificar que existe um problema<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 dois aspectos fundamentais, o emocional e o funcional. No primeiro, h\u00e1 sofrimento, ansiedade, muita preocupa\u00e7\u00e3o com o julgamento do outro, com o futuro, com a cren\u00e7a de que n\u00e3o se \u00e9 uma pessoa gost\u00e1vel, de que n\u00e3o vai fazer amigos, de que vai ser zoado. H\u00e1 uma distor\u00e7\u00e3o da realidade: \u2018As pessoas n\u00e3o gostam de mim porque estou gordo ou por causa do meu cabelo ou da minha pele\u2019. \u00c9 preciso estar alerta para a distor\u00e7\u00e3o e o sofrimento.<\/p>\n<p>O funcional \u00e9 quando a pessoa fica t\u00e3o obcecada por algo que come\u00e7a a n\u00e3o se dedicar a outras que s\u00e3o importantes: deixa de jantar com a fam\u00edlia porque sabe que vai ser for\u00e7ada a comer, por exemplo, ou gasta muito tempo estudando sobre calorias e ester\u00f3ides.<\/p>\n<p>E h\u00e1 tamb\u00e9m os sinais claros, vis\u00edveis, de algo est\u00e1 errado, como a perda de peso ou o ganho de massa muito r\u00e1pido.\u201d<\/p>\n<p>Como se aproximar numa fase da vida em que a ruptura \u00e9 o mais comum<\/p>\n<p>\u201cExiste uma leitura que pode ser feita que \u00e9 a do exerc\u00edcio ou a alimenta\u00e7\u00e3o como algo saud\u00e1vel e os pais podem se aproximar com essa abordagem. Buscar uma aproxima\u00e7\u00e3o para entender o que est\u00e1 acontecendo, buscar uma nutricionista para entender melhor os alimentos, como a gente pode se alimentar melhor, que objetivos \u00e9 que se tem com a dieta. A meta \u00e9 ficar saud\u00e1vel ou alcan\u00e7ar um padr\u00e3o para mostrar a outras pessoas?\u201d<\/p>\n<p>Lembre-se que o di\u00e1logo \u00e9 uma via de duas m\u00e3os\u2026<\/p>\n<p>\u201cO di\u00e1logo com pais de adolescente tem um problema: costuma ser de m\u00e3o \u00fanica, \u00e9 basicamente um interrogat\u00f3rio: \u2018Me conta o que voc\u00ea acha de determinada coisa, como \u00e9, o que que voc\u00ea acha da creatina, como foi a escola hoje?\u2019. \u00c9 muito pouco comum eu ver pais que falam do seu dia, que contam uma coisa boa ou uma coisa chata que aconteceu. \u00c9 uma aproxima\u00e7\u00e3o de cima para baixo, em que o adolescente fica na posi\u00e7\u00e3o de sempre reportar. Isso n\u00e3o \u00e9 uma conversa, n\u00e3o \u00e9 assim que eu converso com os meus amigos.\u201d<\/p>\n<p>\u2026E que voc\u00ea tamb\u00e9m j\u00e1 passou por algo parecido<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos lembrar de quando \u00e9ramos adolescentes, o que era importante para n\u00f3s? Essa \u00e9 uma parte fundamental da conversa, antes do serm\u00e3o. \u00c9 importante tamb\u00e9m surpreender o adolescente. Ele espera do adulto um tipo de fala j\u00e1 pr\u00e9-concebida e, quando fazemos um caminho diferente, em que falamos da nossa adolesc\u00eancia ou trazemos uma informa\u00e7\u00e3o diferente, h\u00e1 uma chance muito maior de desenvolver um di\u00e1logo de verdade.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cA busca por um padr\u00e3o de beleza est\u00e1 ligada ao desejo de controle de um corpo em transforma\u00e7\u00e3o&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":42588,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[13031,1081,1403,13032,116,32,33,117,1030,58],"class_list":{"0":"post-42587","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-gamarevista","9":"tag-beleza","10":"tag-comportamento","11":"tag-exercicios","12":"tag-health","13":"tag-portugal","14":"tag-pt","15":"tag-saude","16":"tag-saude-mental","17":"tag-sociedade"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42587","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42587"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42587\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42588"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42587"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42587"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42587"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}