{"id":425899,"date":"2026-06-21T18:54:23","date_gmt":"2026-06-21T18:54:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/425899\/"},"modified":"2026-06-21T18:54:23","modified_gmt":"2026-06-21T18:54:23","slug":"keynes-acreditava-que-trabalhariamos-apenas-15h-por-semana-o-que-aconteceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/425899\/","title":{"rendered":"Keynes acreditava que trabalhar\u00edamos apenas 15h por semana. O que aconteceu?"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-caption-text top\"><a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:John_Maynard_Keynes_1929.jpg\" rel=\"nofollow noopener\" data-wpel-link=\"external\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">Wikimedia Commons<\/a><\/p>\n<p><img loading=\"eager\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-749643 size-kopa-image-size-3\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/5d2750499880afa473dfc509dc003a89-783x450.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"402\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">John Maynard Keynes, em retrato de 1929.<\/p>\n<p><strong>Um dos maiores economistas da hist\u00f3ria foi muito r\u00e1pido (e otimista) a assumir que o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico nos permitiria trabalhar menos. E partiu para aquela que considerava a verdadeira quest\u00e3o: como utilizar o novo tempo livre?<\/strong><\/p>\n<p>Hor\u00e1rios de trabalho de apenas tr\u00eas horas por dia, ou 15 horas por semana. Sociedades oito vezes mais pr\u00f3speras, em termos econ\u00f3micos, do que h\u00e1 100 anos. N\u00e3o eram del\u00edrios infundados, mas a convic\u00e7\u00e3o prospetiva de um dos maiores economistas da hist\u00f3ria, o brit\u00e2nico <strong>John Maynard Keynes<\/strong> (1883-1945).<\/p>\n<p>Em 1930, Keynes publicou o ensaio Possibilidades Econ\u00f3micas para os Nossos Netos, um texto em que procurava desmontar o pessimismo econ\u00f3mico da sua \u00e9poca \u2014 para ele, um exagero, uma \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o grosseiramente errada\u201d da realidade.<\/p>\n<p>Diretora-adjunta do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f3micos (DIEESE), a economista Patr\u00edcia Pelatieri sublinha que se trata de um dos textos cl\u00e1ssicos de Keynes.<\/p>\n<p>\u201cO ensaio foi apresentado numa confer\u00eancia em 1928, desenvolvido numa palestra em Madrid, em junho de 1930, e publicado em formato liter\u00e1rio em outubro do mesmo ano, em pleno contexto da Grande Depress\u00e3o\u201d, contextualiza, recordando a grande crise que abalou a economia mundial no final da d\u00e9cada de 1920.<\/p>\n<p>Para o economista John Keynes, professor na Universidade de Cambridge, a crise e o desemprego das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX n\u00e3o anunciavam um decl\u00ednio permanente da sociedade capitalista, mas antes uma fase de transi\u00e7\u00e3o, precipitada pela rapidez das transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e econ\u00f3micas.<\/p>\n<p>Keynes assinalava que, durante mil\u00e9nios, o padr\u00e3o de vida da humanidade tinha mudado muito pouco \u2014 e que a conjuga\u00e7\u00e3o entre acumula\u00e7\u00e3o de capital, juros compostos e avan\u00e7os cient\u00edficos acabara por desencadear um crescimento sem precedentes desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, iniciada em Inglaterra a partir da segunda metade do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>Com base nessa tend\u00eancia hist\u00f3rica, <strong>Keynes previa que, no espa\u00e7o de cerca de cem anos, os pa\u00edses mais desenvolvidos alcan\u00e7ariam um n\u00edvel de riqueza muito superior ao da sua \u00e9poca.<\/strong><\/p>\n<p>O progresso tecnol\u00f3gico permitiria produzir muito mais com muito menos trabalho humano, embora isso criasse temporariamente o chamado \u201cdesemprego tecnol\u00f3gico\u201d. A longo prazo, por\u00e9m, acreditava que a humanidade resolveria o seu principal problema hist\u00f3rico: a escassez econ\u00f3mica. As necessidades materiais b\u00e1sicas seriam largamente satisfeitas, reduzindo a centralidade da luta pela sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>A parte mais original do ensaio \u00e9 a reflex\u00e3o sobre as consequ\u00eancias humanas dessa abund\u00e2ncia. Keynes det\u00e9m-se numa consequ\u00eancia imediata dessa transforma\u00e7\u00e3o. Quando o trabalho deixasse de ser uma necessidade vital, as pessoas enfrentariam um novo desafio: encontrar um prop\u00f3sito para as suas vidas e usar bem o tempo livre. <strong>Imaginava hor\u00e1rios de trabalho muito curtos, talvez de apenas 15 horas por semana, e uma sociedade menos obcecada pela acumula\u00e7\u00e3o de riqueza. <\/strong>Quase uma utopia.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, valores como a cultura, o prazer, a conviv\u00eancia e o desenvolvimento pessoal ganhariam mais import\u00e2ncia do que o dinheiro, permitindo que os seres humanos se dedicassem \u00e0 \u201carte de viver\u201d, em vez de apenas trabalharem para sobreviver.<\/p>\n<p>Professor na Funda\u00e7\u00e3o Escola de Sociologia e Pol\u00edtica de S\u00e3o Paulo (FESPSP) e na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o soci\u00f3logo Paulo Niccoli Ramirez explica que a vis\u00e3o keynesiana contrariava o \u201cdogma da economia cl\u00e1ssica, segundo o qual quanto mais trabalho, mais riqueza\u201d. Isto porque Keynes percebeu o peso que a tecnologia tinha nessa equa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPara ele, no sentido oposto ao aumento da produtividade, seria poss\u00edvel reduzir o hor\u00e1rio de trabalho e dar mais qualidade de vida ao trabalhador\u201d, comenta Ramirez. O lazer n\u00e3o seria apenas tempo de descanso \u2014 significava tamb\u00e9m um aumento do consumo, uma vez que o trabalhador ganhava o \u201ctempo do consumo\u201d, contribuindo tamb\u00e9m para \u201cp\u00f4r a economia a mexer\u201d, explica o soci\u00f3logo.<\/p>\n<p>\u201cOs empenhados fazedores de dinheiro podem levar-nos a todos com eles no colo da abund\u00e2ncia econ\u00f3mica\u201d, escreve Keynes. \u201cMas ser\u00e3o essas pessoas \u2014 as que conseguirem manter viva e cultivar at\u00e9 uma perfei\u00e7\u00e3o mais completa a arte da pr\u00f3pria vida, e n\u00e3o se venderem aos meios de subsist\u00eancia \u2014 que poder\u00e3o desfrutar da abund\u00e2ncia quando ela chegar.\u201d<\/p>\n<p>\u201cKeynes apresenta uma vis\u00e3o bastante otimista sobre o futuro\u201d, define Pelatieri. \u201cPara ele, a combina\u00e7\u00e3o entre a acumula\u00e7\u00e3o de capital e o progresso t\u00e9cnico no capitalismo permitiria um crescimento cont\u00ednuo da capacidade produtiva. Os investimentos, sobretudo no estrangeiro, mas n\u00e3o s\u00f3, impulsionados pelos juros compostos, e os avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos decorrentes da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial tinham elevado significativamente o padr\u00e3o m\u00e9dio de vida na Europa e nos Estados Unidos, mesmo perante o crescimento da popula\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Para Keynes, explica a economista, \u201cessas for\u00e7as permitiriam produzir cada vez mais bens e servi\u00e7os com menos trabalho humano\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA curto prazo, isso poderia gerar aquilo a que ele chama desemprego tecnol\u00f3gico, ou seja, o resultado de descobertas que poupam trabalho a um ritmo superior ao da cria\u00e7\u00e3o de novas ocupa\u00e7\u00f5es. A longo prazo, por\u00e9m, a sociedade poderia manter ou at\u00e9 aumentar o seu padr\u00e3o de vida trabalhando muito menos horas\u201d, explica Pelatieri.<\/p>\n<p>\u201cA aposta de Keynes era que, uma vez resolvido o problema econ\u00f3mico fundamental \u2014 a luta pela subsist\u00eancia \u2014, a humanidade teria de enfrentar a velha quest\u00e3o: como utilizar o tempo livre conquistado pelo avan\u00e7o da produtividade. Considerando que, ao longo de tantos s\u00e9culos, fomos treinados para lutar e n\u00e3o para usufruir, Keynes descreve este ponto como um problema permanente da ra\u00e7a humana: como vamos lidar com o tempo livre. Ou seja, quanto mais a nossa capacidade produtiva se multiplicasse, precisar\u00edamos de apenas uma fra\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho anterior para garantir o mesmo n\u00edvel de subsist\u00eancia, como comida, habita\u00e7\u00e3o e vestu\u00e1rio\u201d, detalha Pelatieri.<\/p>\n<p>\u201cO resto do tempo ser\u00e1 convertido em lazer\u201d<\/p>\n<p>Foi nesse contexto que estimou as tais 15 horas semanais. Para o economista brit\u00e2nico, isso seria suficiente para manter a sociedade em funcionamento e, ao mesmo tempo, garantir trabalho para todos.<\/p>\n<p>O jurista Brasilino Santos Ramos, desembargador do trabalho reformado e ex-membro do Conselho Superior da Justi\u00e7a do Trabalho, sublinha que, na \u00e9poca da proposta keynesiana, predominavam hor\u00e1rios laborais extenuantes, que facilmente chegavam \u2014 e at\u00e9 ultrapassavam \u2014 as dez horas por dia.<\/p>\n<p>\u201cFoi nesse cen\u00e1rio que Keynes formulou uma das previs\u00f5es mais conhecidas da hist\u00f3ria da economia. Defensor da economia de mercado e da propriedade privada, acreditava que o capitalismo podia ser preservado e aperfei\u00e7oado por meio da atua\u00e7\u00e3o do Estado na corre\u00e7\u00e3o de crises, na promo\u00e7\u00e3o do emprego e na redu\u00e7\u00e3o das instabilidades econ\u00f3micas\u201d, diz o especialista em legisla\u00e7\u00e3o laboral.<\/p>\n<p>A escola de Keynes<\/p>\n<p>\u201cAntes de analisar as ideias de John Maynard Keynes sobre tecnologia, produtividade e redu\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio de trabalho, \u00e9 importante compreender a sua trajet\u00f3ria intelectual e social\u201d, comenta Ramos.<\/p>\n<p>\u201cOriundo da alta classe m\u00e9dia intelectual brit\u00e2nica e formado nos mais prestigiados centros acad\u00e9micos da sua \u00e9poca, Keynes dedicou-se a estudar os efeitos das crises econ\u00f3micas, do desemprego e da desigualdade. Defensor da economia de mercado, mas tamb\u00e9m da interven\u00e7\u00e3o estatal para corrigir as suas falhas, tornou-se um dos economistas mais influentes do s\u00e9culo XX e formulou reflex\u00f5es que continuam atuais perante os desafios colocados pela automa\u00e7\u00e3o e pela intelig\u00eancia artificial.\u201d<\/p>\n<p>Membro do Partido Liberal, Keynes foi um dos principais pensadores a teorizar sobre a macroeconomia. As suas ideias tamb\u00e9m mudaram a forma como as pol\u00edticas econ\u00f3micas passaram a ser aplicadas pelos governos em boa parte do mundo \u2014 raz\u00e3o pela qual \u00e9 frequentemente inclu\u00eddo entre as pessoas mais influentes do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>A principal inova\u00e7\u00e3o do seu pensamento econ\u00f3mico est\u00e1 na rejei\u00e7\u00e3o da ideia neocl\u00e1ssica de que o mercado livre ofereceria automaticamente emprego aos trabalhadores, desde que estes aceitassem flexibilidade salarial. Para Keynes, o Estado devia intervir, com medidas fiscais e monet\u00e1rias destinadas a evitar ou atenuar os efeitos de recess\u00f5es, depress\u00f5es e ciclos de expans\u00e3o econ\u00f3mica. No centro da escola keynesiana, o modelo de pensamento criado por ele, o Estado \u00e9 visto como agente de controlo econ\u00f3mico \u2014 tendo como objetivo o pleno emprego.<\/p>\n<p>Na sua conce\u00e7\u00e3o, o problema do mercado livre \u00e9 que<strong> o \u201cesp\u00edrito animal\u201d dos empres\u00e1rios precisa de ser domado, regulado<\/strong>. O antigo Partido Liberal brit\u00e2nico, ao qual Keynes pertencia, defendia o liberalismo social, com \u00eanfase na constru\u00e7\u00e3o de um Estado social.<\/p>\n<p>Porque falhou?<\/p>\n<p>Se \u00e9 evidente que o mundo registou avan\u00e7os econ\u00f3micos assinal\u00e1veis, sobretudo com tecnologias que v\u00e3o da robotiza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial, porque \u00e9 que os hor\u00e1rios de tr\u00eas horas por dia previstos por Keynes nem sequer est\u00e3o no horizonte?<\/p>\n<p>O cientista pol\u00edtico Christian Lohbauer, integrante de um grupo de investiga\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), comenta que Keynes acertou \u201cno aumento da produtividade\u201d resultante da intensifica\u00e7\u00e3o das tecnologias. A quest\u00e3o \u00e9 que <strong>n\u00e3o previu a forma como o consumo tamb\u00e9m aumentaria exponencialmente.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cAs pessoas querem ter mais lazer e continuam a consumir\u201d, explica. \u201cQuerem mais acesso a bens e servi\u00e7os. Para isso, precisam de mais horas de trabalho.\u201d<\/p>\n<p>Para a f\u00f3rmula keynesiana funcionar, argumenta Lohbauer, seria necess\u00e1rio que as pessoas quisessem \u201cter uma casa mais pequena\u201d, \u201cusar menos o carro\u201d, \u201ccomer menos fora\u201d ou \u201cfazer menos viagens por ano\u201d. E n\u00e3o \u00e9 isso que acontece \u2014 tanto entre os que efetivamente podem faz\u00ea-lo como entre a imensa maioria que apenas tem esses privil\u00e9gios como objeto de desejo.<\/p>\n<p>Pelatieri recorda que o pr\u00f3prio pensador brit\u00e2nico distinguia <strong>dois tipos de necessidades humanas<\/strong>. De um lado, estavam as b\u00e1sicas, necess\u00e1rias \u00e0 sobreviv\u00eancia. Do outro, as relativas, ligadas ao desejo de estatuto e de reconhecimento social. Na perspetiva keynesiana, as do primeiro grupo seriam rapidamente satisfeitas.<\/p>\n<p>\u201cO que ele n\u00e3o antecipou foi a capacidade do capitalismo para criar necessidades, ou seja, as necessidades b\u00e1sicas foram-se alterando ao longo do tempo. Telem\u00f3veis, Internet, servi\u00e7os digitais, entre outros, passaram a ser vistos como essenciais para a vida quotidiana\u201d, comenta Pelatieri.<\/p>\n<p>A economista recorda tamb\u00e9m que, embora a produtividade global tenha crescido \u201cde forma expressiva\u201d, os ganhos \u201cgerados por esse avan\u00e7o n\u00e3o foram distribu\u00eddos de maneira homog\u00e9nea\u201d e \u201cuma parte significativa dos benef\u00edcios do progresso t\u00e9cnico foi apropriada sob a forma de lucros e rendimentos de capital\u201d, assinala.<\/p>\n<p>A economista ilustra essa realidade com o dado de que, em 2024, foram criados <strong>204 novos multimilion\u00e1rios<\/strong> \u2014 quase um por semana.<\/p>\n<p>No fim de contas, \u201cmuitos trabalhadores continuaram dependentes de hor\u00e1rios longos para sustentar o seu padr\u00e3o de vida, mesmo que modesto\u201d, diz Pelatieri.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m disso, a decis\u00e3o das empresas de utilizar toda a tecnologia dispon\u00edvel est\u00e1 diretamente condicionada pela avalia\u00e7\u00e3o de custos: se ser\u00e1 mais vantajoso investir em inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica ou manter a depend\u00eancia da m\u00e3o de obra existente\u201d, afirma a economista.<\/p>\n<p>\u201cPor outras palavras, <strong>Keynes subestimou os conflitos em torno da distribui\u00e7\u00e3o dos ganhos de produtividade<\/strong>\u201d, acrescenta. \u201cO trabalho repetitivo foi ultrapassado pela automa\u00e7\u00e3o. Prometia-se a ideia de que seria poss\u00edvel reduzir os hor\u00e1rios de trabalho, mas o que veio foi a perda de direitos laborais\u201d, diz Ramirez. Para o soci\u00f3logo, seria contradit\u00f3rio aumentar a riqueza com hor\u00e1rios mais curtos. \u201cN\u00e3o h\u00e1 capitalismo sem explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Pelatieri concorda que, \u201cdo ponto de vista do racioc\u00ednio de Keynes\u201d, seria de esperar que, com os avan\u00e7os das novas tecnologias, a humanidade conquistasse hor\u00e1rios de trabalho mais reduzidos.<\/p>\n<p>\u201cO problema, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 na tecnologia em si, mas na forma como os seus benef\u00edcios s\u00e3o distribu\u00eddos. A quest\u00e3o central \u00e9 saber quem se apropria dos ganhos gerados pelo aumento da produtividade. Em vez de se converter automaticamente em mais tempo livre, o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico resulta muitas vezes em maior concentra\u00e7\u00e3o de rendimento ou em novas formas de intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d, diz. \u201cAs tecnologias digitais, por exemplo, aumentaram as possibilidades de monitoriza\u00e7\u00e3o, controlo e disponibilidade permanente dos trabalhadores.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMais do que uma previs\u00e3o econ\u00f3mica, o ensaio era uma reflex\u00e3o sobre as consequ\u00eancias sociais, culturais e morais da abund\u00e2ncia. Keynes imaginava uma sociedade em que os indiv\u00edduos pudessem dedicar mais tempo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 cultura, ao conv\u00edvio social e ao desenvolvimento pessoal\u201d, analisa Ramos.<\/p>\n<p>\u201cA sua mensagem central era a de que o progresso econ\u00f3mico poderia libertar a humanidade da luta permanente pela sobreviv\u00eancia material, deslocando o desafio humano para a procura de prop\u00f3sito e realiza\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do trabalho e da acumula\u00e7\u00e3o de riqueza.\u201d<\/p>\n<p>Ramos assinala que, embora a produtividade tenha realmente crescido de forma extraordin\u00e1ria nas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u201co que n\u00e3o se confirmou foi a convers\u00e3o desses ganhos numa redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica do hor\u00e1rio de trabalho\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEntre as raz\u00f5es para isso est\u00e3o o surgimento de novos padr\u00f5es de consumo, o desejo permanente de aumentar rendimento e patrim\u00f3nio, o agravamento das desigualdades na distribui\u00e7\u00e3o dos ganhos de produtividade, a expans\u00e3o do setor dos servi\u00e7os e do trabalho intelectual, e a intensifica\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia econ\u00f3mica global\u201d, afirma Ramos.<\/p>\n<p>\u201cKeynes tamb\u00e9m n\u00e3o previu a for\u00e7a da cultura consumista estimulada pela publicidade e pelo cr\u00e9dito, a crescente financeiriza\u00e7\u00e3o da economia nem o papel do trabalho como elemento de identidade, estatuto social e realiza\u00e7\u00e3o pessoal. Tamb\u00e9m n\u00e3o antecipou que uma parte significativa dos ganhos de produtividade seria apropriada de forma concentrada por grandes empresas e grupos econ\u00f3micos, em vez de ser convertida numa redu\u00e7\u00e3o generalizada do hor\u00e1rio de trabalho.\u201d<\/p>\n<p>    <a href=\"https:\/\/zap.aeiou.pt\/subscrever-newsletter\" data-wpel-link=\"internal\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">&#13;<br \/>\n        <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-575475\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1782057357_675_2d51fe4a0ba54894421ead1809309ed9-1-450x140.jpg\" alt=\"Subscreva a Newsletter ZAP\" width=\"450\" height=\"140\"\/>&#13;<br \/>\n    <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Wikimedia Commons John Maynard Keynes, em retrato de 1929. 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