{"id":432614,"date":"2026-06-27T20:55:11","date_gmt":"2026-06-27T20:55:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/432614\/"},"modified":"2026-06-27T20:55:11","modified_gmt":"2026-06-27T20:55:11","slug":"sem-imigrantes-corremos-o-risco-de-nos-extinguirmos-precisamos-de-nos-abrir-para-existir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/432614\/","title":{"rendered":"Sem imigrantes corremos o risco de nos extinguirmos. Precisamos de nos abrir para existir"},"content":{"rendered":"<p>                ENTREVISTA || A soci\u00f3loga e especialista em demografia Maria Jo\u00e3o Valente Rosa critica aqueles que querem transformar os imigrantes em &#8220;bode expiat\u00f3rio&#8221;. O problema n\u00e3o \u00e9 a imigra\u00e7\u00e3o, \u00e9 o facto de n\u00e3o querermos pensar a realidade que temos, diz. E a realidade \u00e9 esta: temos cada vez menos filhos e vivemos cada vez mais tempo. E temos de mudar muito na gest\u00e3o do pa\u00eds para lidar com isto<\/p>\n<p>Somos 11,4 milh\u00f5es. O n\u00famero foi <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/populacao-em-portugal\/ine\/ine-reve-populacao-em-portugal-para-11-4-milhoes-apos-contabilizar-1-6-milhoes-de-estrangeiros\/20260622\/6a39128bd34edcee7c658f8c\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">revelado <\/a>pelo INE esta semana. &#8220;Portugal bateu um recorde hist\u00f3rico, n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria de termos um registo de tanta gente a residir em Portugal&#8221;, afirma a soci\u00f3loga Maria Jo\u00e3o Valente Rosa, especialista em demografia, sublinhando, no entanto, que &#8220;um n\u00famero, por si s\u00f3, quer dizer muito pouco. N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 um n\u00famero ideal de habitantes para residir em Portugal, ou na Europa, ou no mundo.\u00a0Tudo depende.\u00a0Se estivermos muito desequilibrados do ponto de vista de povoamento, se tivermos problemas de desemprego, ou outra coisa qualquer, o n\u00famero pode dizer alguma coisa&#8221;.\u00a0Agora, &#8220;estamos perante novas realidades que, em alguns casos, n\u00e3o est\u00e1vamos a contar que tivessem esta escala, e para as quais n\u00f3s temos, se calhar, de dar respostas mais profundas e mais fortes do que d\u00e1vamos no passado, quando \u00e9ramos menos. \u00c9\u00a0uma nova realidade que nos vai interpelar.&#8221;<\/p>\n<p>De acordo com o INE, a popula\u00e7\u00e3o residente em Portugal em 2025 foi estimada em 11.424.031 pessoas, o que corresponde a um aumento de mais 824.914 pessoas desde 2021.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o s\u00f3 a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 maior do que antes, como tamb\u00e9m \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>O INE destacou o <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/estrangeiros\/ine\/mais-de-um-terco-dos-estrangeiros-em-portugal-sao-brasileiros\/20260622\/6a393afbd34edcee7c65915d\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">n\u00famero de estrangeiros<\/a> a residir em Portugal:\u00a01.597.539 pessoas, representando 14,0% do total da popula\u00e7\u00e3o residente.\u00a0Desde 2021, o n\u00famero de estrangeiros mais do que duplicou, correspondendo a um aumento de 849.384 pessoas (mais 6,9 pontos percentuais), refere o INE.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m a estrutura et\u00e1ria se alterou. A popula\u00e7\u00e3o em idade ativa voltou a crescer, e isso est\u00e1 fortemente ligado \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o, que se concentra nas idades centrais e contribui tamb\u00e9m para os nascimentos, atenuando o decl\u00ednio do saldo natural.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a nova realidade. E foi a partir dela que fal\u00e1mos com Maria Jo\u00e3o Valente Rosa, para nos ajudar a interpretar os n\u00fameros divulgados pelo INE e a perceber que tipo de desafios \u00e9 que eles nos colocam.<\/p>\n<p>Uma nova metodologia: &#8220;Est\u00e1vamos a olhar para a realidade com uns \u00f3culos embaciados&#8221; <\/p>\n<p>&#8220;Estes n\u00fameros divulgados pelo INE surpreenderam bastante a mim e penso que a todos que acompanham estas \u00e1reas. Percebemos que afinal \u00e9ramos muito mais, existem muito mais habitantes a residir em Portugal do que t\u00ednhamos ideia&#8221;, come\u00e7a por dizer Maria Jo\u00e3o Valente Rosa. &#8220;A primeira coisa que fiz foi tentar perceber o que \u00e9 que poderia explicar a mudan\u00e7a. Porque quando eu olho para um dado estat\u00edstico, o que tento em primeiro lugar \u00e9 perceber a raz\u00e3o de ele existir.&#8221;<\/p>\n<p>A especialista alerta que n\u00e3o podemos simplesmente &#8220;consumir&#8221; os dados estat\u00edsticos sem percebermos bem do que estamos a falar. &#8220;Isso leva-nos a cometer erros grav\u00edssimos, mesmo do ponto de vista interpretativo&#8221;, avisa.<\/p>\n<p>Lendo\u00a0a <a href=\"https:\/\/www.ine.pt\/xportal\/xmain?xpid=INE&amp;xpgid=ine_destaques&amp;DESTAQUESdest_boui=770295679&amp;DESTAQUESmodo=2\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">nota metodol\u00f3gica do INE<\/a>, percebe-se que o que est\u00e1 em causa \u00e9, antes de mais, &#8220;uma altera\u00e7\u00e3o muito significativa da forma de se fazer as estimativas populacionais&#8221; &#8211; e aqui \u00e9 preciso sublinhar a palavra estimativa, porque o que temos n\u00e3o s\u00e3o n\u00fameros reais.\u00a0O que o INE tem feito \u00e9 trabalhar com estimativas que, depois, s\u00e3o corrigidas sempre que h\u00e1 um census.\u00a0&#8220;Quando cheg\u00e1mos ao recenseamento de 2021, percebemos que est\u00e1vamos com valores muito diferentes daqueles que tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e1vamos \u00e0 espera&#8221;, recorda. &#8220;Est\u00e1vamos \u00e0 espera de sermos mais e de facto fomos menos. Est\u00e1vamos \u00e0 espera de ter n\u00edveis de envelhecimento mais baixos e tivemos mais altos.&#8221;<\/p>\n<p>Os census, que eram feitos de dez em dez anos, dever\u00e3o acabar. Estas foram as primeiras estimativas de base totalmente administrativa. A partir daqui, as estimativas da popula\u00e7\u00e3o passar\u00e3o a ser feitas, essencialmente, atrav\u00e9s da an\u00e1lise de milh\u00f5es de dados da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.\u00a0S\u00e3o muitas as fontes usadas, por exemplo: a Base de Dados de Identifica\u00e7\u00e3o Civil do Instituto dos Registos e do Notariado; a base da AIMA sobre t\u00edtulos de resid\u00eancia v\u00e1lidos, concess\u00f5es de t\u00edtulo de resid\u00eancia; benefici\u00e1rios de prote\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria, vistos de longa dura\u00e7\u00e3o prorrogados e pedidos de concess\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o de t\u00edtulo de resid\u00eancia. S\u00e3o tamb\u00e9m usados dados da Autoridade Tribut\u00e1ria e Aduaneira, como as declara\u00e7\u00f5es mensais de remunera\u00e7\u00e3o, e-fatura e IRS, ou os dados da Seguran\u00e7a Social e da Caixa Geral de Aposenta\u00e7\u00f5es sobre declara\u00e7\u00f5es de remunera\u00e7\u00f5es e presta\u00e7\u00f5es sociais, entre outros.<\/p>\n<p>Portanto, o que se passou, em primeiro lugar, \u00e9 que &#8220;houve realmente uma altera\u00e7\u00e3o muito significativa do modo como estas estimativas passaram a ser realizadas, recorrendo a diferentes dados administrativos, e em grande parte \u00e9 por causa desse tipo de procedimento e da inclus\u00e3o de certo tipo de informa\u00e7\u00f5es que ainda n\u00e3o constavam, que chegamos a estes valores&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos perante aquilo que n\u00f3s em estat\u00edstica costumamos chamar uma quebra de s\u00e9rie &#8211; que acontece quando passamos a ter uma metodologia diferente&#8221;, explica. A s\u00e9rie anterior, pelos vistos, estava a utilizar uns \u00f3culos que j\u00e1 estavam um bocadinho embaciados. E est\u00e1vamos a olhar para a realidade de uma forma bastante embaciada. Havia uma parte significativa que n\u00e3o estava ainda a ser contabilizada.&#8221;<\/p>\n<p>Entretanto, o INE &#8220;andou para tr\u00e1s&#8221; e fez a revis\u00e3o dos dados desde 2021. E s\u00e3o esses que podem ser analisados e comparados. &#8220;N\u00e3o podemos estar a comparar os dados desta nova s\u00e9rie, com os dados da s\u00e9rie antiga.&#8221;<\/p>\n<p>Saldo natural e saldo migrat\u00f3rio: o que est\u00e1, de facto, a acontecer em Portugal<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds s\u00f3 varia em fun\u00e7\u00e3o de duas componentes: uma \u00e9 o saldo natural e outra \u00e9 o saldo migrat\u00f3rio, explica a dem\u00f3grafa.<\/p>\n<p>O saldo natural, que \u00e9 a diferen\u00e7a entre os que nascem e os que morrem, tem vindo a ser persistentemente negativo, sublinha Maria Jo\u00e3o Valente Rosa. Isto significa que &#8220;morrem muito mais pessoas do que aquelas que est\u00e3o a nascer&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ou seja, se a popula\u00e7\u00e3o de Portugal s\u00f3 dependesse do saldo natural, a popula\u00e7\u00e3o estava a diminuir.\u00a0Mas existe outra componente que \u00e9 o saldo migrat\u00f3rio, que \u00e9 a diferen\u00e7a entre as entradas e as sa\u00eddas do pa\u00eds. Na realidade, o saldo migrat\u00f3rio \u00e9 mais alto em positivo, est\u00e3o a entrar mais pessoas do que aquelas que saem, e em positivo \u00e9 mais alto do que o natural, e por isso est\u00e1 a fazer com que a popula\u00e7\u00e3o possa aumentar.&#8221;<\/p>\n<p>Globalmente, em 2025, o aumento da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds resultou do facto de o saldo migrat\u00f3rio positivo, de 70.862 pessoas, ter compensado o saldo natural negativo, de -34.053, revela o INE.<\/p>\n<p>Temos menos filhos. Mas, ainda assim, s\u00e3o as mulheres imigrantes que t\u00eam mais filhos<\/p>\n<p>Os n\u00edveis de <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/filhos\/demografia\/nao-sao-um-bibelot-e-nao-servem-para-tomar-conta-dos-pais-na-velhice-ha-cada-vez-mais-pessoas-que-nao-querem-ter-filhos\/20250316\/67bdbca0d34e3f0bae9aeea3\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">fecundidade <\/a>baixos &#8220;n\u00e3o s\u00e3o um exclusivo nacional&#8221;, diz Maria Jo\u00e3o Valente Rosa. &#8220;Costumo dizer que o maior contracetivo que existe \u00e9 o desenvolvimento. As sociedades mais desenvolvidas s\u00e3o sociedades onde os n\u00edveis de fecundidade andam abaixo do tal limiar de substitui\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es&#8221;. Isto \u00e9 algo que est\u00e1 estudado h\u00e1 muito e que tem raz\u00f5es muito diversas.\u00a0<\/p>\n<p>Mas associado a isto h\u00e1 uma outra situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a dificultar tamb\u00e9m que os nascimentos sejam mais, diz:\u00a0&#8220;As mulheres que est\u00e3o a chegar ao per\u00edodo f\u00e9rtil nasceram j\u00e1 em fases de descend\u00eancias reduzidas. Ou seja, as mulheres que est\u00e3o no per\u00edodo f\u00e9rtil j\u00e1 s\u00e3o menos que as suas m\u00e3es.\u00a0E, portanto, mesmo que elas tenham mais filhos que as suas m\u00e3es, o que vai acontecer \u00e9 que essa compensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o acontece de um momento para o outro&#8221;.<\/p>\n<p>  <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1782593709_381_600.webp\" width=\"600\"\/><br \/>\n   <strong>Em 2025, o n\u00famero de nascimentos registou um aumento de 3.122 em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Desses, apenas 9 nasceram de m\u00e3es portuguesas<\/strong> <\/p>\n<p>Dito isto, \u00e9 preciso perceber que &#8220;a\u00a0natalidade, leia-se o n\u00famero de nascimentos, tem sido baixa, ou seja, n\u00f3s pass\u00e1mos abaixo da fasquia dos 90 mil por ano, mas os nascimentos poderiam ainda ser menos se n\u00e3o cont\u00e1ssemos com o contributo das popula\u00e7\u00f5es de nacionalidade estrangeira&#8221;, explica Maria Jo\u00e3o Valente Rosa.<\/p>\n<p>&#8220;Grande parte das migra\u00e7\u00f5es s\u00e3o de tipo laboral e, por isso, concentram-se nas idades ativas, que s\u00e3o tamb\u00e9m, por sua vez, as idades mais f\u00e9rteis&#8221;, diz. &#8220;Isso quer dizer que, por um lado, as pessoas que emigram, que saem do pa\u00eds, est\u00e3o na idade f\u00e9rtil e v\u00e3o ter filhos noutro pa\u00eds. Mas, por\u00a0outro lado, em Portugal, s\u00e3o as mulheres imigrantes que est\u00e3o a compensar essa falha.&#8221;<\/p>\n<p>Em 2025, o n\u00famero de nascimentos registou um <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/partos-em-portugal\/partos\/partos-em-portugal-crescem-em-2025-apos-recuo-no-ano-anterior-87-130\/20260608\/6a26af98d34edcee7c650d3f\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">aumento <\/a>de 3.122 em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. &#8220;Sendo que, desse aumento, apenas 9 crian\u00e7as nasceram a mais cujas m\u00e3es tinham a nacionalidade portuguesa. Portanto, a grande responsabilidade por esse aumento foi nascimentos cujas m\u00e3es, residentes em Portugal, tinham nacionalidade estrangeira&#8221;, explica a soci\u00f3loga.\u00a0<\/p>\n<p>No ano anterior, ou seja, de 2023 para 2024, os nascimentos diminu\u00edram. &#8220;E diminu\u00edram em cerca de mil, mais ou menos. Mas teriam diminu\u00eddo muito mais se n\u00e3o fosse o contributo dos nascimentos cujas m\u00e3es t\u00eam nacionalidade estrangeira. Porque os nascimentos cujas m\u00e3es t\u00eam nacionalidade portuguesa diminu\u00edram em cerca de 4.500. E nas m\u00e3es de nacionalidade estrangeira, o aumento de nascimentos em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior, foi de cerca de 3.400&#8221;, sublinha a especialista.<\/p>\n<p>Portanto, seja pela natalidade, seja pela imigra\u00e7\u00e3o, de facto, estes 11,4 milh\u00f5es de residentes, este aumento deve-se muito \u00e0 entrada e \u00e0 presen\u00e7a de imigrantes no pa\u00eds.\u00a0&#8220;De acordo com estes novos \u00f3culos,\u00a0ao longo destes \u00faltimos anos, de 2021 a 2025, a popula\u00e7\u00e3o portuguesa tem vindo a aumentar e esse aumento, embora de uma forma cada vez mais desacelerada, tem a ver com saldos migrat\u00f3rios positivos&#8221;, conclui.<\/p>\n<p>Vamos continuar a envelhecer. Isso \u00e9 um problema? <\/p>\n<p>Maria Jo\u00e3o Valente Rosa \u00e9 taxativa na resposta: &#8220;O envelhecimento n\u00e3o \u00e9 um problema.\u00a0Ainda bem que estamos a envelhecer. Eu n\u00e3o quero voltar a um pa\u00eds como aquele onde eu nasci, nos anos 60, que era, pelas piores raz\u00f5es, o menos envelhecido da Europa. Porque era um pa\u00eds com a mortalidade elevad\u00edssima, a mortalidade infantil era elevad\u00edssima, as pessoas n\u00e3o tinham hip\u00f3teses, muitas delas nem chegavam \u00e0s idades centrais, quanto mais \u00e0s idades superiores. Era uma popula\u00e7\u00e3o muito pouco instru\u00edda. As mulheres ocupavam um papel diferente. A desigualdade entre sexos era brutal.\u00a0 A pobreza era enorme. A crian\u00e7a servia muito como seguran\u00e7a na velhice e como mais um bracinho para trabalhar. Portanto, tinha um valor econ\u00f3mico incr\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p>Nesse pa\u00eds, a natalidade era mais elevada, mas a mortalidade tamb\u00e9m era elevada, portanto, o pa\u00eds era pouco envelhecido. E, no entanto, como diz a soci\u00f3loga, este &#8220;\u00e9\u00a0um filme que n\u00e3o queremos voltar a ver&#8221;. &#8220;Se o problema est\u00e1 no envelhecimento, eu digo, bem, meus senhores, ent\u00e3o n\u00e3o estamos a perceber o filme. Porque se querem deixar de envelhecer, isso significa um retrocesso social enorme. Vejamos bem onde \u00e9 que nos estamos a meter, que palavras \u00e9 que estamos a usar e que compromissos queremos assumir&#8221;, alerta.<\/p>\n<p>  <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"341\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1782593709_445_600.webp\" width=\"600\"\/><br \/>\n   <strong>Entre 2021 e 2025, a propor\u00e7\u00e3o de jovens at\u00e9 aos 14 anos baixou de 13% para 12,4%<\/strong> <\/p>\n<p>Em 2025, o \u00edndice de envelhecimento atingiu o valor de 188,8 idosos por cada 100 jovens (era de 178,3 em 2021).\u00a0O INE <a href=\"https:\/\/www.ine.pt\/xportal\/xmain?xpid=INE&amp;xpgid=ine_destaques&amp;DESTAQUESdest_boui=770295679&amp;DESTAQUESmodo=2\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">fala <\/a>de um &#8220;envelhecimento estrutural da popula\u00e7\u00e3o&#8221;. Entre 2021 e 2025, a propor\u00e7\u00e3o de jovens at\u00e9 aos 14 anos baixou de 13% para 12,4%, enquanto o peso das pessoas com 65 ou mais anos se manteve est\u00e1vel, nos 23%.<\/p>\n<p>&#8220;Aquilo que sabemos \u00e9 que, a m\u00e9dio prazo, os nascimentos n\u00e3o v\u00e3o aumentar e n\u00f3s, at\u00e9 2040, 2045, vamos continuar a crescer porque vamos, de uma forma praticamente inelut\u00e1vel, continuar a envelhecer&#8221;, diz Maria Jo\u00e3o Valente Rosa.<\/p>\n<p>E porque \u00e9 que vamos continuar a envelhecer?<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas que nasceram em per\u00edodos de natalidade elevada, at\u00e9 finais dos anos 70, que eram gera\u00e7\u00f5es muito numerosas,\u00a0passaram a beneficiar de algo muito interessante, que \u00e9 uma mortalidade muito baixa, e passaram a ter hip\u00f3tese de viver mais tempo. No passado, as pessoas acabavam por morrer e nem chegavam \u00e0s idades superiores. Agora n\u00e3o. Chegam \u00e0s idades superiores e ainda vivem l\u00e1 mais tempo do que viviam os seus pais e os seus av\u00f3s&#8221;, come\u00e7a por explicar Maria Jo\u00e3o Valente Rosa.<\/p>\n<p>Ora, essas gera\u00e7\u00f5es muito numerosas,\u00a0j\u00e1 entraram ou est\u00e3o a entrar nas idades avan\u00e7adas. &#8220;A popula\u00e7\u00e3o acima dos 45 anos, que \u00e9 aquela que progressivamente vai entrando nas idades superiores, \u00e9 muito numerosa. Portanto, n\u00e3o vamos deixar de envelhecer. Isto quer dizer\u00a0que, pelo menos at\u00e9 2040, 2045, n\u00f3s vamos continuar a envelhecer.&#8221;<\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>&#8220;Aquilo que sabemos \u00e9 que, a m\u00e9dio prazo, os nascimentos n\u00e3o v\u00e3o aumentar, mais, e n\u00f3s at\u00e9 2040, 2045, vamos continuar a crescer porque vamos, de uma forma praticamente inelut\u00e1vel, continuar a envelhecer&#8221;<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Isto \u00e9 aquilo que os dem\u00f3grafos chamam o efeito da in\u00e9rcia demogr\u00e1fica, &#8220;que \u00e9 aquela onda que vem de tr\u00e1s&#8221;. &#8220;\u00c9 claro que os n\u00edveis de envelhecimento podem ser mais acentuados ou menos acentuados, mas ir\u00e3o continuar. N\u00e3o conseguimos travar esse processo&#8221;, conclui. &#8220;As migra\u00e7\u00f5es, pelo papel que t\u00eam nas idades centrais, contribuem de algum modo para atenuar, n\u00e3o \u00e9 para evitar, \u00e9 para atenuar os n\u00edveis de envelhecimento. Porque ao entrarem pessoas para as idades centrais, as idades superiores podem diminuir o seu peso relativo estat\u00edstico e por isso ajudam a que o envelhecimento n\u00e3o seja t\u00e3o intenso. Mas que ele vai continuar, vai.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar de tudo, a\u00a0idade mediana da popula\u00e7\u00e3o residente em Portugal \u00e9 de 45,8 anos (era de 46,1 anos em 2021).\u00a0&#8220;O envelhecimento demogr\u00e1fico em Portugal continuou a acentuar-se, ainda que atenuado pelo refor\u00e7o relativo da popula\u00e7\u00e3o em idade ativa&#8221;, escreve o INE.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Ao longo do per\u00edodo em an\u00e1lise, o \u00edndice de renova\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o em idade ativa, que corresponde ao n\u00famero de pessoas dos 20 aos 29 anos por cada 100 pessoas dos 55 aos 64 anos, permaneceu abaixo do limiar de substitui\u00e7\u00e3o (100), indicando que o n\u00famero de pessoas em idade potencial de entrada no mercado de trabalho \u00e9 insuficiente para compensar o n\u00famero de pessoas em idade potencial de sa\u00edda de mercado de trabalho&#8221;, descreve o INE. &#8220;Ainda assim, o aumento deste \u00edndice, de 81 em 2021 para 89,7 em 2025, sugere uma ligeira melhoria na capacidade de renova\u00e7\u00e3o geracional da popula\u00e7\u00e3o em idade ativa associada \u00e0 entrada de popula\u00e7\u00e3o mais jovem, nomeadamente por via dos fluxos migrat\u00f3rios.&#8221;<\/p>\n<p>Imigra\u00e7\u00e3o: &#8220;Estamos em risco \u00e9 se nos fecharmos sobre n\u00f3s pr\u00f3prios&#8221; <\/p>\n<p>&#8220;Entre 2021 e 2025, os residentes estrangeiros mais do que duplicaram, correspondendo a um aumento de 849.384 pessoas (mais 6,9 pontos percentuais). Os aumentos mais expressivos ocorreram nos anos de 2022, 2023 e 2024&#8221;, l\u00ea-se no destaque do INE.<\/p>\n<p>Pelo que se viu at\u00e9 aqui, \u00e9 f\u00e1cil perceber que o aumento da imigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, em si, um problema do ponto de vista demogr\u00e1fico. Pelo contr\u00e1rio. Os imigrantes contribuem, de v\u00e1rias formas, para o rejuvenescimento da popula\u00e7\u00e3o portuguesa, diz Maria Jo\u00e3o Valente Rosa. &#8220;H\u00e1 quem diga que\u00a0as pessoas est\u00e3o c\u00e1 para tomarem o poder e por isso \u00e9 que n\u00f3s, como popula\u00e7\u00e3o, estamos em risco. Nada disso. N\u00f3s estamos em risco \u00e9 se nos fecharmos sobre n\u00f3s pr\u00f3prios pela raz\u00e3o que eu acabei de dizer h\u00e1 pouco,. Sem imigrantes corr\u00edamos o risco de nos extinguirmos porque ser\u00edamos cada vez menos e o saldo natural seria cada vez mais negativo, portanto n\u00f3s precisamos de nos abrir para existir, essa \u00e9 a verdade&#8221;.<\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>&#8220;Sem imigrantes, ter\u00edamos um pa\u00eds ainda mais envelhecimento, com uma economia mais fr\u00e1gil e com muito mais press\u00e3o sobre a seguran\u00e7a social&#8221;<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m disso, os imigrantes t\u00eam um papel importante quer a n\u00edvel social quer a n\u00edvel econ\u00f3mico. &#8220;Todos n\u00f3s, se sairmos \u00e0 rua, todos nos confrontamos, todos os dias, com algu\u00e9m de nacionalidade estrangeira que se cruza connosco, e essas pessoas est\u00e3o a prestar servi\u00e7os que s\u00e3o essenciais &#8211; n\u00e3o estou a falar s\u00f3 de servi\u00e7os de luxo, estou a falar de servi\u00e7os muitas vezes b\u00e1sicos, nomeadamente o apoio a pessoas que precisam de cuidados, na sa\u00fade, na restaura\u00e7\u00e3o, no turismo, na agricultura, na constru\u00e7\u00e3o, etc.&#8221;, diz. &#8220;Acho que seria um pesadelo para todos imaginarmos que de um dia para o outro acord\u00e1vamos e nenhum desses estrangeiros estava c\u00e1. Como \u00e9 que resolver\u00edamos isso?\u00a0S\u00e3o fun\u00e7\u00f5es, muitas vezes, altamente exigentes. E n\u00e3o h\u00e1 cidad\u00e3os nacionais para cumprir essas fun\u00e7\u00f5es, ou porque n\u00e3o querem ou porque n\u00e3o h\u00e1, sobretudo em algumas regi\u00f5es. Os imigrantes n\u00e3o est\u00e3o a tirar emprego a ningu\u00e9m. Isso \u00e9 um equ\u00edvoco.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Temos uma vis\u00e3o muito distorcida e perigosa da realidade migrat\u00f3ria&#8221;, diz a\u00a0dem\u00f3grafa, alertando para o perigo de se criarem &#8220;bodes expiat\u00f3rios&#8221;, em vez de se tentar resolver os problemas que efetivamente existem. &#8220;Sem imigrantes, ter\u00edamos um pa\u00eds ainda mais envelhecimento, com uma economia mais fr\u00e1gil e com muito mais press\u00e3o sobre a seguran\u00e7a social&#8221;, contrap\u00f5e.<\/p>\n<p>  <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1782593710_0_600.webp\" width=\"600\"\/><br \/>\n   <strong>A idade mediana da popula\u00e7\u00e3o residente em Portugal baixou devido aos imigrantes: \u00e9 agora de 45,8 anos<\/strong> <\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 diferen\u00e7as culturais, claro, mas \u00e9 preciso que todos pensemos o que \u00e9 necess\u00e1rio, quais s\u00e3o os fatores m\u00ednimos e desej\u00e1veis para que todos passemos a sentir-nos bem dentro do pa\u00eds que habitamos \u00c9 importante pensar nesta quest\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o bem-sucedida e partilhando princ\u00edpios civilizacionais que t\u00eam mesmo que ser partilhados. N\u00e3o podemos abrir m\u00e3o de certos princ\u00edpios civilizacionais e isso \u00e9 muito importante, quer para quem c\u00e1 est\u00e1, quer para quem c\u00e1 vem. E a partir da\u00ed constru\u00edmos juntos esta sociedade.&#8221;<\/p>\n<p>Os grandes desafios: seguran\u00e7a social e sa\u00fade<\/p>\n<p>O envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o coloca problemas na <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/reforma\/idade-da-reforma\/mexer-na-idade-de-reforma-e-preciso-olhar-para-a-sustentabilidade-da-seguranca-social-e-para-a-qualidade-de-vida-apos-a-aposentacao\/20260510\/692a39d5d34e2bd5c6d490f8\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">sustentabilidade da seguran\u00e7a social<\/a> e no SNS, porque n\u00f3s vivemos mais tempo, vamos precisar de pens\u00f5es e vamos ter mais doen\u00e7as, como \u00e9 \u00f3bvio. Portanto, temos \u00e9 que nos adaptar a esta nova realidade, diz a soci\u00f3loga. &#8220;O envelhecimento est\u00e1 c\u00e1. E agora a quest\u00e3o \u00e9: temos estruturas que foram montadas para uma sociedade que era uma cidade n\u00e3o envelhecida, que se baseia no modelo de reparti\u00e7\u00e3o, que pressup\u00f5e uma substitui\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es. E aquilo tudo funcionava no passado. S\u00f3 que o passado passou, n\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o estamos nesse ponto. Agora, precisamos de repensar a seguran\u00e7a social&#8221;, diz Maria Jo\u00e3o Valente Rosa. &#8220;Mas isso ningu\u00e9m faz. Estamos s\u00f3 a encontrar paliativos.&#8221;<\/p>\n<p>A sa\u00fade enfrenta um problema semelhante. &#8220;Hoje, os problemas de sa\u00fade s\u00e3o bem diferentes dos problemas do passado. Nomeadamente, o facto de as pessoas, com a idade, irem acumulando comorbilidades. Ou seja, antigamente t\u00ednhamos uma doen\u00e7a e morr\u00edamos dela. Hoje temos uma doen\u00e7a e j\u00e1 n\u00e3o morremos dela, felizmente. Mas vamos acumulando comorbilidades. E\u00a0o sistema tem de se adaptar a esta nova situa\u00e7\u00e3o, tem de haver uma vis\u00e3o mais integrada dos v\u00e1rios problemas de sa\u00fade. Mesmo em termos de cuidados prim\u00e1rios, cuidados de proximidade, etc., tudo tem de se adaptar \u00e0s novas realidades.&#8221;<\/p>\n<p>O problema, diz a especialista, &#8220;\u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o temos coragem de fazer uma reflex\u00e3o a fundo sobre as mudan\u00e7as necess\u00e1rias que esta sociedade precisa para se adaptar aos novos tempos. E continuamos a adotar solu\u00e7\u00f5es antigas que funcionavam bem no passado e que cada vez funcionam menos bem no presente.&#8221;<\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Segundo o c\u00e1lculo, 50% das crian\u00e7as que nascem hoje em Portugal t\u00eam hip\u00f3tese de ultrapassar a barreira dos 100 anos com sucesso.\u00a0Portanto, s\u00e3o tempos de vidas longas.&#8221;<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Maria Jo\u00e3o Valente Rosa recorda as palavras de Jean-Claude Juncker, ex-comiss\u00e1rio europeu, quando dizia que todos sabemos o que \u00e9 preciso fazer, s\u00f3 n\u00e3o sabemos como ser reeleitos depois de o fazer. &#8220;O que vejo no nosso pa\u00eds \u00e9 que, independentemente dos governos, o que est\u00e1 sempre em cima da mesa do ponto de vista de reflex\u00e3o \u00e9 ou as elei\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas ou ent\u00e3o o tentar dizer que o problema est\u00e1 nos outros. Os outros podem ser a demografia, que tem as costas largas, s\u00e3o os que v\u00eam de fora, os imigrantes, que tamb\u00e9m t\u00eam as costas largu\u00edssimas, e s\u00e3o uma s\u00e9rie de outros aspetos que parece que n\u00e3o dependem de n\u00f3s. E ent\u00e3o, continuamos a usar essas desculpas e continuamos sem fazer uma reflex\u00e3o em profundidade&#8221;, critica.<\/p>\n<p>&#8220;Temos de fazer esta reflex\u00e3o estrat\u00e9gica, porque n\u00f3s estamos a desaproveitar os recursos que temos, nomeadamente, por exemplo, o facto de\u00a0estarmos a viver mais tempo em m\u00e9dia, portanto, estarmos a entrar num tempo de vidas longas. Segundo o c\u00e1lculo, 50% das crian\u00e7as que nascem hoje em Portugal t\u00eam hip\u00f3tese de ultrapassar a barreira dos 100 anos com sucesso.\u00a0Portanto, s\u00e3o tempos de vidas longas. E isto \u00e9 muito bom se soubermos aproveitar as vidas longas. N\u00e3o nos interessa s\u00f3 esticar\u00a0tempos de vida. O que eu quero \u00e9 esticar tempos de vida com qualidade.&#8221;<\/p>\n<p>Vidas longas pedem um novo pensamento estrat\u00e9gico: uma proposta de a\u00e7\u00e3o <\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Maria Jo\u00e3o Valente Rosa, este \u00e9 o momento para &#8220;aproveitar esta oportunidade de termos novos dados sobre o pa\u00eds para come\u00e7armos a pensar o pa\u00eds de raiz, sem compromissos com aquilo que n\u00f3s continuamos a manter sem raz\u00e3o de ser, a n\u00e3o ser com medo de perder as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, ou pelo mero comodismo ou tamb\u00e9m por mera ignor\u00e2ncia&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p>Estes dados agora conhecidos t\u00eam implica\u00e7\u00f5es em m\u00faltiplos outros setores que ainda n\u00e3o foram aqui nomeados &#8211; desde a educa\u00e7\u00e3o \u00e0 habita\u00e7\u00e3o passando pelo emprego, pela fiscalidade e por toda a economia &#8211; e, diz a especialista, &#8220;n\u00e3o podemos pensar nestes setores de uma forma desarticulada, segmentada.\u00a0Os assuntos est\u00e3o ligados. \u00c9 preciso pensar a sociedade como um todo e n\u00e3o como um conjunto de pessoas, em que este encaixa ali, o outro encaixa aqui. A sociedade tem de ser pensada como um todo.&#8221;<\/p>\n<p>E, como um todo, por onde come\u00e7ar? A soci\u00f3loga prop\u00f5e come\u00e7ar por pensar no modelo do ciclo de vida.<\/p>\n<p>&#8220;Temos um modelo de ciclo de vida que est\u00e1 completamente obsoleto. \u00c9 aquele modelo tripartido: uma fase de forma\u00e7\u00e3o, uma fase de trabalho, trabalho, trabalho e, depois, uma fase de reforma. Como se o envelhecimento n\u00e3o fosse um processo cont\u00ednuo, como se n\u00f3s n\u00e3o precis\u00e1ssemos de forma\u00e7\u00e3o ao longo da vida, como se a partir dos 45 anos j\u00e1 f\u00f4ssemos velhos e j\u00e1 n\u00e3o pud\u00e9ssemos mudar de emprego. Isto \u00e9 um desperd\u00edcio de capital humano brutal. No passado, as compet\u00eancias eram muito ligadas \u00e0 for\u00e7a f\u00edsica, mas atualmente as compet\u00eancias s\u00e3o mais\u00a0soft skills e wisdom skills, portanto compet\u00eancias associadas ao saber. Vidas longas pedem carreiras mais longas, mas n\u00e3o s\u00e3o as carreiras como as temos agora, t\u00eam de ser adaptadas a este processo cont\u00ednuo&#8221;<\/p>\n<p>  <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1782593711_828_600.webp\" width=\"600\"\/><br \/>\n   <strong>&#8220;As vidas s\u00e3o mais longas, e por isso precisamos de, por um lado, se calhar n\u00e3o trabalhar tanto nas idades centrais, mas prolongar a atividade por mais tempo&#8221;, diz a soci\u00f3loga<\/strong> <\/p>\n<p>Isto quer dizer que a\u00a0forma\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para nos irmos atualizando. A mudan\u00e7a \u00e9 importante. O facto de come\u00e7armos com uma atividade e acabarmos nessa mesma atividade \u00e9 uma coisa completamente bizarra, porque a pessoa vai evoluindo ao longo da vida. E \u00e0 medida que a pessoa envelhece tamb\u00e9m precisa de adaptar o seu trabalho, n\u00e3o se pode esperar que uma pessoa fa\u00e7a a mesma coisa da mesma maneira aos 25 anos e aos 40 e aos 60 anos. O mercado de trabalho tem de estar preparado para acolher e apoiar estas mudan\u00e7as. Em vez de descartar as pessoas com 50 anos poder\u00edamos estar a aproveitar todo o seu potencial e experi\u00eancia, diz a soci\u00f3loga.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Por exemplo, 70 anos \u00e9 a idade compuls\u00f3ria da reforma na Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica. Ou seja, no dia anterior era uma interessant\u00edssima e v\u00e1lida, no dia seguinte fecharam-lhe as portas.\u00a0Esse decreto que marcou 70 anos com uma idade compuls\u00f3ria, faz este ano, 100 anos, data de 1926. N\u00e3o h\u00e1 qualquer semelhan\u00e7a entre a sociedade de 1926 e a sociedade de 2026, at\u00e9 porque tamb\u00e9m eram poucos que chegavam aos 70 em 1926. Mas n\u00f3s continuamos com a mesma lei&#8221;, diz Maria Jo\u00e3o Valente Rosa. &#8220;Isto \u00e9 um indicador, mas existem tantos.&#8221;<\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>A atividade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma fonte de rendimento. A atividade pode ser uma fonte de realiza\u00e7\u00e3o pessoal e uma fonte de intera\u00e7\u00e3o social, que \u00e9 essencial para as nossas vidas, porque depois instala-se a solid\u00e3o e v\u00eam todas as quest\u00f5es de sa\u00fade mental.&#8221;<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&#8220;As vidas s\u00e3o mais longas, e por isso precisamos de, por um lado, se calhar n\u00e3o trabalhar tanto nas idades centrais, mas prolongar a atividade por mais tempo. Mas de maneira diferente, porque quando n\u00f3s chegamos aos 60 j\u00e1 estamos fartos de fazer aquilo que faz\u00edamos\u00a0quando come\u00e7\u00e1mos e ador\u00e1vamos.\u00a0Acho que todos sair\u00edamos felizes, todos ser\u00edamos muito melhores a trabalhar e n\u00e3o ter\u00edamos aqueles n\u00edveis de produtividade baix\u00edssimos&#8221;, afirma. &#8220;Porque a atividade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma fonte de rendimento. A atividade pode ser uma fonte de realiza\u00e7\u00e3o pessoal e uma fonte de intera\u00e7\u00e3o social, que \u00e9 essencial para as nossas vidas, porque depois instala-se a solid\u00e3o e v\u00eam todas as quest\u00f5es de sa\u00fade mental.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Mas para isso \u00e9 preciso mexer com a educa\u00e7\u00e3o, a escola, repensar o modelo de trabalho, a quest\u00e3o da sa\u00fade tem de estar obrigatoriamente aqui envolvida. E fazermos aqui um match entre estas v\u00e1rias frentes. Encontrar novas formas de nos organizarmos em sociedade e novas estrat\u00e9gias para todos acabarmos por ficar a ganhar, independentemente da idade que tenhamos. Parece que andamos sempre a olhar pelo espelho retrovisor e a ver como as coisas eram. Mas temos que olhar para a frente.&#8221;<\/p>\n<p>Para isto, Maria Jo\u00e3o Valente Rosa defende a cria\u00e7\u00e3o de um\u00a0Conselho para as Vidas Longas, um conselho transversal, que n\u00e3o dependesse de ciclos eleitorais, para pensar a sociedade h\u00e1 20 anos. &#8220;Sei que muitos de n\u00f3s j\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o estar\u00e3o, mas isso n\u00e3o interessa. Interessa \u00e9 tornar a sociedade sustent\u00e1vel. Porque a demografia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 n\u00fameros, ao contr\u00e1rio do que algumas pessoas pensam. \u00c9 pensarmos como \u00e9 que conseguimos viver todos juntos e viver melhor.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"ENTREVISTA || A soci\u00f3loga e especialista em demografia Maria Jo\u00e3o Valente Rosa critica aqueles que querem transformar os&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":432615,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[10],"tags":[609,611,27,28,607,608,604,610,539,1490,15,16,14,1481,603,25,26,570,21,22,606,1982,12,13,19,20,602,7895,70025,32,23,24,33,915,58,605,17,18,29,30,31],"class_list":["post-432614","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-portugal","tag-alerta","tag-ao-minuto","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-crime","tag-direto","tag-educacao","tag-envelhecimento","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-headlines","tag-imigracao","tag-justica","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-live","tag-main-news","tag-mainnews","tag-meteorologia","tag-natalidade","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-pais","tag-populacao","tag-populacao-portuguesa","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-pt","tag-seguranca-social","tag-sociedade","tag-tempo","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/432614","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=432614"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/432614\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/432615"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=432614"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=432614"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=432614"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}