{"id":433333,"date":"2026-06-28T16:39:16","date_gmt":"2026-06-28T16:39:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/433333\/"},"modified":"2026-06-28T16:39:16","modified_gmt":"2026-06-28T16:39:16","slug":"os-cientistas-estao-a-decifrar-o-codigo-da-comunicacao-entre-especies-isso-e-uma-coisa-boa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/433333\/","title":{"rendered":"Os cientistas est\u00e3o a decifrar o c\u00f3digo da comunica\u00e7\u00e3o entre esp\u00e9cies. Isso \u00e9 uma coisa boa?"},"content":{"rendered":"<p>                \u201cH\u00e1 n\u00e3o muito tempo, as pessoas pensavam que os animais n\u00e3o comunicavam de todo&#8221;. Uma nova investiga\u00e7\u00e3o veio mostrar o contr\u00e1rio<\/p>\n<p>No Karoo, o vasto semideserto da \u00c1frica do Sul, um rato-listrado-africano aquece-se ao sol da manh\u00e3 junto ao arbusto a que chama casa.<\/p>\n<p>Perto dali, equipamento de \u00e1udio projeta uma longa sombra sobre a terra avermelhada e emite uma sequ\u00eancia de guinchos de alta frequ\u00eancia inaud\u00edveis para os ouvidos humanos, interrompendo a tranquila rotina matinal do roedor. O rato reconhece o chamamento como vindo de um rato de um arbusto-ninho vizinho, exatamente como os cientistas que o transmitiram pretendiam.<\/p>\n<p>O rato-listrado ergue-se sobre as patas traseiras, numa express\u00e3o de vigil\u00e2ncia medida. No entanto, quando os investigadores reproduzem um chamamento de um rato do mesmo ninho, o rato-listrado continua a apanhar sol, imperturb\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cQuando \u00e9 uma vocaliza\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo vizinho, prestam muito mais aten\u00e7\u00e3o. Olham realmente para a coluna. Ficam perturbados\u201d, disse Nicolas Mathevon, professor na Universidade de Saint-\u00c9tienne, em Fran\u00e7a, que liderou a investiga\u00e7\u00e3o sobre os ratos-listrados-africanos.<\/p>\n<p>\u201cSe for de um completo desconhecido, ent\u00e3o vemos uma rea\u00e7\u00e3o ainda mais forte, como o rato a fugir para dentro do arbusto, porque fica realmente surpreendido.\u201d<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 a primeira a descodificar os sons escondidos dos ratos em estado selvagem, e \u00e9 um de v\u00e1rios estudos dos \u00faltimos anos que est\u00e3o a revelar qu\u00e3o sofisticada pode ser a comunica\u00e7\u00e3o vocal entre animais \u2014 mesmo quando os sons s\u00e3o impercet\u00edveis para os ouvidos humanos.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 n\u00e3o muito tempo, as pessoas pensavam que os animais n\u00e3o comunicavam de todo, ou que comunicavam apenas coisas muito simples\u201d, disse Mathevon, autor de \u201cThe Voices of Nature: How and Why Animals Communicate\u201d. Estudou a comunica\u00e7\u00e3o animal em aves, golfinhos, macacos, hienas e crocodilos, e tentou at\u00e9 interpretar o significado do choro de beb\u00e9s humanos. Os hipop\u00f3tamos s\u00e3o os pr\u00f3ximos na sua lista.<\/p>\n<p>Equipados com instrumentos de grava\u00e7\u00e3o sofisticados, algoritmos de aprendizagem autom\u00e1tica e uma profunda reserva de determina\u00e7\u00e3o e paci\u00eancia, os investigadores em bioac\u00fastica est\u00e3o a encontrar padr\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o entre animais que, em tempos, se pensava serem exclusivos dos humanos. As descobertas desafiam as ideias sobre aquilo que torna a linguagem humana especial.<\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, dizem os investigadores, n\u00e3o se limitar\u00e3o a escutar a fala dos animais: desenvolver\u00e3o tamb\u00e9m a capacidade de lhes responder, como a personagem fict\u00edcia Dr. Dolittle. Os especialistas divergem sobre se a comunica\u00e7\u00e3o bidirecional acabar\u00e1 por beneficiar os animais.<\/p>\n<p>Descodificar a comunica\u00e7\u00e3o animal no terreno <\/p>\n<p>Em 2023, Mathevon e os seus colegas gravaram 122.619 guinchos de dezenas de ratos-listrados-africanos ao longo de 12 dias e noites, usando 23 microfones distribu\u00eddos por quatro arbustos-ninho. O repert\u00f3rio vocal inclu\u00eda pelo menos sete tipos diferentes de guinchos. Os ratos usavam alguns dentro dos ninhos e outros nas extremidades do seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os investigadores usaram a informa\u00e7\u00e3o para treinar uma rede neural artificial \u2014 o mesmo sistema que est\u00e1 na base de grandes modelos de linguagem como o ChatGPT. A rede permitiu-lhes descobrir que cada ninho de ratos tinha uma assinatura vocal espec\u00edfica. Estudos posteriores revelaram que cada rato tamb\u00e9m tinha assinaturas \u00fanicas.<\/p>\n<p>\u201cA aprendizagem autom\u00e1tica \u00e9 absolutamente essencial porque h\u00e1 demasiados chamamentos, demasiadas vocaliza\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel lidar com tudo isso\u201d, disse Mathevon.<\/p>\n<p>Explicou que os sons que ele e a sua equipa descodificaram representam informa\u00e7\u00e3o \u201cest\u00e1tica\u201d sobre a identidade dos ratos, que n\u00e3o muda ao longo do tempo. O pr\u00f3ximo objetivo ser\u00e1 tentar decifrar a \u201cinforma\u00e7\u00e3o din\u00e2mica\u201d que acredita estar codificada nos chamamentos, como informa\u00e7\u00e3o sobre n\u00edveis de stress, que varia.<\/p>\n<p> <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1782664754_1_f_webp.webp\" width=\"700\"\/> <\/p>\n<p>   Nicolas Mathevon, da Universidade de Saint-\u00c9tienne, em Fran\u00e7a, dedicou a carreira cient\u00edfica ao estudo da comunica\u00e7\u00e3o animal. Cortesia de L\u00e9o Perrier e Nicolas Mathevon <\/p>\n<p>O trabalho sobre os ratos-listrados-africanos \u00e9 um dos quatro projetos de investiga\u00e7\u00e3o finalistas do Pr\u00e9mio Dolittle deste ano. O pr\u00e9mio atribui cerca de 87 mil euros para distinguir avan\u00e7os significativos na descodifica\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o animal. Patrocinado pelo empres\u00e1rio multimilion\u00e1rio brit\u00e2nico Jeremy Coller, o pr\u00e9mio promete ainda uma distin\u00e7\u00e3o sob a forma de um investimento de cerca de 8,74 milh\u00f5es de euros ou cerca de 437 mil euros em dinheiro, caso uma equipa consiga demonstrar que uma esp\u00e9cie comunica de forma independente com os investigadores sem reconhecer que est\u00e1 a comunicar com humanos.<\/p>\n<p>\u201cA vis\u00e3o sup\u00f5e uma comunica\u00e7\u00e3o bidirecional fluente, em que os humanos possam interagir com animais selvagens da mesma forma que interagem uns com os outros, criando uma esp\u00e9cie de contacto genu\u00edno e significativo\u201d, disse Jonathan Birch, jurado do pr\u00e9mio, professor de Filosofia e diretor do Jeremy Coller Centre for Animal Sentience, na London School of Economics. \u201cReconhecemos que ainda estamos longe desse objetivo.\u201d<\/p>\n<p>O vencedor deste ano ser\u00e1 anunciado a 25 de junho. O primeiro vencedor, em 2025, foi uma equipa que encontrou um sistema de comunica\u00e7\u00e3o semelhante a uma linguagem nos assobios de golfinhos selvagens em Sarasota, na Florida. Embora grande parte da investiga\u00e7\u00e3o sobre comunica\u00e7\u00e3o animal se concentre em grandes mam\u00edferos considerados detentores de sistemas de comunica\u00e7\u00e3o relativamente ricos, como primatas e cet\u00e1ceos \u2014 baleias e golfinhos \u2014, Birch disse que os jurados tentam lan\u00e7ar uma rede zool\u00f3gica ampla.<\/p>\n<p> <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1782664755_242_f_webp.webp\" width=\"700\"\/> <\/p>\n<p>   Um rato-listrado-africano caminha em dire\u00e7\u00e3o a uma coluna. L\u00e9o Perrier e Nicolas Mathevon <\/p>\n<p>Al\u00e9m dos investigadores dos ratos-listrados, os finalistas deste ano incluem cientistas que est\u00e3o a descodificar a comunica\u00e7\u00e3o de duas esp\u00e9cies de grandes s\u00edmios na Costa do Marfim e na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, e de aves canoras ruidosas de bico vermelho, conhecidas como mandarins, origin\u00e1rias da Austr\u00e1lia, mas mantidas em cativeiro na Calif\u00f3rnia. Um finalista de 2025 descodificou gestos feitos por chocos num laborat\u00f3rio franc\u00eas.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 provavelmente todos os tipos de complexidade por a\u00ed que estamos apenas agora a come\u00e7ar a notar\u201d, disse Birch.<\/p>\n<p>O maior desafio que os investigadores enfrentam, acrescentou, \u00e9 obter dados suficientes. \u201cO que vimos no caso humano \u00e9 que os sistemas de intelig\u00eancia artificial, \u00e0 primeira vista, pareciam outrora demasiado simples para fazer algo interessante, mas quando h\u00e1 dados de treino suficientes, vemos estas capacidades emergentes extraordin\u00e1rias.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVamos construir um ninho\u201d <\/p>\n<p>Os animais selvagens, naturalmente, n\u00e3o andaram ocupados a gerar dados de treino para os nossos modelos de linguagem, criados por humanos e alimentados por bili\u00f5es de palavras. Obter informa\u00e7\u00e3o suficiente na natureza, mesmo para um modelo simples, pode demorar d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Catherine Crockford, diretora do Ape Social Mind Lab no Instituto de Ci\u00eancias Cognitivas, em Lyon, Fran\u00e7a, come\u00e7ou a vida profissional como terapeuta da fala e da linguagem em hospitais de Londres. Mas, no final da d\u00e9cada de 1990, interessou-se pela evolu\u00e7\u00e3o da linguagem e come\u00e7ou a estudar os chimpanz\u00e9s selvagens que percorrem o Parque Nacional de Ta\u00ef, na Costa do Marfim. \u201cA ideia de que a comunica\u00e7\u00e3o deles era interessante n\u00e3o estava na moda\u201d, disse. \u201cPercorremos um longo caminho desde ent\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p> <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1782664755_713_f_webp.webp\" width=\"700\"\/> <\/p>\n<p>   Catherine Crockford, do Instituto de Ci\u00eancias Cognitivas, em Fran\u00e7a, era terapeuta da fala antes de come\u00e7ar a estudar chimpanz\u00e9s no Parque Nacional de Ta\u00ef, na Costa do Marfim. Ta\u00ef Chimpanzee Project <\/p>\n<p>Crockford e o seu colaborador Roman Wittig, investigador s\u00e9nior e l\u00edder de grupo de investiga\u00e7\u00e3o no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha, passaram anos a recolher cerca de 20 mil horas de grava\u00e7\u00f5es de chamamentos de chimpanz\u00e9s. O trabalho mais recente da dupla sugere que os s\u00edmios conseguem criar novos significados ao juntar sons em pares \u2014 algo semelhante \u00e0 sintaxe, que em tempos se pensou ser uma caracter\u00edstica exclusiva da linguagem humana.<\/p>\n<p>\u201cTemos 150 chimpanz\u00e9s que conhecemos pessoalmente. Muitos deles conhecemos desde o nascimento at\u00e9 \u00e0 morte, porque j\u00e1 estamos na terceira gera\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos que observamos\u201d, disse Wittig.<\/p>\n<p>Crockford disse que o trabalho mais recente da equipa concluiu que, embora os chimpanz\u00e9s tenham apenas 12 tipos de chamamentos no seu repert\u00f3rio, t\u00eam flexibilidade para combinar esses chamamentos de todo o tipo de formas para modificar significados ou gerar novos significados, \u201co que lhes d\u00e1 realmente muito mais capacidade para dizer coisas\u201d.<\/p>\n<p>Os investigadores encontraram 16 combina\u00e7\u00f5es de dois chamamentos. Algumas acrescentavam ou clarificavam o significado de um dos chamamentos \u2014 por exemplo: \u201cestou a alimentar-me e a descansar\u201d, concluiu a equipa. Entretanto, quatro chamamentos foram combinados para criar um significado inteiramente novo. \u201cHoo\u201d, um chamamento feito durante o repouso, combinado com um \u201cgrunhido ofegante\u201d usado como sauda\u00e7\u00e3o, por exemplo, significa \u201cvamos construir um ninho\u201d.<\/p>\n<p>M\u00e9lissa Berthet, investigadora de p\u00f3s-doutoramento na Universidade de Mil\u00e3o, passou nove meses a observar bonobos nas florestas tropicais remotas da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo. Ela e os seus colegas descobriram que este s\u00edmio \u2014 um parente pr\u00f3ximo do chimpanz\u00e9, mas com uma estrutura social drasticamente diferente, dominada pelas f\u00eameas \u2014 usa chamamentos emparelhados semelhantes.<\/p>\n<p>Ao longo de nove meses, Berthet levantava-se \u00e0s quatro da manh\u00e3 para seguir os s\u00edmios pela floresta densa, onde percorrem v\u00e1rios quil\u00f3metros por dia antes de fazerem o ninho. Fez notas de voz detalhadas sobre o que tinha acontecido imediatamente antes de os bonobos emitirem os seus chamamentos: o bonobo estava a alimentar-se? Estava a deslocar-se? Estava sozinho ou com outros? Para cada chamamento gravado, assinalava uma lista de mais de 300 par\u00e2metros.<\/p>\n<p> <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1782664756_509_f_webp.webp\" width=\"700\"\/> <\/p>\n<p>   M\u00e9lissa Berthet passou nove meses na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo a seguir e gravar bonobos selvagens para compreender as suas vocaliza\u00e7\u00f5es. Morgan Roh\u00e9e <\/p>\n<p>S\u00f3 quando regressou \u00e0 base que ent\u00e3o tinha na Universidade de Zurique, na Su\u00ed\u00e7a, \u00e9 que uma imagem mais clara come\u00e7ou a formar-se. Berthet usou uma t\u00e9cnica matem\u00e1tica para analisar centenas de horas de grava\u00e7\u00f5es. Captou 700 chamamentos de diferentes bonobos e criou um mapa visual dos chamamentos isolados e combinados que poderia ser usado para investigar o seu significado.<\/p>\n<p>Por exemplo, descobriu que quando um chamamento \u201cpeep\u201d, usado para sugerir um curso de a\u00e7\u00e3o, \u00e9 combinado com um \u201cassobio\u201d, usado isoladamente para ajudar a manter o grupo unido durante desloca\u00e7\u00f5es, a combina\u00e7\u00e3o tinha um significado totalmente diferente.<\/p>\n<p>Em vez disso, denota uma situa\u00e7\u00e3o social tensa.<\/p>\n<p>\u201cEles usavam-no em contextos sociais muito sens\u00edveis, por exemplo, quando algu\u00e9m est\u00e1 a amea\u00e7ar outra pessoa\u201d, disse. \u201cAcho que \u00e9 uma forma de dizer: \u2018Gostaria que fiz\u00e9ssemos as pazes.\u2019\u201d<\/p>\n<p>Crockford disse que a equipa come\u00e7ou a usar ferramentas de intelig\u00eancia artificial e descobriu que estas \u201caceleram massivamente o processo de gest\u00e3o de grandes conjuntos de dados\u201d.<\/p>\n<p>\u201cUma coisa que torna o repert\u00f3rio vocal dos chimpanz\u00e9s dif\u00edcil \u00e9 que as vocaliza\u00e7\u00f5es se transformam umas nas outras. Podemos ter grunhidos que se transformam em \u2018hoos\u2019 ou em latidos, e latidos que se transformam em gritos, e assim por diante\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cPor isso, demos este problema \u00e0 IA: classificar estes grunhidos de acordo com o contexto em que s\u00e3o emitidos. E ela fez um trabalho bastante decente\u201d, disse Crockford.<\/p>\n<p>Em conjunto, as descobertas em chimpanz\u00e9s e bonobos sugerem uma forma rudimentar de sintaxe, as regras que governam a ordem das palavras na linguagem humana e lhe conferem flexibilidade e criatividade. Por exemplo, em ingl\u00eas, \u201cape goes\u201d e \u201cgo ape\u201d usam as mesmas palavras e t\u00eam significados totalmente diferentes.<\/p>\n<p>Muitos cientistas acreditam que os sistemas vocais dos grandes s\u00edmios eram demasiado limitados para serem considerados precursores da linguagem humana, mas o trabalho de Crockford, Berthet e dos seus colegas sugere o contr\u00e1rio. Compreender melhor estas vocaliza\u00e7\u00f5es din\u00e2micas tamb\u00e9m lan\u00e7a as bases necess\u00e1rias para alcan\u00e7ar o objetivo de comunicar com animais. Sem compreender o significado e a fun\u00e7\u00e3o das vocaliza\u00e7\u00f5es animais, a comunica\u00e7\u00e3o bidirecional seria imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Berthet, no entanto, est\u00e1 dividida sobre se os benef\u00edcios de falar com animais superar\u00e3o os potenciais danos. Embora a capacidade de comunicar com animais domesticados e de jardim zool\u00f3gico, cujas vidas est\u00e3o profundamente interligadas com as dos humanos, possa melhorar os seus cuidados, mostrou-se menos segura em rela\u00e7\u00e3o aos animais selvagens.<\/p>\n<p>\u201cTrabalho nesta \u00e1rea para compreender os animais e, obviamente, seria um sonho falar com eles, mas acho que temos de ter muito cuidado\u201d, disse. \u201cTeria receio de que, se segu\u00edssemos esse caminho, acab\u00e1ssemos com turismo para falar com chimpanz\u00e9s, bonobos e depois gorilas. E ent\u00e3o ter\u00edamos animais muito perturbados, que n\u00e3o entendem porque lhes dizem para ir aqui ou ali, ou porque algu\u00e9m quer brincar com eles.\u201d<\/p>\n<p>Com estas preocupa\u00e7\u00f5es em mente, Berthet e os seus colegas s\u00e3o cautelosos quanto \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias de reprodu\u00e7\u00e3o de sons na natureza, semelhantes \u00e0s que Mathevon realizou com os ratos-listrados-africanos, que lhes permitiriam confirmar as descobertas. Os investigadores receiam que as experi\u00eancias sejam demasiado invasivas e possam alterar as din\u00e2micas sociais do grupo de bonobos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o queremos que os indiv\u00edduos ou\u00e7am a sua pr\u00f3pria voz, certo? Estas s\u00e3o as esp\u00e9cies com que trabalhamos. S\u00e3o muito inteligentes, t\u00eam uma consci\u00eancia social muito apurada, e quero evitar, a todo o custo, mexer-lhes com a cabe\u00e7a\u201d, disse Martin Surbeck, professor associado no departamento de Biologia Evolutiva Humana da Universidade de Harvard, que em 2016 ajudou a criar o local de investiga\u00e7\u00e3o de bonobos em Kokolopori, onde Berthet realizou o trabalho de campo. \u201cSeria bastante perturbador e poderia ter consequ\u00eancias que realmente n\u00e3o conseguimos antecipar.\u201d<\/p>\n<p>Grupos como o Project CETI, ou Cetacean Translation Initiative, que trabalha com cachalotes, j\u00e1 est\u00e3o a analisar as implica\u00e7\u00f5es legais e \u00e9ticas que podem surgir se os humanos se tornarem mais capazes de compreender a comunica\u00e7\u00e3o animal.<\/p>\n<p>O que nos dir\u00e3o os animais? <\/p>\n<p> <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1782664756_776_f_webp.webp\" width=\"700\"\/> <\/p>\n<p>   Origin\u00e1rios da Austr\u00e1lia, os mandarins s\u00e3o aves ruidosas de bico vermelho. Julie E Elie <\/p>\n<p>Julie Elie, cientista associada de projeto no departamento de Neuroci\u00eancia da Universidade da Calif\u00f3rnia, Berkeley, trabalha agora com mandarins em cativeiro depois de os ter estudado na natureza. Avan\u00e7ou que seria mais f\u00e1cil decifrar o c\u00f3digo da comunica\u00e7\u00e3o entre esp\u00e9cies com aves do que com primatas ou baleias.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o animais realmente vocais e s\u00e3o f\u00e1ceis de observar. Podemos limitar o espa\u00e7o em que vivem sem, sabe, os oprimir, e ainda assim manter comportamentos naturais\u201d, disse. \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil manter uma baleia numa piscina.\u201d<\/p>\n<p>Embora o canto das baleias fascine os cientistas h\u00e1 d\u00e9cadas e a IA tenha sido usada para descobrir algo semelhante a um alfabeto fon\u00e9tico nos cliques usados pelos cachalotes, aquilo que dizem continua, em grande medida, a ser um mist\u00e9rio. Isto porque \u00e9 muito mais dif\u00edcil seguir e observar baleias no seu ambiente natural e, por isso, ligar vocaliza\u00e7\u00f5es a a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n<p>No seu trabalho com mandarins, Elie classificou 11 chamamentos das aves, associando-os a significados distintos, como fome, perigo, v\u00ednculo afetivo e conflito social.<\/p>\n<p>O seu cat\u00e1logo coincidiu com os chamamentos documentados na natureza pelo falecido ornit\u00f3logo Richard Zann. No entanto, queria ir mais longe e saber se as aves concordavam com a sua classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para isso, concebeu uma experi\u00eancia usando mandarins treinados para bicar num bot\u00e3o. Sempre que o bot\u00e3o era pressionado, ouvia-se um chamamento diferente. O tipo espec\u00edfico de chamamento que Elie queria estudar num determinado dia era recompensado com uma semente.<\/p>\n<p>\u201cTodos os dias, a ave tem de descobrir que tipo de chamamento&#8230; est\u00e1 associado \u00e0 recompensa\u201d, explicou Elie. Normalmente, a ave come\u00e7ava por ouvir v\u00e1rios chamamentos na \u00edntegra at\u00e9 chegar \u00e0 vocaliza\u00e7\u00e3o recompensada. Depois de isso acontecer algumas vezes, o mandarim \u201caprende rapidamente a interromper a reprodu\u00e7\u00e3o de sons n\u00e3o recompensados para acionar o seguinte\u201d \u2014 n\u00e3o muito diferente da forma como um humano passa \u00e0 frente v\u00eddeos que n\u00e3o lhe interessam, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cO que demonstr\u00e1mos \u00e9 que s\u00e3o capazes de realizar esta tarefa de classifica\u00e7\u00e3o em todos os tipos de chamamentos que n\u00f3s, humanos, identific\u00e1mos no seu repert\u00f3rio\u201d, disse. \u201cPela primeira vez, conseguimos perguntar a animais se identific\u00e1mos corretamente as \u2018palavras\u2019 ou blocos de constru\u00e7\u00e3o da sua \u2018linguagem\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m descobriu que as aves n\u00e3o eram perfeitas. Por vezes, interrompiam vocaliza\u00e7\u00f5es que lhes teriam dado uma recompensa, ou esperavam at\u00e9 ao fim da reprodu\u00e7\u00e3o de uma vocaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o recompensada \u2014 mas os erros seguiam um padr\u00e3o distinto, que sugeria que as aves estavam a confundir significados semelhantes em vez de sons semelhantes.<\/p>\n<p>Elie deu um exemplo usando a linguagem humana: se a ave tivesse de classificar as palavras hurt, heart, love e glove, seria mais prov\u00e1vel que cometesse erros entre heart e love \u2014 com significados semelhantes e sons diferentes \u2014 do que entre love e glove, que t\u00eam ac\u00fastica semelhante, mas significados diferentes.<\/p>\n<p>\u201cAo demonstrarmos que os mandarins t\u00eam uma representa\u00e7\u00e3o mental do significado dos seus chamamentos, estamos a come\u00e7ar a quebrar o muro entre a nossa esp\u00e9cie e o resto do reino animal.\u201d<\/p>\n<p>Para a pr\u00f3xima etapa da sua investiga\u00e7\u00e3o, espera desenhar um rob\u00f4 que se mova, soe e se pare\u00e7a com um mandarim. No entanto, mesmo que seja bem-sucedida, prev\u00ea que haver\u00e1 limites a essa comunica\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 importante lembrarmo-nos de que cada esp\u00e9cie vive no seu pr\u00f3prio mundo. O que faz sentido perguntar a um humano pode n\u00e3o fazer sentido perguntar a uma ave\u201d, disse.<\/p>\n<p> <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1782664756_145_f_webp.webp\" width=\"700\"\/> <\/p>\n<p>   Julie Elie, da UC Berkeley, estudou mandarins na natureza e em cativeiro. Cortesia de Julie E Elie <\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o entre esp\u00e9cies ser\u00e1 uma coisa boa? <\/p>\n<p>\u00c9 claro que a intelig\u00eancia artificial permitir\u00e1 uma maior compreens\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o animal e permitir\u00e1 aos cientistas imitar melhor a fala dos animais. Mas \u00e9 muito menos certo que estas ferramentas venham a possibilitar uma comunica\u00e7\u00e3o bidirecional com animais da forma que os humanos, criados com \u201cO Livro da Selva\u201d, talvez desejem, disse Yossi Yovel, professor no departamento de Zoologia da Universidade de Telavive, que estuda a comunica\u00e7\u00e3o de morcegos e preside ao j\u00fari do Pr\u00e9mio Dolittle.<\/p>\n<p>\u201cAcho que a comunica\u00e7\u00e3o entre esp\u00e9cies vai existir. Ser\u00e1 apenas muito mais aborrecida do que algumas pessoas talvez imaginem\u201d, disse. \u201cAdoraria falar com o meu gato. Infelizmente, talvez fosse uma conversa limitada.\u201d<\/p>\n<p>Berthet concordou. \u201cEles n\u00e3o s\u00e3o n\u00f3s. T\u00eam necessidades diferentes e interesses diferentes. Por isso, \u00e9 muito improv\u00e1vel que, mesmo que um dia consigamos ter esta comunica\u00e7\u00e3o bidirecional, possamos falar sobre guerra ou ecologia.\u201d<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que os humanos n\u00e3o gostem daquilo que ouvirem, acrescentaram os investigadores, sobretudo quando se trata de animais domesticados, animais de companhia ou animais mantidos em cativeiro. \u201cSe queremos falar com animais, estamos dispostos a ouvir aquilo que eles realmente dizem?\u201d, perguntou Surbeck.<\/p>\n<p>Interagir com animais implica um elevado grau de incerteza sobre aquilo que est\u00e1 a ser comunicado e sobre os seus efeitos nos animais em causa, o que pode resultar em danos emocionais ou f\u00edsicos, disse Mark Ryan, investigador s\u00e9nior em \u00e9tica digital na Universidade e Centro de Investiga\u00e7\u00e3o de Wageningen, nos Pa\u00edses Baixos.<\/p>\n<p>\u201cSinto que muita da investiga\u00e7\u00e3o sobre comunica\u00e7\u00e3o animal \u00e9 feita pelas raz\u00f5es certas: para obter uma melhor compreens\u00e3o do mundo n\u00e3o humano, desenvolver conhecimento cient\u00edfico sobre os animais e o nosso lugar no mundo, e como fundamento para a conserva\u00e7\u00e3o\u201d, disse Ryan, que \u00e9 coautor de um artigo sobre os riscos \u00e9ticos de tentar \u201cfalar baleia\u201d, por email.<\/p>\n<p>\u201cNo entanto, sou muito mais c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o \u2018bidirecional\u2019 proposta em competi\u00e7\u00f5es como esta.\u201d<\/p>\n<p>Melanie Challenger, especialista em \u00e9tica e vice-presidente da Royal Society for the Protection of Animals, ou RSPCA, disse que o estudo da comunica\u00e7\u00e3o animal era \u201cfascinante\u201d, mas n\u00e3o acreditava que resultasse necessariamente num futuro mais justo para os animais.<\/p>\n<p>\u201cHaver\u00e1 todo o tipo de surpresas que da\u00ed surgir\u00e3o\u201d, disse Challenger, autora do pr\u00f3ximo livro \u201cAlive: The Hidden Intelligence of the Living World\u201d. \u201cMas acho que continuamos em risco de cair na armadilha de esperar que eles sejam como n\u00f3s e, se n\u00e3o forem suficientemente parecidos connosco, ent\u00e3o acharmos que n\u00e3o precisamos de os considerar.\u201d<\/p>\n<p>Mathevon argumentou, contudo, que mesmo que nunca sejamos capazes de falar com animais de uma forma humana, compreender as complexidades da comunica\u00e7\u00e3o animal e tentar imit\u00e1-la ou aceder a ela beneficiaria os animais.<\/p>\n<p>Por exemplo, numa tentativa de evitar colis\u00f5es, os comboios no Jap\u00e3o emitem sinais de alerta baseados no som semelhante a um sopro que os veados usam para avisar outros quando est\u00e3o em perigo, observou.<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o codificada nos sistemas vocais poderia revelar detalhes \u00fateis sobre n\u00edveis de stress, que poderiam ajudar a melhorar o bem-estar de animais de cria\u00e7\u00e3o e de laborat\u00f3rio sem procedimentos invasivos como an\u00e1lises ao sangue.<\/p>\n<p>Um dia, espera, ser\u00e1 poss\u00edvel ter uma \u201cm\u00e1quina Dolittle\u201d capaz de comunicar com animais. \u201cPara as esp\u00e9cies que s\u00e3o muito bem estudadas, acho que n\u00e3o h\u00e1 limita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas espec\u00edficas.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cH\u00e1 n\u00e3o muito tempo, as pessoas pensavam que os animais n\u00e3o comunicavam de todo&#8221;. 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