{"id":437729,"date":"2026-07-02T12:27:12","date_gmt":"2026-07-02T12:27:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/437729\/"},"modified":"2026-07-02T12:27:12","modified_gmt":"2026-07-02T12:27:12","slug":"ney-matogrosso-ganha-mostra-que-exalta-seu-legado-02-07-2026-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/437729\/","title":{"rendered":"Ney Matogrosso ganha mostra que exalta seu legado &#8211; 02\/07\/2026 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/ney-matogrosso\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Ney Matogrosso <\/a>parece estar em transe. Os olhos miram fixamente o ch\u00e3o, onde flutua uma fuma\u00e7a que empresta ares ritual\u00edsticos ao cen\u00e1rio. Os bra\u00e7os est\u00e3o abertos em um movimento teatral e convulsivo, como se ele fosse o personagem de uma pintura de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/07\/por-que-obras-de-caravaggio-mestre-da-luz-e-do-drama-permanecem-tao-atuais.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Caravaggio<\/a>.<\/p>\n<p>A exemplo das cria\u00e7\u00f5es do mestre barroco, o artista personifica nessa imagem a luz e a sombra, o espanto e a beleza, o sagrado e o profano. Na fotografia de Madalena Schwartz, Ney Matogrosso \u00e9 um corpo em ebuli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa corporalidade incendi\u00e1ria e contradit\u00f3ria \u00e9 tema agora de uma<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/monicabergamo\/2026\/06\/ney-matogrosso-prestigia-exposicao-em-homenagem-aos-seus-85-anos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> exposi\u00e7\u00e3o no instituto cultural Solar,<\/a> no centro do Rio de Janeiro. Intitulada &#8220;Prefiro Ser&#8221;, a mostra re\u00fane v\u00eddeos, pinturas, fotografias e esculturas para marcar os 85 anos do cantor, um dos nomes mais celebrados do cancioneiro nacional.<\/p>\n<p>Ney despontou na cena musical nos anos 1970 com o grupo Secos e Molhados, grupo que ele formou ao lado de Jo\u00e3o Ricardo e G\u00e9rson Conrad.<\/p>\n<p>O trio criou uma parceria t\u00e3o ef\u00eamera quanto fulgurante, empilhando sucessos como &#8220;Fala&#8221;, &#8220;O Vira&#8221; e &#8220;Sangue Latino&#8221; entre 1973 e 1974. Eles se notabilizaram tamb\u00e9m por fazer apresenta\u00e7\u00f5es com o rosto pintado e trajando roupas insinuantes em plena ditadura militar.<\/p>\n<p>Essa postura disruptiva acompanhou Ney ap\u00f3s ele sair da banda. Prova disso \u00e9 o disco &#8220;Bandido&#8221;, \u00e1lbum que se faz presente na exposi\u00e7\u00e3o por meio de um cartaz.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado em 1976, o trabalho traz j\u00e1 em seu t\u00edtulo uma celebra\u00e7\u00e3o \u00e0 marginalidade, algo que <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/07\/mostra-relembra-como-helio-oiticica-envolvia-o-publico-em-suas-obras-e-fazia-politica.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">H\u00e9lio Oiticica<\/a> havia feito oito anos antes com a c\u00e9lebre bandeira-poema &#8220;Seja Her\u00f3i, Seja Marginal&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ney \u00e9 um artista que bota o pr\u00f3prio corpo em risco, como se ele fosse um objeto de performance, encantamento e desafio&#8221;, diz Bernardo Mosqueira, curador da mostra ao lado de Matheus Morani e Pablo Le\u00f3n de la Barra.<\/p>\n<p>&#8220;Naquele contexto de repress\u00e3o, ele era visto como uma for\u00e7a que precisava ser reprimida, oprimida e controlada, mas, ao mesmo tempo, fazia performances de uma for\u00e7a imag\u00e9tica t\u00e3o grande que os pr\u00f3prios conservadores ficavam encantados&#8221;, diz Mosqueira.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o se debru\u00e7a justamente sobre o car\u00e1ter libert\u00e1rio e subversivo de Ney. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o se d\u00e1 de forma literal, uma vez que o projeto n\u00e3o tem pretens\u00f5es biogr\u00e1ficas. A ideia \u00e9 contar a trajet\u00f3ria do artista por meio de obras que sirvam de met\u00e1fora para a sua personalidade.<\/p>\n<p>Logo na entrada da mostra, por exemplo, vemos uma escultura de Exu \u2013o orix\u00e1 mensagem, for\u00e7a motriz por tr\u00e1s do movimento e da transforma\u00e7\u00e3o. Concebida por Chico Tabibuia, a obra traz a entidade com seios e uma protuber\u00e2ncia em formato f\u00e1lico entre as pernas. Para o curador, esse trabalho sintetiza a recusa do artista em ser rotulado.<\/p>\n<p>&#8220;Ney mistura elementos que v\u00eam do reino animal, mineral, vegetal, do g\u00eanero feminino e masculino, como se mostrasse para a gente que a ordem do mundo \u00e9 arbitr\u00e1ria e que ela pode ser diferente.&#8221;<\/p>\n<p>A natureza camale\u00f4nica do cantor pode ser observada em uma grande pintura concebida pelo coletivo Avaf.<\/p>\n<p>A obra retrata Ney usando itens de diferentes fases de sua carreira. H\u00e1 desde o chap\u00e9u do disco &#8220;Bandido&#8221;, passando pela flor do \u00e1lbum &#8220;Pois \u00c9&#8221; at\u00e9 chegar aos chifres de carneiro que o artista usou na capa de &#8220;\u00c1gua do C\u00e9u \u2013 P\u00e1ssaro&#8221;, seu primeiro trabalho solo, lan\u00e7ado em 1975.<\/p>\n<p>Ao longo da carreira, ele se notabilizou por sua presen\u00e7a incendi\u00e1ria sobre o palco, onde ainda hoje exala sensualidade, malemol\u00eancia e magnetismo. Essa verve perform\u00e1tica pode ser sentida na exposi\u00e7\u00e3o por meio da escultura &#8220;Orvalho&#8221;, em que Samuel Alves de Jesus criou uma estrutura amorfa usando sal, resina e calcita.<\/p>\n<p>Em contato com a umidade, o sal faz surgir got\u00edculas de \u00e1gua na superf\u00edcie da escultura, de modo que ela parece estar coberta de suor.<\/p>\n<p>De certa forma, \u00e9 uma met\u00e1fora para o corpo inquieto e transpirante que Ney exibe em suas apresenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A mostra tamb\u00e9m joga luz sobre corporalidades que desafiam normas e subvertem padr\u00f5es de comportamento, em sintonia com o que o cantor fez ao longo da carreira. Um dos destaques desse eixo s\u00e3o fotografias de uma performance que Antonio Manuel realizou em 1970.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, o artista inscreveu o pr\u00f3prio corpo como objeto art\u00edstico no Sal\u00e3o de Arte Moderna, um dos principais pr\u00eamios de arte daquele per\u00edodo. Embora a inscri\u00e7\u00e3o tenha sido recusada pelos jurados, decidiu comparecer \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o mesmo assim. No entanto, havia um detalhe \u2013ele estava completamente nu.<\/p>\n<p>Intitulada &#8220;O Corpo \u00e9 a Obra&#8221;, essa \u00e9 considerada uma das performances mais importantes da arte brasileira. &#8220;Ele bota o corpo a jogo tanto em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es culturais quanto em oposi\u00e7\u00e3o aos militares&#8221;, diz Mosqueira.<\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m p\u00f4s o pr\u00f3prio corpo \u00e0 prova foi Fl\u00e1vio de Carvalho. Em 1956, o artista desfilou pelas ruas de S\u00e3o Paulo usando saia, sand\u00e1lia e blusa bufante. Conhecida como &#8220;New Look&#8221; ou traje de ver\u00e3o, essa vestimenta foi pensada para ser usada no calor dos tr\u00f3picos.<\/p>\n<p>Na mostra, as imagens da performance retratam o artista caminhando altivo com as pernas de fora cercado por uma multid\u00e3o de homens engravatados. O grupo observa Carvalho como se ele fosse um animal ex\u00f3tico.<\/p>\n<p>As roupas que Ney escolhia usar tamb\u00e9m confrontavam normas sociais. Na exposi\u00e7\u00e3o, uma imagem retrata o artista trajando cal\u00e7a jeans just\u00edssima. Outra fotografia mostra o cantor com um quepe de couro e uma regata metalizada, \u00e0 maneira dos praticantes de sadomasoquismo.<\/p>\n<p>&#8220;A exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito sobre como o Ney inspira a gente a questionar as normas de g\u00eanero, de sexualidade e de comportamento&#8221;, diz Mosqueira.<\/p>\n<p>Essa postura insubmissa e libert\u00e1ria, por\u00e9m, n\u00e3o foi confrontada apenas pela opress\u00e3o da ditadura militar. A partir dos anos 1980, a comunidade LGBTQIA+ se viu ainda mais estigmatizada em raz\u00e3o da epidemia de <a href=\"https:\/\/search.folha.uol.com.br\/?q=HIV+%28V%C3%ADrus+da+Imunodefici%C3%AAncia+Humana%29&amp;site=todos\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">HIV<\/a>, chamada pejorativamente \u00e0 \u00e9poca de &#8220;c\u00e2ncer gay&#8221; .<\/p>\n<p>O artista perdeu pessoas pr\u00f3ximas por complica\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 doen\u00e7a, como o marido Marco de Maria e o ex-namorado, o cantor <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/cazuza\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Cazuza<\/a>.<\/p>\n<p>A mostra faz refer\u00eancia a esse per\u00edodo em obras concebidas por nomes como Leonilson e Feliciano Centuri\u00f3n. Ambos os artistas traduziram os seus anseios e temores no calor do momento, enquanto viviam com a enfermidade no auge da epidemia.<\/p>\n<p>Uma das obras mais pujantes desse n\u00facleo \u00e9 o v\u00eddeo &#8220;Prel\u00fadio de uma Morte Anunciada&#8221;, de Rafael Fran\u00e7a \u2013um dos pioneiros da videoarte no Brasil.<\/p>\n<p>Na grava\u00e7\u00e3o, ele e o namorado trocam beijos, abra\u00e7os e toques ao som de uma \u00e1ria da \u00f3pera &#8220;La Traviata&#8221;. Entre um afago e outro, surgem na tela nomes como Alex, John, Mark e Stephen. Todos eles morreram em decorr\u00eancia do HIV, inclusive o pr\u00f3prio artista.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s cerca de quatro minutos, o v\u00eddeo chega ao fim com uma frase. &#8220;Above all, they had no fear of vertigo&#8221; \u2014acima de tudo, eles n\u00e3o temeram a vertigem. \u00c9 uma afirma\u00e7\u00e3o do amor e da coragem diante da dor e do medo.<\/p>\n<p>&#8220;Eles abriram caminho para toda uma gera\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o curador. &#8220;Ney talvez seja um grande exemplo daqueles que n\u00e3o temeram a vertigem.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ney Matogrosso parece estar em transe. 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