{"id":44019,"date":"2025-08-25T09:40:11","date_gmt":"2025-08-25T09:40:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/44019\/"},"modified":"2025-08-25T09:40:11","modified_gmt":"2025-08-25T09:40:11","slug":"mudar-de-ideias-de-aixa-de-la-cruz-rdb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/44019\/","title":{"rendered":"\u201cMudar de ideias\u201d de Aixa de la Cruz | RDB"},"content":{"rendered":"<p>Ensaio-confiss\u00e3o no feminino<\/p>\n<p>  on Agosto 25, 2025 at 10:14 am<\/p>\n<p>Publicado originalmente em 2019, chegou (finalmente) \u00e0s livrarias portuguesas <a style=\"color: #000000\" href=\"https:\/\/www.leyaonline.com\/pt\/livros\/romance\/mudar-de-ideias\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><strong>Mudar de <\/strong><strong>i<\/strong><strong>deias<\/strong><strong> (D. Quixote, 2025<\/strong><\/a><strong>)<\/strong>, da escritora basca <strong>Aixa de la Cruz<\/strong>, apelidada como uma das vozes mais inquietantes da literatura espanhola contempor\u00e2nea, um livro que se tornou um fen\u00f3meno de cr\u00edtica em Espanha, sendo distinguido com o Pr\u00e9mio Euskadi de Literatura, o Librotea Tapado, al\u00e9m de ter sido finalista do Pr\u00e9mio Dulce Chac\u00f3n.<\/p>\n<p>Dividido em seis cap\u00edtulos, trata-se, apesar da sua brevidade (cerca de 130 p\u00e1ginas), de um denso ensaio que parte de epis\u00f3dios reais: um acidente que quase lhe roubou uma amiga; a escrita de uma tese de doutoramento; rela\u00e7\u00f5es falhadas; a aus\u00eancia de um pai biol\u00f3gico; a experi\u00eancia do div\u00f3rcio. Mas, perante isso, e num assumido mergulho no feminismo, Aixa de la Cruz n\u00e3o se limita a uma autobiografia linear, assumindo o risco da autofic\u00e7\u00e3o em estado bruto, onde confiss\u00e3o, cr\u00edtica cultural e reflex\u00e3o pol\u00edtica entrela\u00e7am-se.<\/p>\n<p>Nas p\u00e1ginas deste livro, n\u00e3o h\u00e1 complac\u00eancia nos relatos, mas uma clara vontade de confronto, de se expor a honestidade, e, ao mesmo tempo, examinar a sociedade onde se inscrevem as suas viv\u00eancias, como se se tratasse de um exerc\u00edcio narrativo que oscila entre o di\u00e1rio \u00edntimo e a medita\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica.<\/p>\n<p>Esse gesto politizado faz todo o sentido quando falamos de uma autora que se afirma feminista n\u00e3o apenas pela milit\u00e2ncia, mas pela forma como analisa \u00abo peso do patriarcado nas escolhas quotidianas e nas estruturas sociais\u00bb. Ao falar de si, de La Cruz fala de e para todos sobre como o corpo feminino \u00e9 marcado pela viol\u00eancia, pela expectativa, pela heran\u00e7a cultural.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" fetchpriority=\"high\" width=\"1042\" height=\"1564\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1756114810_650_capa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-126304\"  \/><\/p>\n<p>Neste sentido, Mudar de Ideias dialoga com outras vozes femininas da literatura, onde Annie Ernaux \u00e9 uma refer\u00eancia obrigat\u00f3ria, distinguindo-se pelo equil\u00edbrio singular entre consci\u00eancia de g\u00e9nero, erudi\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica e franqueza coloquial, mediante uma prosa veloz, fragmentada, de frases que parecem \u201ccuspidas\u201d com urg\u00eancia e raiva, com o texto a ganhar um misto de crueza e poesia. Se, por vezes, e como j\u00e1 referido, \u00e9 quase ensa\u00edstico, noutras lembra uma carta \u00edntima. Essa heterogeneidade \u00e9 tamb\u00e9m parte da sua for\u00e7a, com a leitura a puder ser desconcertante, mas nunca indiferente.<\/p>\n<p>Por outro lado, sente-se um campo sem\u00e2ntico associado \u00e0s confiss\u00f5es, envolvendo culpa, culpados, e, ocasionalmente, expia\u00e7\u00e3o, principalmente quando a autora vasculha o seu passado, desde uma inf\u00e2ncia marcada pela aus\u00eancia do pai biol\u00f3gico at\u00e9 \u00e0 sua desconfian\u00e7a e medo das mulheres (e a autorrealiza\u00e7\u00e3o de um resqu\u00edcio de misoginia interna). Pelo caminho surge a oportunidade de explorar v\u00e1rios temas e eventos, com de la Cruz a relatar os feminic\u00eddios na Cidade do M\u00e9xico e a sua dificuldade em \u00abn\u00e3o olhar para aquele pa\u00eds com os olhos de uma europeia que observa o Terceiro Mundo\u00bb. Mas a mira tamb\u00e9m \u00e9 apontada \u00e0 sua Espanha natal, onde a viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9, sublinha, \u00absist\u00e9mica e normalizada\u00bb. <\/p>\n<p>Num constante di\u00e1logo com o leitor, Aixa de la Cruz \u00e9 conscientemente provocadora e inc\u00f3moda, muito gra\u00e7as \u00e0 op\u00e7\u00e3o por um tom confessional ou pela exposi\u00e7\u00e3o descarnada, algo que pode levar a uma discord\u00e2ncia com o que escreve a autora natural de Bilbau. Mas \u00e9 a\u00ed que reside a pertin\u00eancia deste livro, no seu \u201cobjetivo\u201d de n\u00e3o procurar agradar, mas fazer refletir, transformar. E numa altura em que a literatura cai, muitas vezes, na tenta\u00e7\u00e3o de se render ao entretenimento, de la Cruz lembra que escrever \u00e9 tamb\u00e9m pensar \u2013 e que pensar \u00e9, inevitavelmente, interrogar, p\u00f4r em causa, confrontar, logo, mudar de ideias, crescer e evoluir.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/7785.thumbnail.jpg\" itemprop=\"image\" alt=\"avatar\"\/> Apaixonado pelos sons, imagens e hist\u00f3rias que me rodeiam, gosto de refletir essas ideias por via da palavra, seja ela escrita ou falada, mas sempre sentida. O amor pela m\u00fasica, livros e quejandos, \u00e9 coisa que, em mim, n\u00e3o encontra medida palp\u00e1vel, \u00e9 forma de respirar que transcende fronteiras, funde ritmos, estilos e filosofias. <a href=\"https:\/\/www.ruadebaixo.com\/como-se-nao-houvesse-amanha-de-sergio-godinho.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><\/p>\n<p> Artigo anterior<\/p>\n<p>\u201cComo se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3\u201d de S\u00e9rgio Godinho<\/p>\n<p> <\/a><\/p>\n<p> \u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ensaio-confiss\u00e3o no feminino on Agosto 25, 2025 at 10:14 am Publicado originalmente em 2019, chegou (finalmente) \u00e0s livrarias&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":44020,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-44019","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44019","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44019"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44019\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/44020"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44019"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44019"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44019"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}