{"id":440274,"date":"2026-07-04T23:24:15","date_gmt":"2026-07-04T23:24:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/440274\/"},"modified":"2026-07-04T23:24:15","modified_gmt":"2026-07-04T23:24:15","slug":"nunca-vi-ninhos-como-estes-na-ucrania-os-passaros-ja-constroem-com-os-fios-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/440274\/","title":{"rendered":"&#8220;Nunca vi ninhos como estes&#8221;: na Ucr\u00e2nia, os p\u00e1ssaros j\u00e1 constroem com os fios da guerra"},"content":{"rendered":"<p>                Na frente da ucraniana, a fibra \u00f3tica que guia drones atrav\u00e9s da guerra come\u00e7ou a surgir entran\u00e7ada em ervas secas e fibras vegetais, no interior de ninhos recolhidos por militares. Um desses ninhos ficar\u00e1 no Museu da Guerra, em Kiev. Outro viajar\u00e1 para os Pa\u00edses Baixos, onde investigadores tentar\u00e3o descobrir que ave fez da tecnologia militar mat\u00e9ria de abrigo<\/p>\n<p>Na mesa do Museu Nacional da Hist\u00f3ria da Ucr\u00e2nia na Segunda Guerra Mundial, em Kiev, h\u00e1 um ninho pequeno, leve, quase intacto. \u00c0 primeira vista, parece feito da mat\u00e9ria comum dos ninhos: erva seca, fibras vegetais, fragmentos recolhidos no ch\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Depois a luz apanha outro fio.\u00a0<\/p>\n<p>Transparente, artificial, fin\u00edssimo. Um brilho que n\u00e3o vem da primavera. \u00c9 fibra \u00f3tica.<\/p>\n<p>O ninho foi encontrado perto da linha da frente na Ucr\u00e2nia e enviado ao museu por militares. N\u00e3o chegou sozinho. H\u00e1 pelo menos outro exemplar tecido da mesma forma, com erva e restos dos cabos usados para guiar drones de ataque.\u00a0<\/p>\n<p>Um ficar\u00e1 em Kiev, integrado na cole\u00e7\u00e3o da guerra. O outro seguir\u00e1 para os Pa\u00edses Baixos, onde ser\u00e1 estudado antes de regressar.<\/p>\n<p>Na frente, a fibra \u00f3tica deixou de ser apenas uma tecnologia. Tornou-se parte da paisagem. Fica presa nas \u00e1rvores, atravessa campos, cai sobre telhados, acumula-se junto a estradas, trincheiras e aldeias destru\u00eddas. Ao sol, os fios parecem teias estendidas sobre uma guerra que j\u00e1 dura h\u00e1 mais de quatro anos.\u00a0<\/p>\n<p>Alguns cabos podem chegar a cerca de 20 quil\u00f3metros. Servem para ligar o drone ao operador e tornam o aparelho mais dif\u00edcil de travar por guerra eletr\u00f3nica, porque a ordem n\u00e3o segue pelo ar, segue por um fio.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o russa em larga escala come\u00e7ou em fevereiro de 2022 com tanques, blindados e artilharia. A guerra, entretanto, mudou de escala e de linguagem. Os drones passaram a dominar uma parte crescente do campo de batalha.\u00a0<\/p>\n<p>Observam, procuram movimento onde a vida tenta esconder-se, perseguem, mergulham sobre o alvo at\u00e9 a imagem no ecr\u00e3 se transformar em explos\u00e3o.<\/p>\n<p>Na linha da frente, de cerca de 1.200 quil\u00f3metros, a tecnologia militar deixa tamb\u00e9m res\u00edduos quase invis\u00edveis. E as aves come\u00e7aram a recolh\u00ea-los.<\/p>\n<p>\u201cObjetos como ninhos de p\u00e1ssaros com fragmentos de fibra \u00f3tica demonstram a mudan\u00e7a na natureza da guerra\u201d, observa \u00e0 Reuters Yana Hrynko, investigadora s\u00e9nior do museu em Kiev, ao examinar os exemplares enviados pelos militares.<\/p>\n<p>Num deles, a composi\u00e7\u00e3o \u00e9 simples e perturbadora. \u201cO primeiro ninho cont\u00e9m sobretudo erva seca e cabo de fibra \u00f3tica. E est\u00e1 bastante bem torcido\u201d, descreve.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se sabe que esp\u00e9cie o construiu. Tamb\u00e9m n\u00e3o se sabe como conseguiu transportar aqueles filamentos longos, fr\u00e1geis e pouco naturais. O que existe, por agora, \u00e9 este vest\u00edgio: uma constru\u00e7\u00e3o animal feita com restos de uma tecnologia pensada para matar \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>As imagens come\u00e7aram a circular online, publicadas por militares ucranianos nas regi\u00f5es de Donetsk, Kharkiv e Zaporizhzhia. Eram fotografias e v\u00eddeos de ninhos encontrados perto da frente, feitos com materiais que at\u00e9 h\u00e1 pouco pertenciam ao circuito fechado da guerra.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram armas capturadas, nem destro\u00e7os de blindados, nem crateras abertas no ch\u00e3o. Eram outra coisa.\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1783207455_243_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>Pequenas arquiteturas de sobreviv\u00eancia, erguidas com aquilo que a guerra deixou dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia \u00e9 um territ\u00f3rio importante para aves selvagens, com zonas h\u00famidas, estepes, florestas, campos agr\u00edcolas e rotas migrat\u00f3rias. A guerra atravessa esses lugares como atravessa as cidades. Minas e muni\u00e7\u00f5es por explodir ficam no solo durante anos. Inc\u00eandios, ru\u00eddo, metais pesados, contamina\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o de habitats alteram ecossistemas que raramente entram nos comunicados militares. A natureza n\u00e3o aparece nos mapas da frente como uma for\u00e7a combatente, mas tamb\u00e9m \u00e9 atingida.<\/p>\n<p>O ninho de fibra \u00f3tica \u00e9 uma imagem pequena dentro desse dano maior. Talvez por isso seja t\u00e3o clara. As aves n\u00e3o distinguem tecnologia russa de tecnologia ucraniana. N\u00e3o sabem a quem pertencia o fio, nem para que alvo conduziu um drone.\u00a0<\/p>\n<p>Recolhem o que existe. Onde antes havia ramos, palha, penas, lama e folhas, h\u00e1 agora tamb\u00e9m cabos militares.<\/p>\n<p>Auke-Florian Hiemstra, bi\u00f3logo neerland\u00eas radicado em Leiden, estuda materiais artificiais usados por aves nos seus ninhos. J\u00e1 encontrou pl\u00e1stico, metal, objetos urbanos e at\u00e9 estruturas feitas com dispositivos concebidos para afastar p\u00e1ssaros. Mas estes ninhos vindos da Ucr\u00e2nia surpreenderam-no. \u201cVamos procurar vest\u00edgios de ADN ainda presentes no ninho para determinar quem realmente o construiu\u201d, explica. \u201cNunca vi ninhos como estes. E j\u00e1 vi muitos, muitos ninhos de p\u00e1ssaros.\u201d<\/p>\n<p>O estudo poder\u00e1 ajudar a identificar a esp\u00e9cie respons\u00e1vel e a perceber o efeito destes materiais. A resposta n\u00e3o \u00e9 evidente. A fibra \u00f3tica pode prender patas, asas ou crias. Pode ferir. Pode emaranhar. Mas tamb\u00e9m pode tornar o ninho mais resistente, dando-lhe uma estrutura firme onde antes haveria apenas mat\u00e9ria vegetal.<\/p>\n<p>\u201cO impacto da fibra \u00f3tica nas aves pode ser misto\u201d, admite Hiemstra, \u00e0 Reuters tamb\u00e9m. \u201cPode causar dano, se as aves ficarem presas, mas tamb\u00e9m pode benefici\u00e1-las, ajudando-as a construir um ninho forte.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 qualquer coisa de brutal nesta adapta\u00e7\u00e3o. A natureza n\u00e3o suspende os seus gestos porque os homens escolheram a guerra. As aves continuam a procurar abrigo, a juntar materiais, a preparar o lugar onde poder\u00e1 nascer outra vida.\u00a0<\/p>\n<p>Fazem-no no mesmo territ\u00f3rio onde a tecnologia procura ver, alcan\u00e7ar e destruir sem que o operador esteja perto. O fio que num dia guiou um drone pode, noutro, segurar ovos fr\u00e1geis.<\/p>\n<p>No museu de Kiev, o ninho entra assim para a cole\u00e7\u00e3o da guerra. N\u00e3o como trof\u00e9u, n\u00e3o como arma, n\u00e3o como prova de uma vit\u00f3ria. Mas como sinal discreto de uma invas\u00e3o mais profunda. A guerra chega aos corpos, \u00e0s casas, \u00e0s estradas, aos rios, aos campos e \u00e0s \u00e1rvores. Chega tamb\u00e9m ao gesto antigo de uma ave que constr\u00f3i. \u201cQuando documentamos este ninho, tamb\u00e9m estamos a documentar o impacto da guerra na natureza na Ucr\u00e2nia\u201d, sublinha Auke-Florian Hiemstra.<\/p>\n<p>O ninho cabe nas m\u00e3os. Dentro dele h\u00e1 erva seca e cabo. H\u00e1 uma primavera interrompida e h\u00e1 tecnologia militar. H\u00e1 p\u00e1ssaros que n\u00e3o sabem o nome dos pa\u00edses e fios que atravessaram a frente para obedecer a uma ordem humana.\u00a0<\/p>\n<p>Agora, torcidos numa forma circular, j\u00e1 n\u00e3o guiam drones.\u00a0<\/p>\n<p>Guardam, ou guardaram, a possibilidade de vida. E deixam uma pergunta dif\u00edcil no lugar onde quase tudo parece ter sido respondido pela for\u00e7a: que mundo nasce quando at\u00e9 os ninhos s\u00e3o feitos dos restos da guerra?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Na frente da ucraniana, a fibra \u00f3tica que guia drones atrav\u00e9s da guerra come\u00e7ou a surgir entran\u00e7ada em&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":440275,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[609,611,27,28,607,608,610,15,16,830,14,82,25,26,570,21,22,62,12,70856,13,19,20,23187,23,24,3813,839,17,18,840,29,30,31,63,64,65,3814],"class_list":["post-440274","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-alerta","tag-ao-minuto","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-direto","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-guerra","tag-headlines","tag-internacional","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-live","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mundo","tag-news","tag-ninhos","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-passaros","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-putin","tag-russia","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ucrania","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews","tag-zelensky"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=440274"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440274\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/440275"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=440274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=440274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=440274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}