{"id":440573,"date":"2026-07-05T10:55:14","date_gmt":"2026-07-05T10:55:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/440573\/"},"modified":"2026-07-05T10:55:14","modified_gmt":"2026-07-05T10:55:14","slug":"joao-bosco-80-busca-a-perfeicao-com-grandes-parcerias-04-07-2026-ilustrissima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/440573\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Bosco, 80, busca a perfei\u00e7\u00e3o com grandes parcerias &#8211; 04\/07\/2026 &#8211; Ilustr\u00edssima"},"content":{"rendered":"<p><strong>[RESUMO] <\/strong>Cr\u00edtico musical analisa a trajet\u00f3ria art\u00edstica de Jo\u00e3o Bosco, que completa 80 anos em 13 de julho. Da estreia em disco em 1972, no compacto que dividiu com o j\u00e1 consagrado Tom Jobim, ao mais recente \u00e1lbum, em 2024, o m\u00fasico empreendeu uma busca sem fim por excel\u00eancia musical, que se manifesta na escolha de seus parceiros de composi\u00e7\u00e3o e no perfeccionismo de suas performances, nas quais se instala a sua presen\u00e7a luminosa como cantor-violonista.<\/p>\n<p>Em uma premonit\u00f3ria entrevista dada a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2020\/10\/importante-pesquisador-da-musica-brasileira-zuza-homem-de-mello-morre-aos-87-anos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Zuza Homem de Mello<\/a> em 1967, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2021\/05\/vinicius-de-moraes-ganha-acervo-digital-com-milhares-de-documentos-a-mostra.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Vinicius de Moraes<\/a> declarou que seus parceiros poderiam ser &#8220;desde Jo\u00e3o Sebasti\u00e3o Bach, at\u00e9 um menino que encontrei outro dia em Ouro Preto, Jo\u00e3o Bosco&#8221;. Mais um octogen\u00e1rio ilustre, o canceriano Jo\u00e3o Bosco nasceu em 13 de julho de 1946, em Ponte Nova (MG).<\/p>\n<p>Haveriam de passar cinco anos at\u00e9 a estreia discogr\u00e1fica do &#8220;menino&#8221;: &#8220;Agnus Sei&#8221;, primeira can\u00e7\u00e3o da dupla Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc, sairia no c\u00e9lebre disco de bolso lan\u00e7ado em 1972 pelo<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/06\/lancado-ha-50-anos-pasquim-provocou-ditadura-e-costumes.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> jornal O Pasquim<\/a>.<\/p>\n<p>Bosco fora escolhido como o artista iniciante para ocupar o &#8220;lado B&#8221; do compacto cujo carro-chefe era nada menos que a primeira grava\u00e7\u00e3o de &#8220;\u00c1guas de Mar\u00e7o&#8221;, de um j\u00e1 consagrad\u00edssimo Tom Jobim. Desde ent\u00e3o, at\u00e9 chegar \u00e0 sabedoria ancestral que marca o CD<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/06\/joao-bosco-apresenta-o-brasil-de-opressores-e-oprimidos-em-boca-cheia-de-frutas.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> &#8220;Boca Cheia de Frutas&#8221;<\/a> (2024), foram 28 \u00e1lbuns, nos quais nenhuma nota \u00e9 desperdi\u00e7ada.<\/p>\n<p>Exatas duas d\u00e9cadas depois da estreia no disco de bolso, a data da grava\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum ao vivo &#8220;Jo\u00e3o Bosco Ac\u00fastico MTV&#8221; (28 de janeiro de 1992) merece ser celebrada como um dos mais importantes acontecimentos da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/musica\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">m\u00fasica<\/a> brasileira na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Entre outras preciosidades, traz aquela que seria a vers\u00e3o definitiva de &#8220;Jade&#8221; \u2014quem n\u00e3o se lembra da can\u00e7\u00e3o que foi trilha sonora da<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq1705200212.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> novela &#8220;O Salvador da P\u00e1tria&#8221;<\/a> (1989)?<\/p>\n<p>Em &#8220;Jade&#8221;, can\u00e7\u00e3o com m\u00fasica e letra de Jo\u00e3o Bosco, as frases sonoras come\u00e7am curtas, seguindo um motivo com apenas duas notas, si-si-l\u00e1-si. Com seus esdr\u00faxulos jogos de palavras \u2014&#8221;\u00e1qua-louca tara que tem im\u00e3&#8221;, &#8220;misterioso cubanac\u00e3&#8221;\u2014, o texto busca se situar t\u00e3o perto quanto poss\u00edvel do tato, das vibra\u00e7\u00f5es que saem do corpo do outro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma frase maior, gradual, toma forma: &#8220;Pedra que lasca seu brilho \/ E que queima no l\u00e1bio um quilate de mel \/ E que deixa na boca melante \/ Um gosto de l\u00edngua no c\u00e9u&#8221;, para explodir, sublime, em &#8220;Luz-talism\u00e3 [&#8230;]&#8221;.<\/p>\n<p>Esse ponto culminante \u2014plenitude amorosa?\u2014 traz exatamente as mesmas notas que iniciaram a can\u00e7\u00e3o (&#8220;Aqui, meu irm\u00e3o&#8221;: si-si-l\u00e1-si), por\u00e9m com outra harmonia: ao inv\u00e9s do contido mi menor, agora um luminoso acorde de sol maior.<\/p>\n<p>&#8220;Jade&#8221; aparece pela primeira vez em &#8220;Bosco&#8221; (1989), disco de transi\u00e7\u00e3o entre o momento \u00e1ureo da parceria com Aldir Blanc e o in\u00edcio de uma nova fase. Nesse \u00e1lbum, apenas a faixa final, &#8220;Cors\u00e1rio&#8221;, tem letra de Aldir.<\/p>\n<p>Desenvolvida paulatinamente ao longo da d\u00e9cada anterior, a rela\u00e7\u00e3o entre voz e viol\u00e3o estabelecida por Jo\u00e3o Bosco j\u00e1 havia gerado o emblem\u00e1tico &#8220;100\u00aa Apresenta\u00e7\u00e3o&#8221; (1983) e atingiria em &#8220;Ac\u00fastico&#8221; um n\u00edvel m\u00e1ximo de perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da performance, \u00e9 como se <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2019\/07\/morre-joao-gilberto-lenda-da-bossa-nova-aos-88-anos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Jo\u00e3o Gilberto<\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq13079906.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Baden Powell <\/a>fossem uma s\u00f3 pessoa, e ainda assinassem as composi\u00e7\u00f5es e arranjos. O show gravado exibe uma &#8220;m\u00fasica de c\u00e2mara solo&#8221;, dele consigo mesmo, trabalhada, polida em cada nuance.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 sequer uma nota trastejada no instrumento, n\u00e3o h\u00e1 a m\u00ednima hesita\u00e7\u00e3o vocal ou lapso de mem\u00f3ria. &#8220;Ac\u00fastico&#8221; \u00e9 o mais importante disco de voz e viol\u00e3o da m\u00fasica brasileira desde &#8220;Caymmi e seu Viol\u00e3o&#8221; (1959).<\/p>\n<p>O repert\u00f3rio do &#8220;JB Ac\u00fastico&#8221; traz v\u00e1rios cl\u00e1ssicos da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2020\/05\/aldir-blanc-em-entrevista-inedita-lembra-como-verteu-historias-reais-em-cancoes.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">parceria com Aldir Blanc<\/a>, rompida cinco anos antes; l\u00e1 est\u00e3o &#8220;Quilombo&#8221;, &#8220;Tiro de Miseric\u00f3rdia&#8221; e &#8220;Cors\u00e1rio&#8221;, al\u00e9m de parcerias com Martinho da Vila (&#8220;Odil\u00ea, Odil\u00e1&#8221;) e Capinan (&#8220;Papel Mach\u00ea&#8221;).<\/p>\n<p>O disco retoma, sobretudo, cinco das can\u00e7\u00f5es lan\u00e7adas no ano anterior, no espetacular CD &#8220;Zona de Fronteira&#8221; (1991), testemunho da verdadeira reinven\u00e7\u00e3o composicional estimulada pelos novos parceiros Antonio Cicero e Wally Salom\u00e3o: &#8220;Zona de Fronteira&#8221;, &#8220;Holofotes&#8221;, &#8220;Granito&#8221;, &#8220;Mem\u00f3ria da Pele&#8221; e &#8220;Trem Bala&#8221;.<\/p>\n<p>No &#8220;Ac\u00fastico&#8221;, &#8220;Jade&#8221; surge ap\u00f3s &#8220;Granito&#8221;, poema de Cicero que requer reprodu\u00e7\u00e3o integral: &#8220;H\u00e1 entre as pedras e as almas \/ Afinidades t\u00e3o raras, como vou dizer? \/ Elas t\u00eam cheiro de gente \/ Queira ou n\u00e3o queira, se sente \/ T\u00eam esse poder \/ Pedra e homem comovem \/ Sobem e descem, e somem \/ E ningu\u00e9m sabe bem \/ O homem desce dos c\u00e9us \/ E a pedra nasce de Deus \/ Que tudo cont\u00e9m \/ Mas o templo, eu faria assim \/ Puro de uma pedra bruta \/ De uma fruta bem calada, diminuta furta-cor \/ Do granito assim a cintilar no seu olhar&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 a vida das pedras, assim representada, que prepara o terreno para, sem mudar de faixa, evocar a &#8220;luz-talism\u00e3&#8221; emanada dos olhos verdes da pessoa amada em &#8220;Jade&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ostra grudada na pedra Brasil.&#8221; \u00c9 assim que Maur\u00edcio Kubrusly intitula um breve ensaio lan\u00e7ado em 1982 como encarte de LP na cole\u00e7\u00e3o de fasc\u00edculos, vendidos em bancas de jornais, &#8220;Hist\u00f3ria da M\u00fasica Popular Brasileira&#8221;, da editora Abril Cultural, com curadoria de T\u00e1rik de Souza e Zuza Homem de Mello. O t\u00edtulo do volume n\u00e3o deixa d\u00favidas: &#8220;Jo\u00e3o Bosco &amp; Aldir Blanc&#8221;.<\/p>\n<p>Bosco e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2020\/05\/morre-aldir-blanc-um-dos-maiores-compositores-brasileiros-por-coronavirus.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Aldir, morto pela Covid em 2020,<\/a> n\u00e3o foram apenas parceiros: formavam uma dupla, na acep\u00e7\u00e3o plena do termo. Mais fi\u00e9is do que Lennon e McCartney (ou<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2022\/11\/morre-erasmo-carlos-grande-icone-do-rock-nacional-e-da-jovem-guarda-aos-81-anos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Roberto e Erasmo Carlos<\/a>), que tiveram Bosco e Aldir compuseram juntos a maioria absoluta das can\u00e7\u00f5es lan\u00e7adas com estrondoso sucesso pelo pr\u00f3prio Bosco ao longo de dez anos, desde o LP de estreia, em 1973.<\/p>\n<p>Isso sem mencionar as vers\u00f5es de outros int\u00e9rpre-tes, como<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-100-anos\/2020\/03\/fiquei-com-crise-de-mulher-maravilha-disse-elis-regina-a-folha-em-1979.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Elis Regina<\/a>, que sozinha gravou mais de uma d\u00fazia de composi\u00e7\u00f5es assinadas pela dupla.<\/p>\n<p>V\u00e1rios desses primeiros trabalhos fonogr\u00e1ficos s\u00e3o integralmente dedicados a composi\u00e7\u00f5es dos dois, como o LP &#8220;Ca\u00e7a \u00e0 Raposa&#8221; (1975), \u00e1lbum em que Bosco encontra sua voz po\u00e9tica pr\u00f3pria ap\u00f3s um instigante disco de estreia onde a vertente mineira advinda do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2025\/11\/como-milton-nascimento-lo-borges-e-a-molecada-de-minas-fizeram-uma-revolucao.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Clube da Esquina<\/a> ainda era forte.<\/p>\n<p>No mesmo fasc\u00edculo de 1982, o texto biogr\u00e1fico, o n\u00e3o assinado &#8220;Onde o Ronco da Cu\u00edca Soa Fome&#8221;, fala da dupla como &#8220;um se acariocando, outro aprendendo coisas de mineiro; a parceria fluindo, crescendo em repert\u00f3rio e qualidade&#8221;.<\/p>\n<p>Basta citarmos que &#8220;Ca\u00e7a \u00e0 Raposa&#8221; apresenta, sozinho, can\u00e7\u00f5es como &#8220;O Mestre Sala dos Mares&#8221;, &#8220;De Frente pro Crime&#8221;, &#8220;Dois pra L\u00e1, Dois pra C\u00e1&#8221;, &#8220;Kid Cavaquinho&#8221; e a aula magna de Aldir que \u00e9 &#8220;Escadas da Penha&#8221;:<strong> &#8220;<\/strong>Nas escadas da Penha, penou \/ No cotoco de vela, velou \/ A doideira da chama, chamou \/ O seu anjo-de-guarda, guardou \/ O remorso num canto, cantou \/ A mentira da nega, negou \/ O ci\u00fame que mata, matou \/ O amigo de ala, t\u00e1 l\u00e1&#8221;, onde a hist\u00f3ria s\u00f3 se revela inteira quando o texto \u00e9 cantado retrogradamente: &#8220;O amigo de ala, matou \/ O ci\u00fame que mata, negou&#8221; \u2014e assim para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>A consist\u00eancia art\u00edstica segue nos discos seguintes, &#8220;Galos de Briga&#8221; (1976), que inclui &#8220;Incompatibilidade de G\u00eanios&#8221;, &#8220;O Ronco da Cu\u00edca&#8221; e &#8220;Rancho da Goiabada&#8221;, e &#8220;Tiro de Miseric\u00f3rdia&#8221; (1977), que mergulha mais e mais na africanidade do samba-choro tradicional, o que \u00e9 ressaltado pela presen\u00e7a dos mestres violonistas Meira e Dino 7 Cordas, do flautista Altamiro Carrilho, do clarinetista Abel Ferreira e do trombonista Raul de Barros.<strong> <\/strong><\/p>\n<p>No \u00e1lbum seguinte, &#8220;Linha de passe&#8221; (1979), Raphael Rabello imprime seu viol\u00e3o de 7 cordas na faixa t\u00edtulo, e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/07\/morre-joao-donato-um-dos-precursores-da-bossa-nova-aos-88-anos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Jo\u00e3o Donato<\/a> toca piano em &#8220;Sudoeste\u2019.<\/p>\n<p>Muitas vezes salientada, a fus\u00e3o entre lirismo e dureza da realidade, a medula da poesia de Aldir, amplifica-se com naturalidade na m\u00fasica de Bosco, em que o registro sublime se mescla \u00e0 estranhaliza\u00e7\u00e3o das coisas simples do cotidiano: a &#8220;lua da Zona Norte&#8221; vista como a &#8220;dona de um bordel&#8221;; a transa proibida, revelada quando a luz \u00e9 acesa; ou, ainda, a foto de um gol estampada no jornal que cobre o rosto de um corpo ca\u00eddo no ch\u00e3o na madrugada da periferia.<\/p>\n<p>Se a brutalidade do real surge predominantemente em sambas com todas as variedades r\u00edtmicas, os dilemas do desejo emergem, desde que Elis cantou &#8220;Dois pra L\u00e1, Dois pra C\u00e1&#8221;, no decadentismo harmonicamente sofisticado dos boleros.<\/p>\n<p>A po\u00e9tica de &#8220;gl\u00f3rias \u00e0s lutas ingl\u00f3rias&#8221; encontraria em &#8220;Na\u00e7\u00e3o&#8221; (1982), composi\u00e7\u00e3o de Aldir, Bosco e Paulo Em\u00edlio, um ponto alto de complexidade e excel\u00eancia.<\/p>\n<p>Antisamba exalta\u00e7\u00e3o, &#8220;Na\u00e7\u00e3o&#8221; junta o candombl\u00e9, a fome, a doen\u00e7a, a \u00e1gua contaminada, as queimadas das florestas e o abandono do povo preto ao Brasil visto como &#8220;aquarela&#8221;: &#8220;A minha cor \u00e9 o arco-\u00edris, minha fome \u00e9 tanta \/ Planta, flor irm\u00e3 da bandeira \/ A minha sina \u00e9 verde-amarela feito a bananeira&#8221;.<\/p>\n<p>Essa l\u00edrica, no entanto, come\u00e7aria a encontrar certo limite ao longo dos anos 1980. A escuta retrospectiva da discografia de Jo\u00e3o Bosco revela uma busca sem fim por excel\u00eancia musical, que se manifesta na escolha dos arranjadores, dos instrumentistas com quem toca, e no perfeccionismo das performances, onde se instala a sua presen\u00e7a luminosa como cantor-violonista.<\/p>\n<p>Em um determinado ponto, simbolizado por &#8220;Jade&#8221;, a musicalidade musical da pr\u00f3pria m\u00fasica \u00e9 que parece guiar os rumos da can\u00e7\u00e3o, e a exigir, ela mesma, a sua po\u00e9tica. Jo\u00e3o Bosco passa a criar frases vocais cada vez mais extensas; explora o falsete como efeito expressivo, sim, mas tamb\u00e9m como necessidade instrumental de amplia\u00e7\u00e3o da tessitura.<\/p>\n<p>O cantor, desde sempre impec\u00e1vel na afina\u00e7\u00e3o, submete sua voz peculiar a experimentos, inventa onomatopeias, improvisa, ro\u00e7a a pele do som. Interage com o viol\u00e3o de forma assombrosa, come\u00e7ando onde <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/07\/por-que-afinal-joao-gilberto-foi-um-divisor-de-aguas.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Jo\u00e3o Gilberto<\/a> havia parado. Como apontado j\u00e1 em &#8220;Cabe\u00e7a de Nego&#8221; (1986), m\u00fasicas se descolam de letras.<\/p>\n<p>Ritmicamente, seu viol\u00e3o \u2014sonoro, limpo, exuberante\u2014 atinge os mais altos n\u00edveis da m\u00fasica instrumental para cordas dedilhadas. A hipn\u00f3tica batida de samba \u2014hoje parte da pedagogia do internacionalmente chamado &#8220;viol\u00e3o brasileiro&#8221;, que youtubers de todos os tipos tentam ensinar em passo a passo\u2014 tem nuances assim\u00e9tricas, com o som que evoca o bumbo variando nas antecipa\u00e7\u00f5es do polegar da m\u00e3o direita.<\/p>\n<p>Paulatinamente, haver\u00e1 a incorpora\u00e7\u00e3o, ao viol\u00e3o, de camadas altamente complexas do pop, do blues e do jazz, que, ap\u00f3s a ruptura com Aldir, desaguariam no paradigm\u00e1tico \u00e1lbum &#8220;Zona de Fronteira&#8221;, as parcerias com Cicero e Salom\u00e3o, e no &#8220;Ac\u00fastico MTV&#8221;.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc ficar\u00e3o muito tempo sem fazer m\u00fasica juntos, mas, tamb\u00e9m, como seguir compondo ap\u00f3s <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/brasil\/fc2408200918.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;O B\u00eabado e a Equilibrista&#8221;<\/a>? Que renova\u00e7\u00e3o seria poss\u00edvel depois de &#8220;Na\u00e7\u00e3o&#8221;?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/o-que-foi-a-ditadura\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> final da ditadura<\/a>, com a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/12\/espirito-da-constituicao-de-1988-esta-se-degradando-escreve-professor.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Constitui\u00e7\u00e3o de 1988<\/a> e a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, nem todos os artistas que haviam erigido suas carreiras em meio \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o do regime autorit\u00e1rio conseguiram se reinventar.<\/p>\n<p>Conforme defendi na Ilustr\u00edssima <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2024\/06\/chico-buarque-chega-aos-80-no-auge-musical-mas-menos-idolo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">em artigo publicado em 2024,<\/a> um dos casos mais bem-sucedidos foi o de Chico Buarque, cuja carreira madura ganhou amplitude tem\u00e1tica e refinamento po\u00e9tico-musical.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Bosco sempre foi impulsionado pelo trabalho profundo e recorrente com parceiros, tendo interagido, ao longo da carreira, com um n\u00famero bastante restrito de letristas. Por outro lado, o disco de 1991 com Antonio Cicero e Wally Salom\u00e3o foi um caso isolado.<\/p>\n<p>Fruto da colabora\u00e7\u00e3o entre artistas no auge de suas trajet\u00f3rias, disse de uma s\u00f3 vez tudo o que havia a dizer. O artista chegou \u00e0 virada do s\u00e9culo, portanto, com a necessidade de se reinventar mais uma vez, e o fez consistentemente a partir da obstinada <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq171207.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">parceria com Francisco Bosco, seu filho<\/a>.<\/p>\n<p>Intelectual aberto a m\u00faltiplas vertentes \u2014filosofia, antropologia, ci\u00eancia pol\u00edtica, teoria liter\u00e1ria, psican\u00e1lise\u2014, Francisco come\u00e7a a compor com o pai ainda muito jovem. Tal como os primeiros trabalhos com Aldir Blanc, \u00e1lbuns como &#8220;As Mil e uma Aldeias&#8221; (1997),<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq0408200015.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> &#8220;Na Esquina&#8221; <\/a>(2000) e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/acontece\/ac1904200301.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Malabaristas do Sinal Vermelho&#8221;<\/a> (2002) s\u00e3o praticamente inteiros com m\u00fasicas feitas pela dupla.<\/p>\n<p>Apesar de um car\u00e1ter ainda um tanto experimental, vale a pena revisit\u00e1-los, e can\u00e7\u00f5es como &#8220;Mama Palavra&#8221;, &#8220;Metamorfoses&#8221;, &#8220;Ditodos&#8221;, &#8220;Na Esquina&#8221; e &#8220;Enquanto Espero&#8221; chegaram a ter, merecidamente, um espa\u00e7o importante em shows e discos ao vivo gravados (e lan\u00e7ados tamb\u00e9m no formato DVD) na primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Mais uma vez, a m\u00fasica de Jo\u00e3o Bosco teve de mudar para se acomodar a uma nova po\u00e9tica, por\u00e9m agora em um processo de cria\u00e7\u00e3o paciente, que se desenvolveu aos poucos. Seu amadurecimento pleno ocorre no extraordin\u00e1rio \u00e1lbum <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq1507200910.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;N\u00e3o Vou pro C\u00e9u, Mas J\u00e1 N\u00e3o Vivo no Ch\u00e3o&#8221;<\/a> (2009), que marca tamb\u00e9m o retorno de algumas parcerias com Aldir e faixas com letras de Carlos Renn\u00f3 e Nei Lopes.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse momento, ap\u00f3s uma d\u00e9cada de trabalho, que pai e filho encontram uma naturalidade expressiva, rica e exuberante, manifesta em can\u00e7\u00f5es como &#8220;Perfei\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;Desnortes&#8221;, &#8220;Tanajura&#8221;, &#8220;Mentiras de Verdade&#8221;, &#8220;Alma Barroca&#8221; e &#8220;Tanto Faz&#8221;, esta \u00faltima uma das melhores can\u00e7\u00f5es de toda a discografia de Jo\u00e3o Bosco.<strong> <\/strong><\/p>\n<p>Poeticamente, Francisco conseguir\u00e1 entrela\u00e7ar modernidade e singeleza, no improv\u00e1vel ponto de intersec\u00e7\u00e3o entre <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2022\/11\/voce-amadurece-e-descobre-que-nao-sabe-nada-diz-paulinho-da-viola-80.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Paulinho da Viola<\/a>,<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2024\/12\/como-foram-ultimos-dias-de-antonio-cicero-antes-de-suicidio-assistido-na-suica.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Antonio Cicero<\/a> e outro <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2024\/06\/chico-buarque-cantou-traumas-do-brasil-da-ditadura-a-bolsonaro.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Chico, o Buarque<\/a>.<\/p>\n<p>Tanto que, musicalmente, &#8220;Tanto Faz&#8221; abre caminho para &#8220;Sinh\u00e1&#8221;, a (at\u00e9 aqui) derradeira parceria de Jo\u00e3o Bosco com Chico Buarque, e que passaria a integrar os shows de ambos a partir da d\u00e9cada de 2010. Recorde-se que, antes disso, Chico e Bosco haviam feito juntos apenas a rosiana &#8220;Mano a Mano&#8221; (1984).<\/p>\n<p>Do ponto de vista musical, a obra madura de Jo\u00e3o Bosco com Francisco n\u00e3o se compromete com este ou aquele g\u00eanero, j\u00e1 que pode partir de modinhas e valsas, da bossa nova, dos tra\u00e7os caribenhos e at\u00e9 mesmo do samba, rumo a uma can\u00e7\u00e3o essencial \u2014quando o r\u00f3tulo estil\u00edstico deixa de ser o assunto principal para dar espa\u00e7o a uma dic\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica nova, serena, traduzida em um desenvolvimento mot\u00edvico-tem\u00e1tico sem cortes, e que permite a Francisco at\u00e9 mesmo comentar, metalinguisticamente, a produ\u00e7\u00e3o anterior do pai, aquele conjunto de m\u00fasicas que ele e &#8220;a torcida do Flamengo&#8221; cresceram cantando.<\/p>\n<p>De certo modo, com seus principais parceiros anteriores \u2014Aldir Blanc, Salom\u00e3o e Cicero\u2014, Jo\u00e3o Bosco era musicalmente provocado pelos poetas, e sua &#8220;m\u00fasica popular cantada&#8221; se justapunha, provocante, aos versos.<strong> <\/strong><\/p>\n<p>Nos melhores momentos com Francisco, por outro lado, a arte cancionista vira uma coisa s\u00f3, e por isso n\u00e3o faz sentido transcrever a letra de &#8220;Tanto Faz&#8221; sem suas curvas mel\u00f3dicas hesitantes. Francisco n\u00e3o \u00e9 um poeta que faz can\u00e7\u00f5es: sua poesia emerge do artesanato h\u00edbrido, implicado, como j\u00e1 se anunciara em &#8220;Jade&#8221;, por melodia e harmonia.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui s\u00e3o mais de 50 m\u00fasicas da parceria pai-filho, gravadas por Jo\u00e3o Bosco ao longo de um per\u00edodo de quase 30 anos, isto \u00e9, trata-se de um trabalho muito mais longevo do que a origin\u00e1ria dupla com Aldir Blanc.<strong> <\/strong><\/p>\n<p>Que essas pe\u00e7as sejam menos conhecidas do que os sucessos dos anos 1970 deve-se mais \u00e0s mudan\u00e7as do mercado musical do que \u00e0 sua qualidade ou n\u00edvel art\u00edstico.<\/p>\n<p>Muitos dos discos lan\u00e7ados por Jo\u00e3o Bosco nas \u00faltimas d\u00e9cadas trazem colabora\u00e7\u00f5es fecundas com instrumentistas de forma\u00e7\u00e3o jazz\u00edstica, como os guitarristas e arranjadores Nelson Faria e Ricardo Silveira, a NDR Bigband de Hamburgo, o<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/acontece\/ac0601200001.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Trio Madeira Brasil,<\/a> a clarinetista e saxofonista Anat Cohen e, especialmente, o virtuose da bateria Kiko Freitas, que consegue encaixar e amplificar, com as baquetas, cada movimento de polegar, indicador m\u00e9dio e anular da m\u00e3o direita de Bosco.<\/p>\n<p>No mesmo texto de 1982 mencionado acima, Kubrusly escreve: &#8220;Toca de tatu, lingui\u00e7a e paio, boi zebu \/ Rabada com angu, rabo de saia \/ Naco de peru, lombo de porco com tutu \/ E bolo de fub\u00e1, barriga-d\u2019\u00e0gua: se quiser descobrir como tal amontoado de comilan\u00e7as pode ser transformado em magn\u00edficas can\u00e7\u00f5es, confira ouvindo \u2018Linha de Passe\u2019&#8221;.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m citando e comentando &#8220;Linha de Passe&#8221;, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2022\/05\/lava-jato-pt-nova-direita-e-identitarios-questionaram-direito-e-instituicoes-diz-ensaista.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Francisco Bosco<\/a> resume, em <strong>&#8220;<\/strong>Abric\u00f3 de Macaco&#8221; (2020), o interesse perene da arte de Jo\u00e3o Bosco: &#8220;Babalua\u00ea, rabo de arraia e confus\u00e3o [&#8230;] \/ Vida, tudo o que existe \/ Desde o firmamento \/ Ao ch\u00e3o&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"[RESUMO] Cr\u00edtico musical analisa a trajet\u00f3ria art\u00edstica de Jo\u00e3o Bosco, que completa 80 anos em 13 de julho.&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":440574,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[145],"tags":[70881,9000,726,211,210,114,115,236,70880,47235,6050,150,32,33],"class_list":["post-440573","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-celebridades","tag-bebel-gilberto","tag-bossa-nova","tag-brasil","tag-celebridades","tag-celebrities","tag-entertainment","tag-entretenimento","tag-folha","tag-joao-bosco","tag-joao-gilberto","tag-mpb","tag-musica","tag-portugal","tag-pt"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116867008182158888","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440573","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=440573"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440573\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/440574"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=440573"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=440573"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=440573"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}