{"id":44422,"date":"2025-08-25T15:14:18","date_gmt":"2025-08-25T15:14:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/44422\/"},"modified":"2025-08-25T15:14:18","modified_gmt":"2025-08-25T15:14:18","slug":"o-legado-invisivel-de-2-mil-testes-nucleares-80-anos-de-impactos-que-continuam-ainda-a-ter-efeitos-e-a-marcar-geracoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/44422\/","title":{"rendered":"O legado invis\u00edvel de 2 mil testes nucleares: 80 anos de impactos que continuam (ainda) a ter efeitos e a marcar gera\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>  <a href=\"https:\/\/www.euromaster.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">&#13;<br \/>\n    <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1756038553_40_Automonitor_900x150-1.jpg\" alt=\"Euromaster\" style=\"max-width: 900px; width: 100%; height: auto; display: block; margin: 0 auto;\"\/>&#13;<br \/>\n  <\/a><\/p>\n<p>Mais de duas mil armas nucleares foram detonadas nos \u00faltimos 80 anos, e os efeitos desses testes continuam a sentir-se em diferentes partes do mundo. Da destrui\u00e7\u00e3o imediata em Hiroshima e Nagasaki \u00e0s doen\u00e7as prolongadas em comunidades vizinhas de locais de ensaios nucleares, milhares de pessoas ainda vivem com as consequ\u00eancias da era at\u00f3mica.<\/p>\n<p>Nos anos 1950 e 60, em Salt Lake City, no estado norte-americano do Utah, crian\u00e7as como Mary Dickson eram ensinadas a \u201cbaixar e cobrir-se\u201d em caso de ataque nuclear. O que n\u00e3o sabiam \u00e9 que, a poucos quil\u00f3metros dali, no Nevada, os Estados Unidos realizavam testes nucleares atmosf\u00e9ricos.<\/p>\n<p>\u201cLembro-me de pensar: \u2018Isso n\u00e3o nos vai salvar de uma bomba\u2019\u201d, contou Dickson \u00e0 CNN. Hoje, a dramaturga e ativista reconhece-se como uma das chamadas downwinders \u2013 pessoas expostas \u00e0 radia\u00e7\u00e3o dos testes realizados no deserto do Nevada, cujo vento transportava a radioatividade at\u00e9 \u00e0s comunidades vizinhas.<\/p>\n<p>Dickson foi diagnosticada com cancro da tiroide; a irm\u00e3 mais velha morreu de l\u00fapus aos 40 anos; a irm\u00e3 mais nova luta agora contra um cancro intestinal metastizado; e as sobrinhas enfrentam problemas de sa\u00fade. \u201cCheguei a contar 54 pessoas no meu bairro de inf\u00e2ncia, num raio de cinco quarteir\u00f5es, que tiveram cancros, doen\u00e7as autoimunes, malforma\u00e7\u00f5es cong\u00e9nitas ou abortos espont\u00e2neos\u201d, relatou.<\/p>\n<p>Segundo a Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental dos EUA, \u201ca exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 radia\u00e7\u00e3o aumenta a probabilidade de desenvolver cancro, sendo o risco proporcional \u00e0 dose recebida\u201d.<\/p>\n<p>Para Dickson, os efeitos v\u00e3o al\u00e9m da sa\u00fade f\u00edsica: \u201cO dano psicol\u00f3gico n\u00e3o desaparece. Passamos a vida a temer que cada dor ou cada caro\u00e7o signifique que o cancro voltou\u201d. Como resumiu, \u201ca Guerra Fria para n\u00f3s nunca acabou\u201d.<\/p>\n<p><strong>Testes em todo o mundo<\/strong><br \/>Entre 1945 e 1996, os Estados Unidos, Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Reino Unido, Fran\u00e7a e China realizaram mais de 2.000 testes nucleares, em nome da seguran\u00e7a nacional e da corrida ao armamento. Mais tarde, \u00cdndia, Paquist\u00e3o e Coreia do Norte juntaram-se \u00e0 lista, sendo este \u00faltimo o \u00fanico pa\u00eds a realizar testes no s\u00e9culo XXI \u2013 o mais recente em 2017.<\/p>\n<p>Os testes foram conduzidos em regi\u00f5es remotas, frequentemente em territ\u00f3rios colonizados. Os EUA testaram no Nevada e nas Ilhas Marshall; a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, no Cazaquist\u00e3o e em Novaya Zemlya; o Reino Unido, na Austr\u00e1lia e em Kiritimati; a Fran\u00e7a, na Arg\u00e9lia e na Polin\u00e9sia Francesa; e a China, no deserto de Lop Nur.<\/p>\n<p>No Cazaquist\u00e3o, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica realizou mais de 450 testes em Semipalatinsk, entre 1949 e 1989. \u201cMuitos dos meus familiares morreram aos 40 ou 50 anos, e s\u00f3 mais tarde percebi porqu\u00ea\u201d, explicou Aigerim Seitenova, especialista em justi\u00e7a nuclear e igualdade de g\u00e9nero. Para ela, o document\u00e1rio que produziu sobre o impacto intergeracional na sa\u00fade das mulheres foi \u201cum processo de cura\u201d.<\/p>\n<p>Quando exibiu o filme em Hiroshima, traduzido para japon\u00eas, percebeu que \u201cas experi\u00eancias do povo cazaque n\u00e3o s\u00e3o \u00fanicas. Partilhamos hist\u00f3rias semelhantes com a Polin\u00e9sia Francesa, as Ilhas Marshall e a Austr\u00e1lia\u201d.<\/p>\n<p><strong>Consequ\u00eancias ambientais e sociais<\/strong><br \/>As consequ\u00eancias ultrapassam a sa\u00fade humana. Nas Ilhas Marshall, entre 1946 e 1958, os EUA realizaram 67 testes, com um poder explosivo equivalente a 7.232 bombas de Hiroshima. Cinco ilhas foram parcial ou totalmente destru\u00eddas, e algumas zonas continuam contaminadas.<\/p>\n<p>Ivana Nikoli\u0107 Hughes, investigadora da Universidade de Columbia, explica que is\u00f3topos radioativos como o C\u00e9sio-137 continuam presentes nos alimentos. \u201cEncontr\u00e1mos valores muito elevados em cocos e em caranguejos de coco, que acumulam radia\u00e7\u00e3o devido \u00e0 cadeia alimentar\u201d, disse.<\/p>\n<p>Grande parte dos res\u00edduos foi depositada no atol de Enewetak, num crater sem impermeabiliza\u00e7\u00e3o, coberto por uma c\u00fapula de bet\u00e3o, conhecida como Runit Dome. As Na\u00e7\u00f5es Unidas j\u00e1 manifestaram preocupa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 seguran\u00e7a desta estrutura.<\/p>\n<p>Estudos do Instituto Nacional do Cancro dos EUA (NCI) estimaram, em 1997, que os testes atmosf\u00e9ricos em Nevada poderiam ter causado entre 11.300 e 212.000 casos adicionais de cancro da tiroide, embora a revis\u00e3o posterior aponte para a faixa mais baixa dessa estimativa. Outros estudos no Cazaquist\u00e3o revelaram taxas de mortalidade por cancro e infantil superiores \u00e0 m\u00e9dia nacional durante o per\u00edodo mais intenso dos ensaios.<\/p>\n<p><strong>Compensa\u00e7\u00f5es insuficientes<\/strong><br \/>O reconhecimento oficial e as compensa\u00e7\u00f5es variam consoante os pa\u00edses. Nos EUA, o Radiation Exposure Compensation Act (RECA), criado em 1990, j\u00e1 atribuiu mais de 1,3 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares a mais de 27 mil pessoas, incluindo downwinders. Mas o processo burocr\u00e1tico exige documentos com 50 anos, tornando os pedidos dif\u00edceis.<\/p>\n<p>O Cazaquist\u00e3o incluiu 1,2 milh\u00f5es de pessoas no seu esquema de compensa\u00e7\u00f5es. J\u00e1 as Ilhas Marshall receberam indemniza\u00e7\u00f5es dos EUA, consideradas muito abaixo da verdadeira dimens\u00e3o dos danos.<\/p>\n<p>Fran\u00e7a s\u00f3 em 2010 admitiu a liga\u00e7\u00e3o entre os seus testes e problemas de sa\u00fade na Arg\u00e9lia e na Polin\u00e9sia Francesa, mas apenas em 2021 metade dos requerentes recebeu compensa\u00e7\u00e3o. Nesse ano, o presidente Emmanuel Macron reconheceu que os testes \u201cn\u00e3o foram limpos\u201d e que Fran\u00e7a tinha \u201cuma d\u00edvida\u201d para com os polin\u00e9sios, sem contudo apresentar um pedido de desculpa.<\/p>\n<p>No Reino Unido, os veteranos dos testes s\u00e3o encaminhados para esquemas gerais de pens\u00f5es militares, algo que as associa\u00e7\u00f5es consideram insuficiente. O Minist\u00e9rio da Defesa brit\u00e2nico disse \u00e0 CNN estar \u201ccomprometido em ouvir as preocupa\u00e7\u00f5es dos veteranos\u201d e a investigar quest\u00f5es m\u00e9dicas pendentes.<\/p>\n<p>Para Togzhan Kassenova, investigadora do Carnegie Endowment for International Peace, a quest\u00e3o nuclear \u201cn\u00e3o \u00e9 um problema do passado\u201d. Como sublinhou, \u201cmuitas pessoas ainda est\u00e3o a pagar o pre\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Oito d\u00e9cadas ap\u00f3s Hiroshima e Nagasaki, e d\u00e9cadas depois da fase mais intensa de testes, a heran\u00e7a da era nuclear continua a manifestar-se em doen\u00e7as, cicatrizes psicol\u00f3gicas, ecossistemas contaminados e comunidades deslocadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#13; &#13; Mais de duas mil armas nucleares foram detonadas nos \u00faltimos 80 anos, e os efeitos desses&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":44423,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,62,12,13,19,20,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-44422","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-mundo","18":"tag-news","19":"tag-noticias","20":"tag-noticias-principais","21":"tag-noticiasprincipais","22":"tag-principais-noticias","23":"tag-principaisnoticias","24":"tag-top-stories","25":"tag-topstories","26":"tag-ultimas","27":"tag-ultimas-noticias","28":"tag-ultimasnoticias","29":"tag-world","30":"tag-world-news","31":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44422"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44422\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/44423"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}