{"id":448010,"date":"2026-07-12T21:22:11","date_gmt":"2026-07-12T21:22:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/448010\/"},"modified":"2026-07-12T21:22:11","modified_gmt":"2026-07-12T21:22:11","slug":"novo-estudo-indica-por-que-a-antartica-congelou-milhoes-de-anos-antes-do-artico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/448010\/","title":{"rendered":"Novo estudo indica por que a Ant\u00e1rtica congelou milh\u00f5es de anos antes do \u00c1rtico"},"content":{"rendered":"\n<p> Thomas Gernon \u00e9 professor de ci\u00eancias da Terra e do Clima na Universidade de Southampton <\/p>\n<p>A Ant\u00e1rtica Oriental abriga o maior manto de gelo da Terra, com \u00e1gua suficiente para elevar o n\u00edvel global do mar em 52 metros caso derretesse totalmente. Mas h\u00e1 d\u00e9cadas que os cientistas se perguntam como e por que esse manto de gelo se formou.<\/p>\n<p>Na verdade, s\u00e3o dois mist\u00e9rios interligados. Primeiro, a Ant\u00e1rtica foi coberta de gelo h\u00e1 cerca de 34 milh\u00f5es de anos \u2014 um per\u00edodo conhecido como transi\u00e7\u00e3o do Eoceno para o Oligoceno \u2014, enquanto a regi\u00e3o do \u00c1rtico permaneceu <a href=\"https:\/\/agupubs.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1029\/2024PA004872\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">praticamente livre de gelo por aproximadamente mais 25 milh\u00f5es de anos<\/a>.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, os n\u00edveis de di\u00f3xido de carbono na atmosfera estavam caindo drasticamente e desempenharam um papel importante na queda das temperaturas. Se esse fosse o \u00fanico fator por tr\u00e1s da transi\u00e7\u00e3o, no entanto, ambos os polos deveriam ter se resfriado ao mesmo tempo. <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/full\/10.1126\/science.1166368\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Mas isso n\u00e3o aconteceu<\/a>.<\/p>\n<p>Isso significa que provavelmente houve outro fator dando uma partida inicial ao congelamento da Ant\u00e1rtica.<\/p>\n<p>O segundo mist\u00e9rio \u00e9 que as temperaturas da superf\u00edcie do mar no <a href=\"https:\/\/www.pnas.org\/doi\/10.1073\/pnas.2003914117\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Oceano Ant\u00e1rtico permaneceram inesperadamente altas<\/a> por cerca de 10 milh\u00f5es de anos ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o do manto de gelo da Ant\u00e1rtida Oriental. Isso n\u00e3o \u00e9 o que esperar\u00edamos ver se este manto de gelo tivesse se formado exclusivamente em resposta ao resfriamento global. Nesse caso, os oceanos ao redor tamb\u00e9m deveriam ter esfriado consideravelmente.<\/p>\n<p>Meu <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.adz6758\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">novo estudo<\/a>, realizado em parceria com colegas do Reino Unido e da Alemanha e publicado na revista Science, aponta para uma resposta enterrada nas profundezas do manto de gelo: as montanhas da Ant\u00e1rtica e as for\u00e7as geol\u00f3gicas de a\u00e7\u00e3o lenta que as formaram.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p>Um continente em movimento<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria come\u00e7a h\u00e1 cerca de 170 milh\u00f5es de anos, quando a Ant\u00e1rtica e a \u00c1frica estavam unidas pela \u00faltima vez como parte do <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S1342937X13002165\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">supercontinente de Gondwana<\/a>. Sua separa\u00e7\u00e3o colocou a Ant\u00e1rtica em uma trajet\u00f3ria rumo ao Polo Sul \u2013 e essa ruptura maci\u00e7a tamb\u00e9m desencadeou uma cadeia de eventos bem abaixo da superf\u00edcie.<\/p>\n<p>A \u00c1frica e a Ant\u00e1rtica se separaram durante o per\u00edodo Jur\u00e1ssico, h\u00e1 cerca de 170 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>Quando os continentes se separam, o material quente do <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/topics\/mantle-2541\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">manto terrestre<\/a> sobe por baixo deles, esfria e, em seguida, afunda. Esse movimento girat\u00f3rio desestabiliza a base do continente vizinho, desencadeando uma s\u00e9rie de instabilidades semelhantes \u00e0s de uma l\u00e2mpada de lava que removem peda\u00e7os de suas ra\u00edzes profundas, um por um.<\/p>\n<p>Essas perturba\u00e7\u00f5es, chamadas de <a href=\"https:\/\/www.science.org\/content\/article\/breakthrough-2024\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">\u201condas do manto\u201d<\/a>, varrem a regi\u00e3o abaixo dos continentes ao longo de milh\u00f5es de anos, percorrendo mais de 1.000 quil\u00f4metros \u00e0 medida que se propagam pela rocha quente e viscosa sob a massa continental.<\/p>\n<p>Minha equipe de pesquisa descobriu esse fen\u00f4meno h\u00e1 v\u00e1rios anos. Em dois artigos publicados na revista cient\u00edfica Nature, reunimos v\u00e1rias linhas de evid\u00eancia independentes que apontavam todas para a mesma conclus\u00e3o: as ondas do manto podem desencadear <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/weve-discovered-how-diamonds-make-their-way-to-the-surface-and-it-may-tell-us-where-to-find-them%20-210421\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas carregando diamantes<\/a> \u2013 explos\u00f5es violentas que lan\u00e7am magma das profundezas dos continentes, a mais de 150 quil\u00f4metros abaixo da superf\u00edcie.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m descobrimos que essas ondas do manto podem gerar <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/we-discovered-a-new-way-mountains-are-formed-from-mantle-waves-inside-the-earth-236910\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">pulsos inexplic\u00e1veis de eleva\u00e7\u00e3o do terreno<\/a> longe das zonas de separa\u00e7\u00e3o (rift) onde o continente se fragmentou originalmente.<\/p>\n<p>Usando modelos computacionais que simulam como paisagens evoluem ao longo de dezenas de milh\u00f5es de anos, conseguimos agora tra\u00e7ar o efeito que essas ondas poderiam ter causado na Ant\u00e1rtica Oriental. Perto da costa, a separa\u00e7\u00e3o formou uma estrutura imponente semelhante a um penhasco, chamada escarpa, com mais de dois quil\u00f4metros de altura.<\/p>\n<p>Centenas de quil\u00f4metros no interior, a onda do manto arrancou rochas nas profundezas do continente. Como um bal\u00e3o de ar quente que sobe ap\u00f3s soltar seu lastro, a terra acima se elevou lentamente, criando um vasto planalto e desencadeando uma onda de eros\u00e3o por toda a paisagem.<\/p>\n<p>A eleva\u00e7\u00e3o n\u00e3o parou por a\u00ed. Ela continuou migrando para o interior, levando cerca de 100 milh\u00f5es de anos para atingir as montanhas Gamburtsev, a mais de 1.500 km da costa. Essa cordilheira est\u00e1 hoje soterrada sob 3 km ou mais de gelo.<\/p>\n<p>Como a paisagem da Ant\u00e1rtica Oriental mudou ao longo de um per\u00edodo de 125 milh\u00f5es de anos at\u00e9 34 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, momento em que se formou pela primeira vez um manto de gelo que cobria todo o continente.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p>A altitude \u00e9 extremamente importante para o gelo. A temperatura do ar cai <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Lapse_rate\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">aproximadamente 1\u00b0C a cada 100 metros<\/a> de altitude ganha. Assim, mesmo um leve aumento na eleva\u00e7\u00e3o pode fazer com que uma cordilheira passe de perder a neve a cada ver\u00e3o para mant\u00ea-la o ano todo.<\/p>\n<p>At\u00e9 cerca de 50 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, a maior parte das montanhas Gamburtsev ficava abaixo de 1,5 km, altitude pequena demais para que uma quantidade significativa de neve sobrevivesse ao ver\u00e3o. Mas nossos modelos mostram que, a partir dessa \u00e9poca, a onda de eleva\u00e7\u00e3o (veja o v\u00eddeo acima) atingiu essa regi\u00e3o montanhosa e elevou grande parte da cordilheira para mais de 2 km. Nessa altitude, a neve e o gelo podiam persistir e come\u00e7ar a se acumular.<\/p>\n<p>De acordo com nossos c\u00e1lculos, por volta de 45 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, uma parte suficiente da paisagem da Ant\u00e1rtica Oriental havia ultrapassado esse limiar para que as geleiras montanhosas se estabelecessem e come\u00e7assem a se espalhar.<\/p>\n<p>De acordo com outra vertente de nossa an\u00e1lise, o manto de gelo come\u00e7ou a se formar exatamente nessa \u00e9poca. No momento da glacia\u00e7\u00e3o continental, as temperaturas globais haviam ca\u00eddo de uma m\u00e1xima de cerca de <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.adk3705\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">30\u00b0C, h\u00e1 50 milh\u00f5es de anos, para algo pr\u00f3ximo a 20\u00b0C<\/a>.<\/p>\n<p>Assim que as geleiras se formaram nas regi\u00f5es montanhosas, dois ciclos de retroalimenta\u00e7\u00e3o assumiram o controle. Primeiro, o gelo e a neve <a href=\"https:\/\/svs.gsfc.nasa.gov\/20022\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">refletem muito mais luz solar<\/a> do que a rocha nua. Assim, \u00e0 medida que o manto de gelo crescia, ele resfriava ainda mais a regi\u00e3o ao redor. Nossa modelagem sugere que isso, por si s\u00f3, reduziu as temperaturas globais em cerca de 1\u00b0C.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p>Em segundo lugar, \u00e0 medida que o ar sobre a Ant\u00e1rtica esfriava, ele retinha menos vapor de \u00e1gua, que \u00e9 <a href=\"https:\/\/science.nasa.gov\/earth\/climate-change\/steamy-relationships-how-atmospheric-water-vapor-amplifies-earths-greenhouse-effect\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">um poderoso g\u00e1s de efeito estufa<\/a>. O ar mais seco significava uma camada isolante mais fraca sobre a regi\u00e3o, permitindo que as temperaturas ca\u00edssem ainda mais.<\/p>\n<p>Juntos, esses ciclos de retroalimenta\u00e7\u00e3o permitiram que a camada de gelo se expandisse de seus redutos nas montanhas at\u00e9 a costa, acabando por se fundir no manto de gelo \u00fanico que vemos hoje.<\/p>\n<p>Fundamentalmente, o resfriamento global de aproximadamente 1\u00b0C n\u00e3o foi suficiente para congelar o \u00c1rtico, j\u00e1 que as massas continentais do Hemisf\u00e9rio Norte n\u00e3o tinham altitude suficiente para ultrapassar esse limiar. Seriam necess\u00e1rios mais cerca de 25 milh\u00f5es de anos, al\u00e9m de n\u00edveis de CO\u2082 e temperaturas globais muito mais baixos, para que grandes camadas de gelo pudessem se formar tamb\u00e9m nessa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de temperatura resultante da forma\u00e7\u00e3o do manto de gelo tamb\u00e9m n\u00e3o foi suficiente para fazer as temperaturas despencarem nos oceanos polares ao redor da Ant\u00e1rtica, esclarecendo assim os dois mist\u00e9rios que cercavam a origem do gelo.<\/p>\n<p>Preparando o terreno para as eras glaciais<\/p>\n<p>Nosso trabalho mostra como a geologia prepara o terreno para as eras glaciais. A altitude do terreno determina se um determinado clima \u00e9 frio o suficiente para a forma\u00e7\u00e3o de gelo.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p>Esse conceito \u00e9 importante para outros eventos clim\u00e1ticos no passado da Terra. Se processos nas profundezas da Terra podem condicionar uma paisagem para a forma\u00e7\u00e3o de gelo muito antes de o clima esfriar o suficiente para que mantos de gelo se formem, eles tamb\u00e9m podem ter contribu\u00eddo para eras glaciais anteriores.<\/p>\n<p>Compreender o crescimento dos mantos de gelo do passado tamb\u00e9m pode nos dar pistas sobre o futuro. Nosso estudo mostra que as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a forma\u00e7\u00e3o de um manto de gelo continental s\u00e3o extraordinariamente espec\u00edficas e levaram escalas de tempo geol\u00f3gicas para se estabelecerem.<\/p>\n<p>Quando os mantos de gelo derretem, no entanto, eles desaparecem muito mais r\u00e1pido do que levaram para se formar. E, uma vez perdidos, n\u00e3o podem simplesmente se regenerar. <\/p>\n<p>AS MAIS LIDAS DA SEMANA<\/p>\n<p>\n                            Toda sexta, uma sele\u00e7\u00e3o das reportagens que mais bombaram no site da Super ao longo da semana.<br \/>\n                                <strong><br \/>\n                                    Inscreva-se aqui<br \/>\n                                <\/strong><\/p>\n<p>                            Cadastro efetuado com sucesso!<\/p>\n<p>Voc\u00ea receber\u00e1 nossas newsletters pela manh\u00e3 de segunda a sexta-feira.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/theconversation.com\/profiles\/thomas-gernon-220966\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Thomas Gernon<\/a>, Professor in Earth &amp; Climate Science, <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/institutions\/university-of-southampton-1093\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">University of Southampton<\/a><\/p>\n<p>This article is republished from <a href=\"https:\/\/theconversation.com\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">The Conversation<\/a> under a Creative Commons license. Read the <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/novo-estudo-indica-por-que-a-antartica-congelou-milhoes-de-anos-antes-do-artico-286808\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">original article<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Thomas Gernon \u00e9 professor de ci\u00eancias da Terra e do Clima na Universidade de Southampton A Ant\u00e1rtica Oriental&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":448011,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[84],"tags":[3860,4850,109,107,108,32,33,105,103,104,106,110],"class_list":["post-448010","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-ciencia-e-tecnologia","tag-antartica","tag-antartida","tag-ciencia","tag-ciencia-e-tecnologia","tag-cienciaetecnologia","tag-portugal","tag-pt","tag-science","tag-science-and-technology","tag-scienceandtechnology","tag-technology","tag-tecnologia"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116909109740480698","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/448010","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=448010"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/448010\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/448011"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=448010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=448010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=448010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}