{"id":44841,"date":"2025-08-25T20:37:08","date_gmt":"2025-08-25T20:37:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/44841\/"},"modified":"2025-08-25T20:37:08","modified_gmt":"2025-08-25T20:37:08","slug":"ler-o-brasil-para-as-criancas-25-08-2025-vera-iaconelli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/44841\/","title":{"rendered":"Ler o Brasil para as crian\u00e7as &#8211; 25\/08\/2025 &#8211; Vera Iaconelli"},"content":{"rendered":"<p>O mercado editorial est\u00e1 cheio de t\u00edtulos infantis disputando prateleiras e olhares de crian\u00e7as curiosas e pais preocupados em estimular o h\u00e1bito da leitura nos pequenos. Vale tudo na luta desleal entre as imagens e sons f\u00e1ceis que saltam das telas e o delicado exerc\u00edcio de imaginar o que a literatura conta e, por vezes, apenas sugere.<\/p>\n<p>Entre os livros que recebo, um me chamou especial aten\u00e7\u00e3o: &#8220;<a href=\"https:\/\/www.escutaaquibemtevi.com.br\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">A On\u00e7a Esfomeada e os Bichos Espertos<\/a>&#8221; (2025), de Ugise Kalapalo, com ilustra\u00e7\u00f5es de Babette Costa e Greta Comolatti. \u00c9 a adapta\u00e7\u00e3o de uma narrativa tradicional do povo kalapalo que habita o Alto Xingu, \u00e0s margens do rio Kuluene, uma das mais de 305 etnias presentes no territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o caprichada da editora Escuta Aqui Bem-Te-Vi \u00e9 um exemplo a ser seguido no trato com a cultura ind\u00edgena. O texto \u00e9 bil\u00edngue, em portugu\u00eas-karib, l\u00edngua falada pelos kalapalos (h\u00e1 em torno de 270 l\u00ednguas <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/indigenas\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">ind\u00edgenas<\/a> faladas no Brasil).<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o da multiplicidade cultural presente em nosso pa\u00eds d\u00e1 um bom come\u00e7o de conversa com a crian\u00e7ada que tiver acesso ao livro, seja nas escolas, seja nas livrarias que ainda prezam o contato direto com seus leitores mirins, por meio de conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias e da presen\u00e7a dos autores.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de menos import\u00e2ncia o fato de que um ind\u00edgena kalapalo possa ver sua l\u00edngua estampada em espa\u00e7os culturais que costumam ignorar sua exist\u00eancia. Parabenizo os envolvidos pela escolha pol\u00edtico-editorial.<\/p>\n<p>A segunda quebra de paradigma est\u00e1 na ideia de que entre animais e pessoas n\u00e3o h\u00e1 a hierarquia que o povo ocidental insiste em defender e que faz de n\u00f3s os maiores predadores do ambiente do qual fazemos parte. \u00c9 essa emp\u00e1fia supostamente evolutiva que nos mant\u00e9m na enrascada que deixar\u00e1 as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es sem \u00e1gua pot\u00e1vel, temperaturas suport\u00e1veis e alimentos saud\u00e1veis. Como disse N\u00eago Bispo, o que chamamos de des-envolvimento \u00e9 falta de envolvimento. Para culturas em paz com o planeta onde habitam, animais s\u00e3o &#8220;pessoas n\u00e3o humanas&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata do antropomorfismo das f\u00e1bulas de Esopo, com suas mensagens carregadas da moral a ser incutida nas crian\u00e7as que, como n\u00f3s, aprenderam horrorizadas que a Cigarra artista merecia ser deixada \u00e0 m\u00edngua pela Formiga trabalhadeira. Uma aula de mesquinhez capitalista que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de esquecer.<\/p>\n<p>Entre os kalapalos, cada pessoa tem seu valor, seu truque e ensinamento, fazendo da on\u00e7a \u2014a maior ca\u00e7adora da floresta\u2014 um animal a ser respeitado, mas n\u00e3o onipotente.<\/p>\n<p>A escolha por retratar o cotidiano das aldeias nas ilustra\u00e7\u00f5es ao longo do livro \u00e9 de extremo bom gosto e ati\u00e7ar\u00e1 a curiosidade da crian\u00e7ada branca atenta \u00e0 jornada da dona On\u00e7a em busca de comida.<\/p>\n<p>O detalhe final fica para a introdu\u00e7\u00e3o dos antrop\u00f3logos Veronica Monachini (que assina a adapta\u00e7\u00e3o) e Antonio Guerreiro, que nos explicam que n\u00e3o se trata de um mito ou de um conto, mas daquilo que para os kalapalos \u00e9 a pr\u00f3pria hist\u00f3ria com h.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que se tem a oportunidade de avaliar o que entendemos por fic\u00e7\u00e3o em nossa cultura e aprender algo. As vers\u00f5es que fazemos do mundo n\u00e3o s\u00f3 explicam quem somos como nos orientam em como lidar com nossa exist\u00eancia coletivamente.<\/p>\n<p>Faz 500 anos que esses povos nos alertam para o perigo de nosso discurso desenvolvimentista, cujos efeitos nefastos nossas crian\u00e7as j\u00e1 testemunham.<\/p>\n<p>    Colunas e Blogs<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o de colunas e blogs da Folha<\/p>\n<p class=\"c-context__content\">&#13;<br \/>\n    <strong>LINK PRESENTE:<\/strong> Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. 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