{"id":451264,"date":"2026-07-15T15:30:18","date_gmt":"2026-07-15T15:30:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/451264\/"},"modified":"2026-07-15T15:30:18","modified_gmt":"2026-07-15T15:30:18","slug":"comer-outras-pessoas-nao-e-bom-para-a-sua-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/451264\/","title":{"rendered":"Comer outras pessoas n\u00e3o \u00e9 bom para a sua sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-caption-text top\"><a href=\"https:\/\/commons.m.wikimedia.org\/wiki\/File:Goya_-_Cannibales,_1800_vers,_896.1.177.jpg\" rel=\"nofollow noopener\" data-wpel-link=\"external\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">Mus\u00e9e des Beaux-Arts et d&#8217;Arch\u00e9ologie de Besan\u00e7on \/ Wikimedia<\/a><\/p>\n<p><img loading=\"eager\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-kopa-image-size-3 wp-image-661961\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/56f4f8581675140cfa48fed7d2d013d8-783x450.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"402\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">Pintura de \u201ccanibais \u00e0 volta de restos humanos\u201d, de Francisco de Goya (1746\u20131828)<\/p>\n<p><strong>Do ponto de vista energ\u00e9tico, comer outras pessoas dificilmente compensa os riscos envolvidos.<\/strong><\/p>\n<p>Um novo estudo de modela\u00e7\u00e3o sugere que a transmiss\u00e3o de infe\u00e7\u00f5es, incluindo as <strong>doen\u00e7as\u00a0pri\u00f3nicas<\/strong>, pode ter tornado o canibalismo repetido evolutivamente desvantajoso, <a href=\"https:\/\/zap.aeiou.pt\/os-antepassados-eram-canibais-256600\" data-wpel-link=\"internal\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">apesar das calorias obtidas<\/a>.<\/p>\n<p>Um exemplo hist\u00f3rico destes perigos \u00e9 a <strong>kuru<\/strong>, doen\u00e7a neurodegenerativa que, na d\u00e9cada de 1950, se tornou uma das principais causas de morte entre as mulheres de algumas aldeias Fore, na Papua-Nova Guin\u00e9.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a come\u00e7ava com tremores e perda de coordena\u00e7\u00e3o e retirava progressivamente aos doentes a capacidade de andar, engolir e falar. Era fatal. Numa popula\u00e7\u00e3o ent\u00e3o estimada em cerca de 11.000 pessoas, a epidemia chegou a causar mais de 200 mortes por ano.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s v\u00e1rios anos de investiga\u00e7\u00e3o, foi estabelecida uma liga\u00e7\u00e3o entre a kuru e os rituais funer\u00e1rios de algumas comunidades Fore, nos quais familiares consumiam partes do corpo de parentes mortos. Para estas popula\u00e7\u00f5es, a pr\u00e1tica constitu\u00eda uma manifesta\u00e7\u00e3o de respeito, afeto e luto, explica o <a href=\"https:\/\/www.zmescience.com\/science\/news-science\/cannibalism-not-worth-it\/\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">ZME Science<\/a>.<\/p>\n<p>As mulheres tinham um papel central na prepara\u00e7\u00e3o dos corpos e consumiam frequentemente tecidos com elevada concentra\u00e7\u00e3o de pri\u00f5es, como o c\u00e9rebro. Caso a pessoa falecida estivesse infetada, essas prote\u00ednas an\u00f3malas entravam diretamente em novos hospedeiros humanos.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica diminuiu acentuadamente a partir do final da d\u00e9cada de 1950, mas continuaram a surgir casos durante d\u00e9cadas, devido ao per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o muito longo da kuru.<\/p>\n<p>Este exemplo est\u00e1 na base de um novo <a href=\"https:\/\/www.pnas.org\/doi\/10.1073\/pnas.2605120123\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">estudo<\/a>, recentemente publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences.<\/p>\n<p><strong>Michal Misiak<\/strong>, da Universidade de Wroc\u0142aw, e <strong>Petr Ture\u010dek<\/strong>, da Universidade Carolina, constru\u00edram um modelo matem\u00e1tico para avaliar os custos e benef\u00edcios do canibalismo socialmente aceite ao n\u00edvel de uma popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O modelo comparou a ca\u00e7a a uma pessoa com o aproveitamento de um cad\u00e1ver j\u00e1 dispon\u00edvel, o consumo de tecidos crus com o de carne submetida a tratamento t\u00e9rmico e as cadeias curtas de consumo com situa\u00e7\u00f5es repetidas nas quais canibais comiam outros canibais.<\/p>\n<p>Uma transmiss\u00e3o mais f\u00e1cil<\/p>\n<p>O consumo de qualquer tipo de carne pode expor uma pessoa a infe\u00e7\u00f5es, mas a barreira entre esp\u00e9cies dificulta a transmiss\u00e3o de muitos agentes patog\u00e9nicos.<\/p>\n<p>No canibalismo, essa barreira desaparece. Um agente j\u00e1 adaptado ao organismo humano encontra no novo hospedeiro tecidos, temperaturas e condi\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas semelhantes, o que pode facilitar a transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Um \u00fanico corpo infetado tamb\u00e9m pode expor v\u00e1rias pessoas. Numa refei\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, diferentes indiv\u00edduos podem consumir tecidos da mesma pessoa, permitindo que uma s\u00f3 infe\u00e7\u00e3o alcance simultaneamente v\u00e1rios membros do grupo.<\/p>\n<p>Os investigadores avaliaram ainda o que acontece quando a pessoa consumida tamb\u00e9m tinha praticado canibalismo. Chamaram a este fen\u00f3meno a \u201c<strong>ordem<\/strong>\u201d do canibalismo.<\/p>\n<p>Comer algu\u00e9m que nunca consumiu carne humana corresponde \u00e0 primeira ordem. Comer algu\u00e9m que j\u00e1 tinha comido outra pessoa corresponde \u00e0 segunda. A ordem aumenta sempre que <strong>um canibal consome outro canibal<\/strong>.<\/p>\n<p>O modelo n\u00e3o pressup\u00f5e que os agentes patog\u00e9nicos se tornem mais perigosos a cada etapa. Contudo, \u00e0 medida que a cadeia se prolonga, aumenta a probabilidade de ocorrerem desfechos raros, mas muito graves, que fazem subir acentuadamente o custo m\u00e9dio para a sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u201cDo ponto de vista cal\u00f3rico, uma pessoa acaba por ser uma refei\u00e7\u00e3o mediana. O problema central, contudo, est\u00e1 noutro lugar: o risco de infe\u00e7\u00e3o. Os agentes patog\u00e9nicos t\u00eam a tarefa facilitada, porque acabam num organismo de fisiologia quase id\u00eantica\u201d, explicou Misiak.<\/p>\n<p>A <strong>cozedura<\/strong> pode destruir muitas bact\u00e9rias e parasitas e inativar numerosos v\u00edrus. N\u00e3o consegue, por\u00e9m, neutralizar de forma fi\u00e1vel os pri\u00f5es respons\u00e1veis pela kuru e por outras doen\u00e7as neurodegenerativas.<\/p>\n<p>Os pri\u00f5es s\u00e3o formas an\u00f3malas da prote\u00edna pri\u00f3nica que induzem outras mol\u00e9culas da mesma prote\u00edna a adotar tamb\u00e9m uma conforma\u00e7\u00e3o an\u00f3mala. A sua acumula\u00e7\u00e3o danifica progressivamente o tecido cerebral.<\/p>\n<p>Estas prote\u00ednas resistem \u00e0 fervura e aos m\u00e9todos culin\u00e1rios habituais. As doen\u00e7as pri\u00f3nicas n\u00e3o t\u00eam atualmente cura e s\u00e3o fatais.<\/p>\n<p>As calorias quase n\u00e3o compensam os custos<\/p>\n<p>Para comparar os benef\u00edcios e os riscos numa unidade comum, os investigadores exprimiram-nos em quilocalorias.<\/p>\n<p>O modelo atribuiu \u00e0 parte comest\u00edvel de um corpo humano um valor estimado de 32.376 kcal, com base num estudo anterior sobre o conte\u00fado energ\u00e9tico de um adulto do sexo masculino.<\/p>\n<p>Os valores usados para representar incapacidade, morte ou infe\u00e7\u00e3o s\u00e3o par\u00e2metros matem\u00e1ticos, n\u00e3o a energia literalmente consumida por esses acontecimentos.<\/p>\n<p>Segundo os pressupostos do modelo, ca\u00e7ar outra pessoa tinha um custo m\u00e9dio equivalente a 24.500 kcal, devido ao risco de ferimentos, incapacidade ou morte. A prepara\u00e7\u00e3o do corpo acrescentava cerca de 5.700 kcal.<\/p>\n<p>No conjunto, estes custos atingiam aproximadamente 30.200 kcal, quase anulando o valor nutricional estimado do corpo antes mesmo de serem considerados os riscos de doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Para representar as consequ\u00eancias da infe\u00e7\u00e3o, os investigadores partiram do princ\u00edpio de que a maioria das refei\u00e7\u00f5es causava poucos ou nenhuns danos, mas que uma pequena fra\u00e7\u00e3o podia conduzir a doen\u00e7a grave ou \u00e0 morte.<\/p>\n<p>No consumo de uma pessoa que nunca tinha praticado canibalismo, o custo m\u00e9dio modelado da infe\u00e7\u00e3o rondava 403 kcal. Se essa pessoa j\u00e1 tivesse consumido algu\u00e9m, o valor subia para cerca de 2.981 kcal.<\/p>\n<p>Na terceira ordem de canibalismo, os desfechos raros e catastr\u00f3ficos faziam aumentar o custo m\u00e9dio para mais de 162.000 kcal.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio mais perigoso \u2014 ca\u00e7ar pessoas, consumir os tecidos crus e permitir a sobreviv\u00eancia dos agentes patog\u00e9nicos \u2014, as calorias obtidas s\u00f3 superavam os custos quando os restantes alimentos forneciam menos de cerca de 643 kcal por dia.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, o canibalismo s\u00f3 apresentava um saldo energ\u00e9tico positivo em condi\u00e7\u00f5es de fome extrema.<\/p>\n<p>Quando o modelo exclu\u00eda os custos da ca\u00e7a e pressupunha que o tratamento t\u00e9rmico reduzia cem vezes a carga inicial de agentes patog\u00e9nicos, as condi\u00e7\u00f5es em que a pr\u00e1tica poderia proporcionar um ganho energ\u00e9tico tornavam-se mais amplas. Ainda assim, as cadeias mais longas de consumo acabavam por ser desvantajosas.<\/p>\n<p>Uma poss\u00edvel origem dos tabus<\/p>\n<p>Uma <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/srep44707\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">an\u00e1lise<\/a> publicada em 2017 na Scientific Reports j\u00e1 tinha conclu\u00eddo que os seres humanos forneciam aproximadamente as calorias esperadas de um animal de tamanho semelhante, mas muito menos do que mamutes, bisontes e outras presas de grande porte.<\/p>\n<p>O novo estudo acrescenta a essa compara\u00e7\u00e3o os custos de perseguir uma presa perigosa e de transmitir doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Os investigadores consideram que estes riscos podem ter contribu\u00eddo para a cria\u00e7\u00e3o de regras culturais rigorosas contra o canibalismo. \u201cO tabu funciona como uma salvaguarda evolutiva\u201d, afirmou Misiak.<\/p>\n<p>O modelo n\u00e3o reconstr\u00f3i, por\u00e9m, nenhuma sociedade ou epidemia antiga em particular. Usa valores ilustrativos, reduz a nutri\u00e7\u00e3o sobretudo \u00e0s calorias e representa o canibalismo atrav\u00e9s de uma cadeia linear simplificada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o inclui diretamente fatores como a preval\u00eancia dos agentes patog\u00e9nicos, a dimens\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ou as recompensas sociais associadas ao ritual, \u00e0 intimida\u00e7\u00e3o ou \u00e0 identidade de grupo.<\/p>\n<p>Por isso, o estudo n\u00e3o permite determinar definitivamente por que raz\u00e3o o canibalismo foi abandonado ou proibido em diferentes sociedades.<\/p>\n<p>O estudo mostra apenas que os custos de aquisi\u00e7\u00e3o e, sobretudo, os riscos de infe\u00e7\u00e3o podiam tornar a pr\u00e1tica progressivamente desvantajosa, mesmo quando proporcionava algum benef\u00edcio energ\u00e9tico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mus\u00e9e des Beaux-Arts et d&#8217;Arch\u00e9ologie de Besan\u00e7on \/ Wikimedia Pintura de \u201ccanibais \u00e0 volta de restos humanos\u201d, de&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":451265,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[3440,27,28,14930,15,16,14,736,25,26,21,22,9496,62,12,13,19,20,8666,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":["post-451264","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-antropologia","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-canibalismo","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-headlines","tag-historia","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-main-news","tag-mainnews","tag-microbiologia","tag-mundo","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-paleoantropologia","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116924712861698641","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/451264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=451264"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/451264\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/451265"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=451264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=451264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=451264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}