{"id":459377,"date":"2026-07-23T02:55:28","date_gmt":"2026-07-23T02:55:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/459377\/"},"modified":"2026-07-23T02:55:28","modified_gmt":"2026-07-23T02:55:28","slug":"o-que-se-sabe-sobre-o-transtorno-de-multiplas-identidades-22-07-2026-equilibrio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/459377\/","title":{"rendered":"O que se sabe sobre o transtorno de m\u00faltiplas identidades &#8211; 22\/07\/2026 &#8211; Equil\u00edbrio"},"content":{"rendered":"<p>Uma pessoa sai de casa para trabalhar e, horas depois, &#8220;acorda&#8221; em outro bairro sem saber como chegou ali. Outra encontra roupas no arm\u00e1rio que n\u00e3o se lembra de ter comprado. H\u00e1 quem seja chamado por nomes desconhecidos ou descubra mensagens enviadas sem qualquer recorda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora pare\u00e7am cenas de suspense psicol\u00f3gico, esses epis\u00f3dios podem fazer parte do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">cotidiano<\/a> de quem vive com o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2019\/06\/traumas-podem-levar-ao-transtorno-dissociativo-de-identidade.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">transtorno dissociativo de identidade<\/a> (TDI), condi\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica em que duas ou mais<br \/>&#13;<br \/>\nidentidades distintas se alternam no controle da mesma pessoa.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nDescrito no DSM-5, manual de refer\u00eancia da psiquiatria, o transtorno envolve rupturas na mem\u00f3ria, na percep\u00e7\u00e3o de si e no comportamento. As chamadas identidades alternativas \u2014 tamb\u00e9m conhecidas como alters\u2014 podem ter maneiras pr\u00f3prias de falar, agir, lembrar e interpretar o mundo.<\/p>\n<p>&#8220;Algo imprescind\u00edvel nesse quadro \u00e9 a exist\u00eancia de uma lacuna de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folhinha\/2026\/07\/memoria-guarda-experiencias-importantes-e-ajuda-a-construir-quem-somos-hoje.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">mem\u00f3ria<\/a>, onde uma identidade n\u00e3o lembra da outra&#8221;, explica o psiquiatra Daniel Oliva, do Espa\u00e7o Einstein de Bem-estar e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/saude-mental\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Sa\u00fade Mental<\/a>, do Einstein Hospital Israelita.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica cl\u00ednica, por\u00e9m, o transtorno raramente se parece com as vers\u00f5es exageradas popularizadas pelo cinema, como nos filmes &#8220;<a href=\"https:\/\/guia.folha.uol.com.br\/cinema\/2017\/03\/fragmentado-acerta-a-mao-com-enredo-desafiador.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Fragmentado<\/a>&#8221; (2016) e &#8220;Vidro&#8221; (2019), nos quais o personagem Kevin Wendell Crumb (James McAvoy) manifesta 23 personalidades distintas, com algumas bem violentas.<\/p>\n<p>A forma mais comum \u00e9 a chamada n\u00e3o possessiva, em que as mudan\u00e7as s\u00e3o discretas e internas. &#8220;Geralmente s\u00e3o mais egodist\u00f4nicas, ou seja, a pessoa n\u00e3o quer ter e, com isso, acaba aparecendo de uma maneira menos exuberante, mais t\u00edmida&#8221;, relata Oliva.<\/p>\n<p>O paciente frequentemente relata sensa\u00e7\u00e3o de despersonaliza\u00e7\u00e3o, como se observasse a pr\u00f3pria vida de fora. &#8220;Al\u00e9m disso, \u00e9 comum o relato de vozes internas, que n\u00e3o s\u00e3o alucina\u00e7\u00f5es psic\u00f3ticas, mas fluxos de pensamento independentes das outras identidades&#8221;, comenta a psic\u00f3loga Lidiane de Souza, professora da Universidade S\u00e3o Judas, em <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/sao-paulo\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">S\u00e3o Paulo<\/a>.<\/p>\n<p>J\u00e1 na forma possessiva, h\u00e1 uma egossintonia. &#8220;Geralmente, tem um refor\u00e7o cultural ou permissividade. A pessoa quer apresentar aquilo&#8221;, sinaliza o psiquiatra do Einstein. Esse &#8220;querer&#8221; n\u00e3o \u00e9 uma vontade consciente, mas a pessoa se permite. &#8220;Com isso, a forma aparente vai ser mais exuberante, mais marcada e aparecer no meio social mais frequentemente.&#8221;<\/p>\n<p>Diagnosticar o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrio\/2026\/04\/anotar-emocoes-auxilia-no-tratamento-de-transtornos-mentais-dizem-especialistas.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">transtorno<\/a>, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 simples. O TDI pode ser confundido com condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas que tamb\u00e9m envolvem altera\u00e7\u00f5es de comportamento, percep\u00e7\u00e3o ou identidade, como esquizofrenia, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrio\/2026\/05\/o-que-e-o-transtorno-de-personalidade-borderline.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">transtorno de personalidade borderline<\/a>, epilepsia do lobo temporal e transtorno fact\u00edcio.<\/p>\n<p>No entanto, o mais frequente \u00e9 um cen\u00e1rio de subdiagn\u00f3stico, com o transtorno n\u00e3o sendo identificado, muitas vezes porque o paciente sente vergonha e realiza esfor\u00e7os persistentes para ocultar suas<br \/>&#13;<br \/>\nexperi\u00eancias internas.<\/p>\n<p>O trauma como ponto de partida<\/p>\n<p>O principal consenso cient\u00edfico atualmente \u00e9 de que o TDI est\u00e1 associado a traumas graves e repetidos na <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/crianca\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">inf\u00e2ncia<\/a>. Revis\u00e3o publicada em 2025 na revista cient\u00edfica Frontiers in Psychiatry aponta que a maioria dos pacientes relata sintomas iniciais ainda entre os 5 e 8 anos de idade.<\/p>\n<p>&#8220;O trauma n\u00e3o \u00e9 apenas um fator de risco, ele \u00e9 a espinha dorsal do TDI&#8221;, afirma Souza. Segundo ela, abusos f\u00edsicos, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/abuso-sexual\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">sexuais<\/a>, emocionais e ambientes cronicamente aterrorizantes podem levar a crian\u00e7a a desenvolver a dissocia\u00e7\u00e3o como mecanismo extremo de sobreviv\u00eancia ps\u00edquica. Diante de experi\u00eancias insuport\u00e1veis, a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrio\/mente\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">mente<\/a> fragmenta emo\u00e7\u00f5es, mem\u00f3rias e comportamentos para preservar algum<br \/>&#13;<br \/>\nfuncionamento emocional.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o compreendemos o TDI como a cria\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias pessoas habitando um mesmo corpo, mas como uma falha profunda na integra\u00e7\u00e3o de um repert\u00f3rio comportamental coeso&#8221;, explica a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>Estudo publicado em 2025 na Psychiatry Research, com participantes da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/holanda\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Holanda<\/a> e da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/suica\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Su\u00ed\u00e7a<\/a>, refor\u00e7a essa rela\u00e7\u00e3o. Os pesquisadores observaram que pessoas com TDI apresentavam n\u00edveis significativamente maiores de sintomas dissociativos, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/depressao\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">depress\u00e3o<\/a>, ansiedade, experi\u00eancias traum\u00e1ticas e dist\u00farbios do sono em compara\u00e7\u00e3o ao grupo controle. &#8220;Tamb\u00e9m existem alguns componentes sociais que podem estar no contexto da origem do transtorno, como influ\u00eancia cultural do meio e sugestionabilidade. Mas,<br \/>&#13;<br \/>\nsim, o trauma \u00e9 um ponto importante&#8221;, refor\u00e7a Daniel Oliva.<\/p>\n<p>Quando a mem\u00f3ria desaparece<\/p>\n<p>Os lapsos de mem\u00f3ria s\u00e3o um dos sinais mais marcantes do transtorno \u2014e um dos mais incapacitantes. N\u00e3o se trata apenas de esquecer compromissos ou nomes; alguns indiv\u00edduos narram perder horas sem qualquer lembran\u00e7a do que aconteceu. &#8220;As pessoas relatam se encontrar em lugares que n\u00e3o sabem como chegaram l\u00e1, ou ter objetos em posse que n\u00e3o reconhecem. Al\u00e9m disso, cada alter tem mem\u00f3rias gravadas e acesso a essas mem\u00f3rias de uma maneira particular&#8221;, relata o psiquiatra.<\/p>\n<p>    Cuide-se<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Ci\u00eancia, h\u00e1bitos e preven\u00e7\u00e3o numa newsletter para a sua sa\u00fade e bem-estar<\/p>\n<p>Essa descontinuidade afeta relacionamentos, trabalho e vida social. Parceiros e familiares frequentemente se sentem invalidados ou magoados quando a pessoa n\u00e3o recorda momentos significativos ou nega atitudes que, na verdade, foram tomadas por outro estado de identidade. &#8220;Sem diagn\u00f3stico e psicoeduca\u00e7\u00e3o adequados, isso leva a conflitos severos e ao isolamento social&#8221;, afirma Lidiane de Souza.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, pesquisadores passaram a questionar se essa separa\u00e7\u00e3o entre identidades funciona como compartimentos totalmente isolados da mente. A revis\u00e3o da Frontiers in Psychiatry sugere que parte da amn\u00e9sia dissociativa tamb\u00e9m pode estar ligada a cren\u00e7as distorcidas sobre mem\u00f3ria, trauma e identidade, uma vis\u00e3o que vem mudando a forma como o transtorno \u00e9 tratado.<\/p>\n<p>D\u00e1 para &#8220;unificar&#8221; as identidades?<\/p>\n<p>O tratamento do TDI costuma ser longo e centrado em psicoterapia especializada em trauma, como terapia focada em fases, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/blogs\/saude-mental\/2023\/06\/tcc-e-terapia-mais-indicada-para-ansiedade-e-panico.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">terapia cognitivo-comportamental<\/a> adaptada, terapia de aceita\u00e7\u00e3o e compromisso, psicoterapia anal\u00edtica funcional e EMDR (Dessensibiliza\u00e7\u00e3o e Reprocessamento por Movimentos Oculares, traduzido do ingl\u00eas).<\/p>\n<p>A prioridade inicial \u00e9 estabilizar sintomas, criar seguran\u00e7a emocional e fortalecer o v\u00ednculo terap\u00eautico. Em seguida, procura-se acessar o que est\u00e1 na base traum\u00e1tica que impacta o indiv\u00edduo. Com o tempo, o trabalho busca integra\u00e7\u00e3o entre as identidades, embora isso nem sempre signifique &#8220;fus\u00e3o completa&#8221;. &#8220;Na pr\u00e1tica do dia a dia, muitas vezes conseguimos uma integra\u00e7\u00e3o sem fus\u00e3o. Elas continuam coexistindo, mas de maneira cooperativa&#8221;, explica Oliva.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga chama esse processo de &#8220;multiplicidade funcional&#8221;: as identidades passam a compartilhar mem\u00f3rias, estabelecer comunica\u00e7\u00e3o interna e funcionar de forma mais harm\u00f4nica, reduzindo o sofrimento. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 medica\u00e7\u00e3o para tratar diretamente o transtorno. Antidepressivos e antipsic\u00f3ticos podem ser receitados em caso de condi\u00e7\u00f5es concomitantes, como depress\u00e3o, transtorno de ansiedade, transtorno do estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico, impulsividade ou pensamentos de menos-valia.<\/p>\n<p>Ainda assim, a evid\u00eancia cient\u00edfica dispon\u00edvel permanece limitada. A revis\u00e3o da Frontiers in Psychiatry destaca que faltam ensaios cl\u00ednicos robustos para determinar quais tratamentos s\u00e3o mais eficazes. Por tr\u00e1s das caricaturas e do estigma de perigosos, o TDI fala menos sobre &#8220;personalidades misteriosas&#8221; e mais sobre uma mente tentando sobreviver a traumas extremos. &#8220;Essas pessoas s\u00e3o muito mais<br \/>&#13;<br \/>\npropensas a serem v\u00edtimas de novos abusos do que perpetradoras deles&#8221;, avalia Souza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma pessoa sai de casa para trabalhar e, horas depois, &#8220;acorda&#8221; em outro bairro sem saber como chegou&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":459378,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[6245,1031,950,1029,236,116,8210,1208,8736,32,33,117,1030,9690,73609],"class_list":["post-459377","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-agencia-einstein","tag-autocuidado","tag-crianca","tag-cuide-se","tag-folha","tag-health","tag-infancia","tag-medicina","tag-mente","tag-portugal","tag-pt","tag-saude","tag-saude-mental","tag-transtorno-bipolar","tag-transtorno-de-personalidade"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/116967042298223378","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/459377","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=459377"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/459377\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/459378"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=459377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=459377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=459377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}